As Crônicas dos Defensores de Luminia
10 Rastro de Sonho
Notas iniciais
Samuel acordou com uma sensação estranha. Não abriu os olhos, tentando se lembrar exatamente do sonho que tivera, mas única coisa que lhe vinha à mente era o quão intenso e o quão vívido ele fora. Suspirou e abriu os olhos, levantando-se. Olhou para o relógio e se surpreendeu, eram quase dez horas da manhã, ele não costumava acordar tão tarde. Foi para a cozinha onde a mãe e a irmã lhe olharam com surpresa. Seu pai já saíra para trabalhar.
— Achei que não ia levantar hoje mais – disse a irmã Maíra.
— Não sei o que me deu – respondeu o garoto com sinceridade. – Acho que foi por causa do sonho que tive. Foi estranhíssimo!
— Ah é? O que sonhou? – ela perguntou, enquanto a mãe continuava tomando seu café.
— Não me lembro.
— Então como sabe que era estranho? – Maíra riu.
— Pela sensação que tive quando acordei. – Samuel estava sério, mas Maíra ainda achava graça. Apesar da hora, ela ainda estava toda desarrumada. Normalmente a essa hora ela já estaria saindo para fazer algum trabalho extra da faculdade.
— Você não tem quinze mil atividades da faculdade pra entregar hoje? – ele perguntou.
— Hoje não. Adiantei tudo semana passada pra poder ficar livre essa semana. – Maíra sorriu, presunçosa.
— Que milagre, até parece que a Deusa operou em você.
A irmã lhe mostrou a língua, pois não acreditava em divindades.
Samuel fez um pão com ovos mexidos e completou seu café da manhã com um copo de suco. Logo a mãe se levantou, deixando a louça na pia para que um dos irmãos arrumasse, e foi para o computador, provavelmente terminar a revisão de um artigo ou mandar alguma matéria para o jornal que trabalhava. Sua mãe, Cássia, era jornalista e trabalhava em casa, e Maíra lhe seguia os passos. O pai, João, era advogado, e Samuel era um perdido na vida. Tinha apenas 14 anos e ainda não havia decidido o que queria fazer. Seu pai tentava o arrastar para o direito, já que a filha já pendera para o jornalismo, mas Samuel não achava a área nem um pouco atraente.
Eles tinham uma vida razoavelmente abastada. Os pais trabalhavam muito, por isso Samuel estudava numa escola particular e Maíra não precisava trabalhar para manter a faculdade. Não tinham o videogame da moda nem o celular de última geração, mas não era nada que fizesse tanta falta assim. Samuel se considerava abençoado por tudo o que tinha e não se cansava de agradecer a Deusa, todos os dias, pelas dádivas que recebera.
Ele terminou o café, lavou a louça e limpou a mesa, terminou uma atividade da escola e leu alguns capítulos do livro que pegara na biblioteca até que a mãe os chamasse para o almoço. Maíra comeu com pressa, já estava arrumada para sair com o namorado. A mãe comeu lentamente, parecendo desconectada do mundo como sempre. Olhando para as duas sentadas ali lado a lado, Samuel não pode deixar de sorrir, notando como elas eram completamente diferentes apesar de serem mãe e filha.
— Tá rindo de quê, palhaço? – perguntou Maíra.
— Se eu estou rindo obviamente a palhaça é você, não eu. – ele brincou, fazendo ela girar os olhos em desprezo.
Depois do almoço e de um tchau apressado da irmã, Samuel tomou um banho e arrumou-se para ir para a aula. Evitou olhar muito para o espelho, pois se achava muito grande e gordo para a idade, apesar da mãe dizer que ele era só “fortinho”. Despediu-se da mãe e pegou a bicicleta, encontrando com seu melhor amigo, Afonso, logo na esquina. Cumprimentaram-se com um high five e continuaram o caminho para a escola, cada um em sua bicicleta.
As ruas eram muito tranqüilas naquele bairro, e Samuel curtia a brisa no rosto enquanto conversava com Afonso, as bicicletas movendo-se com suavidade no asfalto.
De repente, um carro freou bruscamente e ouviu-se um grito.
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