Notas iniciais
https://youtu.be/m7phfMPJyg0

P.O.V. Tamara.

Meu papai e minha mamãe são vampiros, mas eu sou uma bruxa. Bom, meio bruxa.

Eu tenho sete anos, sou ruiva de olhos azuis e tenho sardas. Só algumas.

—Eu quero bonecas novas. Aquelas do quarto são medonhas.

—Elas são muito antigas. Só isso.

—Parecem bonecas de filme de terror. Eu não consigo dormir com elas me olhando.

—Tudo bem. A gente tira as bonecas de lá.

Fomos á loja de brinquedos. Era como estar no céu.

Os brinquedos da loja não eram medonhos que nem as bonecas do quarto. Eles eram fofos, lindos, cheirosos e tinham cheiro de novo.

Eu estava cercada de Barbies, bichos de pelúcia, bonecas que pareciam bebês de verdade, bolas, jogos.

—Brinquedos.

P.O.V. Lestat.

Eu vi os olhos azuis de Tamara arregalarem e brilharem quando entramos na loja de brinquedos.

—Brinquedos.

Ela correu pra dentro da loja e olhou todas as bonecas e todos os brinquedos. Ela não conseguia decidir o que queria.

Então pediu a opinião da vendedora.

—Eu gosto mais dessa.

—E essas bonecas vendem muito?

—Sim.

—Então eu não quero.

—Porque não?

—Porque todo mundo vai ter igual. Eu gosto de exclusividade.

—É mesmo?

—É.

—E como é o seu nome?

—Tamara.

—Onde estão seus pais Tamara?

—Ali.

Ela apontou para mim e para Jessica.

—Você é filha do vampiro roqueiro Lestat?

—Sou. Mas, eu não gosto de ouvir ele cantando.

—Porque não?

—Porque é uma gritaria. Então, tudo o que tem nessa loja todo mundo pode comprar? Qualquer um?

—É.

—Não quero mais.

Quando a vi dar as bonecas na mão da vendedora e sair emburrada fui ver o que tinha acontecido.

—O que aconteceu Tamara?

—Tudo o que tem aqui, todo mundo pode comprar. E eu gosto de coisas que só eu tenha e mais ninguém.

—Credo. Você é igual a sua mãe.

—Oi.

Disse a vendedora meio tímida.

—Olá.

—Olha, se ela quer uma boneca exclusiva eu tenho uma amiga que faz.

A moça escreveu num papel e deu na minha mão.

—O que é Sarai?

—É o nome da minha amiga. Ela é filha de indianos, o que a criança sonhar... ela monta. Bonecas, casinhas, roupinhas tudo. Ela é artesã.

—E de que são feitas as bonecas?

—Todo o tipo de material. Madeira, pano, plástico não faz diferença.

—E como fica a cara da boneca?

—Do jeito que você quiser. Ela pode até se parecer com você se você quiser.

—Sim. Sim!

—Olha, as bonecas da Sarai são mais caras que as que vendem aqui e leva mais tempo pra ficarem prontas, mas valem cada centavo eu garanto.

La estava escrito o nome, o endereço e o telefone da moça.

—A gente pode ir lá ver pai?

—Claro.

—O que aconteceu Lestat?

—A sua filha é fresca igual a você.

—Fresca? Ta me chamando de fresca?

—Porque você tem que ser tão... você.

—Se eu não fosse eu, não teria se interessado. O que aconteceu querida?

—Eu quero uma boneca que ninguém tenha igual.

—Tudo bem. A gente arruma.

—Podemos tomar sorvete?

—Claro. Mas, tem que jantar antes.

—Ah, mãe...

—Você sabe como funciona.

—Você nunca come.

—Eu sou vampira. Você não.

—Eu sou meia vampira.

—Chega de discussão. Se não jantar não vai tomar sorvete.

—Ta. Podemos comer comida japonesa?

—Claro. É você que vai comer.

Toda vez que a gente sai somos cercados por fotógrafos e fãs. E dessa vez não foi diferente.

E isso acabou assustando Tamara.

—Lestat quem é a moça? E a menina? Ela é sua namorada?

—Mamãe.

Tamara correu para o colo de Jessica.

—Por favor, vocês estão assustando ela.

—Eu prometo dar uma coletiva de imprensa apresentando elas para o público adequadamente, mas agora não.

—Lestat! Lestat!

—Eu quero ir pra casa mamãe.

—Vamos Lestat. Ela está ficando incomodada.

Nós voltamos para o carro e eu dirigi de volta para a mansão.

—Como foi o passeio?

Tamara respondeu:

—Tinha um monte de gente lá. Eles nos cercaram e começaram a tirar fotografias da gente, eu achei que ia ficar cega pra sempre.

—Claro. Os humanos ainda não sabem da existência de Tamara e nem sabem que você e Jessica estão juntos.

—Vou marcar uma coletiva de imprensa para apresentá-las para o público.

Comecei a fazer ligações e logo a coletiva estava marcada. E eu encomendei a boneca que Tamara queria.

P.O.V. Roger.

A coletiva acabara de começar e eles estavam atrasados.

—Eu não sei o que houve, mas tenho certeza de que estarão aqui logo.

Então eles chegaram.

—Pessoal, olha quem está acordada.

Tamara estava de mãos dadas com Jessica. Todos se viraram para olhar.

—Ahm, olá?

—Olá.

—Mãe, quem é essa gente toda?

—Eles querem conhecer você Princesa.

—Quem é você?

—Eu sou a Tamara.

Eles bateram fotos.

—Qual é a sua relação com Lestat?

Acho que Tamara não entendeu a pergunta, então Lestat respondeu.

—Ela é minha filha. Minha filha biológica e essa linda mulher é a minha namorada Jessica Reeves. Ela ficou grávida de Tamara enquanto ainda era uma bruxa.

—Uma bruxa?

Tamara respondeu:

—Eu sou bruxa por causa da minha mãe. Eu sou a última descendente viva dos antigos necromantes de Asheron. A civilização de Asheron surgiu entre os anos em que os oceanos engoliram a cidade de Atlântida e a ascensão dos filhos de Ares. O Império Negro de Asheron começou como uma civilização comum, mas eles eram um povo que possuía poderes especiais, eram bruxos. Feiticeiros necromantes, mas consumidos pela ganancia eles começaram a buscar o segredo da ressurreição, eles fizeram uma máscara com os ossos de reis mortos e despertaram sua força com o sangue puro e azul de suas filhas. A máscara acabou invocando um espírito maligno que deu a eles um poder que nenhuma pessoa deveria ter. Asheron escravizou os reinos vizinhos, mas os bárbaros se revoltaram contra eles, quebraram a máscara e sem seu poder Asheron caiu, mas a linhagem real sobreviveu e cada tribo ficou com um pedaço da máscara.

—Não acredita mesmo nesse história. Acredita?

A jornalista perguntou e como resposta Tamara tirou uma faca de dentro do sapato, olhou pra ela séria e cortou a mão. O sangue azul pingou encima da mesa.

—Sim. Acredito.

A repórter ficou em choque.

—Tamara!

A mãe foi olhar a mão dela e ela disse:

—Já sarou.

A menininha limpou a faca e a guardou.

—Pode nos dar uma demonstração de seus poderes Tamara?

Ela olhou para a mãe em busca de respostas ou de permissão e quando Jessica assentiu, Tamara recitou um feitiço que fez um vendaval dentro do anfiteatro.

—Acha que é suficiente?

—Incrível.

—Quando a minha mãe morreu, eu fiquei com a magia dela. É uma coisa cumulativa.

—O que você come Tamara?

—Comida, sangue. Posso sobreviver com os dois.

—Você prefere qual?

—Ai depende do dia.

—Você é artista como seu pai?

—Eu toco violino, piano, sei cantar, sei dançar. Minha mãe me ensinou a cantar e dançar e o meu pai me ensinou a tocar piano e violino.

—Você gosta das músicas do seu pai?

—Não. Mas, ele sabe e não liga.

Lestat deu risada.

—Você não liga mesmo Lestat?

—A minha filha tem o direito de gostar ou não gostar do que ela quiser. Eu não vou amá-la menos porque ela acha que a minha música é uma gritaria.

—Acha que a música do seu pai é uma gritaria Tamara?

—Acho. Você consegue entender alguma coisa do que ele canta? Porque eu não consigo e irrita o meu ouvido.

—A sua banda sabia sobre você e Jessica? Sobre Tamara?

—A gente sabia. Mas, ele pediu pra não contar e a gente não contou. A gente faz o que mandam a gente fazer sacou?

—Para de ser imbecil Ben. A gente não contou porque somos amigos deles e eles queriam manter segredo.

—Porque?

—Viu o que ela fez aqui hoje? O negócio do vento? Aquilo não foi nada. Um conselho: Não irritem essa garotinha.

—E você Tamara o que pode dizer a esse respeito?

—Meus poderes estão crescendo dentro de mim, posso senti-los. O sangue puro de minha mãe corre por minhas veias. Eu posso ver, sentir e ouvir tudo. Eu vejo a mosca que voa do outro lado da sala, sinto a vida que emana dela. Ouço cada coração humano que bate nessa sala, sinto seus cheiros no ar.

—E você convive com seres humanos Tamara?

—Não. Mas, deve ser legal ter outras crianças com quem brincar. Todo mundo na minha família é mais velho do que eu, alguns bem mais velhos.

—São todos vampiros?

—Sim. To com fome mamãe.

—Lestat, é melhor encerrar por hoje. Já estamos nisso a três horas. Eu vou levar a Tamara pra casa, ela só tem sete anos.

—Tudo bem. Infelizmente a minha filha está ficando cansada e a minha parceira vai levá-la pra casa.

—Diz tchau querida.

P.O.V. Silvia.

A menininha foi para o colo da mãe.

—Diz tchau querida.

Ela acenou para a multidão de fotógrafos e repórteres de TV e disse:

—Tchau.

Então Tamara escondeu o rosto nos cabelos ruivos da mãe, deitando a cabeça em seu pescoço. E as duas saíram.

—Roger, leve Jessica e Tamara pra casa. Tenha certeza de que elas chegarão em segurança.

—Sim senhor.

Elas saíram escoltadas por vários seguranças, entraram num carro preto com janelas escuras e foram embora.

P.O.V. Jessica.

Eu fico preocupada com ela. Ser filha de celebridade não é fácil e ser uma híbrida de vampiro e bruxa é pior ainda.

—Não foi tão ruim foi?

—Não. Foi bem legal, fora os flashes estourando na cara.

Amanhã o rosto de Tamara estará estampado nas capas de todas as revistas. E sua entrevista vai sair na televisão.

Quando chegamos em casa ela perguntou:

—Mãe, posso ir brincar no jardim?

—Sim. Claro querida. Você comeu?

—Comi.

Ela saiu correndo e eu olhei para Lestat que parecia desapontado.

—Ela é uma criança muito sensitiva. Hoje foi um dia muito cansativo e diferente de tudo o que ela já viu. Dê um tempo Lestat.