II.

Os calafrios custavam a cessar, massageava o tórax com fervor mas o frio so me invadia mais obstinado. O medo por trás de toda sombra daquela mata fechada não permitia que baixasse minha guarda, atento ao mais suave retesar de corda, o incômodo da flechada no flanco mantinha minha desconfiança a cada subida e descida brusca do terreno tortuoso de Silh. Dava-me nos nervos de tão inconstante que era, tanto que me acostumara a descansar enquanto caminhava nos raros terrenos planos, todo o resto era uma miríade de rochas obtusas, deslizes onde a terra se desmanchava, e árvores tortas e antigas que dificultavam a passagem.

O suor já gélido em minha testa e o coração arfante depois de tantas subidas, fui me embrenhando entre a trilha com Hoyt e Gwyne cerca de vinte passos a minha frente. Ahmyre logo atrás bebendo vinho de algum odre que surrupiara no armazén de mantimentos, o mesmo que tivemos breve acesso para a viagem antes de sairmos montados de Cainhirst. Logicamente o lugar mais guarnecido do castelo, os camponeses raramente eram permitidos a passagem por aquela ala, mercenários muito menos. Deve ter reparado que eu o olhava de soslaio e ofereceu a bebida com um sorriso de canto avermelhado, recusei com certa tristeza nos gestos. Talvez mais tarde, alí não me faria nenhum bem, assim como a bebedeira que eu procurava me manter longe antes de cada batalha, essa “coragem líquida” muitas vezes trazia infortúnios contornáveis, e geralmente era um bom indicativo para aqueles que não se deveria depender nos momentos de importância.

Conduzia Abusado já com impaciência devido as suas constantes malcriações, enquanto que os outros cavalos seguiam tranquilamente de cabeça baixa. Achei improvável que esse estivesse desacostumado ao terreno, pois todos os outros não protestavam, quem sabe ele me estranhava e por isso teimava em seguir meu passo.

Quase tropeçando no escuro que caia sob nós, xinguei e amaldiçoei a montaria que me foi dada, mas principalmente todos os ancestrais de Arnor que se acharam inteligentes ao construir seu principal suporte militar naquela região da província. As terras do litoral eram menos selvagens, com bastante espaço para cultivo e criação de caprinos onde as montanhas começavam a se acentuar. Não era atoa que a capital alí residia, mas Cainhirst por outro lado era uma imensa fortaleza cercada de barreiras naturais, no extremo oeste perto da divisa de Rôrbano, justamente onde a região se fechava para as outras provcíncias por meio de cordilheiras que furavam as núvens e traziam avalanches que soterravam a floresta adjacente. Tão isolada que acabava se tornando uma prisão para os seus senhores, que tinham plena consciência que uma vez cercado por Silh, fugir e despistar o inimigo era suicídio a não ser que o prórpio exército fosse abandonado. Achavam estes que estariam salvos, contentando-se por ora com uma perda significativa do seu território para um império estrangeiro, pois no mundo convencional os Kushan evitariam uma incursão ao interior de Arnor, receosos de cruzar um oceano de árvores que julgavam amaldiçoadas, não só pelo Povo da Noite que estariam os espreitando de cima dos galhos. Se o fizessem, o mais provável é que chegariam a Cainhirst tão exauridos que um cerco prolongado os mataria de fome também, e depedendo das condições de suas tropas, uma batalha campal não estava excluída do mundo da possibilidade.

Uma lufada de vento que atingiu meu pescoço e achou seu caminho entre as minhas vestes me fez flexionar os ombros num movimento involuntário, A geada presa em minha capa desfez-se, de novo e de novo tantas vezes que acabei nem percebendo o tempo passar, como se a exaustão deixasse dormente minhas outras partes pensantes, arrastava meus pés apenas com os caminhos em forma de serpentina permeando minha mente, deixando de mergulhar em memórias e dúvidas para passar o tempo nas primeiras horas. E quando percebí, já era noite, todos diminuíram o passo quando a trilha quase se perdeu no escuro, e de certa distância consegui ouvir os ruídos provocados pela passagem de Gários e Cartansis, que seguiam nossos passos um pouco mais afastados.

Não me sentiria tão carrancudo se o frio fosse o único empecilho, a chuva que nos castigava alternadamente pesava minhas roupas, estas viravam gelo quando um vendaval empurrava meu corpo para trás, balançando os galhos espessos acima de nós. Preenchendo ainda mais o farfalhar da chuva atingindo a vegetação em milhares de estalos.

E eis que me dei conta de que segurava duas rédeas na mão, um daqueles momentos de letargia em que a memória falha e por um momento se esquece do que aconteceu à pouco. Era difícil acompanhar a descida do sol coberto por Silh e suas tempestades, mas já deveriamos ter feito significativo progresso com o tempo que se passou. Por isso, Ahmyre entregara seu cavalo com os fardos postos no lombo para fazer reconhecimento da área adiante, apesar de ainda estarmos próximos de Cainhirst para temer emboscadas de salteadores ou coisa pior.

Hoyt e Gwyne aos poucos iam se aproximando na marcha lenta que a escuridão permite, e pude ouvir parcelas do que falavam, mas não estava prestando atenção. Era estranho como a presença do jovem me incomodava dependendo da situação, naquela hora minha mente me pressionara a sondar Hoyt mais uma vez sobre seus planos, lembrando-me inclusive de meus conselhos incisivos que tentavam desencorajá-lo a responder o chamado de Arnor. Terra árdua e ingrata como essa não nos traria nada de bom, mas mesmo assim nenhuma das minhas palavras fez peso as estranhas expectativas de ganhos dele, refletidas pelo brilho em seus olhos. Portanto, sabendo que meu esforço seria inútil ainda sim queria trocar umas palavras com Hoyt, sentia que estava a me deixar no escuro por muito tempo. Minha lealdade era estrita, mas não cega. E lá estava Gwyne me impedindo de abordar o assunto de maneira discreta, de todos alí era quem eu mais desconfiava. Os Escudos não nos fariam mal a não ser que os provocássemos, pelo menos aparentemente, e dado ao número limitado dos nóssos que poderíamos escolher, logo ele estava a nos acompanhar. Entendia a lógica da escolha, preservar a moral das nossas tropas no castelo, algo que só de pensar me deixava consternado por saber que um sentimento de desconfiança deveria pairar sob nossos guerreiros, e levando em conta tudo que se passa eu não os culparia. Era uma tarefa compicadíssima a nossa, e não me preocupando muito com suas habilidades de esgrima, as quais tive breves vislumbre no último ano, me inquietava adentrarmos um território inimigo armados apenas da diplomacia, para isso a maturidade de Gwyne deixava a desejar.

À frente nos desafiava uma elevação longa, íngreme no topo com trilha recurvada, o luar iluminava parcamente a subida por não haver tantos salgueiros e ciprestes a nossa volta, deu pra ver que apesar da vertente acentuada o caminho era suficientemente limpo para cavalgar. Subí no cavalo de Ahmyre levando Abusado pelas rédeas amarradas na sela, chegando quase a um trote para alcançar o outro lado no encalço dos outros. Chamei Gwyne com um assobio, quando chegou perto instrui-o a esconder seu cavalo em alguma sebe passados vinte minutos após a nossa partida e permanecer vigiando nossa retaguarda. Eu marcaria as árvores caso nosso acampamento fosse longe da trilha, e que ele se juntasse a nós passado um tempo. O garoto me encarou cabisbaixo, virando para o caminho que deveria retornar evidenciando má vontade, mas não ousou reclamar, estava a olhar em seus olhos sem cessar, água da chuva caindo pelas minha face deixando minha expressão mais séria. Sabia que nesse ponto do percurso aquele tipo de precaução era desnecessária, mas uma das vantagens de meu posto era dificultar a vida dos que julgava indolentes, e mesmo alí não abria mão dela. O jovem esperou que Gárius e Cartansis também conquistassem a subida, recebeu-os com um sorriso tristonho e sumiu da minha vista. Já ambos os Escudos arfavam tanto que pensei que se apoiariam nos joelhos, mas manteram sua dignidade de peito custosamente estufado, pelo menos em minha presença. Não que estivesse muito melhor, o corpo inteiro reclamava de exaustão do esforço prolongado, mas a mente ignorava a resistência, pois sabia que aguentaria mais algumas horas daquilo antes de armar acampamento.

Dobramos por tantas encruzilhadas logo em seguida que me causou o aperto no interior e calafrio nas têmporas vindos da sensação de estar perdido. Mas Hoyt aparentava saber as curvas corretas, se estivesse de dia e livre da fadiga notaria que muitas dessas rotas eram atalhos pouco usados pelos transeuntes para algum ponto à frente, já quase apagados, engolidos pela relva devido ao desuso. Hoyt era o único que possuia maior familiaridade com o caminho, já que Gwyne chegou a Cainhirst em outra tropa e eu fui carregado por quase toda a travessia, entre desmaios causados pela febre que me acometeu sem demora. Poderia ser considerado sortudo por não sucumbir à viagem no estado que me encontrava, porém mais ainda em razão de não haver nenhum veneno na ponta da flecha em formato de meio losango, como era de costumeiro ao se cruzarem os nossos caminhos com os deles. Todas histórias sobre a região que me lembrava remetiam a arma dos covardes e traidores, as mortes aterradoras cravadas na memória dos sobreviventes, o agonizante findar dos gritos dos seus próximos. Histórias das feiticeiras que escondiam seus lares próximos as rotas comerciais, mantendo-se ocultas até resolverem suprir sua necessidade de ingredientes, roubando de crianças a velhos que caminhavam tranquilos demais. Enxergavam pelos buracos das árvores que cervavam todos, observando Silh com perversão. Poucos eram os contadores legítimos dessa floresta, raros os que sobreviviam para entreter os outros com seus traumas, todos sentindo ressonância por estarem na mesma situação. Cercados pelo mal à espreita, vasto e imparcial quanto aqueles que engolia, seja mercador ou soldado pobre. Poucos apareciam novamente empalados nos galhos altos ou balançando com o vento no meio da estrada, o sangue já cessando de marcar a terra em um último ato desesperado apêgo a este mundo.

Com esses pensamentos indo e voltando olhava constantemente para cima, buscando sentinelas nas copas e troncos maiores, usando os pés curvados de apoio e refletindo o luar como lobos. Julguei ter visto um movimento que fez as folhas balançarem de súbito no topo da cobertura, mas resolví que deveria ser só o vento e a chuva para me acalmar, mesmo se pudéssemos atacá-los de baixo, não estávamos alí em busca de confronto. Era essa pretensa impotência que me inflingia caos de espírito, como se as bainhas que carregávamos na cintura e nas costas estivessem cheias de areia.

O Étel de Arnor aparentava diversos traços, acreditava que a maioria destes eram voluntários, intencionais, nada indicando tolice. Mas mesmo assim não conseguia encontrar qualquer motivo plausível para sua confiança, o desespero não parecia suficiente e uma procura de apoio entre os altos estava fora de questão.

A chuva enfim nos deu trégua, na transição de um momento o farfalhar da floresta sendo atingida foi deixando de preencher todo o espaço, ouvi Hoyt suspirar de alívio à minha frente, os Escudos estavam em espírito semelhante. O denso emaranhado de troncos curvados que estreitavam a passagem foram dando lugar a vegetação mais arbustiva, conseguia até respirar melhor. As moitas eram altas para ocultar uma parte da trilha, mas ainda sentia-se a terra plana sobre os pés ziguezagueando.

—Estamos perto.

Deveríamos estar, só percebi tarde a mata se tornando rasteira, com poucas jacarandás de folhagem levemente lilás, espaçadas a ponto de dar visão a grande clareira que se estendia até ser engolfada pela escuridão. A lua conseguia escapar em fendas momentâneas das espessas núvens, profetizando tempestades por vir, revelando em relances um punhado de rochas de formato anormal aglomeradas mais ou menos no centro. Caminhava a passos largos, o corpo rijo em desconfiança daquele lugar, logo saindo da cobertura que impedia-nos de ver os céus escuros. As ventanias se pronunciaram a ponto de sussurrar perto de nós, trazendo a mordida do frio que percorria as entranhas. Sentia as garras de Silh pouco a pouco afrouxarem suas unhas em meu pescoço, infinitos gravetos e galhos menores que me puxavam pelas roupas ao andar.

Por costume, procurei a constelação dos irmãos, mas não a encontrei nos passageiros rasgos estrelados que iam ganhando espaço na noite. Permiti-me perder em devaneios e não percebí que passavam por mim em direção às ruínas, cavalgando em trote por um declive até atingir a grama plana, seu gigante nada interrompido por pequenos grúpos de troncos definhando que ainda não foram engolidos pela terra. A maioria já estava depenado até não sobrar nenhum verde, mas um ou outro ainda ostentavam folhas minguando, preenchendo o chão daquele posto de vigilha dos antigos, ou pelo menos era isso que pensei primeiro ao tentar enxergar oque alí havia a séculos atrás. Expulsos ou mortos pelos mais fortes a grama voltou a crescer até cobrir seus esqueletos. Fazia sentido que assim fosse, a clareira era grande demais para ter sido obra da espontaneidade da natureza.

Subí em Abusado sem esconder o entusiasmo de sair do chão, mesmo que por pouco tempo. Aticei-o com as laterais da bota mais que o necessário, e ele quase disparou se não o tivesse restringido as rédeas, adotando um ritmo veloz, o outro marchador ainda preso seguindo obedientemente. Discreto o suficiente para sentir o ar gelado correr pelo rosto e os músculos ficarem menos rígidos ao acompanhar o ritmo do cavalo.

Gárius e Cartansis estavam desmontando quando cheguei, suas armaduras chachoalhando quando desajeitados tentavam descer da sela com os movimentos limitados, logo acharam um canto em que ficariam de cotas para o que sobrou de uma pilastra. Sentando-se pesadamente mas ainda mantendo expressão digna, como se quisessem esconder seu cansaço de nós. Hoyt estava parado com as mãos na cintura olhando para o norte, como se procurasse algo pelo jeito que virava para os lados. Entendí e relaxei quando o ví respondendo ao aceno de Ahmyre, que se aproximava de longe com a grama raspando os joelhos.

A visibilidade não estava tão ruim, era possível enxergar com um pouco de esforço restos de presença humana no local, como deveria ser naturalmente um ponto de parada para os viajantes. Restos de comida cobertos por cinzas indicavam o local da última fogueira, a qual sobrara só alguns nacos de madeira enegrecida. Toquei-os para constatar que estava frio como gelo, e sentí o corpo aos poucos rendendo-se passada a inquietação, vinda da suspeita do perigo em cada sombra.

Tinha terminado de amarrar os dois cavalos e retirar-lhe as selas um pouco afastados de nós, Ahmyre me encontrou no caminho de volta com o odre que me oferecera antes à mostra. Aceitei sem pestanejar e três goles desceram a garganta, o aroma me parecia fraco, mas talvez deveriam ser os anos bebendo aguardente corroendo meu paladar. Ao devolver ele me disse:

—Nós poderíamos continuar, cobrir mais terreno até que a lua começasse a descer…

—Sei disso, mas acho que conseguimos avançar bem para o primeiro dia. E também… -Indiquei com o olhar nossos vigias – Eles não devem conseguir ir muito mais longe que isso.

—Acha que podemos contar com eles no pior dos casos?

—Realmente dificil de dizer, eles não estão exatamente interagindo muito. Caso venha a acontecer, Corrente Rubra, contamos só com nós mesmos.

Ele entendia bem, reagindo com um sorriso embaraçado à provocação, nem todos os guerreiros viviam acostumados com a vida de mercenário baixo, aceitavam soldos em troca de proteção e outras obrigações sob o serviço aos altos. E os que chamávamos de sortudos tinham sua própria terra para cultivar, tendo apenas como pagamento o tributo e a convocação de uma eventual guerra, caso o Étel ordenar uma defesa ou conquista de território. Eram os que chamávamos de Lanças.

—Algum dia você também será Cceleb alguma coisa. Então nem reclame quando me vingar por todos esses anos -Falava rindo, sorrí diante a ideia.

—O Velho Gordo não seria mal...

Retornamos para onde os outros estavam, caminhando lado a lado mas sem dizer palavra, o receio de aparentar suspeitas para os Escudos, acompanhando nossa volta com o olhar. Sentia-me incomodado por sua presença, mas tinha de respeitar nossos lugares e fazer o possível pelo sucesso da missão, apenas engoli meu descontento.

Procurando um local de terra macia, joguei meus fardos de lado e estendi a manta isolante. Puxei um remendo de peles grossas que levava nas viagens para me proteger do frio, jogando-o por cima. Afrouxando a fivela do cinto de couro Bastiom pendeu e sua bainha tocou o chão, a amarrei num galho próximo o bastante caso precisasse. O peso da cota de malha incomodava, mas decidi que era melhor mantê-la todo o tempo, retirei então as placas traseiras da armadura, deixando só o tórax protegido. Enquanto assistia os outros fazendo o mesmo, fui mastigando e engolindo sem prazer uma mistura de cereias com gosto de pão velho aos ocasionais goles de água azeda. Um chuvisco muito leve começou a se pronunciar, enrolei-me nas peles prevendo a piora do clima. Apesar do espaço e ar limpo, sentia falta dos tetos esburacados de Cainhirst, receio de não estar ao lado do bando, que como todos lá esperavam apreensivos a chegada da maré, ilhados por Silh em chamas.

Agora que tinha esfriado o sangue depois de ficar parado as juntas começaram a doer e resistir aos movimentos, o ferimento no flanco novamente trazendo uma dor leve porém constante. Estavam passando uma garrafa malfeita de aguardente, Hoyt jogou em minha direção e ao beber ja podia sentir o calor interior expulsando o frio. Cartansis não recusou quando ofereci, parecia como todos habituado à agressividade da bebida, esperava uma reação diferente devido ao aspecto de nobreza que o fazia se destacar, mesmo com a expressão abatida e a armadura de um laranja fosco meio salpicada de lama. Se não me engano já ouvira coisas ao seu respeito, a Espada da Alvorada temido pelos inimigos e idolatrado pelos comuns devido a sua fama de generoso, às vistas parecia ser um dos poucos que de fato faziam por merecer sua posição, honravam o juramento que os acorrentava. Ambos até então se mantinham reservados, mas só Garius me parecia ser um mistério, diferenciava-se do resto e quase nunca falava com seu sotaque balbuciante. Tinha a aparência de um guarda que nada via ou ouvia, muito menos questionava, mas também emanava uma aura de assassino, daqueles que tomam vantagem da cobertura da noite para cometer inustiças contra os inimigos de seu suserano.

Mas pensando melhor, nós não éramos muito diferentes disso, pois agíamos em semelhança nos momentos de urgência, quando uma lâmina rasgando o escuro de encontro à carne de algum infeliz. Porém gostava de dizer a mim mesmo que dentro da normalidade matávamos os que empunhavam suas armas contra nós, sob o olhar do sol.

A sensação anestésica provinda do álcool aos poucos foi me puxando para um sono de canto de olho aberto, algo de que não me orgulho depois de ter falado tanto das minhas desconfianças e medos ao que nos cercava. Para o que a mim pareceu um momento, o frio deixou de me causar moléstias, ao invés me embalando num estado de alívio que me fez esquecer onde estava, adormecí apoiado no próprio ombro por tempo incerto.

Raro alívio este que foi interrompido quando Gwyne largou próximo aos meus pés um cervo abatido, sendo a flecha a primeira coisa que notei, alojada com precisão no olho direito do animal, da maneira que os caçadores faziam quando evitavam macular o couro e atingir preços melhores. A expressão contente do jovem me irritou mais que a abrupta retirada dos reinos de Aerzem:

—Acabou cruzando por mim quando estava retornando, melhor que pão velho não é?

—Melhor isso do que carne crua -Respondí com impaciência, destilando raiva em minhas palavras -Esqueceu de como chegamos aqui? Onde está? Não vou permitir que você nos ponha em perigo, garoto. Uma fogueira na noite de Silh chama mais atenção que um farol de Cátano, seu problema parece ser a incapacidade de pensar antes de fazer qualquer coisa.

Rapidamente ví seus olhos se alargarem com a vinda da compreensão tardia, sucedida de ressentimento acumulado pelas minhas palavras sempre ásperas para com ele. Apesar das aparências, não chegava a detestá-lo, mas poderia estar cultivando no seu interior o mesmo sentimento para com a minha pessoa, devido a maneira que o tratava.

Ahmyre parecia se divertir com o visível descontentamento do rapaz, Gwyne deveria ter feito todo o caminho até alí pensando unicamente na carne que iria saborear depois de tanto tempo enganando a fome com rações. Devo dizer que compartilhava desta angústia, lutava para ignorar a curva que a barriga do cervo fazia à sua fisionomia, o sangue já formando uma poça carmesín aos poucos tragada pela terra. Estávamos todos famintos depois de caminhar tanto, incessantemente, e graças a Gwyne passaríamos a noite à encarar o animal e imaginar que gosto tería sua carne assada, enquanto engolíamos a contragosto o pão duro com aguardente.

—Deixe-o Cceleb, não nos faria tão mal um pouco de mimo no primeiro dia, devemos aproveitar. A sombra do castelo ainda paira sob nós, esta clareira também é muito extensa para sermos pêgos desprevenidos -Hoyt encontrou meu olhar incrédulo com um sorriso. Ele provavelmente estava certo quanto ao que disse, não havia muitas razões para paranóia, ainda. Porém, apenas eu tinha um ferimento no flanco para redobrar as apreensões.

Tive vontade de contradizê-lo, mas o cansaço agravado por um sono abortado eventualmente me alcançou, então apenas dei de ombros quanto aquela imprudência. Diferente de mim, Hoyt sempre procurava agradar os outros, era uma das suas maneiras de nos comprar. Parecia estar funcionando maravihas com Gwyne, este de sorriso largou me deu as costas antes que eu azedasse sua alegria, afastando-se para um lugar em que o chão de terra dava lugar para uma plataforma de rocha fria. Puxou uma adaga que mantinha na cintura e começou a retirar a pele do animal com destreza, talvez até habilidoso demais para sua idade, pois quando menos percebí já partira para a retirada dos órgãos, que foi jogando com displicência para o lado.

Não sei ao certo se minha sonolência estava a afetar minha percepção de tempo, pois tudo parecia acontecer com rapidez. Fechei-me num cochilo fingido, mantendo um olho semi-aberto para observar o que os outros faziam, estava ranzinza e não queria ninguém me aborrecendo. Logo logo o ruído de metal raspando carne cessou, ví Cartansis ajudando o jovem a fatiar o que sobrou do cervo, jogando as partes pobres e os membros longe, nem percebí que Hoyt se ausentara quando voltou carregando uma quantidade considerável de galhos que aparentavam estar quase secos. O Escudo escolheu os mais grossos e sem esforço os moldou com um cutelo para apoiar os bifes que aguardavam o fogo, Ahmyre saiu para colher ervas enquanto os outros se atentavam ao trabalho. Ví também Garius retirando com cuidado as placas de sua armadura rude, naquela escuridão seu cinza desbotado era quase invisível, e ao fazê-lo até seu rosto impassível mostrou alívio ao se desfazer daquele desconforto, eram poucas as situações em que compensava ser um homem de lata.

O sono juntamente com o cansaço me faziam complacentes a certas coisas, a fome usava de meu desejo pela carne de cervo até sobrepujar a sensação de perigo que atraía o olhar para os cantos escuros entre os arbustos, se mexendo com o vento. Fui criando razões que me tornavam merecedor de uma trégua, levando em conta todos os desprazeres da travessia, a comida racionada de Cainhirst ainda faizia-me sentir fraco. E no último suspiro do bom senso, desejei pela primeira vez que o chuvisco engrossasse até desencorajar aqueles tolos.

Não aconteceu como queria, o tempo foi carregando as núvens pesadas para longe, revelando com preguiça entre as breças o luar que iluminava as proximidades. A cadeia de montanhas à sudoeste tornou-se mais visível, provavelmente uma das muitas extensões d’Os Dentes que pragueavam a região, asfixiando-a até uma pequena faixa costeira. Eram fáceis de distinguir do resto, a costura que unia o leste do continente era marcante pela sua acentuosidade, cumes e plataformas fragmentadas numa linha irregular, como se fossem garras saindo da terra. Os topos mais altos eram cobertos pelo céu noturno, nos rodeando de tal forma que pareciam fechar-se sob nós, dalí era difícil compreender como as trilhas tortuosas nos levavam a driblar as montanhas. Famosas em todo o continente pela história que toda criança conhecia, dos gigantes Cas e Arindel enlouquecidos numa batalha sem fim que deformou a paisagem além dos limites do horizonte, revolvendo a terra até que se inclinasse em vales profundos, esfarelando as rochas até que do alto parecessem areia. No fim ambos jaziam derrotados, apenas o espectro restante indo de encontro as estrelas e atraindo os grandes deuses que lá habitam para a destruição de uma de suas crias. Com a chuva apagaram os incêndios e reviveram os rios antes assolados, preenchendo até as imprevistas formas em que o ambiente for a remodelado, sem cessar as eras passaram neste mesmo estado até que a grama voltou a crescer, depois a madeira, seus frutos, e por fim os seres vivos. Mas o equilíbrio permanece delicado, as terras de baixo continuam em brasa viva, tendo só as águas e trovões para impedí-la de incendiar tudo novamente. Não foi de todo ruim, os rochedos empurrados uns nos outros nas bordas até formar A Grande Muralha de Arnor, como eles gostam de dizer orgulhosos. Apesar de bloquear quase todo o comércio terreste da província, acabava por protegê-la da ganância dos seus vizinhos, já que era contraprodutivo atravessar Os Dentes com um exército. Todos sabiam disso.

Tempestades e homens brutos em primeiro lugar não os atrairíam, e mesmo assim não pareciam empecilhos para o invasor, ceifando adentro implacável até mesmo ás baixas severas que sofreram. Pagas com a vida de quase todo o exército regular de Arnor, que se encontrava encurralado em sua última fortaleza dependente de espadas pagas, mal se sustentando com o esforço. O inimigo era numeroso demais até mesmo depois dos sacrifícios e da reunião das tropas mercenárias, sua obstinação pela conquista de um território com poucos pastos cultiváveis, e mesmo assim raquíticos se comparados a imensa Prívia, ou os campos do sul de Dagmar. Boa parte dos artorianos não eram súditos do Étel, levando em conta as circunstâncias estes logo se tornariam maioria mesmo sendo impossível mensurar a sua aproximada quantidade, também chamados de fantasmas como apelido pelos filhos daquela terra, o Povo da Noite que vivia acobertado pelos segredos de Silh. Eram tão reclusos que não sabíamos se eram organizados em clãs, fragmentados em tribos isoladas ou centralizadas em meio as montanhas, muito menos se conhecia qualquer soberano, poderiam muito bem ser nômades para nosso azar. A animosidade entre eles e o resto era tão antiga e ainda tão intensa que o contato entre os dois mundos pouquíssimas vezes evoluiu para além da violência, e nós após séculos de sangue deveríamos contar com a dúvida do primitivo antes de nos matar no primeiro momento.

Cada Étel é diferente, e esse até então não ligava muito para os seus Escudos já que enviou dois conosco, o que me faz pensar que realmente era esperado o sucesso de nossa parte, não um esquema oculto para nós peões. Gário e Cartansis se sentiam-se angustiados como eu não demonstravam, poderiam muito bem ser daqueles que cegos pela lealdade não percebem seus líderes jogando os dados de suas vidas. Ambos me pareciam a subserviência encarnada por sua complacência até então, passivos a estarem caminhando em direção a morte enquanto os altos aproveitavam seus banquetes aconchegados ao lado de brasões. Ao menos o seu terror era eminente, passaria por cima de nós antes de corroer a ordem, e se assim fosse preferia ver como uma consolação para todo esse absurdo.

Gário adormecera ao passo que Gwyne e Cartansis pareciam amigos ao trocarem risos e sorrisos ao dividirem a atenção na carne e na lenha. Ahmyre estava logo ao lado moendo as ervas num azeite mal cheiroso que sempre levava consigo, os bifes do cervo já na fogueira estalaram quando úmidos pelos temperos gotejando junto com a gordura. Procurei Hoyt com o olhar para encontrá-lo sentado num canto encarando as sombras das chamas, seu olhos vazios relfetiam as labaredas como se dessem pistas tenebrosas de seus pensamentos. A expectativa de dor, morte e lodo compunha seu vislumbrar flamejante, tudo o que nos esperava como se numa repetição do passado.

Ele permaneceu imóvel daquela maneira por mais alguns momentos, ao sair percebeu que o observava. Riu baixo e veio sentar-se do meu lado, tinha se enrolado numa grossa manta de lã até o queixo para se proteger dos ventos. Faziam a chama tremulante, diminuindo seu calor e nos obrigando a encarar a carne crua por mais tempo. Mesmo sendo um fogo baixo a sua claridade criava sombras inquietas nas ruínas, e o que quer que estivesse se inssinuando entre a escuridão de Silh nos veria com facilidade, tendo a distância como a única desvantagem. Também não estávamos desatentos, tirando Gário que estava parado de olhos fechados todos ficaram de vigia para cada lado da imensa clareira, não podíamos nos dar ao luxo de ser surpreendidos alí.

—Relaxa Cceleb, você está passando seu nervosismo para mim – Áquela altura já não me importava mais em desfarçar minha desconfiança. Fazia um esforço para deixar de ver as flechas translúcidas que saltavam das folhas altas num arco em minha direção, deixando meus nervos à beira de um estado de alerta.

—Pois… alguém precisa manter o bom-senso – Disse ríspido apesar de sentir meu estômago meio vazio se contorcer com o cheiro de carne assada.

—Este farol está aí já à algum tempo, aconteceria algo se fosse para ser. Aproveite enquanto podemos, deixe as preocupações comigo, tudo vai se resolver no seu devido tempo.

Hesitei ante aquelas velhas palavras. Decidi que dessa vez não ignoraria minhas objeções, a muito se passara a época em que me preocupava em não ser um peso em sua mente.

—Continua a me dizer isso Hoyt, mas não me dá nenhum motivo para acreditar de verdade – Se ele estivesse atrás da minha fé em seus planos, teria de me contar já as coisas que naturalmente todos saberiam no fim – Ao que tudo indica o Étel nos fez de bodes expiatórios, apaziguando os altos com uma solução falsa em que possam se pendurar. Você os ouviu falando no grande salão, o ódio é muito antigo para que possamos brincar de diplomatas. Deixamos tudo de lado em Cainhirst, tento não imaginar no que os nossos estão pensando depois de os deixarmos lá, os que nos seguiram nos piores dias – Tive de parar para respirar um pouco e ordenar as ideias, estava quase as atropelando em minha exposição acalourada – Estamos nisso a muito tempo, e hoje não nos aproximamos mais do nosso objetivo do que a vinte anos atrás. Para os altos é muito fácil nos descartar para de baixo do tapete depois de terem comprado nosso sangue, não temos números suficientes para fazer valer as promessas feitas, e isso não mudará até que as multidões famintas por pão deixem de existir.

Percebí então que Hoyt olhava através de mim ao longo do discurso, mas pareceu que no final deste alguns dos repetidos lembretes de nossa realidade o alcançaram, a pequena parte do seu ser que ainda reconhecia a dúvida me deu ouvidos. Ainda não havia sido tomado pelos seus sonhos e ilusões, e isso me alegrava. A tempos não o via realmente considerar algo que ia contra as conclusões que desejava conquistar, pois normalmente retrucaria sem pestanejar usando de sua lábia afiada para contornar o impossível, mas daquela vez encarou o chão antes de me responder, verdadeiramente ponderando o que lhe dissera.

Os Escudos notaram nossa conversa, mas só notei Gário esticar seus ouvidos para decifrar minhas palavras em meio aos urros das ventanias e o crepitar da fogueira. Um dos truques que a vida de ladrão me ensinou era escutar uma conversa icógnito pela distância, e consequentemente avistar de pronto quando poderia estar sendo espionado.

—Cceleb… me diga, ser feliz é o seu sonho? — De primeira não havia escutado bem, tão concentrado nos arredores. Tentando me decidir se um ou outro silvo dos ventos poderíam ser uivos de lobos fareijando o cervo. Aos poucos sua voz foi ganhando forma e sentido, se agrupando de forma inteligível em meus pensamentos, causando distúrbio interior – Quer um pedaço de terra seu? Servos roubando migalhas das suas costas enquanto envelhece assistindo seus descendentes brincarem com lanças feitas de galhos?

—Bem, até que não seria ruim – Respondi sem pensar muito, era uma pergunta tão óbvia que era quase tolice proferíla-la. Talvez por isso não prestei atenção da maneira a qual ela foi expressada, assim perdendo o real sentido da questão.

No momento achei que estávamos jogando conversa fora, por isso sorrí ao falar, provavelmente a primeira vez em muitos dias. E Hoyt imitou, parecendo se divertir.

—Sim, verdade. Todos gostariam disso – Então na passagem de um segundo a leveza de suas expressões deu lugar ao fardo daqueles que sustentam o peso de incontáveis vidas em seus ombros – E todos tentaram, poucos chegaram perto, e quase ninguém conseguiu. Boa parte das terras cultiváveis estão praticamente vírgens nas mãos de poucos nobres, e mesmo com feitos dignos de canções ainda não é o bastante.

Era-me estranho ouvir justo ele falando tão negativamente:

—Acho que não estou entendendo bem onde você quer chegar.

—Estou te dizendo que a chance é ínfima, não há espaço para todos, longe disso, aqueles que mantém as chaves na cintura não aceitam contestação sobre quem tem o direito de guardar o portão, a sua lei. São paranóicos, segurando com unhas e dentes aquilo passado por seus ancestrais. Já nós somos tão agradecidos pelo osso que nos jogam que chega dá nojo, nos tratam como cães famintos se abocanhando pelos restos. Beijamos seus pés e mãos como se nos oferecessem uma graça divina, quando na verdade estão apenas devolvendo a contragosto o que é de todos. Seja em Sormon ou Prívia, ou até nos Reinos dos Clãs é tudo igual, nada muda. Viemos da terra e para lá descansaremos no fim, terra nos dá liberdade e perspectiva quando nos livra da fome, mas isso nos foi roubado no início dos tempos. E desde então nos fragmentamos em povo e nação cada vez mais, num estado de guerra permanente, feito para ser eterno. Não é atoa que um só se torna um alto pleno depois de estar ligado ao solo por duas gerações, e assim nos deixamos assimilar em troca da nossa felicidade— Hoyt fez uma pausa para respirar longamente, talvez procurando conter-se a não despejar aquilo que preferia manter para sí – Por isso que te pergunto, nos conhecemos há eras e acredito que nunca lhe inquirí a esse respeito.

O que me disse cortou fundo, falava a respeito da minha, a nossa vida, tudo que vimos e fizemos até o presente, em nome da própria felicidade. Sua voz ainda ecoava em meu ser remexendo espinhos que alí sempre estiveram dormentes, entalados pela minha incapacidade de exprimi-los seja na ação ou verbalmente, coisas que preferia esquecer. Hoyt me encarava no aguardo de uma resposta que não tinha comigo, houve uma época em que meus objetivos eram claros, mas com os caíres da noite e as vindas do dia meus sonhos foram se distanciando enquanto meu corpo se mantinha imóvel. Com o que ouví na clareira fui deixado com a sensação de que na verdade o que perseguia não passava de uma miragem, já tremulando à distância a sua existência se corrompeu com dúvidas, esvaecendo quando descobrí que as esperanças de Hoyt, assim como as minhas, já estavam apodrecidas. Era por causa delas que seguíamos Hoyt e testemunhávamos vezes seguidas a sua tenacidade e engenhosidade para com o futuro prometido d’Os Despossuídos: a aquisição dos meios de envelhecer. Virtude que a maioria perecia na busca pela bênção do Étel para cultivar e viver sob sua proteção.

—Eu não sei… todos tem um destino que desejam, e certamente não sou excessão – Sabia que minha resposta era dúbia, ainda sentia que o véu de minhas ilusões havia sido retirado num tapa e não me achava preparado para encarar a verdade de frente ainda. Estava tão acostumado com o papel de simples número que nunca cheguei a me perguntar se de fato este mundo possuía algo que queria. Parecia que somente arrastava meus pés de um lugar ao outro cortando pessoas.

—Te entendo bem, meu amigo – Disse ao tocar meu ombro brevemente com carinho – Seja o que decidir, saiba minha resposta: renego. Do contrário seria aceitar que tudo fique o mesmo, apesar de compreender perfeitamente bem que depois de uma vida dessas só se queira algo melhor para sí e aqueles que se quer próximo. Só que para isso é necessário esquecer a ponte de ossos que serviu de caminho, e isso me recuso a fazer!

Ao erguer sua voz, Hoyt atraiu nossos companheiros de viagem para nossa conversa particular. Gwyne e Cartansis momentaneamente ergueram o olhar na nossa direção. Ahmyre ainda encarava o fogo como se estivesse a ler um livro, mas pela sua proximidade imaginei que estava a pendurar sua orelha dês do início. Gário, curiosamente, foi o único a não esboçar qualquer reação palpável. A sua pessoa já me causava incômodo logo quando fomos apresentados. O Continente abriga todo um mosaico de povos em suas vastas extensões, e não é exagero dizer que anos de andanças me familiarizaram bem com suas aparências. Pelo visto não o suficiente para que o Escudo deixasse de ser um enigma. Seu cabelo era entre cinzento e prateado, como se lhe tivessem sugado a idade de uma só vez. Junto com sua pele cabocla e feições quadriculares, era certamente uma figura que se destacaria num dia de mercado. Mas só isso não seria o bastante se seu sotaque bizarro não estivesse presente, o motivo principal que me impedia de situá-lo em nosso mundo. Nas raras vezes em que dizia algo, confesso que tinha de estar muito atento para compreender a maior parte das palavras. Até alí esses fatores geravam apenas estranheza, só foi depois de pegá-lo bisbilhotando que resolví dar mais razão às minhas paranóias.

Deixei o silêncio dividir espaço com o crepitar das chamas e os sussurros dos ventos, havia muito à pensar que minha mente ainda processava: a aproximação dos kushan, a precariedade de Cainhirst as quais nossos homens estavam presos, os planos do Étel, e agora os pensamentos profundos de Hoyt. Estes últimos me causavam maior preocupação.

Se essa era a forma verdadeira que nosso líder pensava consigo mesmo, então tudo isso não passava do suicídio mais elaborado da História, para não chamar de loucura. Muitos certamente assim o fariam, babando um sorriso largo pela recompensa prometida eram incapazes de pensar além da fortuna. Apostando não só a própria vida, como também a de seus seguidores, num jogo feito para não ter dois vencedores. Não estaria na Terra da Chuva Eterna se Hoyt fosse remotamente similar ao resto, não estaria vivo.

E foi nessa realização que uma vela do nada se acendeu em minha mente turva:

—Pelo visto você não se vestia bem só para beber vinho em boa companhia.

Ele estava alheio novamente, mas o que te disse lhe puxou de volta com surpresa e divertimento:

—De fato, de fato. São poucas as coisas que consigo esconder de você – Em um lapse ele correu a visão ao redor, certificando-se que ninguém prestava muita atenção em nós. Voltando a falar quase num murmúrio – Não acho que estamos aquí por um mero golpe de azar… e por favor Cceleb, confie em mim – Doía ouvir esse desaponto vindo da sua voz, como se estivesse minando o esforço que empenhava em nossa causa. Mas ainda assim uma parte considerável minha lembrava que um só homem não era capaz de muito, apesar do que Hoyt dizia – Este Étel é um pouco diferente do habitual, pelo menos dos que temos costume. Está no poder a quase quinze anos, apesar do seu braço militar forte têm agido mais como diplomata… tanto que se não estou enganado, essa é sua primeira guerra. Nã… sei que é um mau sinal, mas me ouça – Devo ter revirado os olhos sem perceber – Ele esconde bem, mas está desesperado por uma solução, e é aí que Os Despossuídos entram em cena. Essa brecha custou a vir, acho que foi no segundo conselho com os comandantes mercenários. Nada de extraordinário aconteceu até que enunciaram o retorno de um emissário a Cainhirst, o pobre coitado tinha sangue seco nos cotovelos, estava tão desgrenhado que aparecer assim perante Vossa Excelência poderia ser considerado um insulto. Mas o Étel não quis saber, envocou a presença do emissário logo quando lhe foi comunicado, não esperou nem mesmo o término da reunião para se enteirar das novas. Foi informado no pé do ouvido, sem esconder a aflição, e depois seguiu a conversa monótona sem muito interesse, claramente ansiso pelo término. Quando este enfim se deu, os outros comandantes pareciam ser um cenário que se troca, retiraram-se sem muita cerimônia sem me notar. Quando enfim livres de sua presença requisitei ao Étel que me trocasse palavras rápidas, lhe disse meu nome novamente caso tivesse saído pelo sua outra orelha quando fui anunciado. Felizmente lembrou da vez em que contratara duas dúzias dos nossos para engrossar a escolta de bens preciosos que encomendou… até este dia não sei bem do que se tratava, três carroças quase cobertas de lona que pelo visto não traziam nada útil para uma guerra.

Parecia querer que interagisse, mas me mantive impassível, naquele ponto não queria tornar aquilo em uma conversa, e Hoyt pareceu entender:

Certo, certo. Foi à quase uma década, conheci nosso amigo reluzente, queria só mencionar – Deveria estar se referindo a Cartansis, pelo visto um servo de longa data – De primeira parecia incomodado, imaginava que estava a procura de um pedido para mim ou outro, mas logo lhe assegurei que não era o caso. Pedindo perdão de antemão perguntei a respeito da mensagem entegue, e o que lhe preocupava. Analisou meu rosto por um bom tempo antes de responder, dizendo que viesse outra vez pela manhã aos seus aposentos. Não se dignou a dar mais nenhuma explicação, o que teria sido desnecessário. Estava exausto apesar de ter fingido muito bem até então, a sentinela logo ao lado antecipou seu movimento e ofereceu apoio antes que levantasse da poltrona acolchoada com peles enegrecidas. Dispensou a ajuda de pronto, mantendo certa dignidade ao se erguer devagar, mas ainda assim o ví usando de um cajado para caminhar até o fim do corredor. Quebrar um desjejum com vinho tão doce quase me fez sentir pena de vocês, era melhor que aquele barril de Séfora que surrupiamos até Rôrbano uns aninhos atrás. Vossa Excelência fez várias perguntas acerca de fatos passados, ponderando minhas respostas com a informação que lhe foi dada previamente, e decidiu que confiaria no meu sigilo. Não tínha muita escolha depois que nem um mísero pão atravessou as fronteiras para ajudar sua causa, estava precisando desesperadamente de aliados e não tinha o luxo de escolher os que queria. Também não era para menos, estava satisfeito com os números que adicionamos e reconhecia nossa reputação limpa em maioria. Depois conversamos sobre as circunstâncias da guerra em geral até que ficasse satisfeito, chamou-me para outro aposento e mostrou a tapeçaria que exibia orgulhoso. Era de fato uma beleza à se contemplar, feita com cores que nunca vira antes, em tons mais afiados pelo línho que reluzia à luz da manhã. Pelo que entendi dos desenhos de homens envolvidos em chamas sepultados por pedras, em que se multiplicavam até colher estrelas que brotavam nas presas de uma caverna, contava a história de pessoas perdidas. O Étel aguardou até que o espanto esvaziasse do meu rosto, mas ao invés de me dar esclarecimentos começou a me contar sobre o seu predecessor, um homem vil que custou muitas cicatrizes a essa terra sofrida. Paranóico até a ponta dos dedos, acreditava que as ocasionais pilhagens nos arredores de Sinder indicavam uma conspiração do Povo da Noite, que se organizava para encurralá-lo contra o mar, corroendo seus domínios aos poucos. Quando na verdade era o desgraçado que estava a derrubar árvores para abrir novos pastos, entrando num território que não lhe pertencia. Acabou confundindo a retaliação com uma declaração de guerra, tão absurdo que nem mesmo conseguiu puxar seus altos juntos nessa loucura, em suas palavras o obrigando a comprar espadas que, folgadas de seu controle, mataram indiscrinadamente. Atacaram alguns postos comerciais, povoados e assentamentos em que o os donos da floresta seguiam com suas vidas. Cometeram até mesmo a estupidez de envenenar uma nascente, e como resultado muitos jovens e crianças faleceram, seus pais e irmãos sobreviventes seguiram carregando seu rancor silencioso. Não demorou um ano até que os bolsos do Étel se esvaziassem, afugentando os mercenários para qualquer outro lugar em que cheirassem metais finos. A paz reinou por poucos anos, o suficiente até que o finado Étel se sentisse seguro para deixar suas muralhas, surpreendidos pela avalanche de guerreiros os Escudos nada puderam fazer. O soberano foi enforcado num galho bem alto, sem ólhos, e com as vísceras acompanhando a direção do vento, a resposta paciente que deixou todo o Continente empolvoroso. Em tempos assim o Conselho é breve, e nosso atual benfeitor foi eleito com o intuíto de expulsar o Povo da Noite de Arnor, ele me contou com um sorriso que fez justamente o contrário: mentira incansáveis vezes afirmando que a província se via afogada em demasiadas dívidas, impossibilitando qualquer reação em larga escala à curto prazo. “Todos sabemos bem que sangue é a única recompensa que há para ser conquistada, são primitivos e não valorizam o mesmo que o resto de nós”. Para mim é um grande mal-entendito, acho que não descreví bem, como fazê-lo? Não existe selvagem desgarrado que vive na lama e dorme debaixo de pedras que poderia ter criado algo assim, contornos elaborados que em seu interior o preto e o dourado se misturavam como se fossem tinta na água, com a extensão de quase duas carroças…mas eu me excedo, você deve estar impaciente, já deve ter entendido. Enfrentando muitas dificuldades devido a sua atitude ociosa, quando na verdade procurava estabelecer contato debaixo dos panos, o Étel foi se solidificando com o passar do tempo por ser ao menos lúcido, e aqueles que ainda o importunavam por suas velhas promessas eram também de idade avançada, ao contrário do seu soberano que foi prestando suas homenagens a cada um. Me contou que eram o mesmo povo batalhando à um milênio pelas mesmas rochas e árvores, que se depois de tudo ainda não havia vencedores, a paz era a única opção. Mais anos se foram até que ele arriscasse enviar um mensageiro, do primeiro retornou a cabeça pendurada na mula que levara. Acharam que o segundo tinha chances melhores por causa dos tesouros, joias e tecidos valorizados pelos comuns , e mais nada é sabido a seu respeito. Muitos iriam achar uma afronta à generosidade de alguém tão paciente, mas o Étel provou ser mais perspicaz, escolhendo melhor os presentes que enviou com o terceiro emissário. Três sacos de grãos, ferramentas de plantio usadas e uma vaca, apostou alto e se viu retribuído com a tapeçaria, o primeiro sinal de diálogo em quem sabe quantas eras, o ódio passado de pai para filho nebuou a visão de todos – Fez uma pausa para deixar a dramaticidade de seu discurso elaborado ser melhor absorvida. Eu por outro lado não me sentia tão instigado assim, na verdade já sentia dificuldade para me manter atento – Mas tudo isso mudou quando Dashane entrou nessa terra já tão complicada, e logo num momento crítico em que a amistosidade começara a engatinhar. É o que explica a sua reação ao receber seu emissário de mãos vazias, ao que tudo indica os selvagens abandonaram suas casas e procuraram refúgio nos cantos profundos de Silh. Contou-me tudo isso em troca de sigilo absoluto, se os altos descobrissem poderiám acusá-lo de traição sem rodeios, e tudo estaria perdido antes de termos uma chance. Porém o seu maior medo era outro, e parecia se concretizar cada vez mais com o cair das noites, temia que o invasor se juntasse com o velho inimigo para esmagá-los sem esforço, lhe restando a abdicação em troca de passagem segura para seus soldados.

Hoyt conhecia bem o jeito dos altos para querer me enrolar com essa conversa, a imagem que pintava de Vossa Excelência era bastante incomum: um governante que agia de acordo com suas responsabilidades. O normal para a nobreza era lutar ,com seus dentes brancos e unhas bem cuidadas, sacrificando o que fosse em prol de seus resquícios de poder que sobraram. E até então nada provou que dessa vez seria diferente.

—Foi só o que ele te disse – Depois de tanto ouvir era tudo que tinha como resposta, ainda incrédulo demais para aceitar milagres,

—Sim, verdade – Falou como se fosse uma objeção que por pouco não foi julgada – Nem acredito, mas depois de tudo que ví e ouví a seu respeito estou disposto a lhe dar o benefício da dúvida – Má escolha de palavras, mas ele preferiu ignorar minha carranca e seguir em frente – De qualquer forma, aparentava-se que tudo voltou ao nada, e por isso escolhí segurar minhas sugestões quanto ao problema, o Étel estava frustrado demais para dar ouvidos aos planos de um forasteiro. Ainda por cima mercenário. Pela próxima semana tudo que fiz a esse respeito foi sondar as expectativas dele e de seus súditos importantes, sem conseguir tirar nenhum proveito. Me encontrava numa dessas tarefas monótonas quando fui te procurar naquela noite, estava atrás de um conselho seu quanto a tudo isso, pretendia te contar sobre essas novas variáveis, meu julgamento apenas não bastava… e aí vimos Silh queimar, a prova cabal de que não estavam agindo juntos e a oportunidade perfeita para se aproveitar do desespero dos demais. Fui correndo ter com Vossa Excelência logo em seguida, não tive tempo de te dizer nada, tínhamos de contornar aquela situação imediatamente. Agora você é a terceira pessoa que sabe, aquele conselho foi uma farsa para convencer quantos pudéssemos do plano, engoliriam com mais facilidade se tudo parecesse expontâneo, decidido às vistas de todos. Quando na verdade levamos até o amanhecer para acertar todos os mínimos detalhes – Com certeza não era o único a estranhar toda aquela encenação. Procurava na memória relatos, até mesmo histórias que ouví, de algo similar ter acontecido antes: O Soberano dando ouvidos à um baixo mercenário, e não podemos esquecer estrangeiro, e seus planos de aliança com os inimigos de séculos. Qualquer um o chamaria de mentiroso depois de ter sido soterrado pelas suas revelações, mas sabia bem que as maquinações dos altos e dos mais espertos se mostravam intrincadas demais para alguém ter certeza de algo. Mas acima de tudo, esse não era o caso com o nosso líder. Hoyt quando desejava era esguio e manipulador com aqueles contra ou acima de nós, mas jamais era assim com seus pares, sempre nos dizia com franqueza nossas chances e se estávamos em uma péssima posição. Era culpado de ocasionalmente ocultar partes vitais da verdade até que o momento certo chegasse, o qual somente ele sabia quando. Procurava evitar julgá-lo demais, afinal mal sabia o que se passava dentro das paredes dos Senhores, quanto menos o que pensam por trás de suas expressões bondosas e condescendentes.

Ele então ficou um tempo a massagear as têmporas. Se me sentia drenado de minhas forças, não podia imaginar pelo que Hoyt estava passando, aquela era uma das poucas ocasiões em que tirava o disfarce e se permitia demonstrar fraquezas. Todos dele dependiam e acreditavam, e tal peso por vezes chegava a arquear seus ombros, em plena consciência de que sua primeira derrota será a última.

—Não durmo a dois dias… mas essa noite de sono me fará bem. Estava quase sonâmbulo até saírmos da mata fechada… e agora – Falava devagar, já segurando as poucas energias que ainda tinha – A única coisa que me mantém acordado é o cervo que o garoto nos trouxe.

—Ah, perdão se depois de tantos anos nossas conversas deixaram de ser interessantes pra você – Fingia chateação, e mesmo com a pouca luz deu pra perceber pela sua reação que notara um de meus raros sorrisos por trás da escuridão. Não culpava tanto os soldados que pelas minhas costas chamavam-me de Cceleb-Cara-Fechada.

—Não se lamente tanto, irmão – Sua mão sacudiu meu ombro de leve. Era algo que fazia para me perturbar quando ainda enão tinha nem barba na cara – Não somos mais tão jovens, os motivos para rir vão se esgotando com o tempo.

Meu olhar divagou um pouco, indo de rosto em rosto iluminados pela fogueira bruxelante. As sombras inquietas imputavam peso à tudo, pois além de alguns sussurros aqui e alí ninguém dizia palavra. Estávamos todos tensos, observando com atenção os galhos baixos e arbustos que serviam de fronteira natural para a clareira, à procura de silhuetas, aguardando o momento em que o luar vacilante os revelasse. Mas não se via nada, não fazia diferença o quanto se espremia os olhos ou com qual brevidade as nuvens deixavam passar certa luz. A escuridão reinava absoluta, e não seria diferente até depois do que normalmente considerávamos “manhã”.

Por vezes a imaginação torturava que aguardavam longamente o pior, pequenos gracejos que corroíam a sanidade já abalada pelo medo. Podia jurar que tive a impressão de ver minúsculos pontos luminosos, desaparecendo muito rápido quando mal os percebia, Não me decidí se eram canídeos selvagens ou meros vagalumes, e assim era melhor. O aroma do cervo tostando atrairí-a predadores como um farol guiava veleiros numa tempestade, mas por nada ter acontecido julguei que ainda estávamos muito perto de Cainhirst para me preocupar com isso, ou que tínham decidido aguardar pelos ossos quando fosse seguro. Os chiados da gordura pingando na brasa foram diminuindo seus intervalos, e vez ou outra um bolsão de ar alojado dentro da madeira assoprava para cima, enchendo o céu sem estrelas de fagulhas.

—Acho que temos oito dias até as coisas complicarem de verdade, e mesmo assim você não trouxe nossos melhores conosco.

—Ora essa, você não é nada mal.

Ele fazia troça para evitar tocar nesse assunto pela terceira vez, mas não importava o quão embaraçado me sentia por perturbá-lo com minha insistência, suas respostas até então não me satisfizeram. Ainda mais naquele momento que ele estava disposta a me revelar o que se passava atrás das cortinas.

Sabe que me refiro à Gwyne – Devo ter dito um pouco alto demais, pois ele levantou sua atenção da comida para nós no mesmo instante. Sorriu e acenou em nossa direção, respondí-o com um leve inclinar da cabeça, e ele voltou-se ao que estava fazendo. Pouco me importava se sabia que falávamos dele, nunca tentei esconder que não havia amizade entre nós. Hoyt suspirou, massageou as têmporas e respondeu:

—Entendo que ele possa te dar nos nervos as vezes, mas acredite quando digo que o rapaz é bastante promissor. Claro, eu sei, ainda age como alguém que a pouco deixara de ser criança, podendo ser ingênuo. Mesmo assim é um dos melhores que temos, tão habilidoso quanto Ahmyre e quase tão forte quanto você.

—É o que dizem repetidas vezes, mas ainda hei de saber por mim mesmo – Incomodava saber que mesmo não tendo atravessado os mesmos infernos que nós ainda sim o achavam grande coisa. Era história velha, o jovem que sem esforço ultrapassava seus sêniors, como se cada geração de outrora minguasse com a chegada das novas. Mas não engolia que um jovem inexperiente, sem nenhum grande feito atrelado ao próprio nome, de repente possuísse os atributos que tanto sangramos para conquistar, vendo a maioria tombar nas beiradas do caminho. Gwyne fora enviado junto com outros verdes para engrossar um pouco nossos números magros, já era um de nós mas de outro destacamento. O mesmo que zanzava pelo leste de Prívia, servindo de defesa para certo Alto que precisava guardar suas fronteiras dos ataques vindos do País dos Clãs. Era uma região tida como boa fonte de contratos, fazendo com que muitos bandos de mercenários ali se alojassem perenemente, por vezes deixando alí até dois terços das suas forças. As tensões entre a imensa Prívia e os fragmentados clãs nunca subsidiaram completamente, e já se foram muitas gerações desde que entraram em guerra declarada. Dessa forma, nós julgávamos ser uma boa triagem para os recém-chegados, já que a ação por lá não era diminuta a ponto de caírem em ócio, nem os conflitos grandiosos demais para nos causar perdas significativas. Acreditava eu que a maioria não era assim, imaginava-os vivendo indolentemente nas terras amenas, resumindo suas existências como guerreiros a se apoiar numa lança até a troca da vigília, enquanto nós nos lançávamos de cabeça no maelstrom de carne e ossos. Ao menos não eram todos que se contentavam com essa situação, era sabido que os destacados alí seriam convocados para qualquer outro lugar onde eram mais necessários. Onde as batalhas verdadeiras, de aniquilação ou custosas vitórias, aconteciam. Assim sendo, Gwyne fazia parte dessa leva, e mesmo não ocorrendo nenhum drama de lá pra cá, ainda sim o tinham com alta estima em nosso meio, altas expectativas se tinham do garoto, mas para mim ele não passava de uma criança carismática, ao qual eu aparentemente era imune. E devo dizer que não foi por falta de tentativas, tentava se aproximar em busca da minha amizade, talvez achando esse um melhor caminho para subir na hierarquia. Mas não demorou muito para que compreendesse minha postura, e até então mantinha uma distância respeitosa salvo as poucas vezes que experimentava gracejos, atento às respostas. Mas uma parte de meu bom-senso me dizia que tratava-o com tanta exigência pelo simples motivo de não ir com sua cara, o que poderia me impedir de reconhecer o crédito quando era devidamente merecido. Afinal de contas, nem mesmo a sorte permitiria uma flechada tão certeira, disparada na penumbra. A imagem do cervo, com seu olho transpassado, colocavam meus questionamentos em suspensa dúvida. Visivelmente Gwyne não era daqueles que se sobressaíam dos demais, esguio se comparado aos outros soldados de mesma idade, e até esses possuíam uma ou duas cicatrízes que atestavam à suas vitórias contra a morte, e as mostravam com orgulho, normalmente inflando suas causas. O jovem até então parecia intocado nesse quesito, geralmente usando vestes que o cobriam até a altura do queixo, e um corte de cabelo mais longo que o normal entre os seus semelhantes em posto, que adotavam cortes militares. Quando de armadura suas mechas cor de areia transbordavam das aberturas do elmo, as mesmas que no dia-a-dia cobriam seus olhos verdes com uma franja. E mesmo assim era capaz de ver como um falcão. Vía-o constantemente treinando com seu arco quando não aparentava estar desocupado, e mesmo nessas ocasiões só sua cabeça ficava descoberta. Era algo que atraía o olhar, feito de madeira negra com toques avermelhados, de aspecto rústico pela falta de acabamentos, que ao serem puxadas suas duas extremidades ao retesar da corda, estalava tanto que sempre parecia a ponto de se partir. Mas acabava sempre ricocheteando para sua posição original, logo se enrijecendo e findando a nota que emitia com o vibrar da corda, o som era logo acompanhado pelo silvo da flecha, rápida demais para muitos olhos. Toda essa imagética já destacaria o garoto franzino entre nossas fileiras, porém era quase toda eclipsada pela estoque que pendia em sua cintura, quase tocando seu calcanhar. Eram espadas incomuns que a muito não eram feitas, geralmente erguidas em paredes como relíquias ou desperdiçadas nas mãos de Altos que por via de regra não precisavam se preocupar com suas vidas, protegidos por linhas e linhas de soldados enquanto bebericavam vinhos de cima da colina. Esses quase nunca perdiam, se fossem deixar a segurança de seus muros o faziam com a vitória nas mãos, e por isso era natural que não víssem valor algum no aprendizado da esgrima. Dessa forma, uma estoque desembainhada era usada errôneamente como uma espada de duas mãos mais requintada que o resto, ou assim sendo nas pouquíssimas vezes em que ví por mim mesmo ou ouví os relatos jocosos dos outros descartáveis. Quando era na verdade uma comparação esdrúxula que com brevidade deixava de possuir paralelo. As semelhanças entre ambas encontravam fim no comprimento, uma era robusta, densa e implacável, tanto que com a perda de seu fio ainda servia como um longo porrete de ferro capaz de esfarinhar ossos. A outra era graciosa, ligeira e traiçoeira, utilizando de sua extensão para manter a distância e sua precisão para cravar-se na carne entre uma respiração e outra. Sendo muito mais prática para golpes horizontais e estocadas suscetivas, e para isso sua lâmina tinha de ser leve, de pouca espessura, e consequentemente mais frágil. Os idiotas que a empunhavam eram incapazes de enxergar além do seu tamanho, ignorando a disparidade de peso ao empunhá-las do jeito errado, com ambas as mãos. Atacando com golpes descendentes cheios de fúria, como era costumeiro com as espadas maiores, e posteriormente confusos quando a lâmina quebrava ou entortava toscamente. E eu não recordava uma situação em que Gwyne a tenha sujado de sangue, e me perguntei em qual das categorias ele se encaixava: se subia e descia com ela apenas para causar inveja nos menos afortunados, ou se a usava como uma criança acertando inimigos imaginários com um galho. Podia-se dizer que era uma escolha incomum para alguém tão novo, que em via de regra tinha pressa demais para gastar seus preciosos dias aperfeiçoando as vias de uma arma excêntrica e delicada. Mas não estava tão longe da realidade o cenário em que uma bolsa de moedas rechonchuda convence um ferreiro à se dar mais ao trabalho, e mesmo assim o resultado, se ao menos satisfatório, não arregalaria os olhos de ninguém. O caso da estoque dele não podia ser mais diferente, o cabo era feito de um metal esmaltado em branco fosco e trançado por uma grossa lã encardida que já se deteriorava, o mesmo material revestia o pomo em forma de ponta e o guarda-mão estreito de pontas côncavas. O chape, a peça que unia a base da lâmina com a guarda, era composto por várias hástes pequenas que se curvavam em espiral, se assemelhando ao formato de uma esfera à distância mediana das extremidades. Podia parecer somente um mero floreio, mas compreendia que era uma escolha deliberada para melhorar a defesa da guarda, possibilitando até que o usuário alí entranhasse os dedos para evitar que o controle escorregasse. O aço cortante até então permanecia enclausurado dentro da bainha, não saberia dizer nem mesmo a sua cor. Os dois não combinavam em nada, o que uma arma dificílima de se ver em campos de batalha, de alto custo e exigente manejo fazia nas mãos de um zé ninguém de nome cômico? Herança não me parecia nem um pouco plausível para alguém como ele, restando então a pura sorte de tê-la encontrado em meio a pilhagem dos campos salpicados de carmesim, à procura de qualquer brilho dentre os restos dos derrotados.

Estes pensamentos logo se afastaram quando percebí que as núvens carregadas não mais escondiam o céu estrelado. Calculei que em menos de três dias a Lua estaria cheia, sua luz parecia tomar forma ao atravessar a tênue auréola prateada que a circundava, iluminando parcamente as serras e depressões obtusas de Silh que nos rodeavam, como muralhas intransponíveis que isolavam o mundo de fora, fazendo com que os nativos mais ignorantes ouvíssem melindrosos às histórias de outras províncias, de terras de areia e desertos de gêlo. E muito ao longe, para o oeste, ás custas se elevando do horizonte de declives mais modestos, os picos montanhosos encadeados d’Os Dentes podiam ser vistos por olhares agudos, suas formas já em mescla com a noite na verdade eram pouco mais que silhuetas.

O céu noturno de Arnor era tido no imaginário do boca-a-boca dos comuns como o mais belo do Continente. Muito provavelmente pelo fato de que todos que repetiam esse fato consumado jamais chegaram sequer perto das fronteiras da Terra da Chuva, preferindo fantasiar com a exoticidade que circundava a história conhecida da região. Mas os próprios locais pensavam parecido, muitas vezes se reunindo horas após o crepúsculo para se perder na imensidão das estrelas. Do mesmo jeito que fazíamos no momento, pois até mesmo um mês de privação da morada dos deuses nos fazia aguardar ansiosos pelo seu ressurgimento. Então compreendí que mesmo as coisas mais simples da vida, que não pagamos ou trabalhamos para ter, nos parecem ser insignificantes até serem tiradas de nós. Mas para o povo de Arnor os astros jamais foram tomados como garantia, sendo assim causa de celebração interna quando enfim se revelavam.

Talvez nem mesmo os deuses tenham a completa noção do quanto que essas pessoas detestavam a chuva eterna. Certa vez ouví que chovia tanto devido a insistência dos camponeses por dias ensolarados, que de tanto se repetírem acabavam por despertar o lado vingativo das divindades, resultando em mais castigos. Recordando disso também lembrei de outra conversa que captei, essa remetia aos Festivais Solares que aconteciam no verão, um denominador comum para as variadas festividades que ocorriam na província. As duas semanas de sol intenso eram celebradas de maneiras peculiares, indo de peregrinações até os templos erguidos nas encostas d’Os Dentes ou para as ruínas dos Antigos espalhadas pela floresta, à coloridas festas populares esbanjando fartura raramente vista no resto do ano.

Deixei a Lua de lado para focar a atenção nas constelações, seguindo as mais fáceis de se reconhecer até identificar Os Irmãos, o remetente das minhas preces e orações. Era fácil os encontrar em meio ao que muitos julgavam uma confusão, fácil para os atrelados aos deuses astrais, devo dizer. As duas estrelas moravam num espaço reservado do céu, como um vazio em que Arlíndeo, O Ocre, e Dâmias, A Safira, eram os únicos que tínham permissão da habitar. Viviam á parte dos outros deuses, seus brilhos se mesclando com a proximidade que por vezes os faziam ser confundidos por uma só entidade, representando a harmonia ideal dos consanguíneos ao mesmo tempo iguais e diferentes. Para eles não importava o que se passava abaixo, sejam tempestades no oceano ou nas dunas mutáveis, Arlíndeo e Dâmias estariam reunidos em sua reluscência, mesmo que as núvens não nos deixassem vê-los.

Sinto falta de meu irmão, seja sua proteção de minha sombra ou sua alegria contagiante me erguendo após ser acometido por tristezas, nossas disputas. Depois de tantos anos vivendo sem ele, só restaram as memórias já turvas e o seu nome materializado, e nem mesmo Os Irmãos me traziam conforto, restando apenas o hábito. Quase todas as noites eu a procurava, a sinergia entre nós se perdera, havia perdido minha metade, seu sentido só me recordava a perda, a vida incompleta que me fora legada.

Mas sobraram confortos. Sem notar, meus olhos desviaram para onde deixei Bastiom, pendurado num galho próximo, balançando conforme o vento. Sentí o impulso de levantarme e trazê-lo para junto de mim, mas contive essa vontade repentina. Os Escudos pareciam despreocupados, mas ao prestar atenção em seus olhares corridos, a respiração controlada, seu estado de prontidão vinha à tona. Suas armas permaneciam ao alcance de seus braços.

Cartansis e Gwyne trocavam palavras amigáveis em lados opostos das chamas e da carne pingando gordura. O garoto estava sentado de pernas cruzadas, fazendo perguntas com entusiasmo. Coisa rara de se ver, já que a maioria d’Os Escudos prontamente se recusariam a conversar tão displicentemente com o resto da plebe. Normalmente os ignorando enquanto jogavam flores em seu caminho. Incerto afirmar se veria tal confabulação novamente, os próximos dias seriam cruciais, com o perigo aumentando a cada passo.

—Não dá pra ver a fumaça daquí – Hoyt falou sem que estivesse prestando atenção, levando um tempo para agrupar os significados do que dissera – Isso me fez esquecer por um tempo a loucura disso tudo, não deve ser “natural”. Perguntei aos anciões que conseguiram chegar à Cainhirst com vida, nenhum deles tinha alguma recordação de incêndios parecidos em Silh. Não achavam tal coisa possível até verem por sí mesmos.

—Se sobreviverem jamais irão esquecer aquela noite. Deu a impressão que todo o horizonte for a envolvido pelas chamas, rastejando com extrema paciência até nós.

—Sim, sim. Como se já não bastasse essa chuva maldita, temos de suportar cinzas caindo em nossas cabeças!

—Eu ouví que era feitiçaria – Gwyne veio dizendo ao se aproximar. Trazia bifes de tamanho considerável enrolados em folhas de figueira. Eu, Hoyt e Ahmyre eramos os últimos a serem servidos, e Gwyne então sentou-se próximo sem nem pedir permissão, devorando uma placa de costelas sem decoro. Falando entre mastigações – Me contaram todo tipo de maluquice no castelo, que alguns conseguiam ver ao longe formas estranhas que pareciam dançar em frente ao fogo. As chamas enormes acompanhando seus movimentos, fazendo sombras e…

—Eles costumam se divertir às custas dos que se impressionam fácilmente – Interrompí antes de arrancar um naco com os dentes. A carne não esfriara nem um pouco, fumegando ainda na boca. Não teria ficado tão boa sem as ervas picantes misturadas no azeite, a superfície um pouco chamuscada era crocante como um pão bem feito -Por sinal, bom trabalho – Negar a satisfação desse jantar seria imaturidade de minha parte. Só porque o garoto as vezes andava nos meus calos não significava que era incapaz de ser um pouco amigável, quando merecido.

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—Bem… eu… — Me pareceu hesitante ao ouvir um elogio meu – Não faço ideia de como isso é possível, não é como se aguardente caísse dos céus.

—Que assim jamais seja! — Brincou Hoyt ao erguer o odre menos rechonchudo.Uma pena que não duraria até a volta. Se ao menos houvesse uma – O que temos aquí já é mais que suficiente!

Quando percebí, Gwyne já fazia parte da conversa. Com um aceno Hoyt o convidou à se aproximar e compartilhar da bebida. O jovem bem que tentou, mas não conseguiu esconder a careta quando sentiu a aguardante abrazando sua garganta.

—Ah… — Levou a mão à testa, parecia sofrer de tonturas – Não faço ideia de como vocês conseguem beber esse chute no estômago tão fácil. Até tentei me acostumar, pra ser machão que nem vocês, mas temo que minha paixão ainda é a cidra.

Rímos baixinho, até Cartansis contia o divertimento.

—Cidra!? Por acaso estás a esconder um vestido debaixo das calças? — Ahmyre gargalhou enquanto asfixiava a fogueira com terra.

—Que posso dizer se vocês há anos perderam o paladar, bebendo esse negócio.

—Bom e barato, meu jovem. Você está quase cercado de simplórios aqui.

Continuaram jogando conversa fora , meus pensamentos me ocupavam demais para suas trivialidades me entreterem. Terminei meu pedaço em silêncio, segurei um bocejo com a mão e me levantei. Apanhei Bastiom do galho e estendí o isolante numa parte da relva sem pedras. Os Escudos já tinham se retirado à esse ponto, e Hoyt dava a entender que logo faria o mesmo.

—Ahmyre. Se importa de ficar com a primeira guarda? Me acorde daqui algumas horas…

Estava repousando as costas, Bastiom embainhada logo ao lado, quando Gwyne interpôs:

—Pode deixar, Cceleb. Posso ficar com a próxima vigília.

Se estava procurando me agradar, não liguei:

—A energia da juventude… tão altruísta – Fui falando de olhos fechados – Faça como quiser.

Virei as costas e fechei os olhos. Não demorou para que sonhos viessem me levar, mas confesso que preferia a palha mal-cheirosa dos estábulos. Talvez pela presença das quatro paredes e um teto sólido sob minha cabeça, o que nunca tive mas mesmo assim sentia falta ocasionalmente. Dormí sem muitos problemas, sem pesadelos ou barulhos próximos me acordando subitamente. Mesmo com todas as variáveis dando voltas e voltas em minha mente, o cansaço foi vitorioso. Quando os restos da lenha a muito tinham deixado de emanar fumaça, um chuvisco começou a cair, puxando-me de volta. Praguejando para mim mesmo cerrei os olhos e puxei a coberta de pele para mais perto do rosto, virando o corpo para a imensidão da clareira.

Foi quando ví Gwyne ao longe.

Estava descalço, usando apenas uma camisa de linho da cintura para cima, e em sua mão direita estava a estoque.

No meio segundo que se ergueu em uma posição de guarda, pude enxergar o luar refletido um brilho pálido, a lãmina livre.

A fraca luz tremulava e desaparecia com velocidade espantosa, girando em arcos nas duas direções , acompanhando os passos firmes se perdendona grama alta.

Com as costas arqueadas, o raio prateado passou por cima do seu corpo cortando o ar sem perturbá-lo.

Logo se erguendo e girando o próprio eixo, a espada desceu com mais ímpeto dos seus ombros. Perdendo-se de vista.

Ouví seu silvo opaco, só depois enxergando novamente sua forma, pousada acima da relva.

Ao acordar na manhã seguinte, julguei ter sido apenas um sonho, mas diferente da maioria, este insistia em permanecer em minha memória. Todos já estavam de pé nos primeiros raios do dia, mas não que houvesse algum, mais um modo de falar. As núvens se condensavam num céu esbranquiçado, impedindo qualquer calor de atravessar.

Comemos juntos sem falar muito, pensando em coisas diversas enquanto forçávamos a descida do cereal pela goela. Meu cérebro ainda estava desamassando depois de despertar, não escutei de primeira o que Ahmyre me dizia.

—Sim… já é hora – Ele assentiu e foi buscar os cavalos. Logo retornando em um trote, trazendo os outros com uma corda.

—Isso me lembra os campos de onde vim. Por volta dessa hora estaríamos atrás dos cavalos nos pastos, um espaço aberto como esse – Ahmyre não mais contia o sorriso. Montava ereto de peito estufado, as mãos pousadas nos joelhos – Você já estava lá não é!? No sul de Tártam. É bem parecido com aquí, o clima, mas felizmente vemos o sol com mais frequência. A costa é repleta de penhascos, ainda quero voltar um dia para cavalgar do alto, com o oceano na minha direita, as gaivotas planando contra a brisa do mar…

—Credo, bom dia pra você também – Estava enérgico demais para alguém que pegou a segunda guarda. Enquanto eu estava cabisbaixo, coçando os olhos – Não sou que nem você de acordar sorrindo, vamos com calma.

Não ligava se estava sendo rabugento, ele da mesma forma me entregou as rédeas de Abusado, que compartilhava do meu humor, vinha até mim arrastando os cascos.

—Está ficando velho e ranzinza, meu amigo – Ele não resistiu.

—Sei, sei. Talvez por isso ainda esteja aquí.

Cartansis e Gário se aproximaram de onde estava para reaver seus cavalos, criaturas bem diferentes das que nos foram dadas, impossível de serem do mesmo estábulo. Já Os Escudos estavam quase tão desgrenhados quanto o resto de nós, suas armaduras não tão reluzentes quanto no dia anterior.

—Um bom dia a você, que a Lua te ilumine novamente – Disse uma voz estranha aos meus ouvidos. Era Gário que me interpelava, quem diria que era capaz de falar. Mesmo o fazendo com dificuldade, hesitando nas palavras e fazendo visível esforço para suavizar sua pronúncia.

—O mesmo a vós – Meu tom poderia ter sido mais amigável, mas era inútil maquear minhas suspeitas.

—Perdão... por não ter a você difigido fala até agora – Suas fricções pareciam tensas, como se requerendo esforço. Mas o notável era seu sotaque ríspido demais até pra a velha fala, o mesmo que me causava confusão quando conseguia ouvir seus raros murmúrios. Eu tinha idade até considerável para os parâmetros do presente, e a vida de mercenário me levou aos quatro cantos d’O Continente, mas ainda assim aquele jeito de falar me soava desconexo dessa terra, não fazendo a mínima ideia de onde sua orígem poderia ser. A única hipótese que me veio à mente foram as ilhas de Catanô, onde os residentes eram renomados pela sua fala difícil de compreender, fazendo os mercadores arrancarem os cabelos de frustração, mas não tanto a ponto de ignorar as conchas e ostras que abasteciam os castelos em todo O Continente – Muito mal foi dito sobre os termos do negócio… negociação! Seu mestre os teria?

Fiquei olhando que nem um idiota para a cara dele, meu cérebro ainda preguiçoso para entender suas palavras sem pensar antes.

—Mestre? Fala de Hoyt? Foi o que imaginei, é uma expressão estranha nos dias de hoje – No papel a servidão for a abolida antes que eu nascesse, mas era do direito de cada soberano o quão cego fingiria ser com seus Altos mais ricos – Ele é meu comandante – Disse apontando para Hoyt, que observava de longe os meândros de Silh, onde a clareira ia perdendo controle até ser engolfada pela mata, negando toda visão para além – Mas de qualquer forma, se o seu chefe não te informou, o meu líder provavelmente está ignorante a isso – Logo em seguida decidi ser maus específico, ao mesmo tempo tomando cuidado para falar mais lento e pausado, evitando abstrações e expressões dúbias comuns na fala velha. Gário pareceu agradecido com a gentileza – Nossa missão foi expressa no sentido de fazer uma aliança, e levando em conta nossa situação, não há preço alto demais.

—Isso é tarefa para o seu… Étel resolver depois – Dessa vez eu quem tropecei. Por algum motivo a expressão que eu corrigi poucos segundos atrás quase pulou da minha boca – Tudo o que temos de fazer é trazer um exército amigo até eles – Meu sorriso irônico foi proposital.

Estava visivelmente atarefado em organizar meus pertences na cela antes daquela conversa estranha começar, então voltei a isso, mas sem lhe dar as costas, esperando que com isso aquela interação se findasse.

—Um momento, espere – Seu tom ganhou ares mais imperativos, mas ainda assim mantendo cordialidade – Se encontrarmos com Kushan?

Levou mais tempo para pensar a respeito das suas intenções do que o significadoem sí da pergunta. Era apressada e direta demais para que as anteriores não fossem apenas introdutórias. Desviei o olhar para as copas das árvores balançando ao vento, procurando a fumaça em meio as núvens cinzentas que traziam a chuva.

—Difícil dizer, mas acredito que nos dirigimos noutra direção que não a do fogo. A não ser que se espalhem da linha reta que traçam à Cainhirst, é pouco provável que os encontremos por aquí. Por quê pergunta?

Decidi que já era hora de inverter o interrogatório, já não mascarando minhas suspeitas. Atitude que Os Escudos não tínham costume em meio à tantas reverências, geralmente se dignando somente a ignorar os que não aplaudiam sua passagem. Mas em meio a Silh essas diferenças entre nós perdiam sua substância, onde só a flora era testemunha dos acontecimentos. Só não esperava que o mais reservado dos nossos guias, vigias e executores aproveitaria as primeiras horas do dia para me questionar, tirando vantagem da distração do resto do grupo.

Gário parecia calcular os desdobramentos de todas as suas opções de resposta, e imaginei que com sorte receberia uma meia-verdade:

—Já deve ser boa hora para falar, sobre eu…

—Por favor, releve a impertinência do meu irmão juramentado – Disse Cartansis ao nos interpelar. Deveras parcimonioso, julguei. Não era próprio de alguém da sua ordem pedir o perdão de um Baixo como eu, mas o fez com a maior naturalidade – Não é bem versado em nossa terra, deveria ter feito à mim suas perguntas – Reconhecia a repreensão velada quando acontecia bem na minha frente. De fato, o comportamento de Gário tinha sido bem anômalo – Mas, de qualquer forma, corroboro da opinião do nosso execelentíssimo Cceleb. Nada além de árvores e selvagens por esses lados de Arnor.

—Estamos entrando cada vez mais no território deles – Disse enquanto que minha ansiedade crescia à cada palavra, vigiando os arredores – Melhor não os insultar.

Cartansis perdera um pouco do seu brilho, seu aspecto de cavaleiro valoroso e imaculado. Devia dizer que estava a poucos dias de parecer tão maltratado quanto o resto de nós, do jeito que as coisas iam. Algumas mechas de seu cabelo curto estavam saltadas e seu bigode estava desalinhado e serrilhado após uma noite de sono agitada. Mas seus olhos de amêndoas permaneciam afiados, atentos aos meus trejeitos. Mesmo não estando de fato entre nós dois, a sua presença era como uma barreira que não mais permitia Gário de prosseguir com o que queria me dizer, apesar de ainda manter os ares de benevolência.

Notei que estava ignorando minha deixa, então limpei a garganta e disse-lhes:

—Se é tudo que vossas senhorias necessitam da minha pessoa, com licença – Fiz uma leve mesura, e então lhes dei as costas ao me afastar, conduzindo Abusado com dificuldade.

Uma lufada de vento ruidosa me pegou em cheio por baixo, momentaneamente competindo com meu andar e levantando minhas vestes. As placas de metal e couro endurecido já postas por baixo da capa poída, que apertei na cintura para me proteger melhor da geada. Quando me dei conta tinha parado para observar uma extensão a primeira vista aleatória da clareira, em intranspecção. Ao sair do devaneio, notei que estava na verdade a recordar o que achava que tinha visto, incerto de ter sido um sonho. Os movimentos exímios de uma lâmina branca e esguia, lançando sombras que seguiam o caminho dos seus movimentos quando engolfados pelo luar. O mesmo ocorrendo com aquele que a empunhava numa dança letal, rasgando o ar à sua volta em movimentos girarórios sob o próprio eixo.

Estava olhando para Gwyne, sem ter a exata certeza do que via. A imagem bucólica de um garoto acariciando a crina de seu cavalo enquanto dava-lhe de comer em embate com a sua fúria e pestreza ao desembainhar suas garras.

Sua aljava, como de costume, estava cheia de flechas grossas e negras que facilmente atraveçavam metais baratos. A estoque pendendo na cintura, como uma fera adormecida que acabara de se recolher de volta para sua toca.

Devia o estar observando sem reservas, e assim como na noite anterior em que me notara, ele acenou com um sorriso, as expressões tão serenas que me faziam duvidar da sua compreensão sobre nosso perigo. E sem saber por quê fui caminhando em sua direção, talvez atraído por uma curiosidade involuntária.

—Tudo ocorreu bem? — Foi o que consegui improvisar quando me parei à sua frente.

—Sem problemas, não ví nem ouví nada for a do normal. Passadas algumas horas o sono me acometeu e requisitei a troca com o Capitão Ahmyre. Senhor.

—Relaxe garoto – Falei passando a mão pelo rosto – É cedo demais pra isso, não estou exigindo um relatório seu.

—Ah… nesse caso, um bom dia a vós – Respondeu mostrando os dentes, rindo de embaraço. Ao começar a chover ele cobriu os cabelos cor de areia com o capuz, e sem dizer nada nos dirigimos para debaixo de uma árvore velha ao lado do que provavelmente um dia foi um muro, hoje restando as ruínas de ambos. Aguardaríamos alí enquanto os outros terminavam seus preparativos para a partida.

—Não faço ideia de como conseguem viver nesse mar de lama. Me faz um favor, Cceleb? Quando saírmos daquí, me ajude a convencer os outros a nunca mais voltar à esse lugar.

—Há! — Não ví razão para não jogar conversa fora – Já estávamos juntos nessa antes de você falar algo. Nunca estive aqui antes, mas só de ouvir as histórias nunca que viria para cá por escolha própria. Mas veja, as recompensas são mais generosas quando os Altos estão encurralados. Hmm, dessa vez literalmente – Dei-lhe um sorriso sórdido. A chuva em outras províncias, principalmente as mais ao norte, costumava ser a alegria dos camponeses, que aguardavam sua chegada com os dedos entrelaçados rente ao peito, já imaginando o que fariam para continuar se levantando todas as manhãs numa estação de estiagem, e quais de seus filhos tinham mais chances de sobreviver. Já em Arnor era um estorvo que não parecia ter fim. Afogava boa parte do pouco que podia se plantar, por vezes destruindo tudo com as tempestades mais intensas, e até mesmo inundava as minas que ofereciam parco sustento. Assim obrigando a maioria da sua população interiorana à se virar com o pouco que a criação de caprinos possibilita, já os habitantes da região de Cêrea, a capital, eram outra história.

—Os Kushan poderiam ter invadido qualquer outra costa, mas aquí estamos – Gwyne continuava a reclamar – À mim não faz sentido nenhum insistirem tanto nesse pedaço horrível de terra. Não entendo, nem mesmo nós nos damos ao trabalho…

Ele dizia verdades inadequadas aos ouvidos orgulhosos d’Os Escudos, mas por sorte estavam longe para escutar. Ouví antes teorias mirabolantes que justificavam a invasão, ainda quando isso era importante. Complexas e cheias de hipóteses, “e se”s em demásia, para explicar algo que parecia simples, mas ninguém enxergava.

—O que? — Gwyne me perguntou, pois deveria estar fazendo cara de paisagem, distraído com as várias peças sendo postas em ordem até formularem uma resposta.

—Lembra de ter visto um mapa da região – Ele balançou a cabeça – Bem… é como se Arnor fosse cercado pelos Dentes, isso quase praticamente o isola de seus vizinhos. Tanto que suas fronteiras não são bem definidas, as montanhas já servem de barreira natural.

Ele me encarou ainda confuso, incerto sobre aonde queria chegar com aquilo. Talvez até surpreso d’eu estar mais falante que de costume.

—É como você disse. Tartam, Prívia, Mêrgo ou Rorbano se incomodam em expandir para esses lados. Não conseguiriam.

Gwyne então arregalou os olhos quando atingido pela compreensão dos motivos que ditavam nosso destino. O que levava esse povo estrangeiro, quase esquecido, a focar sua invasão numa terra árdua sem riquezas substanciais. Estavam claramente atrás não apenas de ouro e trigo, como era de prache dos governantes insatisfeitos com o muito que já tinham, mas sim do território inteiro. Do pólem carregado pelos ventos primaveris à lama nas botas de um camponês em meio à colheita.

Gwyne finalmente tinha uma explicação que sanasse suas perguntas, e por isso estava feliz. Tanto que levou a mão a testa, puxando a franja para trás sem perceber. E como que esperando já sem paciência por essa chance, uma fenda muito acima de nós se abriu no céu esbranquiçado, deixando uma pequena, mas vigorosa parte do sol matinal escapar num facho de luz vívido e caloroso. Forte o suficiente para fluir através da árvore morta que usávamos de abrigo, iluminando ambos nossos rostos.

E então, um aspecto físico seu, antes oculto de todos, enfim se revelou em toda a sua distinção. Sabia que era umsegredo bem guardado, já que do contrário seria impenssável que eu estivesse descobrindo só naquela altura, algo assim seria motivo de falatórios que durariam meses, quem sabe capazes de produzir consequências imprevistas.

Gwyne carregava uma marca expecionalmente rara, até desacreditada de ter um dia existido, visto que suas histórias remontam tão longinquamente em nosso passado que não seria de se espantar que fossem invenções de uma mente fértil, quiçá febril. E pouco perceptível diga-se de passagem, não por suas mechas estarem cobrindo seus olhos quase todo o tempo, e sim pela sutileza de seu disparidade.

Achava que sua íris esquerda era igual a direita, dotada de um verde opáco, olhos-de-musgo, e de fato assim parecia a todos que lhe prestassem certa atenção. Mas com os cabelos levantados e a luz do sol refletindo o contraste, sua tonalidade azulada ficava aparente mesmo aos olhos já turvados pela idade, de tanto que reluzia contra à claridade, sua cor reluzindo como uma safira encandescente, sem remorsos quanto à sua distinção do outro olho esverdeado.

—Agora faz um pouco mais de sentido – Continuou, não sustentando meu olhar – A ilha de onde vieram devia estar ficando bem apertada, e sabendo da rejeição que uma conquista geraria em outras províncias, podendo provocar uma coalizão contra os invasores… menos em Arnor, que é isolada a não ser por mar. Se forem vitoriosos, ninguém vai mover um dedo para os expulsar!

—E então serão os donos dessa terra, sem perturbar a convivência dos governantes – Pelo visto era esperto a ponto de entender sem muita ajuda. Vendo seu entusiasmo, fui logo dizendo com expressão jocosa – Nem comemore muito, garoto. Com certeza muitos Altos já pensam isso, e acho que a forma que a província tomar após o seu extermínio não os interessa muito, pois não estará mais sob seu comando, quem sabe irrecuperável. Esse medo os faz ignorar esses “por quês”.

Gwyne parou um tempinho para rememorar minhas palavras, pareceu não ter pensado na falta de curiosidade dos soberanos quanto às dúvidas dos comuns.

—Você fala com razão. Mas de qualquer jeito cá estamos, defendendo essa rocha que não para de chorar – As núvens iam rugindo mais e mais, a torrente ganhando violência até conseguir dobrar os galhos e as poucas folhas que ainda lá viviam, derramando a água fria da manhã em pequenas cascatas. A enchurrada eventualmente foi tanta que não mais conseguia ouvir algo para além das gotas se esparramando aos milhares. Gwyne juntou as mãos em concha do lado de for a, e sem se demorar jogou contra o rosto quando o volume já escorria entre seus finos dedos— Devo ter dormido o suficiente, mas o corpo ainda tem preguiça.

Enxugou o rosto com a capa, afastando os cabelos da tez e mais uma vez revelando seus olhos de precurssor. Quando não iluminados havia certa atenção requerida para distinguir o azul do verde, portanto quando o tempo fechou a sua diferença poderia ser percebida apenas como uma ilusão, algo que não se tem certeza à primeira vista. Mas eu já sabia de sua existência, Gwyne a revelou para mim por engano da primeira vez, e por isso não sustentou meu olhar inquisitivo, por medo de ter sido descoberto. Devia estar os mostrando outra vez com algum motivo em mente, quem sabe me desafiando a trazê-los a tona, ou procurando certeza de sua descoberta em minha reação.

Pude quase visualizar sua mente trabalhando para formular os possíveis desdobramentos, as ramificações e consequências do próximo ato meu ou dele. Indo por esse caminho ele deixou que sua aura intimidadora transbordasse para além de seu corpo, prevendo que lhe fizesse algum mal com a informação que tinha em mãos. De repente o branco de seus olhos tornou-se vasto, à medida que seu olhar cortante foi-se afiando em minha direção. Não se moveu, mas foi como se a estoque em sua cintura saltasse mais à vista, ressoando com a ameaça que seu mestre emanava, seus musculos ficando tensos sem se enrijecer. O tigre mais mortal é aquele que não precisa de seu rugido para incutir medo.

Tudo isso não durou mais que um segundo, a chuva que antes descia enfurecida passou a cair lentamente, seu barulho não mais sendo ouvido, pois deixou de ser importante.