Sentí algo me cutucar as costas, me puxando para trás, Era Abusado mordiscando a ponta da corda que amarrava minha trouxa de víveres. Fiz carinho em seu queixo, subindo pela mandíbula até afagar sua orelha, logo vendo que a muito não eram limpas, ambas tinham carrapatos já gordos. Fiz uma nota mental para resolver aquilo depois, guardando-a lado a lado da que me lembrava à conferir com Hoyt e Ahmyre sobre o segredo de nosso jovem promissor. Eu não tinha certeza em como proceder com essa questão, então não o faria sozinho.

Gwyne pareceu aliviado quando dei-lhe a entender que não tocaria no assunto, pelo menos não diretamente. Não sentindo nenhuma intenção danosa vinda de minha pessoa, pois não havia nenhuma. E seu ar ameaçador foi-se dissipando rapidamente até desaparecer.

Então demos conta que os outros não pretendiam esperar a chuva esmaecer, já nos aguardando montados em fila.

—Devo estar vendo coisas, por acaso viraram amiguinhos? — Era Ahmyre me perturbando ao subir na cela, sentindo uma pontada estridente de dor em meu flanco, onde o ferimento ainda estava decidindo se se curava, como se me lembrando dele. Não respondí sua provocação pois Abusado resistia às minhas puxadas das rédeas, se negando à sair do abrigo, fincando os cascos no chão em protesto. Logo eu tinha de ter sido sorteado com o único cavalo de gênio difícil, pensei. Os outros tiveram de esperar um pouco mais naquela chuva cruel até que enfim cedesse aos meus comandos, seu andar arrastando a grama quase submersa.

Entramos todos num passo médio, estava iniciada a marcha do segundo dia. Estávamos realmente sendo castigados, olhei para cima e pude ver as ondulações da chuva seguindo o vento. Atravessando a clareira até a outra extremidade, encontrando o local em que a trilha serpenteava entre a mata dando continuidade ao percurso. Sentí um certo alívio ao ser coberto pela floresta, que nos guiava por um caminho em que o solo parecia revirado, e árvores tombadas para o lado quase numa fileira, uma passagem à garganta de Silh. O barulho das folhas sendo atingidas pela chuva ia aumentando conforme os galhos altos nos envolviam, as gotas se esparramavam em sequência até nos atingir quase sem substância, criando arco-íris quando o sol aparecia em dias menos cinzentos. Sem motivo olhei para trás, como que se despedindo da relva extensa à desaparecer, a perdendo de vista quando me ví nas profundezas.

A rota seguiu plana até encontrarmos até encontrarmos a primeira elevação, íngreme mas linear o suficiente para permanecermos montados. Achei que logo viria o declive, mas subimos à uma altura considerável até que chegamos numa parte plana em que a trilha se estreitava ao dividir espaço com rochas e árvores de tronco largo. Tive de prosseguir com cautela a sentir trepadeiras se fechando em minha visão periférica, e à frente avisaram para diminuir o passo. A vegetação ia dominando o caminho cada vez mais, um indicativo de que era uma rota pouco utilizada, até que fui obrigado a encostar o peito na crina de Abusado para evitar os galhos baixos de tinteiros e tabuás que tentavam em vão agarrar minhas vestes ao passar. Não sei se demoramos muito para chegar do outro lado, pois me concentrava para ignorar a claustrofobia se fechando em meu pescoço, mas ao atravessar aquele aperto foi como se pudesse respirar com folga, mesmo que o ar fosse abafado e úmido como era.

Notei que mesmo naquela área mais aberta a flora era mais selvagem que antes, pois as redondezas da clareira deveriam um dia ter sido desmatadas, quando as ruínas que deixamos para trás tiveram um propósito, e com cada volta da lua a floresta foi retomando o que já foi seu, mas não tendo tempo para apagar completamente a presença daqueles que ocuparam aquele espaço.

Imaginei se nos dois dias que passaram eram suficientes para chegarmos aos limites dos domínios dos homens, onde ursos raras vezes se aventuravam por haver menos caça e mais perigo de serem a presa. Me peguei atento ao som dos nossos passos, em busca de um ritmo dissonante que indicasse o avanço de uma dessas bestas, que iam ficando menos tímidas à medida que nos distanciávamos da nossa fronteira. Me contaram que o controle da sua população era muito bem incentivado, visto que as criaturas eram um tormento aos negócios por estarem sempre rondando as rotas usadas pelos comerciantes, colocando o oeste de Arnor em maus lençóis quando o custo da viagem se tornou elevado. Por isso ofereciam preço alto pela pele e dentes, mas mesmo assim não conseguiam fazer com que sumissem de vista, não havendo muitos caçadores com os meios ou a coragem para tal atividade. Na verdade eram um perigo não só aos que tinham da viagem um ofício, e sim de todos aqueles que precisavam deixar a segurança dos seus lares de pedra, mas por muito tempo só os agregados às vítimas pareciam se importar, quando achavam as carcaças de seus entes ou os davam por perdidos depois de poucos dias, pois os que desbaratavam em fuga dificilmente encontravam o caminho de volta. Isso perdurou até que os ursos cresceram em número e atacaram com mais frequência, forçando os Altos a oferecerem recompensas mais generosas por cada cabeça posta aos seus pés. Foi justo numa época de colheitas magras, agravadas ainda mais pelo pouco fluxo dos víveres que vinham de fora, um incentivo cruel para aqueles que antes evitavam esse perigo. Não há como saber quantos não tiveram fortes, apenas que foram muitos. Deveria me sentir tranquilo levando tudo isso em conta, mas Silh se estendia para além do que se podia ver, nunca se sabe.

Chegamos à um declive suave finalmente, a vegetação se dissipando ao dar lugar ao sopé de algum morro, o qual fomos descendo quase em trote, pois o chão abaixo não mais era envolto por folhas que escondiam raízes saltadas e pedras, sendo de terra batida e brita. Não oferecendo perigo aos cavalos, que naquela situação um tropeço quase sempre significava uma perna lesionada, não nos dando opção além de libertar o pobre animal de sua agonia.

Logo nos deparamos com um trajeto muito mais largo, uma estrada por assim dizer, em que o caminho que vínhamos seguindo era nada mais que uma veia. Um atalho para aqueles que tinham pressa e pouco volume à carregar, pois caso contrário não teriam escolha a não ser seguir pelas vias mais largas como aquela, própria para a passagem de carros e carruagens não apenas pelo espaço, mas também por evitar as serras mais obtusas e os dorsos das montanhas. Nossos rumos exigiam pressa, e um percurso mais desgastante e perigoso era o preço a se pagar se quiséssemos retornar à Cainhirst antes da chegada dos nossos inimigos.

Ouví a chuva amainar antes de sentir o calor dos raios solares que atravessavam as copas, passados alguns minutos a capa ainda pingando começou a esquentar. Puxei o capuz para trás e desfiz os laços que a mantínham justa na cintura, deixando que o ar circulasse. Pareceu passar uma hora desde que entramos na estrada, e ela seguia em curvas indefinidamente, a paisagem não alterando muito a não ser pelos rochedos ao redor cada vez mais pronunciados, o solo razo dando vida só à grama e arbustos, até que podíamos ver o céu por todas as direções. Sentí o ar frio das montanhas descer numa lufada e transpassar meu rosto sem muita gentileza, levantando a poeira até meus olhos. Só foi da terceira vez que Ahmyre me ofereceu o odre de aguardente que o tirei de sua mão, não bebendo dele uma gota. Segui seu exemplo e passei para trás, diminuindo o passo para que Gwyne alcançasse, mas também acabou recusando. Bom rapaz, disse consigo mesmo, mantenha-se afiado.

O tempo foi passando mais devagar que o nosso progresso. Os arredores sempre semelhantes davam a impressão de que não saíamos do lugar, e parecendo um padrão repetido a chuva teimava a voltar só para nos deixar ensopados e então cessar.

Ahmyre cantarolava baixinho primeiro sem perceber, e depois de o fazer conscientemente não conseguiu se conter, perguntando alto o bastante para que ouvíssem na frente da fila:

—Hoyt! Que tal uma canção?

De primeira não houve reposta, que poderia ser entendido como uma recusa ou uma falha na comunicação. Ahmyre já reunia fôlego para perguntar novamente quando Hoyt disse que permitia, contanto que fosse breve e de baixo tom. O Corrente Rubra se empertigou feliz e limpou a garganta, até que tinha uma boa voz, talvez estivesse ciente disso e por isso gostava tanto, por vezes me dando nos nervos:

[CANÇÃO À SER REFEITA]

Ahmyre ignorou ou esqueceu das condições de Hoyt, e continuou a canção até chegar no fim. Esta era uma das conhecidas, melosa demais para meu gosto. Geralmente era cantada em dueto, homem e mulher se alterando nos versos, como se a poesia fizesse questão de tocar nas dores de ambos os lados de uma relação. Parei de prestar atenção mais ou menos na metade, pois a música foi me embalando até direcionar minha mente para alguém que procurava não lembrar muito.

Irina. Do que deveria estar se ocupando naquele momento? Qual de nós dedicava mais de seus pensamentos para o outro? Se é que não era apenas fruto da imaginação o sentimento que se aflorou entre nós, um ideal inventando num mundo repleto de realidades cruéis. Mas mesmo assim fiz uma prece silenciosa em prol do seu bem.

As horas passavam mais agradáveis quando pensava nela, seus cabelos negros e corridos sem desalinhar, pele morena cheia de vida, e seu ar de cansaço que a tornava ainda mais bela. Fazendo nascer o desejo de tê-la em meus braços, de ficarmos sozinhos sem o mundo para atrapalhar… Mas sabia bem que não passava de fantasia, mesmo com a ternura recíprocra, ou pelo menos gostava de pensar que sim, não havia garantias de que voltaríamos a nos ver. E mesmo sendo agraciado com essa alegria, o além era ainda mais incerto, sendo o mais provável que Silh fosse meu túmulo e Cainhirst o dela.

Ainda submerso nestes devaneios fomos nos distanciando da estrada, seguindo por uma trilha paralela que aos poucos ia se distanciando até entrar na mata, onde mais uma vez os galhos nos abafavam os sentidos ao prenderem-se e nos puxar pelas roupas. Depois avistamos uma parte do caminho em que podíamos respirar mais livremente, porém ainda circundados pelos maus agouros da floresta. Quase não reconheci as cerejeiras em ambos os lados, de tão mortas que pareciam, seus troncos já ressequidos e suas folhas apodrecendo no chão. Mas havia outra coisa crescendo alí, algo que deveria ser nativo da região, uma doença que consumia a flora viva com toda a paciência da natureza. Já as tinha visto antes, mas emaranhadas com a vegetação distante, e por isso não prestei atenção. Porém alí pareciam fazer questão de serem notadas, pois se retorciam entre as cerejeiras como uma enfermidade, troncos finos e delineados cheios de espinhos que estrangulavam as cerejeiras, perfurando-as para roubar sua seiva até que nenhuma vida alí sobrasse além da sua própria decadência.

Não sei se era o único daquela companhia que se interessava tanto sobre tais assuntos, mas muito provavelmente o era. Ou até mesmo fora dela era difícil encontrar outros que se dispunham a debater sobre flores, rameiras e arbustos, pois a grande maioria punha seu estômago vazio como prioridade, só julgando dígnas de atenção e cuidado as plantas que os resgatavam da fome. Mas eu gostava de saber sobre as vidas deste mundo que não as nossas, e carregava imenso respeito pelas árvores à nossa volta, as quais muitos só conseguiam enxergar as utilidades que sua madeira traria, ignorando o fato de serem seres vivos como nós, tirando da terra e da luz do sol o seu sustento como qualquer outro. Só que eram eternamente silenciosas, e não julgavam necessário mover-se por nada que existisse, e por isso as viam como criaturas inanimadas, desprovidas de qualquer senso, colocando-as na mesma categoria que rochas. Falhando na simples constatação de que eram animais que tudo sabiam mas nada revelavam, pois o comprimento de suas vidas superava em muito a nossa, que gostávamos de nos gabar de imprecedente superioridade.

Tudo isso Hoyt me ensinou quando ainda era jovem, lições valiosas que me fizeram perceber o meio mais aguçadamente. Até mesmo acendendo em mim a vontade de saber mais, de guardar com esmero todas as formas e cores distintas que ví em minhas viagens, divertindo-me ao invertar nomes apropriados. As quais costumava gravar num pequeno livro de folhas brancas que levava comigo não sei mais por quantos anos, apenas de que já chegavam em muitos, pois as páginas se amarelaram e ficaram quebradiças, e a capa de couro já fragilizada ganhava cicatrizes novas a todo momento. Mas mesmo assim ainda guardava meus desenhos e garranchos de alguém pouco versado nas letras, compilando uma boa coleção de floras que presenciei nos quatro cantos do continente.

Sendo assim, alcancei a trouxa em minhas costas para pegar o livro no momento em que pude ver claramente essa espécie parasitária, ansioso para adicioná-la à coleção. E só naquela hora a sensação de ter esquecido algo finalmente me deixou, apesar de ter deixado um gosto amargo na boca. Em meio ao nervosismo da situação devo ter pensado somente no que era essencial, esquecendo do que era importante. Praguejei com vontade no momento, pois quando fomos convocados muitos sentiram desolação por terem de marchar para uma região tão árdua, mas eu secretamente me sentí ansioso para estar em meio á Silh e presenciar a respectiva vida que havia lá e transcrever tudo que julgasse interessante na tinta e papel. Carvão, na verdade. Penas e tinteiros eram coisas de Altos que tínham meios para isso, mas um lápis com ponta de carvão servia igual.

Mas nem todas as cerejeiras estavam mortas, algumas ainda se apegavam à vida, resistindo com sua madeira menos carcomida e suas pétalas solitárias. Pensava nisso ao mordiscar despreocupadamente uma tira de carne seca que levava para enganar a fome no meio do dia, quando aconteceu.

Abusado não me pareceu ser um cavalo velho, e por essa razão julguei que deveria enxergar bem o que se estendia à sua frente, a ponto de não precisar da minha condução. Engano crasso, pois nada o impediu de tropeçar numa raiz suspensa, parcialmente ocultada pelas folhas que cobriam a terra, sendo provavelmente uma extensão daquela planta parasita que buscava o que consumir. Caiu num estrondo, me levando ao chão de forma tão repentina que não tive outra reação a não ser me estatelar. Usei os braços para proteger o rosto, pousando de lado em cima de algo rígido, quiçá uma pedra, que me atingiu quase que exatamente no ferimento que custava a se curar. Ignorando a dor angustiante rolei para o lado à tempo de evitar uma perna esmagada. Pois Abusado mesmo de bruços não conseguia se sustentar, seu sofrimento era tamanho que em desespero foi jogando o corpo para os lados, berrava tão alto que chegou a machucar meus ouvidos. Logo entendí o motivo, sua perna direita foi entortada de forma grotesca para trás, o osso empurrando a pele mas não à rompendo.

—MAS QUE MERDA! — Gritei sem me controlar, segurava meu flanco com a mão trêmula tentando diminuir a dor. Não ligava para o resto do corpo dolorido, pois o buraco que a flecha abriu ardia tanto que meus dentes trincavam.

Hoyt na hora desmontou para me ajudar a me reerguer, e com o canto do olho percebi Gwyne recolher meus pertences que voaram à esmo. Fiquei grato por não ter perdido nenhuma das minhas posses insignificantes em valor, mas de uso inestimável naquela situação. Porém o alívio durou pouco, Abusado de tanto gritar deve ter perdido o fôlego, restando-lhe um choramingo baixo e movimentos restritos. Seus olhos negros iam nervosos para todas as direções, em súplica por não compreender o que acabara de acontecer.

Agachei lentamente ao seu lado, passando a mão em seu pescoço com carinho para que seus momentos finais fossem um pouco mais calmos. Ainda deveria estar atordoado, pois sem pensar tateei a cintura em busca da adaga que havia perdido, esquecendo da ausência do seu peso.

Não, Cceleb. Deixe que eu cuido disso – Falou Hoyt pousando a mão em meu ombro – Essas coisas acontecem, e não podemos deixar que nos atrase – Suas palavras podem parecer secas, mas lembro-me que as disse com ternura.

Assenti àquilo, mas ainda assim gastei alguns segundos para me despedir:

—Perdão… vá com paz sabendo que por mim não serás esquecido – Disse baixinho só para que ele ouvísse, acariciando sua orelha da forma que eu sabia que ele gostava, e seu olhar focou na minha pessoa.

Mas não o sustentei, afastando-me sem dzer mais nada. Abusado deve ter percebido o que ia acontecer em seguida, pois em vão tentava se erguer, só para sua perna quebrada o traír e o fazer desabar ruidosamente. Hoyt se posicionou se posicionou às suas costas, evitando que o animal vísse o punhal que retirava da bota enquanto acariciava sua crina, e sem cerimônia o cravou em seu peito fundo o suficiente para alcançar o coração. O cavalo batia os cascos em seus últimos segundos, seu último berro já não tinha mais vida, e então o último suspiro chegou ao fim.

—Que coisa mais desagradável – Hoyt disse para sí ao ficar de pé, limpando o sangue na túnica – Devemos afastar o corpo da trilha… acho que consigo ver um barranco mais à frente.

Somente assentí, e já íamos começar a arrastá-lo quando Gwyne interpelou:

—Esperem! Posso tirar uns bifes dele antes? Sabe.. para depois – Falou com a maior simplicidade do mundo. E era verdade, podíamos aproveitar um pouco daquela carne apesar de ser pouco saborosa. Estava acometido de tristeza para lembrar disso, e Hoyt provavelmente não quis mencionar para evitar me aborrecer. Mas àquela altura já não me importava mais, sabia que assim ele poderia ainda ser útil depois de morto, e apesar de ser muita frieza nossa tarefa vinha primeiro.

—Um momento! — Ouvir a voz de Cartansis me surpreendeu – Esse era um marchador de boa qualidade, nascido e criado em Arnor. Assim como vocês, temos o costume de queimar todos os nossos falecidos. Entendo que não podemos cumprir os ritos nesta situação, mas ainda assim lhe peço que não profane o corpo da pobre criatura.

Com o ocorrido minha paciência tinha se esgotado em definitivo, mas mesmo assim não me esquecera de com quem estava falando, do contrário nem o deixaria concluir aquelas bobagens.

—É só um cavalo, Cartansis. Se te incomoda deixe sua parte para a gente – Ví a cólera subir em seu rosto outrora sereno. Certamente não tínha o costume de ouvir respostas em pé de igualdade. Não fiquei o encarando esperando que retrucasse, virei para Gwyne e disse – Seja rápido.

O jovem saltou da sela com estranho intusiasmo, e dela tirou um pequeno cerrote de dentes irregulares e um saco de estopa. Hoyt o acompanhou para indicar os locais onde a carne era menos ruim. O som seco e cortante que ia e voltava preenchia o silêncio entre nós, mas não fiquei para ver. Caminhava com passos pesados até a montaria vaga, puxando bruscamente as rédeas até que parasse de tentar se afastar, provavelmente sentindo a raiva que borbulhava em meu interior.

—Está tudo bem? — Ahmyre perguntou, pois não precisava de olhos para saber do meu estado de espírito. Fiz que sim com a cabeça, meu humor deveria estar péssimo apesar de estar tentando suprimi-lo. Ele prontamente compreendeu que era uma péssima hora para trocar palavras comigo, então voltou para seu lugar na fila.

Fiquei encarando o nada nada, observando a densa cobertura de vegetação que cobria a ravina para além das cerejeiras, sentindo a tez quente e respirando fundo em intervalos longos para tentar me acalmar. Com brevidade terminaram o serviço, e com certo esforço arrastaram a terrível carcaça retalhada para a margem da ribanceira, despencando com todo seu peso quando o empurraram com os pés, sendo tragado pela folhagem espessa até sumir de vez. Pude ouví-lo descendo o declive, rompendo galhos secos até parar imóvel muito adiante, onde não conseguíamos mais vê-lo nem com esforço. Hoyt bateu as mãos e subiu em sua cela, tomando a dianteira precedido de Ahmyre e d’Os Escudos. Estava logo atrás e ia acompanhá-los quando Gwyne parou na minha frente:

—Vamos Cceleb, não é justo. Eu…

—Calado – Disse em tom moderado mas severo, acompanhado de um olhar enfurecido que não pude conter – Você vai andar – O garoto estancou, enfim percebendo que aquele momento não era nada oportuno para a sua habitual maneira de ser.

A trouxa que levava as carnes já se avermelhava no fundo, e como não era muito grande Gwyne à amarrou em suas costas. Sem dizer mais nada dei-lhe as costas, virando o cavalo que não me incomodaria de nomear para prosseguir o caminho. Ninguém parecia se sentir a vontade para conversas ou canções, pois percebi a paranóia em seus olhares rápidos para a mata, não à toa, já que os berros de Abusado certamente foram ouvidos por quêm ou oque estivesse perto, acabando com nossa valiosa anônimidade.

Não sei se era por causa de meu estado de espírito nada sereno, mas pareceu que íamos mais devagar que antes. Ou talvez era devido às dores que sentia em meu flanco à cada passo do animal, como se a pele que vínha a tanto custo cicatrizando tivesse sido rasgada outra vez com a queda, fazendo-me suar frio com o medo de ainda não estar livre daquele perigo, de agonizar cada vez mais até que a morte sentísse pena de meu sofrimento e por fim me levasse embora. Aproximando nossa missão ainda mais do fracasso eminente. Voltar para Cainhirst por minha causa não seria possível, haviam muitos que contavam com nosso sucesso, mesmo que pouquíssimos acreditassem nele, e por isso tínhamos de continuar mesmo que só um chegasse com vida no destino final.

Pelo pouco que o teto de folhas e galhos nos permitia ver, a parca luz do sol que o atravessava diminuiu, e o que ainda conseguia atravessar era de tom mais avermelhado, indicando que logo iria escurecer, sem nenhum local apropriado para acampamento á vista.

Entendi que a trilha deveria estar circundando uma montanha, visto que o caminho sempre se curvava na mesma direção ladeada pelo precipício e rochedo íngrime coberto de musgo, dando-nos nenhuma opção que não em frente. Ontem não enfrentamos problemas, mas nesse hoje houve um imprevisto que enfraqueceu ainda mais as nossas vantagens diminutas. Não que montarias viessem a ser imprescindíveis naquela floresta, mas ainda assim eram preferíveis que nossas próprias pernas, e perder uma no início não era uma das maiores preocupações, porém o golpe era crítico na moral do grupo, pois era como se este tivesse diminuído, mesmo com todos ainda ilesos. Bem… não tanto assim, meu ferimento além de causar dor aguda passou a coçar depois de poucas horas, um péssimo sinal. Teria de me desfazer da armadura para alcançá-lo, o que era bom pois estava me incomodando tanto que não resistiria se tivesse como saciar a vontade. Tive de me contentar com a pressão que fazia na placa da costela, tentando aliviar a agonia que me distraía de todo resto, tão alheio que demorei para perceber o sinal de parada que Ahmyre fez da frente da fila, para logo indicar silêncio, e foi como se todos deixassem de respirar, aguardando o pior. Não se ouvia muito além dos urros instáveis do vento sacudindo o alto das árvores, aqui e alí piados longínquos de pássaros, No fundo de tudo isso havia algo querendo se distinguir do resto, como um silêncio indeciso que não se deixava identificar com facilidade, fazendo quem estivesse à sua procura incerto dos próprios sentidos.

Fui até Ahmyre para escutar melhor, e não demorou para saber do que se tratava:

—Água… acho que ouço – Murmurei hesitante, não deveria ser muito mais que um córrego bem raso – Vá com Gwyne checar.

Ahmyre assentiu e desceu da sela sem muito barulho, seus pés caindo abafados pela grama que chegava aos joelhos. Fez sinal para o garoto, que estava mais atrás, já se aproximando com uma flecha a menos na aljava, esta já tencionando a corda negra do arco. Ambos seguiram adiante até virar a direita, sumindo nos arbustos espaçados. Respirei longamente, saindo vapor da boca, pois as mordidas do frio chegavam primeiro que a noite, e a julgar pela posição aproximada do sol ainda teríamos um certo tempo até a escuridão total.

Sabia que ainda podíamos percorrer algumas léguas, mas àquela altura não era seguro abusar da sorte, mesmo levando em conta a boa distância que cobrimos dês da manhã. O primeiro dia de marcha era sempre o pior, os músculos ainda acostumados com a vida sedentária de trás das muralhas reclamavam do início ao fim, mas com cada nascer de um novo dia eles iam recobrando a vida de andanças. Não notei que meus dedos se fechavam com aperto no cabo de Bastiom, um hábito antigo que deixava marcas leves no metal gasto. Para quem via, o ato indicava um reflexo tenso de alguém se preparando para o perigo, quando na verdade se tratava de um instinto que me agarrava ao passado, nas vezes em que me perdia em meio as lembranças. Uma tentativa de preservá-las intáctas ao passo que iam se esvaecendo, como um punhado de areia levado pelo vento. Nessas situações, Bastiom era o antídoto para meus remorsos, sua presença junto a minha espantava esses sentimentos envenenados. Só mais essa guerra, só mais essa vitória e eu te penduro acima de uma lareira, pensei. Era o final feliz improvável, pois o mundo era complicado demais para que nossos triunfos apenas fossem o bastante. Mas de qualquer jeito, sabia bem que a defesa de Cainhirst seria minha última batalha, o divisor de águas entre cair em esquecimento ou ascender à glória.

Minha atenção foi desviada para as pequenas folhas de um sicômoro semi-morto, que seguindo o movimento dos galhos pareciam se alongar em busca de algo, e não o tendo voltavam para trás como um chicote preguiçoso. Era uma árvore bem antiga, já há muito passada de seu esplendor, que se expandiu horizontalmente até quase cobrir seus arredores, seus braços eram esguios e retorcidos, em muitos locais mostrando rachaduras pouco perceptíveis, dando a entender que cedo ou tarde seriam engolidos pela terra abaixo, onde pouco crescia graças a cobertura densa de sua folhagem, as gramíneas já sufocadas pelo pouco que os grandiosos pinheiros e arseiras lá no alto deixavam chegar até a terra. Mas era o jeito inexorável da natureza, o estranho equilíbrio que havia entre seres anciões já nos fins de seus reinados e os miúdos aguardando sua chance de tocar as núvens. Tal disputa eterna acontecia apesar de nós, e mesmo que as chamas dos invasores consumissem tudo o que alí nos cercava, na realidade significava pouco mais que uma breve interrupção do ciclo, apenas os homens seriam completamente varridos daquela existência, enquanto que Silh serviria-se das cinzas soberanas para germinar nova vida com sua chuva sem fim. Seus trovões, no entanto, passaram a servir de mal agouro, ameaçando com lenta proximidade o fogo à frente de um exército até então invicto, que não nos dava nem tempo de juntar nossos pedaços, nos forçando a recorrer á exepcionalidades na busca desesperada por uma escapatória.

—Acho que nunca vou me acostumar com esse lugar… Em Cainhirst os olhares perigosos eram visíveis em sua maioria, mas aquí sinto que estou cego – Não sabia dizer ao certo se Hoyt falava comigo, pois era normal de sua parte ter seus pensamentos traduzidos em fala – Lembra da vinda? Acredito que passamos por aqui ainda com o sol de meio-dia.

Ele não tinha como saber, mas era uma péssima hora para me recordar das fincadas que atordoavam meu juízo.

—Não sei dizer, lembro pouco dos dias que vocês passaram me carregando por aí. A febre parecia não se decidir se me fazia suar como uma chaleira ou se trincava meus dentes de tanto frio – Dizia coisas sem me importar muito, queixar-me do que estava fora do meu controle era um hábito que tentava evitar, mas alí deixei as palavras fluírem.

—Eu e você já saímos de apertos piores, dessa vez não será diferente – Hoyt me pareceu embaraçado frente ao meu descrédito – Mas admito que suas cartas ultimamente não têm sido nada boas. Isso está para mudar, acredite quando te digo que todos esses infortúnios que superamos nos recompensarão em breve… muito em breve.

—Quem sabe. Só sei que dessa vez sentí que escapei por um triz. Achava que ia morrer toda vez que o corpo ficava dormente e meus olhos se fechavam. Podemos ter gastado tudo o que nos sobrou de sorte.

Seus ombros caíram de cansaço, certamente manter o otimismo estava lhe custando caro. Vendo-o assim me causou culpa por não ser sempre o suporte que ele precisava e merecia.

—Preciso de você forte. Comigo – Dizia um tanto incisivo, leve o bastante para n perder a compostura.

—Meu velho, veja bem. Estou aqui contigo, não estou? Se existe algo que você deve duvidar, esse algo não é meu comprometimento.

Deve ter percebido a besteira que fazia. Piscou os olhos como se voltasse a raciocinar direito, mas não o culpava por esses deslizes. Para alguém que tantos dependiam, o peso de suas vidas, necessidades e sonhos dobrando-lhe as costas, até que Hoyt sabia lidar bem com tais preocupações.

—Certo… desculpe por isso. É minha culpa, está cada vez mais difícil acompanhar os joguinhos deles, e esse é até então o maior de todos. Para nós, pelo menos.

—Estou ciente, só… — Hesitei ao tentar ocultar a consternação que sentia. Magoava ver Hoyt assumir sozinho toda a responsabilidade, e com seu fardo sucumbir aos poucos, uma gota por vez – Só saiba que não está só, estou ao seu lado.

Sua mão alcançou meu braço, o gesto acompanhou um sorriso de gratidão e conforto, se distanciando quando sua montaria moveu os cascos para o lado. Nesse interím Gwyne e Ahmyre retornaram, se colocando entre nós com expressões satisfeitas no rosto:

—Encontramos um bom lugar. Uma área mais aberta com um pequeno córrego ao lado.

—Checaram os arredores?

—Sim, extensivamente – Era tolice de minha parte perguntar, os dois sabiam bem o que devia ser feito, mas em Silh eu não deixaria nada ao acaso se pudesse – Por isso demoramos, é bem perto, vocês verão.

Todos desceram de seus cavalos para os acompanhar. Não era de tão fácil acesso, pois logo ví que teria de me abaixar para evitar o grosso da mata, ninguém naquele ponto sentia disposição para abrir caminho à frente. Mas meu caso era diferente, pois ao dobrar as costas pareceu que o ferimento doía mais, quando estava decidido a puxar o facão Gwyne me chamou para mostrar uma passagem estreita entre os arbustos.

Diferente de como Abusado se comportaria, o outro mal reagiu quando fui o puxando pelas rédeas. Este era mais indiferente, ia de cabeça abaixada quase arrastando as pernas, ignorando quando seu corpo raspava as folhagens na lateral.

O ruído da água corrente foi ficando mais nítido, e só notei depois quando uma trilha surgiu sob nossos pés, levando para um lado que aos poucos ia dissipando o bosque selvagem. O chão deixou de ser grama quando minhas botas não mais eram abafadas pela terra, minhas botas já emitindo o som de caminhar em pedra. Dalí em diante o caminho ia descendo suave até chegarmos em degrais carvados na rocha, onde algumas pequenas árvores inclinadas fincaram suas raízes, para logo aplainar ao lado do rio. Mas esse espaço era dividido por uma gruta que às vistas colapsara a muito tempo, os escombros ainda visíveis em seu interior já tinham sido cobertos pelo musgo.

Mais à frente via-se a margem de uma piscina larga e rasa que se formou devido ao acúmulo de volume do córrego que passava na perpendicular. Nesse momento dei as rédeas para o garoto e fui para perto da água, olhando os arredores. Seria definitivamente uma noite mais claustrofóbica que a anterior, apesar de estarmos num local aceitável para pernoitar, alí Silh se fechava à nossa volta, os troncos largos das árvores junto com outras plantas menores permeando seus pés tornava impossível de se ver muito além. A proximidade com a trilha também não era nada reconfortante, me parecia ser um ponto óbvio demais, de fácil acesso, que com a mínima familiaridade seria descoberto. Por isso não tive pressa alguma ao inspecionar as brechas em Silh, em busca de qualquer coisa for a de ordem: um movimento estranho, algum volume que não deveria estar alí, o branco dos olhos de alguém a nos observar. Era conveniente demais para não me causar suspeitas, mas como provavelmente não encontraríamos nada melhor até que a Lua estivesse alta, resolvi engolir meu incômodo.

Dobrei um joelho para poder lavar o rosto, a água tão gelada que causava dores.

—Revistamos bem o interior da gruta. Nada.

—Bom saber que não tem ossos lá, podia ser o ninho de alguma fera voltando para casa.

—Não tinha nada disso. Fizemos reconhecimento nas proximidades, o córrego vai descendo para o leste até entrar no subterrâneo, e para além da margem a serra vai virando morro até ficar fora de vista – Gwyne falava rápido, parecia estar impaciente com alguma coisa.

—Aham… — Murmurei ao enxugar o gelo que corria no pescoço – Quero que você ajeite os cavalos perto da margem, só o bastante para que consigam beber.

—Sim senhor – Ele ainda estava parado ao meu lado, esperando que lhe dissesse algo mais – E depois?

—Bem… — Olhei para o alto e pude ver algumas aberturas para um céu nebuloso – Ainda devemos ter menos de duas horas até que escureça totalmente. Pode ficar à vontade.

Antes de levar o punho ao coração Gwyne abriu seu sorriso, agradecendo com impaciência. Mas antes que pudesse dar-me as costas eu disse:

—E Gwyne, nada de “Um cervo cruzou meu caminho”. Deixe os animais em paz.

Ele só riu e concordou com um aceno de cabeça, indo empilhar as selas suadas no interior da gruta antes de mover os cavalos. Os outros já estavam procurando um canto para sí, mas ainda temerosos com o local. Ahmyre veio para perto de mim e se sentou numa pedra, oferecendo o odre de aguardente com um sorriso torto, pois ambos já sentiam o estômago se contorcer só de ver o maldito.

—Não acaba nunca? — Falei depois de descer dois tragos. Nem sentia mais o impulso de fazer careta.

—Ao menos espanta o frio – Respondeu quando devolvi a bebida. A corrente amarrada ao cabo da hunga raspava na pedra quando se movia, provavelmente era desconfortável carregar aquilo na cintura, mas depois de tanto tempo o costume o fazia não reparar mais. Já tinha cansado de corrigir os outros quando chamavam aquilo de machado por ter uma forma similar, e por vezes também me confundia. Já fazia parte do seu ser, assim como eu e Bastiom, seria estranho ver um sem o outro.

—Hoje não foi tão ruim, quase não choveu – Queria ouvir o som da voz de outra pessoa.

—Tem razão – Foi falando enquanto desatava os nós que prendiam seu calçado – Mas mesmo assim meus pés estão doloridos – Virando as pernas para o lado ele puxou a bainha das calças e submergiu as pernas até a panturrilha – Ai… muito fria. Até que queria tirar a poeira do corpo, mas vai ter que esperar.

—Nem me fale se você já está incomodado no segundo dia, e aliás – Ouvi o vento trazendo a chuva antes que vários circulos perturbassem o reflexo da lagoa minúscula – Já tomamos muitos banhos por dia para meu gosto. Essas capas até que seguram bem, mas quando há uma enxurrada, parece…

—Que estamos vestindo gelo. Quem vive aquí pelo visto aprendeu a gostar, porque não imagino alguém fazendo tanta questão desse lamaçal, muito menos os Kushan, que não se contentam até levarem tudo.

Foi então que lembrei da conversa que tive com Gwyne naquela manhã, e lhe contei tudo. E ao ir falando mais coisas foram se tornando vívidas em minha mente, de como a ilha dos malditos deveria estar ficando apertada com um império em crescimento. Uma região dos quatro cantos que pouquíssimos mapas ilustravam, ou sequer mencionavam, pois raros eram os mercantes que se dispunham a atravessar o Mar Raso e chegar lá. Os povos do Continente tampouco se interessavam por esses lados, chamando seus habitantes de estrangeiros, quase todos nunca tendo em vida visto alguém vindo da ilha. Até mesmo a exata posição do lugar era incerta. Os cartógrafos, os poucos que serviam os Étels mais esclarecidos, afirmavam que a ilha não tinha raízes, que em outras eras fazia parte de Catano e por algum motivo se desprendeu de suas irmãs para vagar ao sul, mas eu achava exagero. Era a primeira vez que eles mostravam as garras desse jeito, os saques dos navios comerciantes sempre estiveram nos conformes da normalidade, por toda a história os monarcas aceitavam essas condições como um tributo por uma paz não declarada, acreditando que as águas sem fim mantivessem os corsários longe de suas terras, se contentando com as migalhas que conseguiam para sí. Mas essa falsa passividade não cabia mais, as regras mudaram e o jogo pendeu para o lado do inimigo antes que pudéssemos fazer algo a respeito. Ignoramos os que viviam no Anél de Corais, os julgamos insignificantes assim como suas ilhotas, não nos importando saber a quem serviam, por quem lutavam.

Uma vez conhecí um grupo que se disse da região, se estavam em busca de terra firme ou bens escassos em sua terra natal, não lembro. Me recordo somente da beleza que afirmaram lá existir, de como O Anel era uma jóia do nosso mundo, porém não importa o quanto a areia fosse branca ou o mar cristalino, deles não era possível extrair ferro ou trigo para suplantar a colheita medíocre de suas poucas terras cultiváveis. Assim, só lhes restava a pesca como o principal sustento, junto com tudo mais que conseguiam tirar do oceano.

—É um rapaz esperto, muito sagaz.

—É uma boa suposição, não há como sabermos toda a verdade – Pelo que soube, Ahmyre era um dos muitos que favorecia Gwyne no bando, facilitando sua rápida ascendência na hierarquia. Não querendo contrariar seu julgamento, acabei admitindo uma das qualidades do jovem – Ele é um bom arqueiro.

—Também possui uma letalidade afiada na esgrima.

Essa fala trouxe as imagens incompletas que vinham embaralhadas nas minhas lembranças, pouco nítidas para não serem confundidas com um sonho. Um raio prateado que sibilava ao cortar o ar com movimentos de meia-lua.

—Aquela estoque não deve ter um arranhão – Disse zombando – Nunca a ví fora da bainha.

—Talvez exista um bom motivo – Ahmyre me olhava travesso – Ele me disse uma vez que sua habilidade com a espada já era bem avançada, e que desses tempos para cá está dando mais atenção ao que negligenciou antes, por isso que só o vemos empunhar o arco.

—Essa é boa – Ria baixo, mas sem muito ânimo – É bom ter confiança, e os jovens tem isso aos montes.

Ahmyre tirou os pés da água para massageá-los. Seu olhar distraído indicava que pensava em algo, e quando falou novamente seu tom de voz era grave, mais formal:

—Se eu não tivesse sido aquele que o avaliou na passagem para o primeiro pilar, concordaria com você – Daquilo eu não fazia ideia, deveria ter acontecido enquanto estávamos em destacamentos diferentes – Duelei com ele por um golpe, e mesmo sério só o consegui atingir depois de certo esforço. Não usei Lótram na ocasião, mas mesmo assim… ele mostrou destreza incomum, temperada por um equilíbrio premeditado – Ele fez uma pausa, como se angariando certeza de suas palavras – Gwyne foi muito bem ensinado, estou certo disso.

—Hmm… o garoto tem um ar de mistério em volta. Mas até então suas intenções tem sido boas.

Ahmyre levantou as sombrancelhas, não esperava ouvir isso de mim, mesmo que não fosse grande coisa. Não parecia, mas escolhia bem as expressões que usava. O fato de alguém se mostrar algo em dado momento não significava que suas escolhas futuras seguiriam a mesma linha, a vida com amargura me ensinou isso. Mas a surpresa era recíproca, mesmo que um duelo pelo primeiro êxito com espadas cegas não significasse nada em definitivo, mesmo levando em conta que a vitória não fazia parte da passagem para o primeiro pilar, ainda assim Ahmyre não era nada indulgente. Um garoto capaz de o pressionar em uma luta era um feito considerável.

O sujeito da nossa conversa já terminava os afazeres que lhe dei, amarrava o ultimo cavalo ao lado do córrego onde bebiam. Depois foi largar os fardos das rações na gruta, de lá saindo com o arco em punho. Hoyt o interpelou antes que o perdêssemos de vista, perguntou algo e esboçou divertimento ao ouvir a resposta. Seu olhar por um segundo encontrou o meu, para depois se dirigir para onde Os Escudos descansavam. Lembrei de suas palavras um pouco antes de pararmos a marcha, de como Gário e Cartansis estavam neutros à nosso respeito, na melhor das circunstâncias. Isso nos colocava em desvantagem, pois não se sentiriam inclinados a obedecer sem questionar, caso tal situação viesse a ocorrer. Eles mesmos não ligavam muito em quebrar o gelo entre nós, mas não chegavam a nos tratar como inferiores, ao menos não de maneira velada. Hoyt estava fazendo seu papel de apaziguador, e eu não estava ajudando.

—Me fale de novo daquela mulher que conseguiu te atrair – Ahmyre de repente disparou, com divertimento nos olhos.

—Te falei dela?

—Sim. Foi na terceira noite que a bebida soltou um pouco a sua lingua.

Ele se referia a minha tosca comemoração por ter mais uma vez escapado da morte, como então pareceu ser o caso. Deve ter sido quando perdi minha adaga de estimação, acordando de ressaca no palheiro dos estábulos no dia seguinte.

—Ela ficou na minha cabeceira a noite toda, tentando fazer com que a febre diminuísse… é uma boa pessoa, acho que teria feito o mesmo por qualquer um.

—Só para ter certeza: é a de cabelos pretos que vive nas tendas de cura? — Fiz que sim e ele hesitou, como se arrependido de ter tocado no assunto.

—Míria, você nunca foi bom com as cartas, diga logo o que é – Era um apelido dado por Sibila, sua companheira, quando éramos mais novos. O chamávamos assim repetidas vezes quando queríamos tirá-lo do sério, mas com o passar dos anos se tornou também um diminutivo carinhoso para o resto de nós. Naquele dia não sobrava quase ninguém que o chamava por esse nome.

—Ora, é só o que comentam dela no castelo. Nada de novo, o povo sempre fala – Perguntei a respeito, não o livraria facilmente – Dizem tê-la visto repetidas vezes subir a torre do Étel, os guardas sempre a deixando passar sem ao menos pestanejar.

—Ah… não surpreende, ela é muito bonita – Não mentirei afirmando que aquilo não me entristeceu, mas mesmo assim não deixei de querê-la.

—Ela é – Parecia embarassado em ser a pessoa a me dar essa notícia – Lembro quando lhe trouxemos meio morto, já perto do amanhecer. Nos deparamos com uma caravana de camponeses no penúltimo dia da chegada. Oferecemos nossa proteção a eles com a condição de continuarmos a viagem à noite, devíamos parecer uma trupe de vagalumes para quem estivesse observando de longe, com tantos lampeões acesos. Não podíamos esperar muito mais, estávamos todos muito preocupados com você, seu estado só piorava com o passar dos dias. Hoyt quase pulou de alegria quando vimos os muros de longe, e reunindo mais quatro fomos te levando na rede num passo mais acelerado até Cainhirst – Ele se referia a pano grosso que amarrávamos nas extremidades de um galho comprido para transportar os feridos – Hoyt até mesmo perdeu aquela compostura de sempre, entramos sem cerimônia nas tendas e ele a acordou a moça balançando seus ombros. Era evidente que não lhe restava muito mais tempo.

Fiquei em silêncio, não gostava de reviver o pouco que recordava daqueles dias. Do medo de ser mais um tombado pelo ferimento de uma flecha, talvez pior do que ser atacado pelas costas numa batalha qualquer, sendo engolido pela lama.

—Aceita um chá? Vou fazer um pouco para mim – Ahmyre queria sair daquele assunto soturno.

—Pode ser. Você têm de calêndula?

—Sobrou um tanto, já aproveito e adianto as carnes que conseguimos hoje. Não posso fazer fogo alto aquí, então vai demorar.

Cervo não era nada mau, e dependendo da caça poderia render meses para uma pessoa só. Mas carne de cavalo era terrível, fibrosa demais e parecia não amolecer mesmo a mastigando até cansar. Tinha experimentado uma vez e não foi do meu agrado, mas conhecí guerreiros que diante da inanição em cercos fatiaram seus corcéis sem remorso. “Se acha que cavalo é ruim, é porque nunca foi obrigado a comer os cachorros para não morrer de fome”, a voz de Lethel ecoou na minha cabeça.

—Vou procurar madeira seca, se é que é possível – Ahmyre me encarou com expectativa.

—Tá, eu cuido do resto.

Catava gravetos e pedaços de troncos ocos próximo da trilha, mais tranquilo do que antes ao sentir a dor do ferimento subsidiar aos poucos, talvez até de melhor humor por não ter mais essa preocupação pendurada em meus pensamentos. Já era bem difícil encontrar madeira seca na floresta, mas ao lado de um rio parecia estupidez de minha parte. A maioria que pegava do chão estava tão podre que se partiam ao toque, o pouco resto ainda verde demais para fazer um calor decente, como logo ouvia ao partir os galhos perto do ouvido, não escutando o crak indicando que toda a água no interior havia secado.

Quando a certo tempo nessa tarefa infrutífera, algo chamou minha atenção de repente e num súbito larguei os poucos galhos que conseguira coletar, entrando em alerta. Parecia ser menos que um instante, mas tinha a impressão de ter ouvido algo entrecortado pelas árvores balançando ao vento, tão sutil que se misturava ao marulhar das águas próximas.

Fiquei imóvel, esperando o que aconteceria em seguida, o olhar indo em todas as direções em fúria, os pêlos do pescoço se levantando ao imaginar selvagens de cima das copas espreitando minha sombra. Mas nada aconteceu por um tempo, e já estava aceitando que talvez fosse minha paranóia cutucando minha sanidade, o medo tomando conta de meus sentidos, quando ouví o mesmo barulho de antes, algo que se assemelhava à um inseto passando pelo seu ouvido, só que ao longe e pouco perceptível.

Fosse o que fosse, não ficaria parado alí esperando que algo mude. Deduzi a direção e fui andando à passos curtos, tentando ser o mais silencioso que podia, ainda indeciso se aquilo era motivo de alarde. O mesmo silvo interrompido soou em meio a respiração de Silh, só que três vezes seguidas em intervalos curtos, e no fim tive quase certeza de ter escutado um impacto.

Fui seguindo o caminho de volta da trilha em paralelo, tentando discernir alguma direção da confusão de pegadas impressas na terra. Se não fossem as contínuas, e mais audíveis, flechas voando, eu certamente teria me perdido antes de achar algo, pois ainda era considerado infantil nas técnicas de rastreio que tantos eram proficientes no bando, lendo os rastros quase apagados como se fossem uma escrita incompreensível para todo o resto.

Ao ter certeza de que o barulho das flechas vinha do lado direito cruzei a trilha para chegar ao outro lado da mata, e mesmo com minhas poucas capacidades discerní uma linha reta em que a grama se curvava mais acentuadamente, indicando que alguém andou por alí à pouco. Não devo ter dado dez passos ao seguir sua direção quando a voz de Gwyne me fez parar:

—Quem é!? — Sua voz era ameaçadora para alguém tão jovem, e mesmo não conseguindo o enxergar através da mata fechada meu instinto soube que ele olhava em minha direção.

—Sou eu, Cceleb! — Respondi alto e claro, e sem esperar resposta voltei a mover os pés entre as folhas secas e raízes saltadas. Chegando sem demora num espaço aberto, mais comprido do que largo, mas mesmo assim podia provar o ar menos denso. Notei as sobras de uma pilha de cimento nas imediações, o solo mexido ao lado e aquí e alí marcas negras que fogueiras deixavam.

Gwyne estava parado no centro da abertura, segurando o arco com as pernas afastadas em posição de guarda.

—Perdão se esquecí de fazer algo. Precisa de mim para alguma coisa? — Seu tom era de irritação. Talvez de surpresa por ter chegado sem avisar até ser visto, ou quem sabe ele simplismente não me queria lá. Sendo este o caso, não poderia culpá-lo por não estar contente em me ver.

Pisquei sem ter nada pronto como resposta, pois ainda não havia ocorrido de perguntar a mim mesmo os motivos de estar alí.

—Nada demais, só vim ver o que estava fazendo.

—Bem… — Ele sorria culposo de mãos levantadas, achando que queria repreendê-lo por qualquer motivo -Queria aproveitar o sol e treinar um pouco a mira. Se não tiver problema.

—Eu sei, fique à vontade.

Gwyne me olhou confuso por alguns segundos, e dando de ombros se virou para a outra extremidade da abertura, seu movimento fazendo com que a estoque balançasse de leve em sua cintura, atraindo minha atenção por um momento.

O garoto estava alvejando o tronco de uma árvore morta que pendia do outro lado, nele estavam fincadas algumas flechas em linha reta na vertical. A distância entre elas não era muita, e quando a próxima veio num borrão, quase rápida demais para ver, entendi que ele buscava consistência no espaçamento e linearidade entre os acertos, quase conseguindo. Tinha visto coisa parecida nas trupes itinerantes que rondavam todo O Continente, ao menos onde eram bem-vindas, carroças cheias de artistas e bizarrices que encantavam os Baixos por onde passavam, as mais famosas eram logo contratadas pelos Altos para entreter seus convidados importantes. E nesses grupos geralmente haviam arqueiros que faziam todo tipo de feito inacreditável, como acertar alvos invisíveis de tão distantes, ou “desenhar” formas complexas numa superfície plana, como estrelas, luas e animais. Para isso era preciso ter visão impecável para alcançar tamanha precisão, e o garoto pelo visto também tinha ouvidos de lobo.

—Estou certo de que fui silencioso, mas você me escutou mesmo assim.

—Muitas folhas no chão, fica fácil de notar – Respondeu displicentemente, ainda se concentrando no alvo ao longe, procurando algum detalhe antes oculto. Com rapidez puxou a corda até tocar seu rosto, curvando as pontas do arco até que parecesse diminuir de tamanho, e como sempre rangendo que nem madeira velha. Em menos de um momento a flecha fincou no alvo, quase rápida demais para a mente acompanhar, a corda negra ainda vibrando freneticamente e emitindo uma nota grave, quase como um berro que se engasga antes de ganhar força.

O garoto ainda parecia desconfortável com minha presença, como se antes estivesse plenamente á vontade, sozinho em meio a natureza. E logo eu surgi para estragar sua paz. Sentia até certa catarse por estar lhe incomodando para variar.

—Quer tentar? — Ele me oferecia o arco, que recusei balançando a cabeça.

—A muito não enxergo tão bem de longe, fica tudo turvo e não consigo ser tão exato como você – Ele apenas deu de ombros e disparou mais duas flechas em sequência – Está melhor. Sua respiração é bem ritmada, mas seu ombro direito fica muito tenso. Pode te custar caso não esteja calmo.

—Eu sei… eu sei, sempre me dizem isso, muitas vezes faço sem perceber – Gwyne parecia frustrado com o comentário, como todo jovem ansioso que não tinha habilidades a altura de suas expectativas.

Uma lufada de vento mais intensa passou por nós, esvoaçando minha capa e balançando sua estoque, e atraindo meu olhar. Vendo-a de perto pude examinar melhor seus detalhes intrincados: o esmalte meio carcomido do guarda-mão, a pedra vermelha que decorava a ponta do cabo; aumentando minha curiosidade até que não me importasse mais com perguntas repentinas:

—Como obteve uma espada dessas? — Gwyne mudou sua postura, incomodado por o estar interrogando e indeciso para responder uma dúvida simples.

—Eu a achei, à muito tempo atrás – Pousou o arco de lado e com a mão livre tocou o cabo da estoque, demonstrando muito carinho para algo que, como mesmo disse, foi encontrado ao acaso. Mas não o questionei, se a obteve por meios desonestos sinceramente não era da minha conta, afinal, ninguém nesse mundo vivia sem arrependimentos – Vinha procurando um bom preço para vendê-la, mas não tendo sorte acabei ficando para mim. Então ela me faz companhia por enquanto – Entendi que estava inseguro ao me contar aquilo, como se minha crença na sua história para ele importasse. Mas não me atentei aquilo, meus objetivos alí iam além de querer saber da sua pessoa, e ao passo que ficavam nítidos ao meu saber, acabei me tornando mais incisivo em cumpri-los.

—Foi o que usou na sua passagem para o primeiro pilar? Contra Ahmyre?

—N… Não, Cceleb. Nós duelamos com lâminas cegas – Estava fazendo o melhor para conter o divertimento, pois era mais que óbvio que uma pessoa na minha posição sabia desse detalhe.

—Sei, sei. Que tal um teste comigo? Aqui e agora se quiser, por um acerto.

Gwyne foi de confuso à eufórico. Não lhe passara desapercebido a aleatoriedade daquela proposta.

—Sério que está falando do segundo pilar? Achei que ainda iam levar anos para isso acontecer… mas sim! Estou pronto.

—Alto lá – Respondí jocoso – Note como me expressei antes. É só um teste, não uma provação – Normalmente ele ficou desapontado, mas decidi lhe jogar uma migalha como incentivo – Está certíssimo, ainda levarão anos para que você se torne um capitão. Mas isso não significa que o seu desempenho aquí não venha a influenciar decisões futuras, compreende?

Ele aparentou recobrar um pouco do ânimo, mas ainda aturdido pela minha imprevisiblidade, assim como eu, que tinha deixado que as vontades que sentia saíssem pela boca em forma de palavras. Como se momentâneamente acometido de amnésia acerca do “onde e por quê” do nosso contexto.

Gwyne, com razão, deveria ter vinte perguntas, mas não as fez. Sabia que alí, naquele momento, elas não eram propícias, apesar de minhas palavras menos abrasivas. Sabia também, na verdade compreendeu, e apreciava a situação de acordo. Tinha em mente que eu era um guerreiro experiente querendo medir sua força, algo inesperado se levada em conta a clara distância intencional que mantí entre nós dois até então.

Estava cada vez mais dificil de esquecer aquelas imagens, e precisava saber se eram apenas um sonho de uma mente exaurida. Assim, trazendo o que julgava não ter visto para a realidade, nos levando até aquela circunstância, que muita coisa mudou.

—Nem preciso perguntar se você trouxe alguma, mas certeza que é boa ideia fazermos isso sem espadas cegas?

—Sim. Contanto que você tenha controle de sí, não tenho muito do que me preocupar – Pensava nisso enquanto se distanciava à passos curtos.

A partir daí não falamos mais, não seria necessário. Esmiuçar com os olhos não apenas os movimentos do oponente, mas as elevações de sua alma, era em sí uma maneira mais profunda de se comunicar. O espírito do outro não pode ser visto, apenas percebido através de um sentido que vai muito além da visão e audição. É o reflexo que emana daquilo em que o foco absoluto se fez, sendo a pessoa ou a arma que empunha. Tudo se move lentamente e não se consegue ouvir mais os arredores, porque deixaram de ter importância.

Sacamos nossas espadas sem floreios. Bastiom raspou a baínha ao sair como se tivesse presas.

Eram nesses instantes que algo em meu âmago despertava, nos sincronizando ao mesmo tempo que esvaecia seu fardo. Sentia ao invés minhas emoções, uma torrente irracional contida nas extemidades do aço. Meus temores e desejos mais primitivos condensados no fio irregular da lâmina, rugindo em desordem, sedentos por escapar de minhas mãos e criar caos.

O guerreiro exemplar conseguia domar esse turbilhão, o comprimindo com o peso de sua vontade até dobrá-lo, até o deixar teso e afiado.

Os que perdiam esse controle, ou pior, eram ignorantes quanto sua existência dificilmente duravam para aprender e falar a respeito. Esses eram fáceis de cortar, surdos e cegos quanto ao desespero de suas lâminas: “Veja, sinta, e então ataque!”, “Imploro, Se me empunhar direito, não há nada que possa nos deter”. E assim trocavam de mestres, de mãos em mãos até encontrar um par que sirva até o fim.

Não vencia quem era mais forte ou mais veloz, é simplório e vazio demais para ser o caso. Alcançava o triunfo aquele que melhor expressava sua sintonia com a personalidade de sua extensão. Bastiom, por exemplo, era mordedora, inquieta de um jeito que nunca se mantinha imóvel. Ansiosa e implacável por qualquer abertura, sua força era temperada pela sede.

Porém sua aparência maltratada em nada tinha a ver com tudo isso. Nenhum desses detalhes era palpável.

A estoque de Gwyne era completamente diferente, apesar de não se defrontar como completa oposta. Era gélida, pacientemente cruel.

O fino e comprido raio que refletia o sol em prata distinguia por sí só seus ares ameaçadores. Inspirando veneno enquanto se mantinha inerte, usando da beleza para mascarar suas intenções, semelhante a um animal perigoso que dormia de olhos abertos, contando com a ingenuidade daqueles presos demais às aparências.

Todo seu ser alertava cautela, na mesma sintonia que seu mestre, e seus olhos de Precurssor. A peça revolta que não se encaixava no quadro geral da normalidade, jogando-o devolta para as águas profundas do desconhecido.

Ouví o céu murmurar, como se avisando dos ventos irascivos acompanhados pela chuva que roubavam as árvores mais envelhecidas de suas poucas folhas. Nos cobrindo de sombras que roubaram o brilho da estoque, revelando o metal bem trabalhado, sem mossas ou cicatrizes que pudessem distorcer sua luz, que não só refletia os raios de sol, mas também a engenhosidade de seus criadores, seus tempos mais prósperos.

Gwyne adotou uma posição estranha. Um de seus braços apoiava o cotovelo nas costelas, ainda segurando a estoque totalmente imóvel, enquanto que o outro dobrava um pouco abaixo das costas, com o corpo levemente inclinado para a frente. Sua base também era incomum, com a perna direita sustentando seu peso ao mesmo tempo que a esquerda ficava atrás, de lado para lhe conferir impulso.

Do início ao fim essa postura berrava arrogância, convidativa à ataques letais pelo desafio que fazia ao oponente, quase que insinuando uma superioridade desdenhosa.

Mas seus olhos contavam o contrário. Bem abertos e intensos ao observar um ponto fixo, sua cor perdendo tamanho até o branco se alargar, o mesmo tom intimidador que por poucos segundos me atravessou naquela manhã. E essa força parecia afastar as mechas que antes os cobriam, com suas cores díspares me alvejando implacáveis.

Compreendi que se tratava de uma víbora com plena consciência de seu alcance, esperando o primeiro ataque até o último segundo para então cravar suas presas. A isca e a armadilha em plena vista para os poucos que tinham discernimento e inteligência a fim de identificar tais características de um ser enigmático.

Nossos pés foram arrastando a terra devagar, reduzindo a distância até que a ponta das espadas ficou a um palmo de distância. Estava em desvantagem quanto a minha cobertura versus a dele, levantando com ambas as mãos a guarda até a altura do rosto para compensar, visto que nossas lâminas eram incompatíveis na forma. Mas a força por trás de meus ataques era maior, podia contar com o peso do aço ao meu lado caso quisesse medir apenas o vigor, Porém essa era uma estratégia que fazia mal uso das especificidades da estoque, sua leveza e comprimento eram mais apropriadas para ataques que evitavam proximidade.

Bastiom, por sua vez, era de tamanho médio, mais espessa que de costume, e tão desbotada que repousaria nos cantos de uma loja para quem trouxesse pouco ouro. Mas não a fazendo nem mais, nem menos bárbara ao atravessar a defesa de seus adversários, despedaçando escudos com ataques descendentes. (REARRANJAR ENTRE OUTROS PARAGRAFOS MAIS ACIMA, TALVEZ)

Não ousávamos desviar o olhar por nada nesse mundo, e em nossa concentração crescente as vozes de Silh se tornaram mudas, imobilizando tudo nos últimos instantes que precederam o primeiro movimento.

E foi como se os olhos arregalados de Gwyne disparassem de uma vez só todo o ímpeto acumulado até então. Sua lâmina branca escorreu entre as gotas de chuva, num deslocamento torto tentando me confundir.

O instinto jogou meu corpo para o lado, tentando evitar o bote que atravessaria meu coração caso fosse certeiro, exatamente como Gwyne previu, procurando atingir o local para onde desviava.

Assim que meus pés encontratam o chão novamente, a estoque desceu na diagonal, aproveitando a proximidade conquistada. Restando-me apenas defender o rasgo que sua ponta almejava, que atingiu Bastiom na altura do guarda-mão, ressoando um estalo sonoro que perdurou alguns segundos, sem faíscas em meio a chuva trazida pela ventania.

Sabendo que a posição me favorecia, seus pés se afastaram cautelosos, retornando para a segurança que sua espada comprida lhe oferecia. Mas mesmo assim não me deu tempo algum para reagir, com as pernas arqueadas para dar-lhe maior impulso, uma saraivada de golpes diretos vieram em minha direção.

Mas dessa vez mantíve-me firme onde estava, aparando boa parte das estocadas para longe. O garoto sabia que meu braço logo se cansaria, o peso maior de Bastiom se acentuando cada vez mais até retardar minhas reações, e por isso desistiu da linearidade de seus movimentos para evitar um contra-golpe. Tornando as direções mais difíceis de prever, ora mirando os dedos das mãos, ora minha coxa.

Esperei com paciência uma boa oportunidade, e ela veio quando deixei a estoque transpassar o ar ao lado do meu pescoço. Guardando meu movimento para atingí-la por baixo, a impulsionando para cima e consequentemente abrindo a defesa de meu oponente.

Bastiom, que também estava erguida no alto, desceu com violência contida sob seu alvo, para não arrancar seu ombro fora do lugar caso acertasse.

Não o atingi naquele momento, evitou meu ataque jogando o corpo para trás, e usando as costas de impulso já estava de pé, como numa cambalhota.

Deveria estar sorrindo, pois Gwyne fazia o mesmo. Ambos arfando levemente, vapor saindo pela boca, por causa da explosão de energia num movimento só, não por exaustão.

Os mesmos golpes em sequência de antes vieram da mesma maneira, apesar do resultado. Talvez tenha sentido uma pontada de decepção, pois julguei que a extensão de suas habilidades não ia muito além daquilo. Era contraditório até, um guerreiro tão exímio insistir na tática que quase lhe custou caro.

Logo fiz um esforço para afastar esses pensamentos, nada deveria estar ocupando a mente além do que se prostrava ante minha visão. Pois tinha de ser outro ardil de sua parte, não buscava o mesmo fim de antes, as suas estocadas miravam mais as laterais, tentando abrir minha guarda.

Tão concentrado em me proteger, só entendi depois que seus golpes deixaram de ser plenos. Com velocidade impressionante o gum da estoque falseava ataques aleatórios, sempre retornando para a posição de defesa, em que a lâmina erguida impedia uma aproximação súbita, favorecendo a reação dele.

E usando de meus reflexos contra mim, Gwyne conseguiu que me defendesse do ar, restando pouco espaço e equilíbrio para impedir o golpe verdadeiro. Vinda de cima, a ponta da sua espada esguia mergulhou como uma flecha na direção do meu peito.

O que pude fazer foi usar Bastiom como escudo, suportando o choque do impacto com o braço livre a apoiando, e no instante em que a estoque se deteve no sulco, a saliência que divide o aço até perto do gume, pressionei contra sua força para impedir que deslizasse para os lados sem desvantagens.

Não cedemos território, o som fraco do metal farfalhando entre as duas lâminas tremulantes.

Pude ver mais de perto seus olhos glacias, o azul e o verde disparavam seu intento implacáveis. O garoto sorridente desaparecera, engolido pelo frenesí, pela intensidade da sua cólera, me tornando em sua visão algo mais que um adversário.

Pressenti que tentaria retrair daquele impasse, não mais repelindo sua força a desviei para a esquerda, e no tempo que levou para que voltasse para sua posição de guarda, antes que uma chuva mais densa caísse entre nós, Bastiom já voava em sua cintura.

Não perfurava o ar como sua opositora, pois o destroçava como um touro ensandecido, carregando o vento atrás de sí.

Gwyne se protegeu como pôde, por pouco não bloqueou o golpe, mas não a tempo de arraigar a solidez necessária para sustentar aquele ímpeto.

Bastiom não recuou para outro ângulo, ao invés, chicoteou diagonalmente para cima e mais uma vez se lançou sob sua presa. Dessa vez tocando-lhe a carne.

Caso fosse uma luta real, o jovem facilmente teria perdido o braço, mas felizmente o bom-senso conseguiu ser ouvido em meio a tempestade interior. No meio do movimento deixei de empenhar força, virando-a de lado para que colidisse com a parte chata, impedindo que o fio cheio de dentes fizesse estragos. Gwyne cambaleou para trás, segurando o ombro como se tentasse estancar a dor, apesar de que seu orgulho derrotado provavelmente lhe fazia mais mal, a confusão de ter as expectativas desfeitas pela realidade, tudo refletido em seus olhos de Precurssor.

E para ser sincero, não tinha certeza se na cabeça do garoto o nosso duelo havia acabado. Era muito comum de acontecer, o calor da batalha nebular a razão quando não se consegue enxergar nada além do inimigo lhe ameaçando a vida. Havia um ódio irracional em seu rosto, e sua mão ainda tencionava a estoque, mas não soube direito se era direcionado à mim, e não dando muita importância guardei Bastiom de volta na bainha. Ato imprudente se considerar que poderia haver uma besta machucada bem na minha frente.

—Já se acalmou? — Falei de modo suave e zombateiro, não era da minha pessoa querer humilhá-lo, principalmente depois de um combate tão duro, em que tive de suar e correr riscos para sair vitorioso.

—Desculpe – Aparentou reaver parte do juízo – Guardou sua espada, pondo-a de lado para cruzar as pernas e sentar na grama – Sei que agi mal, você me superou de forma justa. Perdão por isso, deveria lhe agradecer por se interessar em testar minha força… apesar de ter pêgo leve comigo.

Gargalhei sonoramente provocando surpresa naquele olhar suspeito, e como se notando minha percepção o garoto ajeitou seu cabelo do jeito de antes, cubrindo parcialmente sua tez. Talvez uma ação involuntária que tinha quando sentia que seu segredo estava exposto, e se ele não queria falar sobre, não o interrogaria, pois a partir dalí comecei a confiar mais nele. Parecia ter me liberto das ansiedades e angústias constipadas dentro de mim por um tempo, achando uma fuga na força bruta. Afinal, era tudo que conhecí na vida, todo o resto, felicidade, tristeza, e dor flutuavam em volta de Bastiom. Era para os meus semelhantes a única forma de se expressar genuínamente, de se sentir poderoso, de ter um caminho a percorrer com todo o envolvimento da alma. Entre o sangue, tripas e lama pode ser encontrada a plenitude, e nela um propósito.

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—Pra quê isso rapaz? Você é zeloso demais, sem falar que essa atitude humilde não lhe cabe – Gwyne sorriu sem graça, e já mostrando sinais de incômodo da dor vinda quando o sangue esfria – Sabe bem que quase me pegou algumas vezes.

—Você que está dizendo – Tentou esconder os dentes cerrados, mas era evidente que seu ombro ficava cada vez pior – Se tiver me quebrado, vai ter que me carregar de volta até Cainhirst – E riu, mesmo com a apreensão clara em suas palavras. Me sentia um idiota por ter feito isso, nem queria pensar no quanto isso nos prejudicaria se fosse tão sério.

—Pare de se mexer, deixe que eu veja isso – Disse ao dobrar um joelho ao seu lado – Consegue tirar a camisa?

Sem muita dificuldade desfez o laço que prendia sua capa no pescoço, caindo pesada com a água da chuva que acumulou. Ao puxar a camisa por cima só ví o início de um belo inchaço, e fui pressionando com a mão lentamente.

—Não acho que tenha deslocado, ou quebrado algo. Vai ver você está chorando por nada.

Então suas cicatrizes saltaram aos meus olhos. Um grande risco em seu peito quase o atravessava por completo, as extemidades eram cerrilhadas devido ao descuido de quem fechou aquilo com linha e agulha. Outras cicatrizes menores e manchas escuras estavam por toda parte, os braços principalmente, machucados velhos demais para alguém tão jovem, e ele sabia disso pelo olhar que me devolveu.

—É como disse – Continuei mudando de foco – Não achei nada fora do lugar, e amanhã já deve estar só dolorido. Você pode procurar por calêndula na floresta, vai ajudar um poco. Mas não demore muito, a noite está próxima e não devemos nos separar.

Fui alongando a conversa, explicando os detalhes da erva medicinal para que não tivesse muitas dificuldades para encontrá-la, e ele prestava atenção. Só que também serviu de pretexto para que examinasse suas marcas longamente, pois tive pouca certeza se foram feitas por espadas ou facas, iam de cortes superficiais a lacerações mais severas em que a pele refeita se destacava. Assemelhavam às escoriações de um órfão de rua, um bem precoce.

—É muito útil saber dessas coisas, gostaria de saber como Cceleb Dois Golpes aprendeu essas coisas – Se divertia com isso, criar apelidos para nós, e alguns até pegavam. Sendo já bem comum que chamassem Hoyt de Coruja, devido aos seus hábitos noturnos. Suspeitava que Cceleb Cara Fechada era do seu feitio, mas não achava que o garoto se arriscaria à ganhar ainda mais minha inimizade quando ainda existia.

—E eu gostaria de manter meus mistérios, do jeito que você faz. Essas cesuras… e olhos de Precurssor devem ter uma história interessante por trás.

—Cceleb… normalmente se evita falar do que se tenta esconder – Não esperava uma resposta dessa, enfim tinha o encurralado o suficiente para que ao menos mencionasse esses detalhes.

—Não precisa se preocupar comigo garoto, tenho preocupações na cabeça maiores que seu passado. Afinal, nós somos espadas à venda, os números importam, mas uma lâmina hábil como a sua é quase tão essencial quanto o aço que pensa antes de agir – Sua expressão tornou-se mais lívida, menos carregada de apreensão. E não só isso, havia também certa felicidade, mesmo que momentânea, um senso de pertencimento e conforto ao ouvir de alguém o reconhecimento – E além do mais, vai que a sua história nem seja tão impressionante assim entre nós. Aceitamos quase todo tipo de gente em nossas linhas, portanto é natural que uma hora ou outra tenhamos de lidar com os problemas que levam em segredo. É isto.

Acreditava que havia falado mais que o necessário. Fiquei de pé, findando aquela conversa ao estender a mão para Gwyne. Acho que ia lhe apressar para procurar o remédio, quando o ajudei a se erguer, mas me calei quando ouví passas em nossa direção. Finalmente Hoyt e Gário resolveram se aproximar, sabia que não iriam interferir então os ignorei aos avistar um tempo atrás. O garoto prontamente vestiu suas roupas.

Hoyt trazia consigo seu velho sorriso desaprovador, provavelmente me rogando pragas com seus pensamentos. Mas era apenas uma distração, não era esse o assunto que os trouxe até alí.

—Temos que conversar – Disse ao ficar próximo. Gário estava quieto ao seu lado, mas com a mesma expectativa de antes, da manhã daquele dia fortuito em que me fizera várias perguntas curiosas.

—Certo – Virei para Gwyne – Não deixe de procurar a folha e tratar desse ombro. Vamos precisas das suas flechas muito em breve.

Assentiu levando o punho ao peito antes de nos dar as costas, sua prontidão indicando que sabia que algo sério ocorrera, do contrário Hoyt esperaria até estarmos a sós para contar o que preferia que permanecesse anônimo. Notei que massageava seu ombro enquanto sumia além dos troncos retorcidos e folhagem densa da mata, fazendo voltar a sensação de arrependimento de tê-lo machucado.

—Luta muito boa, a sua – Gário salteou entre essas palavras.

—Ah… obrigado.

—Não sei se foi mais arriscado que desnecessário, você já tem barba na cara, pelo amor! — Já esperava um longo sermão à caminho, um bem merecido se devo dizer – Mas com certeza nem preciso te dizer isso – Hoyt pendulava entre ainda me tratar como criança ou adulto, nessas situações era melhor não dissentir.

—Então? Desembucha – Disse encarando o Escudo, e como ele permaneceu impassível agradeci por não ser ele a contar os vagarosos detalhes.

—Não é nada tão urgente assim, apenas algo que nosso companheiro de viagem aquí demorou muito para nos contar – Pude ver em seu rosto a zombaria do duplo sentido, mas acho que estava se referindo à hesitação de Gário do que seu pobre domínio da fala comum. Mas mesmo assim deve ter sido uma conversa muito longa, lembrando da dificuldade que tive para compreender antes – Mas você sumiu, e de repente me ví com duas espadas a menos em nosso acampamento, então fui te procurar. Apesar de não ser urgente, é de extrema importância…

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.