Notas iniciais
I.
Não me lembro exatamente o que me arrancara do meu sono no segundo dia de preparação, se foram os cascos da cavalaria ou os choques ocos dos ferreiros, trabalhando até sangrarem seus braços. Pelo menos recebiam integralmente pelo seu ofício, ao contrário de nós que dividiamos tanto os espólios dos inimigos caidos quanto dos nossos aliados. Quando nossos senhores fizeram o chamado não calcularam a contingência que engrossaria as bases de seus exércitos, assim desconhecem a riqueza e a consequente prosperidade de suas próprias terras profundamente. Boa parte dos camponeses que vieram, chegaram a Cainhirst desarmados e descalços, e mesmo catando toda lãmina enferrujada e cerrosa dos velhos depósitos, não foi o bastante para armar todas as mãos trêmulas de frio e de medo. A invasão Kushan vinda do leste estava a avassalar nossas terras fluviais da fronteira a passos galopantes, pisoteando o povo e os fazendo de escravos. Por isso tantos vieram, não para proteger seu território, e sim se abrigar do lado de dentro de Cainhirst, mesmo que o preço fosse bem alto. Como já disse, estávamos em pequena desvantagem, não só no lado bélico, nossa defasagem era em números, mantimentos, cavalaria, moral e até mesmo a saúde das tropas, já ouvindo tosses e gemidos de dor vindos das tendas médicas com mais frequência. Nosso destino já estava escrito e selado nos rostos de homens e mulheres que foram permitida a entrada no castelo, velhos, crianças e ineptos foram excluídos sem remorssos da cotação. Notícias das quedas de outras fortalezas se espalhavam como veneno, defesas melhores sucumbiram rapidamente, que chances tinha a velha Cainhirst? Alguns de nós, os mais viajados ou vividos sabiam bem das condições precárias do lugar, poucos por terem já testemunhado sua glória passada, a maioria por conhecer outros castelos mais recentes, modernos e de melhor preservação. Os palanques e andaimes construídos para reformar Cainhirst já deviam ser quase seculáres, devido á um musgo que os cubria, os muros e torres externos e internos estavam a faltar pedras e tijolos em toda a parte. Os rapazes brincavam com um pouco de tristeza, apostando qual próxima tempestade derrubaria aquelas paredes. Como eu, muitos dos mercenários contratados ocupavam os espaços que os cabiam, qualquer paliçada ou monte de terra-fofa já serviam para descansar nossas costas, pois poucos dessa estirpe traziam suas guarnições, enquanto os poucos Senhores que vieram ocupavam os vastos espaços dos salões. A garoa já fazia os lanceiros tremerem em seus postos até terem de se abrigar com seu engrossamento, todos xingavam a chuva e o frio, agradeci por respirar livremente por um momento, o cheiro de merda fazia minha cabeça doer. Perguntei-me se a neve e a fome acabariam conosco antes que os Kushan tivessem a chance, além de algumas caças magras e certos tuberculos azedos, as matas de Silh logos nos deixariam famintos, causando mais e mais perdas tanto pela inanição quanto pelo debando dos homens, que provavelmente seriam devorados pela floresta. Foram necessárias uma semana e meia para todos os destacamentos da companhia chegar a Cainhirst pelo leste, sendo que para sair pela outra direção significava atravessar um caminho ainda mais longo e tortuoso impossível de ser feito no desespero faminto. Em nossa vinda perdemos dois homens, três cavalos e muitos suprimentos essenciais.
As brechas das telhas enegrecidas gotejavam sobre minha cabeça e logo minha capa estava ensopada, era díficil saber se era muito cedo ou não, o ceú era nublado sempre, mas pelo barulho da atividade alheia ja devia ser hora de levantar. Sacudi a maior parte da palha de minhas vestes, e fiz minhas necessidades no próprio estábulo. Cada movimento mínimamente amplo já fazia meu ferimento queimar, como se o metal que me rasgou ainda estivesse ali. A fortaleza parecia acordar junto comigo, caminhava com meu cérebro ainda desamassando, vi o estado de nosso belo exército, muitos ainda bocejando e se dirijindo ás latrinas enquanto a maioria ainda estava ao léu pelos cantos. Chequei se Bastiom estava firme no cinto de couro, e me surpreendi ao não sentir minha adaga em seu lugar costumeiro, demorou para lembrar que eu havia emprestado alguém na noite passada, mas tinha estado muito bêbado para lembrar á quem. Já estava fazendo um esforço para caminhar de corpo ereto, deveria ter trocado as ataduras em minha costela à duas noites, o cheiro pavoroso que dali emanava já estava a atravessar minhas vestes.
Fui seguindo o som constante entre metais até chegar na grande forja, suas seis bocas permitia o ofício simultâneo de dois ferreiros em cada entrada, todas ocupadas com a confecção de novas pontas de lanças, sabres grosseiros, machados e meio-escudos aos montes, rivalizando com a pilha de metal que jazia ao lado. Aproximei-me deles, deveria ter minha idade apesar da aparência severa característica de anos na mesma profissão, diferente de todos a nossa volta que lutavam contra o as rajadas do vento e a neve que se esgueirava entre as roupas, para o ferreiro bastava um avental rude de couro e luvas espessas, certamente protegido pelo calor do esforço físico e da sua forja que mais e mais me atraía para perto. Seus olhos cansados encontraram os meus, esperando algo. Até que disse:
Você poderia cuidar desta lâmina? – Desembainhei Bastiom com cuidado, temeroso como se fosse de gelo. Um nome tão nobre para estar em condições tão precárias me inflingia grande vergonha para comigo, cusando-me mais dor do que o ferimento à se curar. Livre da bainha totalmente foram revelados primeiro os dentes, e depois as moças ficaram óbvias quando prostradas contra a luz. A maioria das falhas eram pequenas demais para olhos desatentos, mas alguns dos dentes eram grandes como presas. Em suma, um embaraço para qualquer mercenário com um mínimo de apreço pela própria vida.
Ao passá-la para suas mãos empoleiradas notei o estado do cabo e do pomo que precisavam ser trocados, visto o tanto de vezes em que alí minhas mãos pressionaram com todas as forças nos momentos mais tensos. Haviam marcas dos dedos, e o guarda-mão estava tão amassado que apontava para direções distintas. Levando tudo isso em conta o ferreiro me revelou seu sorriso de dentes estragados:
—Troco por uma dessa pilha, esse aço só me serve derretido.
—Quero-a restaurada, inclusive te pago uma soma a mais pelo trabalho extra – A oferta de moedas claramente o interessou, mas dando outra longa examinada em Bastiom acabou a retornando para minhas mãos.
—Parece que você a usou para demoliar Cainhirst, se eu fosse usar o rebolo para poupar tempo a lâmina certemante partiria, e não tenho como perder uma noite recuperando seu fio com uma Pedra da Lua sem atrasar meus afazeres — Olhou discretamente para o volume ainda por fazer do material que tinha rcebido e não conteu mais seu descontentamento – Malditos são esses camponeses, vieram para cá trazendo apenas o seu desespero, por mim lutariam com suas próprias facas e ancinhos.
Muitos nem isso conseguiram salvar, e não poderíamos ter chances de sucesso se nosso exército regular ficasse a jogar pedras no inimigo. Perguntei se tinha uma desses minérios especiais que raspavam o aço, ele respondeu negativamente, apontando para um grupo de conhecidos não muito longe, quebrando seu jejum com pão. Cumprimentei o ferreiro com um aceno de cabeça e lhe dei as costas, caminhando para na direção das figuras familiares, a pose cada vez mais dolorosa de se manter, evitava ao máximo mostrar a todos minha inaptidão para a batalha que viria. Eles conversavam despretensiosamente sobre a tortuosa passagem por Silh, como se nossas dificuldades e aqueles que por causa delas pereceram estivessem num passado distante. O clássico desprendimento e apatia dos mercenários comuns, ou talvez a dor em meu flanco estava a manter a lembrança fresca na memória.
—Cceleb! Andando entre os vivos ainda.
Por enquanto – Cumprimentei o grupo com uma curta reverência, a qual todos responderam. Deles eu não desgostava particularmente, alguns eram de fato podres por dentro, mas a maioria apenas agia de acordo, se fosse obrigado a falar com ternura. Tínhamos passado muito tempo ombro a ombro na floresta fechada e chuvosa que era Silh, caminhando quase sem pausas de dia, e de noite vigiando cada canto escuro das árvores e rochas, tremendo sem chama alguma para não atrair o Povo da Noite até nossas jugulares, tudo em meio aos clarões dos relâmpagos que num pequeno momento nos mostravam todas as criaturas antes protegidas pelo escuro. Foram dias de merda em que tivemos de compartilhar cada hora dos nossos dias, por isso não estava tão ansioso para vêlos ou ouví-los em tão pouco tempo. Mas alí estava eu querndo algo em troca.
—A maioria da companhia que veio conosco estava dormindo naquela noite – Hoyt contava aquele exagero pela terceira vez, ao menos em minha presença – Tão cansadinhos que estavam depois da marcha, estamos aceitando muita gente mole hoje em dia! Se não têm a resistência necessária para suportar isso como posso confiar num sujeito assim para proteger meu ponto cego? Não confiaria, é a resposta que vos dou, mas quem sabe uma boa guerra como essa selecione os fracos, e que esses se tornem grandes ao emergir do banquete dos corvos – Todos levamos o punho ao peito quando nosso comandante repetiu um de seus mantras – Só eu e Cceleb não caímos no sono com a longa vigília, e ainda demos sorte de termos encontrado uma gruta para nos abrigar da chuva, mesmo só tendo espaço para o sono dos garotos. Então ficamos apoiados de costas num pinheiro velho, digo a vocês que aquela for a uma noite longa demais, não importava quanto forçávamos os sentidos para ver e ouvir alguns metros adiante, o acúmulo do gotejar das folhas era ensurdecedor, e o pouco luar que as nuvens as vezes deixavam escapar eram negados pelas árvores que formavam quase que um céu mais próximo.
Lembrava bem dessas noites, esta em especial deixou meus dedos da espada mais rígidos que nunca, e juntamente com o frio carregado pelo vento e pela água que me castigavam deixaram-me tenso demais por muito tempo, e meu corpo reagiu mal – As horas corriam como caramujos, enquanto que a tempestada não nos dava tregua alguma. Os poucos que vejo aqui que atravessaram a floresta devem estar beijando o chão de um teto pelo que passamos. Então até mesmo os veteranos pouco a pouco foram íam sentindo o cansaço puxar seus olhos, ficava jogando a água gelada em meu rosto para evitar que adormecesse, mas esse aquí – Disse me cutucando – Parecia nem piscar os olhos, como se estivesse pressentindo os bastardos nos espreitando, o que estavam a fazer até chegarem em uma posição confortável. Um ruído nos fez levantar já em prontidão, algum farfalhar de folhas ou um tropeço em uma poça funda de água, flechas negras foram cuspidas da mata sem nos darem tempo de pensar em nada. Isso ainda na metade para a alvorada, já discutíamos quem trocaria nossa guarda. Sentí penas rasparem perto do meu rosto, uma se perdeu e a outra acabou cravada no tronco do velho carvalho. Quando percebí Cceleb estava apoiado em um joelho segurando a ponta daquela flecha rudimentar, eles ainda pensam como a séculos atrás quando imbuíamos nossos arqueiros de madeiras pesadas para confecionarem as flechas, estas atravessam carne com facilidade mas perdem precisão no processo. Vosso capitão conseguiu se jogar para detrás de uma elevação de arbustos próxima, enquanto que meu machado voava, sibilando e cortando a chuva até chegar do outro lado e acertar algum dos deles, ouví o baque surdo de algo despencando, a Fé deve estar me favorecendo e tomara que continue. Mas acabou que os miseráveis tiveram sorte, a fúria tomou conta no momento, sem perceber já estava investindo de escudo erguido e sabre for a da bainha como muitos atrás de mim, nossa falta de fogueira os impossibilitou de saber o tamanho de nossas forças e foram inteligentes ao partir por seus caminhos. Xinguei o que estava a minha volta até cansar, não encontrando sinal ou rastro algum naquela noite sórdida, somente com a luz da manhã consegui encontrar meu machado salpicado de sangue. Voltando ao ponto da vigília achei Cceleb apoiado numa rocha, segurando com um sorriso doentio a ponta da flecha quebrada.
—Só mais uma para a coleção – Gwyne disse em tom de zombaria – Se você sobrevivieu à travessia em meio a febres e ataques, Cainhirst vai ser fácil.
Ví os sorrisos de Ahmyre e Danglar morrerem ao terem sido lembrados da inocência do garoto, seu otimismo contrastante com tudo o que víamos e ouvíamos nos irritava a maior parte do tempo, em parte por esses motivos mas também por ainda não termos o aceitado como irmão guerreiro. Se juntara a nós a quase dois anos e apesar de ser muito habilidoso na esgrima e arqueria para sua idade, ainda não conquistara nossa confiança através das provações. Estando subordinado ao bando do Norte por mais tempo, foi um dos enviados para engrossar nossas fileiras para nos juntarmos à resistência da invasão de Arnor, Gwyne foi impressionando seus superiores até alcançar o posto de capitão menor, promoção ao qual fui contra, e ser mais aceito em nossos círculos. Mas nessa esfera se espera mais de nós do que nossa utilidade para matat outras pessoas, e nesses requisitos ele teimosamente mantinha-se em falta.
Hoyt se mexeu no lugar em que estava sentado, incerto se suas próximas palavras seriam sombrias ou encorajadoras:
—Se nada der certo, sempre podemos voltar para a floresta e viver com os primitivos.
Todos riram, exceto eu. Ainda sentia na pele o resultado de um dos nossos encontros, minha paciência estava se esgotando com toda aquela perda de tempo, a minha mente ja me tentava a me fazer imaginar um dia inteiro perdido bebendo aguardente na paliçada de onde não deveria ter saído. Mas o peso de Bastiom em minha cintura era um bom lembrete do que deveria ser feito.
—Você acha que temos chances? — Perguntou o jovem Gwyne, novamente deixando todos desconfortáveis, imaginei nosso estimado Comandante dando-lhe um tapa na nuca para calá-lo, do jeito que fazia conosco anos atrás. Poucos de nós sobraram que ainda guardam com felicidade essas memórias. Mas estranhamente não o fez, quem sabe a vinda da idade estava o cansando das maneiras bruscas as quais nos comportamos, apesar de ser ele o mentor dos nossos modos. Não era isso, pelo menos não em todo. Gwyne tinha esta maneira de se portar que fazia todos apreciarem sua companhia logo cedo, em mim este processo foi demorado, no início eu o detestava, só sua presença já era o bastante, e depois me consternei com minha própria frieza ao lembrar que no fim de certas batalhas eu procurava seu corpo em meio aos outros, fingindo que estava atrás de pilhagens. Eventualmente o aceitei, e logo sua pessoa começava a me agradar, chegando ao ponto de zelar por sua vida em meio a confrontos intensos, em que homens se equilibravam em cima dos mortos que mal pararam de se mexer -Não sei, talvez não – Percebí que as palavras foram escapulindo da minha boca – Silh provavelmente os atrasará por algumas semanas, mas ainda assim um dia estarão do outro lado dos muros…
Calei-me de súbito e lembrei recobrei o motivo de estar alí trocando palavras, perguntei a eles e ví que era Ahmyre quem segurava a Pedra de Lua na mão.
—Você ainda vai ter uso para isto?
Deveria ter pedido antes Cceleb, usei a maior parte que tinha para restaurar o fio de Lothran – Era uma arma que poucos não olhavam com dúvida, chamavam-na de Hunga em Kjele, província do sudoeste de Dûtra que procurava expandir seus territórios para os Reinos dos Clãs e nos pagou para matar por eles. Tivemos a sorte de topar com uma caravana de comerciantes naquele deserto maldito, nós eramos os estrangeiros e mal nos comunicávamos com os locais, mas a lingua da prata não tem fronteiras. Apesar de que demoraram um tempo para perceberem que não éramos salteadores, e as armas foram baixadas até tocarem a areia. Foi uma verdadeira bênção, as tensões estavam frias e Hoyt só nos achou trabalho nos confins do norte, lembro que muitos debandaram quando receberam a notícia da longa marcha que estava por vir. Nossa comida estava em seu fim, e o aço de boa parte das tropas, e até mesmo dos superiores, estavam muito desgastados. Apesar de poucos estarem carregando moedas na ocasião, pesamos nossas costas com água e alimentos renovados, mas foi Ahmyre com sua lábia afiada que conseguiu barganhar uma troca pela Hunga que levava no flanco. Como descrever aquela coisa? A primeira vez que nos mostrou com um sorriso estampado no rosto muitos riram, julgando aquela coisa impraticável numa luta séria. Era uma lâmina negra e curva, com três outros gumes brotando em sentidos diferentes nas suas extremidades. Nós assistíamos entretidos as tentativas frustradas que perduraram por noites, Ahmyre quase sempre dormia por último, focado em dominar a técnica necessária para usar Lothran como nossos inimigos naquela ocasião faziam. Nesse interím perdí a conta das vezes que o ví recebendo pontos por perder o controle da corrente, mas com o passar dessas semanas os risos e reprimendas foram diminuindo ao passo que os arremessos e giros iam ficando mais precisos, os movimentos antes desajeitados ficaram mortais, e quando tivemos a chance de ver o que aquele borrão preto que sibilava cortando o ar podia fazer, todos reconheceram Ahmyre como um de nossos melhores guerreiros. Era um dos poucos que não contavam com a sorte ou a força em um confronto (Em muitos casos também na coragem temporária que a bebida os dava), e sim nas suas habilidades, e o esforço necessário para aperfeiçoá-las.
—O resto já serve.
—Por quê não usa um rebolo? — Respondí Gwyne mostrando-lhe Bastiom, e foi o bastante. De soslaio ví as feições zombateiras de muitos que nos rodeavam, mas o que fazer se era de fato um motivo de grande vegonha? Percebí o desaponto nos olhos escuros de Hoyt, Ahmyre apenas deu de ombros e finalmente me entregou o que pedia. A pedra estava muito gasta e reduzida, passaria a noite esfolando minhas mãos.
—Mas Cceleb… não seria melhor pegar uma da pilha?
Gwyne mais uma vez levou o clima daquela reunião para o soturno, era um dos efeitos de sua ingenuidade e inexperiência. Perguntei a mim mesmo se Cainhirst o transformaria em homem ou um cadáver junto com todos nós. Para aqueles que somente me conheciam de nome, a pergunta os fez voltar seus olhares para mim, já que era realmente uma dúvida que valia ser trazida à tona. Para os outros poucos que estavam no Bando a mais tempo, suas cabeças baixaram ou viraram para longe daquela situação tensa, apesar de não ser do meu feitio criar comoção por essas razões. Não poderia culpá-lo, desconhecia o motivo que deu nome à espada por nunca lhe ter confidenciado isso, mesmo com seus esforços de ganhar minha simpatia, ela só seria conquistada por meio da provação, não por sorrisos e palavras suaves que eventualmente poderiam vir à ser veladas traições. Portanto respirei fundo e respondi da melhor maneira que pûde:
—Se esse for nosso fim, que pelo menos Bastiom experimente um pouco de orgulho.
O cheiro de doença e sangue seco exalando das tendas médicas quase me fizeram dar meia volta, temendo sair de lá ainda mais enfermo do que estava. Eu poderia muito bem fazer o que tinha de ser feito sozinho, mas as memórias recorrentes dos companheiros que assim fizeram e depois viraram refeição de abutres me impediam. O ferimento já se encontrava num estágio de infecção que ia além das minhas parcas habilidades curandeiras, aos poucos percebia o inchaço aumentar quando tateava a região do corte com hesitação. Queria viver um pouco mais, e se possível levar alguns Kushan para o grande túmulo comum, mas não só por isso que puxei de lado as cortinas encardidas e adentrei no local, em meu íntimo acalentava esperanças de rever uma certa pessoa. Felizmente a fila não era muito extensa e logo chegou minha vez, talvez por causa da alta mortalidade da maioria dos pacientes que chegavam em Cainhirst logo em seus últimos suspiros. Se a disponibilidade do espaço já havia sido extrapolada devido ao mar de bocas famintas e amedrontadas que inundou a fortaleza, imaginava quão imensurável deveria ser o contingente que não teve a mesma sorte, fadada a vagar perdida por Silh até a inanição, ou pior, cruzar o caminho do Povo da Noite como nós. As áreas costeiras de Arnor haviam sido perdidas para o inimigo, um terço do território do país hasteava diferentes brazões, e a marcha inimiga vinha lenta e paciente em nossa direção para subjulgar o que sobrou.
A chegada de Irina interrompeu estes devaneios sombrios, seu cansaço era evidente depois de uma breve observada. Diferente de mim ela mal me notara dividindo o mesmo espaço, respirando o mesmo ar. Estava mais preocupada em limpar o excesso de sangue das suas mãos, que chegou até seus cotovelos devido às suas mangas avermelhadas. A julgar pelos gritos que não conseguia ignorar, algum infeliz teve algum membro cerrado por ela, sua expressão abalada também era um forte indicativo. O confronto nem chegara à nossa porta e nossos aleijados apenas se multiplicavam. Tirariam vantagem destes os usando nas linhas de frente, cansando o inimigo até que chegasse perto de nós.
Puxando uma das cortinas grosseiras para o lado nós ficamos a sós, e como um idiota fiquei a encarando, esperando ser reconhecido mesmo que fosse um ato falso. A resposta que tive veio através da dúvida e apreensão que se manifestaram em seu rosto sujo e cansado, porém ainda muito belo para mim. Aparentemente minha aparência era comum demais para me destacar do resto que ela tratou, e notando isso disse-lhe logo o motivo da minha vinda desabotoando minhas vestes e lhe mostrando a protuberância rosada em meu flanco. Sua reação foi de pura normalidade, e quando as ataduras amareladas foram removidas não pude deixar de fazer uma careta com o fedor que exalava, pus escuro vazava às gotas pelo remendo feito por ela anteriormente, Irina não demonstrou asco ou surpresa, apenas me disse com neutralidade, como se seus olhos castanhos estivessem mirando para além de onde estava sentado:
—Mais um dia e provavelmente não haveria mais volta para você, terei pressionar as secreções para fora até que não sobre mais nada, e depois desintoxicar com aguardente – Ela claramente dizia mais para sí do que para um estranho – Vai doer muito -Finalizou com esse aviso desprovido de preocupação, me dando apenas a secura da sua voz.
—Está vendo quantas cicatrizes tenho? Não tem problema – Ela apenas deu de ombros e foi buscar um recipiente pequeno de ferro. Um toque mais pesado no local já era o suficiente para fazer meus dentes trincarem, e iniciado o procedimento tive de abocanhar uma tira grossa de couro da bainha para suprimir os berros de dor. Com as duas mãos ela pressionava minha carne sem misericórdia, e quando o ferimento começou a espirrar virei o rosto para não ficar enjoado. Ela pressionava cada vez mais forte até ter certeza de que o buraco estava vazio, e quando enfim cessou de jorrar estava tão aéreo com a dor que só sentí uma leve ardência quando a aguardente tocou minha pele. Demorou até que ela voltasse com panos novos e limpos para repor os velhos, senti uma pitada de sorte me favorecendo.
—Tente lavar com água limpa ou álcool no mínimo duas vezes por dia, se não teremos de fazer tudo novamente se você continuar sendo sortudo assim, sobrevivendo à flecha e a infecção que ela causou. A fortuna deve estar te agraciando, a maioria morre em poucas horas devido ao veneno que os selvagens geralmente usam…
Fiquei feliz por ela ter lembrado da noite angustiante que atravessamos quando fui trazido já cruzando os portões da morte, ela deveria ter um dom para ter conseguido reduzir minha febre fatal até que virasse um incômodo. Mas seu tom de voz opaco indicava a quantidade de vezes que essas mesmas palavras foram ditas.
Vou tentar trazer mais suprimentos medicinais se puder, vocês estão claramente em falta – Ví a confusão esboçada em seus olhos, e percebí que desta vez ela não tinha falas prontas – Seu nome é Irina, certo? Lembro que ouví te chamarem da última vez que estive aqui – Achei que morreria naquela lua cheia, perdí a conta das vezes em que ela colocou os mesmos trapos encharcados na minha testa e torso. Ela me acalmava quando despertava de supetão delirando loucuras, dando-me de beber com toda a paciência do mundo. Achava-me especial até notar a mesma dedicação com os outros doentes, quando a febre abaixou e me permitiu discernir melhor a realidade dos delírios de um enfermo, deixando-me desapontado e contente ao mesmo tempo.
Fiz-lhe uma reverência de despedida e virei as costas para partir, mas interrompí meu passo ao sentir seu toque em meu ombro:
—Você sabe meu nome, se importaria de oferecer o seu?
—Sou Cceleb, dos Despossuídos…
Demorei um pouco para encontrar as escadarias certas, no processo me perdendo entre os escombros e câmaras dos altos fechadas à lança. Não me decidia se Cainhirst mudara ao longo dos anos, ou se minhas memórias de menino me enganavam, mas eventualmente cheguei ao topo nordeste da muralha, a única ala parcialmente iluminada por tochas tênues. Troquei as mais fracas e econtrei uma parede sólida em que pudesse apoiar minhas costas, observando Silh de cima, contando as habitações, algumas improvisadas, do outro lado dos muros do castelo. Eram muitos para meu pouco saber, se extendendo até mesmo além da clareira, entre as árvores figuras iam de um lado para o outro cuidando de suas vidas. Mesmo com a metade do dia ainda de pé, a noite e sua frieza já forçavam sua avalanche sob nós. A chuva misturada com os flocos de neve logo me cobririam, infiltrando-se entre minhas roupas e causando calafrios em meus ossos. Usei a capa suja e poída que se arrastava junto à mim para me cobrir, Imaginei no momento que provavelmente teria a chance de pilhar um belo linho negro dos Kushan, a dúvida era se poderia aproveitá-lo por muito ou pouco tempo. O ruído desagradável de metal raspando em sí mesmo preencheu uma parte do espaço, juntando-se ao crepitar das fogueiras e os cantos que delas emanava, procuravam suavizar a dor interna de um dia árduo e as aflições de pensamentos que residiam no futuro. Tudo acontecendo enquanto eu me mantia isolado com Bastiom, usando duas luvas em cada mão para afiar as bordas com menos cuidado, logo ela voltaria a cortar carne tão bem quanto antes, mas ainda assim temia por sua integridade se viesse a receber um golpe suficientemente seco e brusco. Os ventos cruéis guiavam a chuva até meu rosto, molhando minha barba e mãos ao tentar remover a geada que se formava lentamente, tornando um pouco difícil manejar bem a afiação quando as bordas foram passando. Um olho mantinha-se atento nos dentes de Bastiom, os evitava rodeando a pedra de lua para que deslizasse por cima das fendas mais aberrantes, enquanto que o outro observava as luzes as poucos rodearem Cainhirst, como se as chamas fossem estrelas e sóis em meio ao vazio escuro do bosque. Toquei no ferro da minha corrente de anéis para afastar as lembranças das noites que suportei entre aquelas árvores, sempre alerta para o que poderia delas imergir, sempre silencioso como uma rocha para que os movimentos súbitos na mata não viessem em nossa direção. Mesmo queimando de febre e sofrendo alucinações, batendo a aldrava dos portões da morte mas sem resposta.
Mas no final não passou de uma nova cicatriz para a coleção, mesmo que ainda me doesse ao esticar a pele do flanco, sabia que esta não seria a última. Enfim terminado um dos lados, as juntas de minhas mãos reclamavam através da dor, pousei Bastiom de lado e caminhei um pouco ao longo do muro para esticar minhas pernas, puxando do bolso de minha capa um pequeno odre com aguardente diluída. Tomando longos goles até decidir que me sentia leve o bastante, reiniciei o longo processo e nos primeiros momentos meus músculos voltaram a doer com intensidade. Minha mente em foco para não ceder ao frio, pouco a pouco o raspar vagaroso de metais ia sendo o único som a perdurar, a comida e bebida racionada rapidamente se esgota nas mãos dos desesperados, e as bocas da grande forja foram se apagando até que o ar ficou mais congelante. Ansiava pelo meu canto na paliçada e afastei esses desejos, meus olhos já pesavam mas ainda havia uma tarefa a ser concluída. Como distração comecei a observar com mais afinco as magras e poucas figuras que permaneciam em volta das fogueiras, mas não ouvia mais o eco de suas vozes, teriam suas conversas adiquirido um tom mais soturno a medida que os divertimentos foram se findando? Ouví lufadas de vento mais intensas chacoalhar as folhas dos galhos altos e expulsar os pássaros que lá pousaram, o céu estava escuro demais para discernir qualquer forma que por ele voava, mas seus gritos estridentes todos ouviram bem. Um homem de idade avançada segurando um arco longo estava a vigiar o largo do fosso meio adormecido, e alguns lanceiros cuidavam da guarda do portão principal, além destes e dos batedores que se mantinham ocultos no emaranhado da floresta, poucos protegiam o sono bêbado de Cainhirst, que ao meu ver dormia com excesso de tranquilidade.
Quem sabe a dificílima travessia por Silh retardasse a movimentação a tal ponto que forçasse a desistência desta investida, poucas eram as situações em que o caminho mais curto se mostrava o mais fácil. Havia também a chance do Povo da Noite os expulsar de seu território, ou na pior das hipóteses unir forças com os invasores para nos esmagar com mais rapidez. Estávamos todos presos àquele montante de rochas velhas empilhadas, isolados pela cruel imensidão da floresta que ia além da própria Arnor. Não precisavam nem mesmo nos restrigir num cerco e aguardar que a fome fizesse o seu trabalho, na velocidade que todas essas bocas consumiam os parcos estoques e a pouca caça que alguns ainda conseguiam não aguentaríamos por muito tempo. Os Despossuídos viviam sempre no limiar entre a morte e a glória, como a maioria das companhias que ainda não se desagregaram e acumulavam muitas vitórias e perdas, mas poucos títulos e estabilidade advinda destes. O teto que nos privava de uma vida digna era feito de pedras e cimento.
Ao lado disso continuávamos a sacudir nossas lâminas em busca das prometidas riquezas, os velhos sendo por bem ou por mal substituídos pelos nem sempre jovens, enquanto todos marchavam sob a trilha de ossos. E lá estava eu pela centésima encurralado por uma força maior, afiando Bastiom com o coração apertado pelo que viria, a incerteza de quais queridos eu veria nos deixar. Temia pelo eventual, perder minha vida por uma causa qualquer, aleijar-me e virar um indigente, envelhecer conservando para mim mesmo nada mais que a continuidade de minha respiração. A província de Arnor era para os Kushan a entrada principal para o coração do continente, e Cainhirst era a última grande fortaleza que se mantinha de pé desafiando os invasores. Sem chances sozinha, mas o perigo de sua queda e o consequente estabelecimento de uma nação estrangeira no continente poderia cessar temporariamente as disputas internas das outras províncias que faziam fronteira em nome de um mal maior, e assim nos prestarem o socorro que custaria caro para Arnor, futuro que se torna promissor frente a eminente perda da sua soberania.
Era esta posibilidade estreita que muitos se agarravam com insegurança, pois mesmo os mais simplórios sabiam que este resultado era deveras bondoso e mirabolante para se concretizar realmente. A esse ponto caravanas já deveriam estar sendo organizadas em segredo no caso da piora dos temores, condicionados pela nulidade que iam ganhando nossas chances de sobrevivência. Planejando sua fuga pelas rotas das mais árduas, seja a travessia pelo mar até a colossal Sormon, ou testar a sorte nas subidas e descidas das montanhas de Mêrgo. Evitar a vida sob o domínio dos Kushan era no momento mais prioridade do que outra fuga desesperada e faminta, uma em que a grande maioria não sobreviveria para espalhar as histórias do que aconteceu.
Ouví passos reverberando nas escadarias à direita, e uma figura familiar ia surgindo da nevasca que intensificava-se com o prosseguir da noite, quando passou pelo alforje pude ver seu rosto com mais clareza. Hoyt estava vestido com mais pomposidade do que de costume, e notei a mancha roxa no canto de sua boca e barba. Não carregava arma alguma consigo, pelo menos nenhuma visível, e tremia pela falta das peles bem cuidadas que geralmente vestia.
—Você se escondeu muito bem, demorei uma eternidade para achar esse lugar – Era perceptível que o vinho o deixara um pouco alterado para quem o conhecesse bem, estava mais falante que o normal.
—Depois de um banquete com os altos jamais pensaria em ficar perambulando nesse clima.
—Não vim me distrair, queria falar contigo, meu velho capitão – Não era o superior mais velho no bando, mas minha posição na hierarquia estava abaixo somente da de Hoyt – Para o segundo em comando dos Despossúidos muitos nem te veêm direito. Não faria mal um pouco mais de presença com as tropas.
—Ah Hoyt… teremos bastante tempo quando os Kushan chegarem – Ele conteve um soluço que mais me pareceu um risinho reprimido.
—Talvez não precisemos – Seus olhos escuros brilhavam de malícia – Se conseguirmos acabar com isso rapidamente ganharemos o prestígio que merecemos, imagine Cceleb, os salvadores de todo o país! Não vê nossa oportunidade bem na sua cara? Nunca precisaram tanto de nós para salvar seus prórpios pescoços, não é a toa, e nem por causa do frio, que estão tremendo do outro lado destas paredes. Eu troquei um mês da nossa estadia por títulos de terras e ingresso no exército real.
Não pude evitar de soltar um suspiro ao ouvir aquelas palavras de encorajamento e esperança familiares.
—Hoyt, acha mesmo que Cainhirst tem comida para durar mais duas semanas? Acha que a madeira podre do portão aguentaria um ariete? Como te disse assim que chegamos, teríamos uma chance melhor fugindo para Tartan ou até mesmo Privia, onde o ódio por nós ainda não foi esquecido. Mas você nos condenou aqui, tudo em troca de uma promessa de um alto que, assim como todos aqui, já está morto.
Esperei que minhas palavras rudes o enfurecessem da mesma maneira que sentía dentro de mim, mas pelo visto estava de muito bom humor para dar ouvidos às críticas de suas escolhas. Ele deu-me as costas para olhar o que havia acima e abaixo da muralha, não encontrando estrela alguma no céu.
—Meu amigo, a quanto tempo estamos no gume da espada? Nossa situação só ficaria ainda mais drástica se nos convertêssemos em desertores, párias em nossa própria terra. Depois de todos esses anos de luta e de histórico limpo dos Despossuídos, você talvez optaria por jogar tudo fora, mas eu nunca. Estamos aquí agora, sem retorno, e disso conquistaremos nosso lugar nesse mundo.
—Eu apenas me preocupo mais com a vida dos nossos do que com os seus sonhos -Falei baixo e ele não ouviu, talvez tenha sido intencional. Estava cansado demais para discutir sobre nossas chances obviamente negativas, em meu íntimo apenas não queria ser morto sob a guerra e a neve, mas acho que levando em conta a vida que levei não havia mais o luxo de escolher o próprio fim, outros o fariam por mim.
Se você não for também fico, protegemos um ao outro por tempo demais para que tudo acabe assim – Falei ao ficar de pé, limpando o pó da pedra de lua que ficou no aço, rasgando a luva ao fazê-lo – Só não espere que os outros bandos do nada firmem sua lealdade com seu pagante, já estamos encurralados o suficiente e…
Hoyt pedia Bastiom com a mão estendida, sem jeito entreguei a ele. Que encarou o estado do metal com expressão inigmática, testando o fio com a ponta do dedo.
—Acredite, está tão afiada que deve cortar até a própria bainha – Disse ao me sentir irritado por me ver separado dela.
Com habilidade ele enrijeceu o corpo e cortou o vento ao seu redor. A espada sibilava ao atravessar o ar e cortar os flocos de neve.
—Sinto pena daqueles que não caírem com o primeiro golpe, Bastiom morde com mais ferocidade que nunca – Me devolveu com as duas mãos e me sentí confortável ao tê-la mais uma vez contra o meu peito.
—Se ela não se partir… -Algo chamou minha atenção quando o olhar cruzou com a lâmina. Percebí certas manchas cinzentas ao longo do metal, ao passar o polegar ví que não eram da mesma cor ou textura que os restos da pedra da lua.
Sentí tocarem meu ombro, e ao me virar Hoyt me mostrava a mesma sujeira presa à sua capa. Pela luz em volta das tochas ví que cinzas caíam junto com a neve. Os berros e lamúrios próximos que ouvíamos precederam os gritos que acordou a todos, arrancando-os de sua falsa paz. Corremos para alcançar o lado leste dos muros, e antes de lá estar já se podia ver do que se tratava toda a comoção, por meio de janelas e buracos que viraram janelas que passamos pelo caminho se podia ver em relances a súbita claridade que tomou as núvens, e abaixo havia uma densa cortina de fumaça iluminada pelo maior incêndio que ví na vida. As chamas deveríam ser maiores que as grandes árvores no horizonte, e mesmo estando muito ao longe todos sentimos o presságio que acarretava. Muitos estavam de pé a observar boquiabertos o espetáculo, pensando na perdição que não mais escapariam ao jogar suas mãos para cima em preces chorosas.
—Silh inteira queimará para agilizar o avanço deles – Sem querer meus pensamentos foram ganhando fala. Imaginei que Hoyt estaria com o mesmo desespero que muitos não conseguiam esconder. Quando na verdade estava sorrindo largamente, seus olhos envoltos em labaredas como se a loucura o tivesse contaminado.
O frio cortante espreitava entre as frestas do grande salão, mas não fazia muita diferença já que tantos estavam a respirar o ar quente de uma multidão, as brasas da lareira principal já amiúdes. O chão estava imundo de tanta lama e água que os calçados traziam de fora. Logo todos os altos e comandantes estavam presentes, e muitos destes me olhavam torto, questionando meu lugar entre eles, e não eram os únicos. Desde que entrei fiquei a me perguntar os motivos que fizeram Hoyt me arrastar para aquela reunião.
Uma grande mesa elíptica separava os de sangue nobre, e nós fomos postos à sua volta para assistir e para se solicitado opinar a respeito. Havia apenas uma cadeira posta no outro extremo, suspensa por um palanque de cimento, e nela um homem da minha idade sentava-se inclinado, com a mão por vezes coçando a barba ele parecia analisar os rostos e murmúrios de todos, ocultando suas intenções por meio de um pretenso desinteresse. Os servos ziguezagueavam entre nós com jarras e cálices pendurados entre os dedos, Hoyt parecia querer captar todos os detalhes à sua volta com seu olhar de caçador, recusando o vinho que ofereciam, enquanto que eu bebia a segunda leva. Estava entediado por ficar em pé aguardando os altos descobrirem um jeito de evitarem a perdição de tudo o que tinham, e meu comandante parecia parado no tempo, nem mesmo notando os olhares de desgosto daqueles que podiam sentir nossa inferioridade de longe. Não demorou muito para as conversas acalouradas e discussões ensurdecerem a todos, tanto que o barulho não morreu até que as batidas da mesa chamaram a atenção da maioria. O homem sentado no trono de madeira enegrecida arrancou farpas da mesa com a pedra que usara. Seus olhos pareciam ligados aos nossos, esperando um pouco para agir com reprimenda ou perdão aos seus vassalos. Nesse momento de hesitação tudo que se ouvia era o crepitar das brasas moribundas.
—Então?
Um dos Senhores, gordo de queixo duplo e cabelos longos, saiu da multidão para falar:
—Temos cinco mil da base e metade disso em soldados, Vossa Excelência.
—Somente...?- Comentou consigo mesmo em baixo tom, mas os que não estavam perto para ouvir receberam a resposta por aqueles que alí se encontravam – Estão todos armados, da base?
—Quase, Vossa Excelência. Acredito que dentro de uma semana os ferreiros que temos completarão a encomenda, demos sorte de não termos carestia de materias, achamos muito ferro e aço velho nos porões subterrâneos e os reutilizamos para…
—E como os senhores pretendem nos defender? — Suas palavras foram cortantes, interrompendo a fala do outro e o fazendo sentar, pois para isso não tinha vindo com uma resposta pronta. Mas ninguém falou por longos momentos.
Até que os primeiros corajosos ofereceram boase más alternativas, mas nenhuma solução de fato. Quando ousaram insinuar que o melhor seria abandonar a fortaleza pura e simplismente, muitos ressoaram seus pés e pontas de lança ao fazer o chão tremer. Mas pararam com a reprovação estampada no rosto de seus superiores, que em sintonia com o Étel de Arnor recusaram-se a abandonar suas terras em covardia, e depois de mais silêncios incômodos um jovem lanceiro se fez ouvir do fundo do grande salão:
—Quanto tempo até o inimigo chegar? -Era uma dúvida latente em todos nós, e sua resposta valia mais que ouro para aqueles corações desesperados. Silh deveria ser a nossa proteção temporária, aí residindo a vantagem estratégica da relíquia que chamávamos de Cainhirst, anulada como se toda a madeira no cair do sol tivesse apodrecido. Ninguém alí tinha idade ou lembranças para saber de feitos semelhantes em toda história da província, os refugiados dos povoados da floresta eram naturalmente os mais aturdidos com a situação, balbuciando por aí que algo assim só poderia ser obra de feitiçaria do outro lado do mar, supertições compartilhadas por quase todos alí. Para mim pouco importava os comos da queima de Silh, apesar de perder a conta das taças de vinho já chamava outra copeira, começando a sentir diversão ao ver os altos se dabetando no próprio desespero. Depois dos murmúrios começarem a se dissipar, o Étel falou:
Talvez menos de três semanas, mas é difícil ter certeza com as chamas ainda tão distantes. Esse com sorte será também o limite dos nossos estoques, podemos alongá-lo se colhermos as raízes que crescem em volta do castelo – Disse sem olhar para o seu intendente logo atrás, mas percebí o canto do seu olho o mirá-lo por um instante, teve a confirmação da sua ordem com um aceno de cabeça – Não há chance alguma de vitória se a batalha for campal, e as condições das muralhas não passam segurança alguma, como andam os reparos?
Tempo demais para não termos buracos em nossa defesa é um bom resumo da resposta, o o cimento estava fresco para a conquista do que sobrou de Arnor, além de não oferecer resistência à altura o castelo ruiria nos primeiros ataques. O espurgo dos kushan não será tarefa nossa, e sim dos vivos arrependidos por perderem a chance de evitar a tomada do Continente. Imaginei que ninguém teria coragem de propor uma aliança com o inimigo, tal possibilidade provavelmente só seria discutida nas reuniões mais privadas. Lá é que realmente discutiam sobre as nossas vidas, via todo aquela encenação apenas como uma maneira de informar a quem precisava saber, e nem isso era de todo sincero. Nosso exército medíocre poderia muito bem lutar com paus e pedras se as previsões não forem tão generosas como nos foi dito. Se não fossem as recusas repetidas de meu comandante e o respeito e confiança que tenho por ele, a muito tinha me salvado, especialmente no meu caso as coisas começaram com a sorte me salvando.
Olhando em volta percebí que pouco a pouco o grande salão ia ficando menos apertado, pois figuras duvidosas se esgueiravam entre os cantos e saídas, repassando a confirmação da debanda, ou quem sabe insurreição. Estavam a cuspir em nossa cara ao nos obrigar a superar chances tão aversas, contra uma onda que já dominou boa parte do país, nem todos eram tão leais aos altos ou ao ouro, mas ao menos gostava de pensar que conosco isso não aconteceria.
O resto se resume a detalhes e tecnicalidades do que já fora dito. Perdurou até mais do que necessário, enquanto que o Étel de Arnor permanecia com os olhos fixos, atentos nos rostos dos que não falavam. Até que sua face tornou-se sombria ao passo que o silêncio foi ganhando peso. A sensação de término chegou a todos, mesmo que nada tivesse sido resolvido, apenas a confirmação da perdição eminente fora dada a todos. Mais baixos como eu sobraram poucos ainda presente, não que nossos números passassem da incipiência, apenas os altos que sentiam mais obrigação em estar alí permaneceram, enquanto que o Étel tamborilava na mesa com seus dedos. Ele preferia colocar seus nobres em um silêncio incômodo à os dispensar. Talvez o barulho do vinho enchendo minha taça era o único, até que Hoyt, escolhendo o momento certo, pediu a palavra, atravessando a já pequena multidão de mão erguida, quando no centro estava aos olhares tortos de todos, fez uma reverência ao Étel, que respondeu com um aceno da cabeça.
—Vossa Excelência, perdoe minha franqueza rude, mas acredito que nosso futuro a pede. Estando em tremenda desvantagem em quase todas nossas chances de sobrevivência, nossa única vantagem temporária, a floresta de Silh, foi muito queimada a ponto de nem sabermos ao certo até quando chegrará a nós – Ao dizer essas palavras, os murmúrios podiam ser ouvidos em toda parte, queriam saber quem era aquele comum de lingua afiada, e o Étel apenas observava – Claramente não temos muitas chances, e pelo visto contar com o apoio dos outros não é uma opção viável, se não tomarmos algum rumo em breve temo que Cainhirst não terá mais ninguém para defender suas muralhas furadas, seremos apagados do mapa… -Não consegui ouvir o resto do que falou, os xingamentos e maldições voaram ao redor da mesa, apenas por alguém não pertencente a sua casta lhes dizer a verdade conflitante com sua dignidade. Mas essa discussão não durou, a pedra atingiu a mesa com tanta força que deve ter ressoado por todo o castelo, com uma única batida todos se viraram para o Étel, estava de pé sem nenhuma têmpora saltada ou expressão raivosa, mas seus olhos eram gelo, mirando a todos como se diminuísse a temperatura em nosso inteior, larguei o cálice. Em seguida vieram pedidos de desculpas em baixo tom –Se todos manterem a calma talvez possamos encontrar uma solução – A raiva fria crescia novamente naqueles rostos desconhecidos, mas não esqueceriam da presença de seu suserano novamente — Acredito que todos vão discordar da minha ideia, apenas peço que ouçam. É provável que nossa melhor chance é procurar estabelecer contato com o Povo da Noite, e então negociar uma aliança contra um inimigo comum – Dessa vez Hoyt, prevendo a comoção gerada por suas palavras, resolveu aguardar.
Certas vozes se ergueram por um momento, mas logo o lembrete daquele sentado na cadeira acima de todos os calou, apenas o Étel disse:
—Explique-se.
—Certamente, Vossa Excelência. Preocupou-me tempos atrás a chance destas pessoas se unirem aos Kushan para nos subjulgar de vez, os recentes eventos mostram que o ocorrido fora o oposto. Podem ter ocorrido conflito, ou talvez eles nem chegaram a se conhecer e os invasores incendiaram sua casa, procurando facilitar sua passagem até nós. Não acho que a destruição de Silh esteja de acordo com a possibilidade de uma aliança, isso pode nos dar a chance de igualar os números, quem sabe trazer a vantagem para nós e impedir nossa derrota – Dava para ouvir ainda mais murmúrios sobre a insolência de um comum para com todo o salão. Porém estes eram baixos na medida certa, apenas para os próximos acompanharem – É isto, Vossa Excelência, apenas humildemente peço que considere esta possibilidade, tenho em mente apenas nossa sobrevivência, a sua glória e a de seus altos, e o fim daqueles diabos vindos do outro lado do mar.
Terminou com uma longa reverência, dando alguns passos para trás, como mandavam os costumes. O Étel parecia até distraído com algo, como se calculasse as variáveis com seu olhar certeiro e dedos cruzados. Passou-me rapidamente pelos pensamentos a chance de toda aquela reunião ser só um teatro, de todos os que alí se encontravam, o Étel era o que tinha mais chances de escapar com sua vida conservada, enquanto sangrávamos para dar-lhe tempo. Claro que era uma blasfêmia gravíssima insinuar que seus objetivos divergiam da defesa incansável de seu próprio lar, mas tinha eu experiência suficiente nessa vida para saber que não é a cadeira que oferece virtude áquele que nela se senta, e sim o exato contrário. Éramos todos ensinados de diversas formas que o Étel era o último bastião da defesa de seu país, que seria o último com espada em punho quando a horda de inimigos inundasse seus domínios, era sua obrigação morrer junto com seu povo e sua casa. Mas já vira justamente o oposto acontecer, não com frequência, mas o suficiente para me fazer duvidar das virtudes daqueles que nos ordenam em nome da fé e da prosperidade. Mas apesar de ser diferente dos muitos que já observei, o Étel de Arnor não transparecia essas intenções escusas, ou talvez não as carregava consigo em primeiro lugar, então decidi esperar para formular uma ideia sobre a sua pessoa. Mas mesmo assim não contava com a coragem de um desconhecido, ainda mais de um alto que poderia muito bem esvaziar o que sobrou do cofres e fugir na proteção da noite. Ou vai ver eu era muito desconfiado e supunha coisas de natureza misteriosa para meu alcance, conseguia desempenhar meu papel bem o suficiente para não deixar a desejar quando era necessário, o árbitro das intrigas era nosso comandante. O único que possuía astúcia para atravessar toda a lama dos falsos, covardes e traidores que se punham como obstáculo para nossa vitória, e por isso era nosso líder. Nos trouxe até aqui, salvando a todos em situações tão desesperadoras, becos sem saída que arrancavam a coragem dos homens, que muitos dos novatos não crêem nas histórias até vê-las se repetir. E por isso não haveriam deserções em nosso lado, seguíamos a hierarquia não por noções frágeis de dever, e sim porque sabíamos que era nossa melhor chance de sobrevivência. Sem falar que não era qualquer alma violenta que recebia permissão de lutar ao nosso lado.
—E como se chama?
—Minha pessoa responde como Hoyt, Comandante do Bando dos Despossuídos – Desta vez o que ouvi dos altos que cobriam a boca com as mãos era vindo daqueles que nos conheciam, e consequentemente a excentricidade do nosso líder. Nem tudo era coisa boa, pelo que conseguia me lembrar já estivemos duas vezes do outro lado do campo, contra Arnor, mas principalmente ajudando o saque de seus inimigos e de vez em quando roubo de suas terras. As correntes da guerra não se afeiçoam por ninguém quando se trata de ouro, a economia ia girando e a bocas por se alimentar aumentavam e diminuíam.
—Os Senhores podem falar – Fez um sinal com a mão, como se pudesse tocar o ar e empurrá-lo para longe. Como Hoyt, alguns pediram a palavra ao erguer a mão e se dirigirem ao centro do salão, dois de ar mais soberbo quase bloqueavam Hoyt ao se prostrarem bem na sua frente. Ele apenas riu baixo, mas com intensidade suficiente para que o seu sorriso fosse visto por quem quisesse, e humildemente se recolheu para um canto mais afastado, mas ainda às vistas de todos.
—Vossa Excelência… — Este alto eu conhecia, Cálix de Igdra era seu nome, comandava a região oeste da fronteira de Rôrbano, onde tinha posse de uma das poucas regiões ricas da província. A muito tempo utilizou-se de nós para defender seu território, e consequentemente expandir e ganhar ainda mais favor perante o Étel – Talvez este sujeito que vos fala de forma caluniadora e insolente tenha se esquecido de sua condição: um forasteiro, uma espada a ser paga. Pois fala como se soubesse mais da terra que seus próprios donos! Tamanha sua arrogância, presume uma cooperação entre nós e os selvagens assassinos, canibais que há gerações minha linhagem, assim como a de muitos aqui, vem pagando com a vida para manter afastados, assegurando a prosperidade de todos – As vezes que se referia a Hoyt, com brevidade virava o pescoço para encará-lo, como se até esse ato lhe fosse benevolente – Acredito que não seja sábio dar ouvidos as trapaças de um mercenário, propondo tamanho absurdo como se fosse algo cabível.
Fez uma pausa para cimentar suas palavras e terminou com uma reverência, esperando permissão para se retirar. Aquilo era péssimo, se o primeiro a ter a fala agiu de forma tão contrária e agressiva, o provável era que o resto não seria muito diferente. Cálix de Igdra deixara pairando naquele ar gélido a chance de traição vinda de Hoyt, sendo totalmente injusta apenas para os poucos alí que se lembravam de nós com ternura. Recusei a taça que me foi oferecida, ficava cada vez mais nervoso com o rumo da situação, torcendo para que o medo geral não os direcionasse a desconfiar dos próximos. Mas quando reparei em Hoyt parado na lateral do espaço aberto com as costas apoiadas numa pilastra, pude ver as sombras que rodeavam seu rosto, uma das poucas coisas que não perdi em todos esses anos, a visão, deixou-me mais confiante ao constatar que suas feições não carregavam preocupação. Era difícil saber quando era seu jeito tranquilo frente a adversidades, muitas vezes servindo só de fachada, ou um reflexo de sua confiança num resultado já esperado, as variáveis previstas que seus planos causavam. O tempo me ensinou a distinguir os dois, mas só fui entender depois o que lhe protegia dos insultos e olhares de desconfiança.
Não que a sua lábia fosse sempre uma garantia certa, as vezes em que ela nos falhou causaram grande tragédia e sofrimento.
A seguir, os outros Senhores falaram coisas semelhantes, alguns eu era familiarizado, outros não faziam idéia de quem e onde vieram. Um velho que andava de cajado e cota de malha nos calcanhares insultou Hoyt de formas que eu nem mesmo conhecia, ao mesmo tempo exaltando a honra de suas forças e negando a deserção até mesmo depois da morte, entediando a todos com suas histórias mofadas que demonstravam a crueldade do Povo da Noite. Depois dele uma mulher se apresentou, deveria ter iniciado seus quarenta a pouco, apesar das rugas saltadas que dividiam espaço com suas cicatrizes, trajava roupas de homem feitas de couro e algodão por baixo de seu casaco de pele de mamute, seu cabelo castanho grisalho preso em três grandes tranças tão apertadas que mal se mexiam quando se movimentava. Chamou-me a atenção seu colete de tiras de couro endurecido, que nas dobradiças era revestido com cota de malha, era uma vestimenta de quem manuseava um número alto de adagas, apesar de somente uma estar presa na sua cintura. Ela apenas expressou sua discordância na suposição de que Cainhirst lutaria sozinha, afirmando que seus enviados retornaram a cinco dias de Tartam com promessas de alinaças e auxílio, salientando essa cooperação entre comuns como uma melhor opção do que esperar que povos que se odeiam a séculos possam trabalhar em harmonia. Se retirou sem acusar nenhum nome, apenas revelando o seu: Dovyan de Cêrea. Os que sabiam de quem se tratava a conheciam mais como A Chama Fria, soube que ganhou esse apelido por ser implacável nas suas punições, agindo como uma rainha de gelo nos seus domínios para com aqueles que considerava algozes, mas também sendo conhecida pelo clamor que trazia à batalha, apesar de sua compostura firme em situações de negociação, ouví muitas histórias que narravam seus feitos sangrentos, inspirando medo nos inimigos e aliados. Vai ver essas razões a possibilitaram subir nos ranques, comandando tropas cada vez maiores até ter números suficientes para encabeçar uma campanha de reconquista de Cêrea, região norte da província que a muitas estações teimava em permanecer sob controle de Mergo, que desde que anexara estas terras as supriam de lanças suficientes para manter seu domínio. Dovyan, a Chama Fria era uma dos altos que teve sua ascensão muito tarde, e por isso já estava enraizada nos costumes de seu povo para agradar a corte com sua assimilação, com facilidade ela poderia ser considerada uma mercenária comum, não uma alta guerreira poderosa que detinha terras e exércitos.
Os próximos nos acusaram de traição, de estar buscando favores para realizar uma fuga. Mais de uma vez isso foi trazido, enquanto que o Étel ouvia com paciência, parecia prever os rumos das falas de seus súditos, pois suas feições poucas vezes demonstraram surpresa ou hesitação, como se ponderasse as palavras jogadas em sua direção. Mas seus olhos iam de um lado para o outro, mirando e analisando os rostos de todos, inclusive o meu, ao qual se demorou por tempo demais para não causar suspeitas. Achei que deve ter me notado antes de Hoyt se dirigir para o centro do salão, quando estava ao seu lado tentando fazer o tempo correr mais depressa.
Nada de muito importante foi dito em seguida, sendo a maior parte repetições mais enfáticas do que já foi dito. Muitos dos altos eram famintos de favores, então não se poupavam ao ver chances de realçarem sua servidão ao Étel. Quando este julgou ter ouvido o suficiente, silenciou a todos com uma sólida batida na mesa, inclinando-se na cadeira para dar ênfase a quem se dirigia:
—Você plantou a ideia, e ela não foi bem recebida pelos meus conselheiros. Mas imagino que não se contentaria com apenas isso para nos convencer de algo tão… estranho, por assim dizer – Não fui o único que não pôde evitar de expressar surpresa com aquelas palavras leves. Levando em conta as reações anteriores e sua fama de severidade. Talvez estava apenas satisfeito por alguém ter finalmente apresentado uma alternativa – Então vamos poupar nosso tempo, como pretende fazer isso?
—Eu explico a Vossa Excelência com prazer – Disse voltando para o centro, parecendo alheio ao clima de desconfiança que se inclinava sob os seus ombros – Na nossa vinda para Cainhirst fomos surpreendidos pelo Povo da Noite, a três dias de viagem próximo a uma cachoeira, parecia ser um local de reabastecimento que tivemos o azar de repousar. Atiraram flechas de aviso, e felizmente o único atingido hoje passa bem. Poderiam ter acabado com muitos de nós, mas escolheram apenas nos afugentar – Suas palavras foram acompanhadas por um gesto na minha direção, e de repente sentí o peso dos olhares em cima de mim, cochichando e julgando a meu respeito – Muitos aqui devem me conhecer, muitos como aliados e alguns como adversários , e sabem que jamais abandonaria meus homens ou aqueles a quem jurei lealdade. Só peço que me ouçam de boa fé, é sem sentido pensar em fuga quando digo-lhes minhas intenções.
Fez uma pausa para deixar que todos se atentassem por antecipação, sabia que muitos ali estariam contra não importa quão bem elaborado fosse, não os convenceria de que era confiável para que nele apostassem.
—Pretendo levar cinco guerreiros, sem contar com mim mesmo, entre os mais fortes e leais, para tentar estabelecer contato com um velho inimigo. Ambos estamos no fim de nossas chances, devemos aproveitar as consequências da queima de Silh, pois se acabarem conosco os selvagens com certeza serão os próximos, se não forem os primeiros – Hoyt dera uma volta com o olhar para encarar mais uma vez os altos, como se estivesse gravando todos seus rostos e vozes para depois colocá-los como peças no seu tabuleiro – Se Vossa Excelência nos conceder e abençoar a viagem, partiremos agora mesmo e em duas luas estaremos no local de encontro. É isto, Vossa Excelência.
Acredito que foi a primeira vez que ví o Étel se remexer e desviar o olhar naquela reunião, por alguns momentos só ouvia-se o fraco crepitar das fogueiras e palavras perdidas de conversas ocultas que logo tomaram o salão. Crescendo até uns berrarem com os outros, principalmente com Hoyt, que estava parado no meio como um maestro puxando suas cordas invisíveis. Era alí que residia sua vocação, não em meio a batalhas com soldados parcialmente bêbados e desesperados, dava para ver que não se importava em levar os insultos, ainda mantinha uma expressão corporal que denominava confiança. E o Étel calculava tudo ao relaxar as rédeas de seus súditos.
Que esse Cceleb se aproxime – Suas palavras curtas e claras cortaram todo o vendaval de soms que vínham dos lados, muitos não sabiam a quem Vosa Excelência chamava, e me surpreendi quando um número considerável virou-se na minha direção no mesmo instante. Sentí os pêlos da nuca se levantarem ao ouvir a voz do Étel pronunciar meu nome, e sem demora me pus a caminhar entre os altos com cautela, certificando-me que minha baixeza não os ofendesse naquela situação complicada. O rosto do Hoyt não continha nenhuma resposta para o que vinha me perguntando, pois sua expressão de dúvida me dizia que aquilo não era o seu feito, e era incapaz de descobrir como o governante de Arnor me conhecia. Parando ao lado de meu companheiro mercenário, ajoelhei perante o Étel, como minha posição exigia.
—Estou a sua disposição, Vossa Excelência – Com o canto do olho percebí que sua mão ordenava que eu ficasse de pé.
—Você atesta a veracidade das palavras desse homem? Confia no seu plano?
Não compreendi qual o sentido daquela pergunta, já que a resposta era óbvia se ele sabia quem eu era. Nunca fui muito inteligente para acompanhar o joguete de palavras e sentidos dos mais instruidos. De toda forma, assim mesmo respondi:
—Sim, Vossa Excelência. Confio a minha vida ao meu Comandante, como muitas vezes o fiz, e assim estou aqui agraciado pela honra de estar lhe trocando palavras – Espremí meu cérebro para improvisar uma sentença lisonjeira. Fazia tempo que não me dirigia a alguém que fizesse necessário o uso desse falar, geralmente era devido a cortesias e tradições de acordos, mas dessa vez os nossos pescoços poderiam estar no patíbulo.
O Étel de Arnor assentiu de maneira quase inperceptível e me dispensou com um movimento de mão, e tudo o que se ouvia eram meus passos pesados no chão sujo de água lamacenta. Não era costumeiro alguém como eu ser consultado, e achei conforto nos olhares confusos dos outros ao refletirem minhas perguntas. Abriram espaço para que voltasse ao anonimato, retornei para de junto da adega mesmo drenado da vontade de consumir seu material, enquanto que os olhos desviavam na direção de Vossa Excelência, pensativo e taciturno coçava sua barba escura, muito bem aparada em comparação aos desgrenhados que eram maioria, e nesse momento pensei com nervosismo que poderia ter escolhido trajes melhores para tal encontro, boa parte da capa e calça estavam sujas de lama seca, e assim como todo resto a muito perdera a vivacidade da cor com o uso prolongado.
O silêncio imperava mais uma vez, e sua duração sugeria que o plano de Hoyt estava de fato sendo considerado, e isso com certeza seria motivo de alarde não fosse a mistura de medo e respeito emanada pelo governante. Não que isso apenas fosse o bastante para conter as traições do desespero, que nesse caso talvez estivesse funcionando invisível ao nosso favor, o temor de perder o pouco que se tinha com as casualidades de uma disputa pelo poder. Muitos grupos de mercenários ali eram conhecidos em todo o Continente, haviam os menores em busca de expansão, mas a maioria eram dos antigos, parentes d’Os Despossuídos que pendulavam entre o aliado e o inimigo, e que se tinham conseguido manter-se agregados ao longo de tanto tempo não haveriam de acelerar o próprio fim. Respondemos ao chamado, as promessas seguidas da vitória, e a opção de abandono se fechara a muito.
Enfim, não era grande coisa a “ausência temporária” de alguns poucos braços comprados, mas mesmo assim toda a ideia era absurda, dependente de muitas graças da sorte para se concretizar. Eu mesmo duvidava da sensatez daquilo tudo, não acreditava que aos olhos deles éramos merecedores de sua confiança, e ainda por cima rejeitava qualquer chance de sucesso. Viam Hoyt como um verme perigosamente confiante e ambicioso para o bem comum, e ele sabia. Mas estava parado lá, como se sustentasse todo o peso das maldições ditas e pensadas, em desafio a todos aqueles orgulhosos demais para aceitarem a salvação vinda de um inferior.
—Você irá partir imediatamente, lhe proveremos de tudo o que necessitar para sua viagem. Escolha três dos seus melhores, os outros dois serão da minha guarda pessoal. Encontrem-se o mais depressa possível no portão exterior, desejo-lhes segurança e triunfo – O Étel falava rápido e pesado, suas palavras ecoavam até mesmo nos espaços entre os rostos incrédulos de todos, e o meu deveria ser um dos mais destacados. Dessa vez ninguém ousou especular discretamente, era uma reviravolta tão inesperada que só poderia ser discutida abertamente em privado, mesmo que não tivessem a menor noção do que estava acontecendo. Conspirariam tanto a respeito disso que a probabilidade de solucionarem as dúvidas sem saber eram grandes.
Mas logo esses pensamentos me deixaram, o medo os substituiu. O pavor de estar de volta a Silh, e pior ainda, ir de encontra à aqueles que quase tiraram minha vida já incentivava a dor do meu ferimento. A surpresa e o temor degladiavam em meu interior, apesar de meu rosto parecer impassível, minhas mãos começaram a esfriar e sentí o suor brotar em minha testa. A realização de eu seria uma peça chave nos próximos acontecimentos me atingiu como um raio inesperado, em meio ao início de uma tempestade que só crescia. Pela primeira vez sentia hesitação frente ao perigo, pois o que estava habituado se resumia a simplicidade das guerras sem muito propósito, mesmo nos embates mais horríveis que minha memória guardava o limiar entre a vida e a morte permanecia visível. Já em Cainhirst, o chão parecia ser um lago congelado devido as incertezas, problemas não solucionáveis através da simples força segurando o cabo de uma espada, tramas sagazes que faziam o que bem entendiam com o tabuleiro e seus peões, e o desconhecido se misturando as sombras da noite e dos cantos escuros.
Estava processando tudo, e não percebí que o Étel finalizara o conselho até sentir ombros se chocando com os meus, segui o seu fluxo como se por impulso, e logo notei Hoyt caminhando ao meu lado. Não dizia nada, seus passos eram apressados e sua visão mirava o que havia em sua frente, mas não parecia enxergar nada. Seu sorriso perverso de antes deu as caras, mas dessa vez diminuído, acompanhado pela tensão daqueles que tinham todas as cartas na mão, temendo o poder contido nelas, mas ao mesmo tempo saboreando a adrenalina de ser o agente do próprio destino.
—Irina, trouxe alguns suprimentos que talvez estejam em falta – Uma das primeiras coisas que fiz após o conselho, peguei-os do estoque do bando já que nosso crédito com a coroa tornara-se temporariamente ilimitado. Joguei as ataduras, panos limpo, agulhas envoltas em linhas de algodão, ervas e potes de aguardente feitos de cerâmica num saco de estopa que encontrei próximo. Não sabia se era por causa do vai e vem constante que poluía as vias da fortaleza, mas parecia a mim que Cainhirst estava ficando mais apertada, meu destacamento atrasou quase uma semana deivido a minha condição, e dos bandos de mercenários fomos um dos últimos, o resto so séria as sobras das multidões famintas que atravessaram Silh. Tendo sua proeza recompensada não com abrigo, comida e a sensação de segurança, mas sim com enxadas, picaretas e espadas feitas às pressas para realizar mais uma vez o impossível. Haviam muitas crianças também, as únicas sorridentes no meio de tantas caras sombrias, as mais novas corriam entre as passagens de pedra gasta, esgueirando-se entre os vãos dos palanques e casebres a muito tempo construídos, os jovens com mais cara de maturidade eram prontamente entregues aço e designados para qualquer função. Talvez fosse por isso que ocasionalmente via mães, muitas viúvas, a tentar ocultar seus filhos, os proibir de circular entre nós para não perdê-los. Eles saltavam entre as aturas como se num jogo entre sí, caindo de propósito nas poças maiores e espalhando a lama por todo o lado, provocando cólera naqueles que tentavam em vão apanhar-lhes pelos braços ou cabelos para aplicar alguma punição, falhando e recebendo em troca os risos destes que com rapidez sumiam de vista. Essas vistas foram mudando ao passo que meus pés me levavam para longe dos alojamentos dos soldados, atravessei um arco incompleto que algum dia emebelezou a passagem exterior norte, as pilastras ainda sólidas eram espaçosas o suficiente para carroças entrarem, a grama cada vez mais alta marcava as fronteiras da pedra, os espaços que com o tempo foram engolidos de volta pela natureza. O lado de fora parecia uma manhã de tempestade, a chuva constante bloqueva os fachos de luz do sol e cobria a vegetação de um eterno orvalho, que dependendo das quedas bruscas de temperatura poderia congelar boa parte das plantações, um grande mal que assolava os campesinos que ainda insistiam naquele solo ingrato, e que certamente viria a ser nosso terror quando as caças não forem mais viáveis. Os assentamentos improvisados eram vistos por toda a parte, alguns espalhados na clareira entre Cainhirst e a floresta, mas a maior parte localizada por dentro da miríade de árvores e arbustos acidentados pelas encostas, era o aglomerado de suas fogueiras e tochas que compunham o segundo céu estrelado que me fazia companhia nas noites mais longas. Estes seriam os primeiros a serem atingidos com a chegada do inimigo, e sabendo disso não se empenhavam muito para construir fundações sólidas, estando a maioria sujeita a dormir em acampamentos dispersos do lado de for a, enquanto que muitos de nós tremiam de frio atrás dos muros. O tráfego com o lado de dentro era constante, muitos iam e vinham curvados com o peso dos mantimentos que precisariam, tirando da terra o que conseguiam para trocar pelo o que não lhes era acessível. Haviam muitos velhos e adultos grisalhos, magros de braços fortes que comiam pouco e trabalhavam demais, os que não tínham mais forças, adoeciam ou caíam de fome apenas se acumulavam pelos cantos, ás vistas em todos os lugares com suas mãos de pedinte. Os mais afortunados contavam com mulas para fazer a subida da colina que erguia Cainhirst por cima das copas das araucárias e dos pinheiros, estes provavelmente eram os líderes de suas comunidades, mas eram parca minoria. Meus olhos absorviam tudo isso enquanto andava distraído na trilha de terra batida que orbitava as muralhas exteriores, uma rota menos confusa do que o trajeto pelo interior do castelo, segurava o saco barulhento sob o ombro com uma mão, enquanto a outra apertava mais a capa no meu peito. Achava que passados alguns dias teria me habituado com as lufadas de vento gélido que me arrastavam para o lado, a umidade densa do ar que dificultava até mesmo queimar a madeira, mas ao saber que estaria de volta à floresta pareceu que o frio só ia ficando mais cruel. Sabia que estava perto da ala médica pela quantidade crescente de figuras quebradas e derrotadas se aglomerando a minha volta, muitos nem tinham mais forças ou braços para implorar pela pena daqueles que passavam. E logo ao lado os sacerdotes da Fé estavam a cochichar com ternura, preparando-os para o julgamento do purgatório. Ao cruzar as cortinas encardidas mais uma vez, ví Irina sentada com as costas apoiadas num tronco que sustentava a tenda de couro remendada, estava quase adormecida com um pedaço de carne seca pendendo na mão, os olhos cansados depois de uma noite em claro cuidando dos recém chegados. Ela logo acordou quando me aproximei, não se assustando ao me ver mas ocultando com vergonha cômica o desjejum que não terminarfa. Coloquei o saco com cuidado em seus pés, e depois disse mirando seus olhos – Vou ficar longe um tempo e talvez não volte, então vim cumprir minha palavra para contigo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela brevemente viu o que trouxera e voltou-se para mim com desconfiança:
—Vão abandonar Cainhirst?
—Não… o Étel nos confiou a tarefa de trazer aliados para nossa causa – Foi o melhor que pude fazer para simplificar a situação aterradora a qual fui lançado, como um mero joguete sem vontade no tabuleiro dos grandes jogadores. Mas ela pareceu cortar por toda minha falsa tranquilidade com a faísca de percepção que adiquiriu seu belo rosto, como se soubesse o que minhas palavras escondiam, e naquele momento resolveu me mostrar compaixão na forma de de um olhar e um sorriso triste, tão rápido e delicado, direcionado a mim no meio de tantos outros que me fez experimentar uma sensação de intimidade calorosa entre nós, rompendo com a rigidez e seriedade de nossos contextos através de uma compreensão mútua que me enchia de alegria. Algo difícil de se ter e de encontrar, mas que ela me dava aos montes com o mais simples dos gestos.
Ela agradecia com embaraço, como se quisesse se aproximar mas não conseguisse. Abaixou-se para inspecionar melhor o que trouxera, dobrei um joelho ao seu lado para lhe dizer o conteúdo, ela não me encarava, mas ouvia atenta o que lhe dizia. Seu toque em minha mão me fez parar, durou meio segundo, como um acidente ou descuido, mas ainda mais breve foi instante em que sua palma apertou-se com a minha, e seu olhar vago e direcionado para a parede eram reflexos das engrenagens de sua mente. Passou disto para uma surpresa contida que indicava medo, mas ao se tornar consciente com rapidez desviou o rosto e recolocou sua expressão neutra, como se juntasse as peças e o resultado da dúvida lhe trouxesse dor.
Esforcei-me para tentar compreender aquelas mudanças súbitas e involuntárias, mas não havia tempo algum para decifrar o que havia por trás de sua beleza, nossa partida era quase que imediata. Como um raio passando pela minha mente, as decisões do conselho voltaram a mim como se tivessem sido cuspidas em minha cara naquele momento. Gastei eras para amanciar meu ego com essa boa ação, justo quando descíamos descíamos em direção ás profundezas, prestes a mergulhar em queda livre, e por isso sentí-me descontente comigo mesmo, pois não me lembrava de ter agido de maneira tão egoísta a ponto de prejudicar Os Despossuídos com meus interesses pessoais. Vai ver estou sendo muto rígido, ou talvez a perdição certa tenha desequilibrado meu senso de julgamento.
Fiquei de pé e fiz uma reverência um tanto desajeitada de despedida, Irina respondeu com embaraço à minha abruptidão, enquanto que meu íntimo torcia para que ela também desejasse prolongar nosso encontro. Virei-lhe as costas e ao atravessar as cortinas sujas para o corredor principal da ala médica, então ouví um sussurro constrangido, era meu nome que ela chamava:
—Se esforce para voltar, estamos precisando.
—Essa é uma promeça que não posso selar, mas farei de tudo mesmo assim – Ao desviar nossos olhares veio-me a pergunta cruel, se esta seria a última vez. E se assim fosse, o que poderia ter feito para melhor transpor a barreira entre nós? Quando o medo do fim nos abate além do otimismo, as pessoas costumam deixar parte de suas máscaras se desfazerem, revelando mais e mais.
Mas não conosco, éramos ainda estranhos um para o outro, apesar da facilidade de sentir o medo entre nós, a angústia de pensar não ter vivido bem os nossos dias quando estes chegam ao crepúsculo. Não era nem um pouco oportuno, estando ambos até o pescoço imersos em nossos deveres, e só de pensar em estar cercado por Silh mais uma vez fazia suor frio brotar em minha testa. Ao passo que Irina estava sobrecarregada de enfermos para aplicar-lhes paliativos e membros com gangrena a serem amputados, achei que com o tempo as coisas poderiam voltar ao normal, mas só iam piorando. Naquela manhã muitos doentes estavam deitados no chão sob uma manta fina, e os outros se encostavam onde encontravam espaço, segurando trêmulos suas ataduras encardidas e manchadas. Os suprimentos que trouxera não durariam nem um dia neste ritmo, sendo que a batalha ainda estava longe.
Sem querer prolongar a situação desconfortável, e ainda assim desejando aproveitar mais da presença de Irina, despedí-me dela em definitivo. Pareceu tirá-la de um devaneio, desejou boa sorte e marcou em minha memória o seu sorriso, ao sair ví-la chamar alguém com tom de ordem para levar o saco de estopa, uma mulher mais velha atendeu com certa humildade em seus gestos, saindo de cena. Quem era Irina de verdade? Nunca me pareceu relevante esta pergunta até aquele momento, o estranhamento de se ter aguém mais jovem ordenando as anciãs da cura. Foi com estes questionamentos que troquei o ar abafado e fétido dos doentes pelos ventos nevados e cruéis do ladode fora, puxei minha capa para mais perto e entre clafrios e tosses fui arrastando meus pés pela lama. O cheio do cimento fresco era mais intenso naquela manhã, assim como o ir e vir de pessoas cumprindo seus afazeres, como se sob o estalo de umchicote. Notei mais vigias nas amuradas que nos cercavam, e por todo lado os rebolos enchiam o ar de ruídos e poeira, as chamas de Silh nem eram vistas, mas as cinzas caiam em todos, obrigando-os a cobrirem seus rostos. Me dirigi a barraca de estoque d’Os Despossuídos, onde guardei a maior parte das minhas posses. Os dois sentinelas, uma apoiando-se na lança como se o ato de ficar de pé fosse um grande esforço, rígidos quando me viram ao fazer um aceno. No momento percebí que um deles controlava seus calafrios, com a chuva fina entrando pelas aberturas de sua armadura, esta deveria parecer gelo ao toque. Dei-lhe a capa que usava, grosseira (porém quente) e suja como estava depravada minha autoridade perante meus subordinados não familiarizados com minha aparência. O guarda sorriu com gratidão e me cumprimentou novamente, era mais jovem que Gwyne, seus enfáticos e desajeiados agradecimentos apenas deixavam mais aparente debaixo do meio elmo e ombreiras de couro e metal um pouco grandes demais para sua construção ratídica. Entrei na tenda e logo encontrei o baú que tinha guardado minhas coisas, ao trocar minhas vestimentas aproveitei também para repor o curativo e lavar o ferimento com água, o inchaço parecia ter diminuido e o cascalho adiquiriu tonalidades mais escuras. Aparei um pouco o cabelo e os pelos espessos da barba com uma navalha que achei, falhando em encontrra qualquer espelho que confirmasse minha simploriedade. Minha armadura era de couro endurecido no interior, com escamas de metal leve tingidas de cornalina para reforçar a parte exterior. Ainda caía como uma luva em mim, apesar de estar necessitando de reparos em algumas tiras mais desgastadas, sem falar das mossas aqui e alí. Ao terminar de apertar as últimas fivelas sentí falta da velha cota de malha que ficava por baixo de tudo, perdida na travessia para chegar em Cainhirst. Peguei minha última capa no fundo do baú, era para ser elegante, mas o tempo e o uso roubaram-lhe maior parte da beleza. Era de um cinza escurecido , não tão grossa como a outra, mas vinha a calhar por ter muitos bolsos nas laterais. Abotoei a corrente na altura do peito, toquei na bainha rígida que guardava Bastiom, encaixei a tira do escudo no ombro e saí para me encontrar com Hoyt.
—Por deus Cceleb! Está indo para alguma guerra que eu desconheça? — Foi assim que me cumprimentou no portão, estava vestido com roupas simples que ocultavam bem sua cota de malha, via sua espada curta pendendo de sua cintura e suas adagas encaixadas na parte do tórax, me perguntei quantas deveria estar ocultando por trás das roupas e sorrisos.
Ahmyre estava ao seu lado, organizando a cela de seu cavalo, a lâmina de Lordram escapando ameaçadoramente de um dos compartimentos.
—Tudo pronto? -Perguntou quando me aproximei, ao responder carrancudo ele chegou mais perto para sussurrar – O que estamos fazendo aqui?
—O de sempre, mais um dos jogos de Hoyt em que somos suas peças.
—Ei! Ouvi isso, não se esqueçam de que estou aqui com vocês, não somos peões de ninguém. Se aguardar a chegada dos Kushan é suficiente para vocês podem largar seus fardos aqui mesmo, encontrarei outros capazes -Ele aguardou pelo nosso silêncio – Ou por acaso há um plano melhor para sobrevivermos a isso? Estou fazendo meu melhor por nós.
—Não Hoyt, me desculpe – Tive de dizer, nem eu nem Ahmyre tínhamos uma mente perversa como a de Hoyt para encontrar melhor saída daquela situação absurda.
O cavalo do meu Comandante foi abatido e assado assim como o meu na travessia de Silh, então escolhi o marchador marrom-escuro de patas pretas que o pajem nos trazia, levava também um saco de comida na mão que não segurava as rédeas. Nos oferecia pães e cereais de cara amassada, descontente de ter que abrir mão das posses da Fé. Os sacros dificilmente ficavam satisfeitos quando o consumo dos seus bens por terceiros fazia-se necessário, afinal, somente o temor da danação eterna impediria os saques dos fartos estoques da Fé nos primeiros dias de fome. Estes seriam os últimos.
Já que o marchador já vinha com uma manta, de melhor qualidade que a minha inclusive, entreguei a que tinha para o aprendiz e joguei minha cela por cima do lombo do cavalo, arrastou um pouco seus cascos na lama ao sentir o peso por vir, fiz-lhe um breve carinho na fussa e limpei a sujeira que irritava seus olhos. Todas as tiras e correias apertadas fui o guiando para mais perto do portão onde estavam meus companheiros já cumprimentados e dois estranhos, montados à nossa espera. Fazia ideia de quem eram, suas armaduras reluzentes e elaboradas facilitavam, sem falar que um deles levava o estandarte do Étel de Arnor no ombro: o trono de pedra sob a meia lua num fundo azul-marinho pendia reto sem tremular, seguindo o sentido dos flocos de cinza e neve, geralmente um mal agouro antes de qualquer batalha.
Cumprimentei-os com uma reverência de punho no coração, e eles retribuíram.
—É a sua pessoa a qual responde por Cceleb? — Perguntou o de bigode bem cuidado e cabelo curto e castanho. Por cima do metal cor de areia usava uma capa negra com pelugens nos ombros e no capuz abaixado. Seu companheiro tinha quase que as mesmas vestes, mas tingidas das cores de Arnor, seus cabelos eram longos e negros, sua barba por fazer e seus olhos fundos e cansados, no momento até pareceu-me pálido – Respondo por Cartansis, e este é Gário, somos os Escudos — “As suas ordens” foi o que o outro disse a mim, rápido e ríspido ao ponto de quase não o entendê-lo bem. Era uma forma estranha de dar prosseguimento aos costumes de se cumprimentar um estranho, e juntamente com seu sotaque estranho causou-me certa impressão. Foram meus pensamentos ao responder:
—Sou aquele que Vossas Senhorias indagam, que o luar ilumine nosso caminho nas noites sombrias.
O cavalo puxava as rédeas com teimosia e mastigava o metal preso a sua boca até babar espuma. Tirei a escova de um dos bolsos da cela e limpei a poeira da crina e do pêlo.
—Dá pra parar de reclamar? Abusado? -Ele continuava a puxar, peguei um bolo de aveia e enfiei na sua boca de dentes tortos, tentou morder meus dedos mas consegui acalmá-lo por enquanto.
Ia checando os alforjes mais de uma vez para me certificar de que tudo estava em ordem. Sentí a ausência do peso da adaga em minha cintura me incomodar, e torcí para que não sentisse sua falta por necessidade. Minha atenção voltou-se para o crescente barulho de uma armadura em movimento, demorei para reconhecer Gwyne vindo apressado em nossa direção. Com a carranca que me era característica voltei-me para Hoyt com protestos, a primeira coisa que me veio foi quão alheio estava das maquinações de seus planos. Falei sem medo do sujeito da conversa estar nos escutando.
—O que é isso Hoyt? Me diz porque estamos levando um garoto sem muita experiência em uma missão como essa.
Ele parecia estar mais cansado do que de costume, olheiras profundas acompanhavam o grisalho em seus cabelos cada vez mais evidente. Sua irritação comigo era clara, mas pareceu-me conservar suas energias para coisas mais importantes, apesar de ser óbvio que aquilo requeria uma explicação. Estava aguardando outro capitão como Dagger ou Lethel juntar-se a nós, não um jovem líder lanceiro que passava o tempo conosco.
—Podemos não conseguir, nesse caso é melhor evitar que o bando sofra muito com nossa falha. Não posso arcar com a perda de quase todos os nossos capitães, os homens perderiam a esperança em tudo se de repente víssem-se sem líder – Os eufemismos e floreios costumeiros de quando Hoyt procurava convencer alguém desapareceram, não devia ter força ou paciência para ser algo além do direto.
Assentí sem dizer-lhe palavra e dei-lhe as costas, fui ter com minha montaria, checando todos os bolsos e fivelas pela quarta vez, ignorando os olhares de Gário e Cartansis a indagar sobre toda aquela situação, provavelmente em dúvida se o desespero de nossa tentativa de fuga frustrada nos tenha agitado, ou se éramos simples idiotas. Ouví Ahmyre falando comigo:
—Não precisa disso, amigo. Gwyne é um de nossos melhores, com certeza não nos decepcionará, lembre-se que esta é sua provação — “Muito novo” foi minha resposta quando soube que Hoyt cogitava auçá-lo a capitão-menor. Gostava de Ahmyre, mas com o tempo tinha pêgo o costume de julgá-lo otimista, assim pensando sempre duas vezes sobre tudo o que dizia.
Quando o chacoalhar da armadura ficou mais perto, virei-me já com a fúria fria contida nas minhas palavras. Gwyne parou ao me ver, mas enrijeceu ao notar meu ânimo para com ele.
—Bom que finalmente chegoum, soldado. Estava agora discutindo com o capitão-maior se seu atraso é passível de dispensa. O que está fazendo? Vestiu-se para brincar de cavalaria? Retire agora as placas exteriores e cubra o metal com sua capa. Por acaso não foi informado ou isso é fruto de seu descaso para conosco?
Ele pareceu não se importar muito, mantendo seu rosto impassível. Se eu o tivesse causado nervosismo desgostaria ainda mais da sua pessoa.
—Com licença, capitão. Disseram-me apenas que minha presença armada fora ordenada… e em minha defesa, me fiz presente com brevidade à sua chegada, capitão. Com todo o respeito.
Não era próprio descarregar minha cólera no garoto, as formas de se agir quando se está rodeado por seus subordinados difere muito da conduta de quando se está na presença de altos, principalmente quando Escudos de Arnor estão em questão, com suas lâminas invisíveis em nossas gargantas.
—Gwyne, ouça-me bem -Isso o fez ouvir minhas palavras com mais atenção, pois era raro chamar-lhe pelo nome – Você sabe o que estamos fazendo aqui, não há espaço algum para erros e insubordinação. Deve saber também que fui enfaticamente contra sua vinda conosco, não te julgo ápto – Percebí seu corpo enrijecer novamente e seus lábios se contraírem por um momento, apesar de seu esforço de conter-se – Vai confirmar minhas preocupações logo no início?
Sem muita saída levou a mão ao peito e se desculpou pelos inconvenientes causados. Dei-lhe permissão para se retirar e aos poucos foi retirando as placas pesadas de sua armadura, constrangido, ciente dos olhares sob ele. Até que era um bom garoto, só precisava crescer e começar a pensar com sagacidade, a inocência deste persistia às chagas da vida de um mercenário melhor que a maioria.
Hoyt nos observava do outro lado do pátio, olhando para cima tentando encontrar o sol e deduzir quanto tempo havíamos perdido. Puxei o capuz para evitar a neve que caía, e logo ví meu Comandante subir em seu cavalo, indo logo atrás. Abusado relinchou e resistiu ao puxar das rédeas no primeiro momento que joguei meu peso sob seu lombo, fui sorteado com um cavalo irritadiço, mas algum convencimento ele foi aos poucos aceitando mais meus comandos. Tremí de frio, e com o olhar desviado ví Cartansis e Gário nos seguirem em suas monstruosidades de metal, seus cascos produziam um som oco entre a terra e a pedra, ecoando pelos ventos. Atravessando o arco da muralha exterior o cheiro fétido das fossas fez Abusado pestanejar junto comigo. Via-se com facilidade os esforços de erguer defesas e realocar os habitantes e suas habitações, aproveitando-se de suas posses. Ouvia o sussurro dos camponeses a espalhar suas consternações e suspeitas, vindo misturado com as lufadas de neve que iam comgelando minha barba. Hoyt era citado como se fosse um traidor, enganador, um covarde que estava abandonando não apenas Arnor, ou o que sobrou da província, mas também seus próprios homens. Estava acostumado com esse tipo de coisa, então acredito que não foi a raiva que me fez apertar a rédea até que meus dedos doessem. Ouvir meu nome na boca dos outros tirou-me do devaneio, supunham eu ser algum tipo de herói para que Vossa Excelência tenha reconsiderado, mesmo que meus feitos reais nunca tenham me levado longe. Os olhos daquelas pessoas diziam muito, boa parte nos acusavam de loucura, mas a maioria em suas mentes nos julgavam desertores, talvez seja por isso que muitos cuspiam quando passávamos, como se para afastar as más influências que representávamos. Nunca para Cartansis e Gário, os dois eram recebidos com louvores e preces por seu status, talvez por isso mantinham uma distância segura de nós até sairmos dos arredores de Cainhirst. Alguém foi reconhecido como Espada da Alvorada, rí disfarçadamente desses apelidos pomposos que circulavam entre todos, muitos d’Os Despossuídos chamavam Ahmyre de Corrente Rubra. Eu o irritava com esse fato de tempos em tempos, pois como eu não era o tipo de pessoa que se orgulharia de ser um bom assassino. Gwyne finalmente nos alcançou, parecendo mais homem feito do que era de fato graças a armadura ocultada por sua capa. Sua visão me causou desgosto e com uma pequena batida de calcanhares galopei até cavalgar lado-a-lado com Hoyt.
—Espero que esteja certo sobre isso, meu amigo. Estamos ficando um tanto velhos para rolar os dados.
—Também espero que sim Cceleb, mas esta será a última vez, lhe garanto isso – Era um mau hábito seu denotar ambiguidade quando queria nos encorajar.
Ele parecia muito absorto em seus planos, e eu mesmo andava muito soturno conversar longamente. Fiquei olhando para trás enquanto nossa pequena compania avançava, com Cainhirst ficando cada vez mais distante até perder-se, engolida pelos galhos retorcidos e folhas espessas de Silh.
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