Arthur: Parabéns Pelos 10 Anos de Hiato
9 CAPÍTULO 8: O SEGREDO DE ARTHUR
O dia 31 de dezembro amanheceu com uma temperatura que beirava o insuportável. O ar vibrava sobre o asfalto e o cheiro de maresia parecia invadir cada fresta da cidade. Para Arthur, o mundo estava em câmera lenta. Ele se sentia como um condenado que caminha para o cadafalso, mas com uma estranha "ereção espiritual". O Capítulo 90 — o grande final — estava 90% concluído. Faltavam apenas as últimas linhas, o parágrafo que selaria o destino de Kaelen e Elara e, consequentemente, o dele com Helena.
Ele passou a tarde revisando as palavras, mas sua mente era um campo de batalha. O pânico que começara na noite anterior havia se transformado em uma ansiedade paralisante. Olhava para as descrições sensuais que fluíam de seus dedos e sentia-se um mentiroso. Como ele, o cara que nunca tinha desabotoado um sutiã fora dos sonhos, podia descrever a "dança rítmica dos corpos" com tanta propriedade?
— Eu sou uma fraude — sussurrou, encarando a tela. — Ela vai descobrir em cinco minutos.
Às 20h, o celular vibrou.
@H_Lena: "O sol está se pondo, Arthur. O champanhe está no gelo e eu acabei de sair do banho. O loft cheira a lavanda e expectativa. Como está o nosso 'Fim'?"
Arthur engoliu em seco. Levantou-se e foi ao banheiro. Jogou água gelada no rosto e encarou o espelho. Não via um escritor de sucesso; via um homem de vinte e nove anos que passara a vida lendo sobre a vida, em vez de vivê-la.
Arthur: "Estou salvando o arquivo. Vou postar às 23h, para coincidir com os fogos. Helena... eu preciso te dizer uma coisa antes de ir."
Digitou e apagou: "Eu sou virgem". Não, soava patético. "Eu estou apavorado". Óbvio demais. Decidiu que a honestidade parcial era o melhor caminho.
Arthur: "Eu não sou o Kaelen. Escrevo sobre coragem, mas meu coração está batendo na garganta agora. Se eu chegar aí e não souber o que dizer, você promete não rir do autor?"
@H_Lena: "Arthur, se você soubesse o que dizer, seria um personagem de ficção, e eu quero o homem real. O homem real tropeça, gagueja e sente medo. É isso que estou esperando. Agora poste essa história e venha logo. Não comprei essa lingerie para ficar lendo comentários de fórum a noite toda."
Aquilo foi o empurrão final. Arthur sentou-se, digitou a última frase do Capítulo 90 — uma declaração de amor que misturava derrota e triunfo — e clicou em "Publicar". Imediatamente, fechou o notebook. Não queria ver os comentários nem os likes. Precisava agir.
Tomou um banho rápido, vestiu sua melhor calça jeans e a camisa de linho que Helena elogiara no café. Checou o hálito três vezes. Passou o perfume que guardava para ocasiões que nunca aconteciam. Pegou as chaves, o celular e saiu.
O trajeto até o condomínio de luxo foi um borrão de luzes de Natal e pessoas vestidas de branco. Devido aos bloqueios da prefeitura, o trânsito estava caótico, o que o obrigou a deixar o carro a três quadras de distância. Correu o resto do caminho entre a multidão, chegando ao prédio levemente ofegante. Diante da fachada de vidro, sentiu os joelhos fraquejarem. O porteiro apenas confirmou o pseudônimo "Arthur", entregando-lhe um envelope e liberando a entrada.
O elevador subia silenciosamente. 10... 11... 12. As portas se abriram. O corredor acarpetado abafava o som de seus passos. Parou diante da porta 1202. O som dos primeiros fogos de teste ecoou lá fora. Arthur respirou fundo, sentindo o suor frio escorrer pelas costas. Bateu na porta. Duas batidas leves, quase hesitantes.
A porta se abriu lentamente.
O loft era magnífico, com janelas do chão ao teto que mostravam a orla iluminada, mas Arthur só tinha olhos para Helena. Ela estava encostada no batente da porta interna sob uma luz âmbar. Usava um robe de seda preta entreaberto, revelando uma lingerie de renda que deixava pouco para a imaginação. Era exatamente como ele descrevera em seus capítulos mais ousados, mas a realidade tinha um peso e uma presença que nenhuma palavra poderia capturar.
— Você veio — disse ela, com um sorriso que misturava doçura e uma malícia devastadora. — E postou. Eu li enquanto você subia.
— E então? — Arthur mal reconhecia a própria voz.
— Então... acho que a princesa Elara ficaria orgulhosa do final que você deu a ela. Mas agora — deu um passo em sua direção, fechando a porta atrás dele — não estamos mais no Reino Esquecido.
Ela se aproximou tanto que ele sentia o calor de seu corpo. Helena pousou a mão no peito dele, sentindo o coração galopante sob o linho.
— Você está tremendo, Arthur — sussurrou.
— Eu... eu nunca fiz isso, Helena — soltou de uma vez, com honestidade brutal. — Não desse jeito. Não com alguém como você. Passei dez anos escrevendo sobre como os homens devem agir, mas a verdade é que sou um impostor. Eu sou virgem. Sou o cara que se esconde atrás de adjetivos porque a pele real me assusta.
O silêncio foi preenchido apenas pela música distante vindo da praia. Arthur esperou o deboche, mas Helena levou a mão dele ao próprio rosto, fechando os olhos ao sentir o toque dos dedos dele em sua bochecha.
— Sabe qual é o problema dos escritores, Arthur? — perguntou, com uma ternura inesperada. — Vocês acham que a experiência define o valor de um momento. Mas para mim, o valor está na intenção. Você me deu dez anos da sua alma em uma semana de escrita. Acha mesmo que me importo com o que você fez ou deixou de fazer com outras mulheres?
Ela se inclinou e roçou os lábios nos dele.
— Hoje, você não precisa ser o Kaelen nem o herói que salva o reino. Eu só quero o Arthur. O homem tímido que escreveu as coisas mais lindas que já li. Vou te ensinar que a realidade não precisa de revisão.
Guiou-o até a varanda.
— Faltam dez minutos para a meia-noite. O capítulo final da fanfic foi postado. Mas o primeiro capítulo da nossa história real... esse vamos escrever agora. Sem pressa.
Arthur olhou para ela e o medo desapareceu. Pela primeira vez, não se sentia um impostor, mas o protagonista da cena mais importante de sua vida. Lá fora, o primeiro rojão subiu, deixando um rastro dourado no céu. Arthur envolveu a cintura de Helena, puxando-a para perto. Descobriu que, quando a inspiração é real, o corpo encontra seu próprio caminho.
O segredo de Arthur não era mais um fardo; era o ponto de partida. Sob as luzes de Tambaú, ele percebeu que nenhum final de livro chegaria aos pés do que estava prestes a viver.
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