Argo II
1 O começo
Notas iniciais
Eu estava em casa, deitada no aconchegante sofá da minha sala. Fora de casa, estava uma quente tarde de verão, o sol brilhava intensamente. Vasculhava em meu iPhone alguma diversão, e então a campainha tocou.
Eu, pacientemente, levantei do sofá para atender a porta. Quando a abri, não tinha ninguém. As luzes de sensor estavam apagadas.
— Olá?— disse eu, estranhando a situação. —Hm. Ninguém.
Quando olhei para baixo, vi um pequeno pacote. Eu o apanhei e examinei. Ele era de uma cor bege e tinha o tamanho mais ou menos da minha mão. Levei-o para dentro do meu apartamento e o coloquei sobre o balcão. Peguei uma faca e rasguei a embalagem, curiosa. Quando o abri, vi um pequeno dispositivo, do tamanho de uma bússola ou um relógio de bolso.
Ele era de um metal reluzente, e tinha um pequeno botão verde escuro e fosco no meio. Junto ao curioso objeto, tinha um bilhete escrito em uma corrida e mal feita caligrafia: " Carrega com luz solar. Use com sabedoria.". Então eu o apanhei e corri até a janela da sala. Estava tão quente do lado de fora que havia esquentado o chão de madeira.
Eu coloquei o dispositivo no feixe de luz de sol que estava saindo entre as cortinas e fiquei o observando. Depois de alguns segundos nada acontece, mas, inesperadamente, o botão que antes era verde escuro, reluziu e piscou, se tornando em um vibrante verde claro. O dispositivo soltou um agudo timbre, de perfurar os tímpanos, e felizmente parou depois de alguns segundos. Eu o peguei cautelosamente. Ele vibrava, como se tivesse pequenas engrenagens trabalhando furiosamente em seu interior.
Meu coração martelava nas costelas, e eu ponderava se apertava o botão. Depois de reunir toda a minha coragem, apertei o botão. No mesmo instante, eu senti uma força contraindo meu estômago, toda a minha sala se dissolvia, e uma tontura agonizante me atingiu como uma avalanche. Estava sem ar e de repente atingi algo duro. Eu não conseguia manter meus olhos abertos, e eu sentia como se uma bigorna pressionava minha cabeça. Eu perdi minha consciência imediatamente.
Quando acordei, estava em um lugar que não conhecia. Eu parecia estar em algum tipo de navio. A lua derramava uma fraca luz prateada sobre o convés. Eu olhei para uma sombra ao meu lado e levei um susto. Tinha um garoto ali. Eu pulei para trás, ofegante. Eu acho que o assustei com meu grito, pois ele caiu para trás assim como eu. Ficamos alguns segundos jogados no chão, se encarando. Ele então balançou a cabeça e se levantou. Ofereceu a mão para mim.
— V-você está bem? Quem é você? Eu aceitei sua mão e me levantei. Sob a luz do luar, eu consegui ver o seu rosto. Era pálido e magro. Seus olhos eram grandes e negros como ônix, ele tinha muitas olheiras. Seus cabelos eram negros como a noite ao fundo, no comprimento do pescoço, repicado e liso. Ele bateu nas roupas para tirar a poeira, usava um casaco de aviador. Suas calças, sapatos e blusa eram negros. Ele parecia se camuflar com as sombras.
— Hm, sou Elizabeth. Desculpe pelo susto, mas onde eu estou?— Disse, finalmente. Ele deu um pequeno sorriso com o canto da boca
— Sou Nico. Bem, você está no navio Argo 2, saindo de Atenas. Ahn, como você fez, hm, aquilo?— Disse ele, franzindo o cenho.
— E-eu não sei!— disse, balançando as mãos. Eu comecei a explicar do dispositivo que recebi, o botão, a tontura e blah blah blah— E... — parei bruscamente.— O-onde ele está? — Girei e olhei para o chão, desesperada— Cadê?! — Nico segurou meus ombros.
— Fique calma! Era essa coisa, aqui?— Ele tirou de seus bolsos o dispositivo e colocou em minhas mãos. Suspirei de alívio.
— Ahn, desculpe. Ele vem do meu lado e examina com atenção o objeto.
— Como isso funciona? Eu balanço a cabeça.
— Não faço a mínima ideia. Só sei que funciona na luz do Sol. Ele balança a cabeça lentamente.
— Interessante. E estranho. Ele se afasta de mim. — Bom, não importa como você veio parar aqui, mas você não pode ficar. Aqui não é um lugar para mortais.— Diz ele, muito sério. Eu levanto as sobrancelhas.
— Mortais? — Ele parece ter se arrependido do que disse.
— N-não é nada. Esqueça.— Disse ele, desviando o olhar. Eu semicerrei meus olhos.
— Ahn... Eu não posso voltar agora, o dispositivo está sem bateria... — Nico olhou para o luar.
— Você está se sentindo cansada?— Eu olhei para os meus pés.
— Eu fiquei um pouco cansada por causa da, hm, viagem. Por que? Nico olhou para mim e me deu um sorriso.
— Tudo bem. Nós temos um quarto extra no navio. Eu vou te levar para lá, e quando acordar, me procure no meu quarto, que fica ao lado.— Nico começou a andar em direção a uma escada de madeira polida.— Venha.
Eu assenti e o segui. Passamos por um corredor com uma tênue iluminação. Tinha muitas portas, todas de madeira reluzente com o acabamento de dourado. Nico desacelerou o passo e parou em frente de uma porta. Ele a abriu e deu espaço para eu entrar. Agradeci, e entrei no quarto, com ele atrás de mim. O quarto não era muito grande, mas era lindo; tinha uma cama com macios lençóis, brancos como nuvens. Tinha uma escrivaninha branca-azulada, com um espelho cromado e banquinho com almofadas. Em um criado-mudo marrom escuro jazia um abajur que lançava no quarto uma reconfortante luz amarelada. Nico, atrás de mim apontou para o criado-mudo.
— Se você quiser, tem roupas novas nestas gavetas.— Ele aponta para a porta á frente do quarto.— Aquele é o meu quarto, quando acordar me encontre lá. Eu assenti e me sentei na cama.
— Muito obrigada, Nico. De verdade. Ele sorriu para mim.
— Não foi nada.— Se aproximou da porta e quase fechou, deixando apenas a cabeça para dentro do quarto. — Boa-Noite, Elizabeth.
E fechou a porta atrás de si. Eu me deitei na cama e me cobri com os sedosos lençóis. Eu realmente estava cansada pelo o que aconteceu mais cedo. Apaguei o abajur e caí no sono.
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