Argo II
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Eu acordei pela manhã, e olhei pela pequena janela na lateral do quarto. Tinha muita névoa, devia estar cedo. Eu acendi o abajur e me olhei no espelho cromado. Os meus olhos azul profundo me encaravam de volta, meus cabelos ruivos desciam pelos meus ombros, todo emaranhado. Minha roupa estava toda amassada, então caminhei até o criado-mudo e procurei alguma roupa do meu tamanho. Após uma breve procura, achei um shorts jeans e uma camiseta regata verde-esmeralda.
Me troquei e dobrei minha velha roupa. Coloquei-a em cima da cama, já que não tinha trazido nenhuma mala ou algo do tipo. A névoa do lado de fora já se dissipava, então eu pensei se Nico já havia acordado.
Eu apaguei o abajur e fui até a porta. Abri a porta mais silenciosamente possível, e então bati levemente na porta do quarto de Nico.
–Nico?- sussurrei.
Depois de alguns segundos, a porta se abriu, revelando Nico e um quarto muito escuro a suas costas. Ele sorriu para mim simpaticamente.
–Ah. Bom dia, Elizabeth. São 9:30 da manhã, você quer comer alguma coisa?
Eu dei um sorrisinho.
–Ahm, pode ser.
Nico assentiu.
–Me siga.
Fomos andando pelo corredor e subimos uma escada de madeira muito bonita. Saímos no convés e depois atravessamos um corredor passando por debaixo de uma espécie de casinha. O corredor abriu-se em uma ampla sala, com uma enorme mesa branca no centro. Nas paredes, apareciam imagens de algum lugar muito bonito, com florestas e uma hortaliça de morangos.
Eu estava concentrada demais naquelas belas paisagens para perceber um pequeno homem na ponta da mesa.
–Quem é essa sua namorada aí, Nico?!- bradou.
Corei imediatamente com sua afirmação. Nico tinha ido buscar uma cesta de pães e uma jarra de suco.
–Elizabeth não é a minha namorada, Hedge.- e começou a explicar como eu vim parar no navio. Hedge me olhava diretamente, e eu pude vê-lo melhor. Ele tinha uma cara de mal-humorado, e uma cabeleira encaracolada com um boné adornava sua cabeça. Usava uma camiseta dos Yankees, e não conseguia ver suas calças que estavam sob a mesa. Nico terminou a explicação e Hedge se levantou para me examinar. Quando vislumbrei suas pernas, pensei ter visto uma perna peluda. Sacudi a cabeça e olhei novamente. Ele realmente tinha as pernas peludas. E pior: ele tinha cascos! Ofeguei diante da cena e Hedge cruzou os braços.
–Ela é mortal? -disse, olhando para Nico.
Nico assentiu.
–Elizabeth, sente-se. disse, puxando uma cadeira ao seu lado- Temos muito o que falar.
Hedge foi para seu quarto ler gun's & ammo e Nico me servia um suco.
–Você conhece mitologia grega, certo? -disse, me passando o copo. Assenti lentamente. -Certo. Os deuses conseguem tomar uma forma humana, e quando fazem isso, conseguem, hm, ter um filho com um humano. A criança que nascer vira um semideus ou meio-sangue, e pode herdar um pouco do poder seu pai ou mãe. Eu, por exemplo, sou filho de Hades, deus da morte. Eu consigo me comunicar com os mortos ou passear livremente no mundo inferior. Existe um lugar nos Estados Unidos que se chama acampamento meio-sangue, onde os semideuses podem usar seus poderes livremente e estamos indo para lá agora. Estamos saindo da Grécia, e precisamos chegar no acampamento rápido, pois estamos em guerra com Gaia. Você sabe quem é ela?- Assenti novamente, e me lembrei das aulas de história no meu colégio. As imagens na parede eram o acampamento. Olhei para meu suco intocado. Minha mente não conseguia processar tudo isso. Como assim, deuses gregos? Eles realmente existem? Mas e a ciência? Nico só podia estar brincando.
Porém, meus devaneios foram interrompidos por um garoto que entrou na sala.
–Hey, Nico, o que tem para o café da ... -deixou as palavras pairarem no ar por perceber minha presença. Seu magro peito cor de cobre estava nu e ele usava uma bermuda bege. Ele era baixinho, e usava uma toalha enganchada no pescoço. Seus cabelos encaracolados caíam sobre os olhos, de um castanho escuro. Sua surpresa era evidente, fortes traços latinos na sua expressão. Sua face tinha uma agradável máscara rosada. -E-eu... gaguejou -Q-quem é ela?
Senti meu rosto corando furiosamente. Nico deu um pequeno sorriso.
–Leo. Esta é Elizabeth.- e começou a explicar.
Depois disso, Nico me pediu para mostrar o dispositivo, e os olhos de Leo se arregalaram e brilharam ao vê-lo.
–Por Zeus!! Foi isso que te trouxe aqui?! Posso ver?!- e estendeu a mão.
Eu lhe entreguei o dispositivo e Leo o examinava excitadamente. Depois de virá-lo nas mãos, vi uma fumaça emanando dele. Literalmente. Arregalei os olhos e Nico viu meu olhar.
–Leo, você está... -Disse, tarde demais. No mesmo instante, Leo entrou em combustão e explodiu em chamas. Eu caí para trás na cadeira e olhei para Nico.
Leo aparentemente não percebeu que estava em chamas até o dispositivo soltar um som agudo e prolongado, e eu jogar o meu suco nele. Suas chamas se dissiparam rapidamente.
–Você estava pegando fogo! Fogo!! Como você fez aquilo?! Você está bem?!
Leo apenas olhou para o chão. Eu segui seu olhar e vi. O dispositivo. Estava derretido. Uma mistura fumegante cor de aço e verde, escorrendo na madeira. Eu ajoelhei ao lado dele e senti meus olhos umedecendo. Não é possível. EU não acreditei naquela cena. Uma hora, era só ir para o convés e "tchau tchau, universo paralelo", mas agora, não ia voltar para casa. Estava tudo perdido. Leo colocou as mãos sobre a boca.
–Nombre de Dios! Eu... Me desculpe! -ele colocou as mãos no cabelo- me desculpe! Me desculpe, me desculpe!! Argh, eu sou um idiota!
Eu o encarei, uma lágrima escorrendo pelo meu rosto.
–Tudo bem. Eu só estou presa no mediterrâneo num navio de semideuses.
Ele me encarou de volta, e então fez o impossível. Ele se agachou ao meu lado, estendeu os braços e me envolveu em um abraço. Seu corpo era quente, e tinha o cheiro do suco de laranja que eu derramei nele. Senti meu rosto queimando, o coração pulando pra fora. Ele tinha repentinamente acaba com todas as minhas esperanças de voltar para casa, daí ele me abraça. Não que eu não estivesse gostando.
–Eu já pedi desculpas, Elizabeth. -disse em meu ouvido- se eu examinar direito os componentes disso, posso tentar reconstruí-lo.- ele desfez o abraço e me segurou nos ombros, me encarando com aqueles brilhantes olhos castanhos em tom de desafio- não te contei, mas sou um gênio da mecânica.
Ele se levantou e olhou para Nico. Ele estava esse tempo todo apenas olhando com uma cara de surpresa.
–Me ajude a limpar isso, por favor.- disse Leo.
Nico assentiu rapidamente. Suspirei.
Ah, o que fazer.
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