Arautos
2 Dias de quarentena - parte 1
Wendy se sente presa, pensando que vai ter que ficar presa em casa por mais treze dias. Se sente sem função. Se sente perdendo tantas e tantas chances e oportunidades. Perdendo trabalhos, dinheiro, e isso a deixa brava. Está deitada em sua cama, às onze horas da manhã. Ela pensa que, em uma hora dessa, deveria estar em algum bico. Em algum freela.
“Que saco”, Wendy pensa. “Que saco!”
Ela joga uma bolinha para o teto, o pegando de volta assim que ele cai. Estar de quarentena a deixa tão presa. Tão confinada. Tão sem o que fazer. Já havia pedido para Anastasia consertar o carro, e mesmo que tentando disfarçar, Anastasia não conseguiu esconder a alegria de poder mexer no carro de Wendolyn. A amizade delas surgiu assim afinal, com Wendy sendo uma cliente frequente da habilidosa mecânica. Até queria passar tempo com seu irmão, Isaac, mas ele está tendo aula, assistindo-a na sala. Wendy não está com vontade de assistir nada na televisão e nem jogar nenhum jogo, principalmente sob receio de atrapalhar seu irmão. Anastasia Velocitá adora seu trabalho, de mecânica.
Ela se senta na cama, se espreguiçando e girando os ombros, se alongando. Ela olha seus braços, que apesar de muito bem feitos, ainda possuem pequenos sinais que mostram que aquilo não é pele, não é de carne e osso. São extensões, membros robóticos. Anastasia fez um excelente trabalho para ela, e até se sente mal, por ter itens tão bons. Extensões civis, geralmente, tendem a ser “feias”. Visíveis. Claramente feitas de metal ou plástico. As de Wendolyn, entretanto, se assemelham a sua biologia, sendo bastante humanas em seu formato e aparência, extensões de primeira linha. E a garota sabe que foi somente graças a essas extensões, que Isaac está a salvo. Que ambos estão a salvo. Tem uma dívida para toda a vida com Anastasia, a pessoa que lhe permitiu ter força para lutar por seu irmão. E por causa disso, nunca quer deixar sua amiga na mão.
“E ainda assim, ela arrumando meu carro” Wendy reflete, com um suspiro. “E não duvido que ela tente deixar isso de graça. Eu preciso pagar bem ela por isso.”
Ela abre e fecha a mão direita, sentindo a estranha. Um pouco de falta de tato e certa demora nos movimentos. Isso é sempre uma sensação estranha. Se levantando e indo até uma escrivaninha e procurando em suas coisas por uma pequena caixinha metálica de comprimidos. Ela retira sua máscara, e coloca o remédio na boca, dando um gole de uma garrafinha de água. Aqueles não eram os remédios que Lulliana lhe passou, para lhe auxiliar a lidar com o período tenso de quarentena. Esses são remédios que sempre vão fazer parte do dia-a-dia de Wendolyn.
Aqueles são remédios feitos para gente com extensões, as “baterias” de extensão, como são popularmente chamadas. Ela toma e espera que o atraso de movimentação passe logo. Ainda não está com dor de cabeça. Ela pega seu celular e confere os timers que possui, para controle de remédios. Ainda não precisa trocar o filtro de sua máscara e ainda não está na hora dos remédios também. Só lhe resta reiniciar o timer da bateria da extensão, visto que já tomou um agora. Não quer torrar os seus miolos por mais ou por menos.
Ela sai do quarto e passa pela sala, vendo Isaac focado demais na aula para perceber a irmã, sorrateiramente passando. Wendy sorri ao vê-lo tão concentrado nos estudos. Isso é bom. Isso tranquiliza o coração incerto da garota. Ela segue até a porta. Sem encontrar com mais ninguém no caminho. Escuta barulhos na cozinha e se pergunta o que terá de almoço. Ela começa a colocar uma muda de roupas para sair do apartamento, separada em um pequeno armário de metal que possui um desenho de Isaac grudado. Um desenho dos dois abraçados numa paisagem bonita porém retratada no traço simples de uma criança. Atravessa toda a área com chuveiros e chega até a porta, conferindo a máscara. Wendy coloca as mãos no bolso, vê algumas pessoas saindo de seus apartamentos e acena com a cabeça, em um cumprimento simples. Ela pega as escadarias, invés do elevador com elas.
Seus pés atravessam os degraus apressados. Ora pulando dois por vez, em pequenos saltos, ora pisando em todos em um ritmo acelerado. Wendolyn sabe que não seria lá muito legal pegar um elevador cheio estando ela de quarentena. E mais que isso, gosta de poder se exercitar na escada. Desses poucos minutos um pouco sozinha, sua mente podendo relaxar um pouco. Não que desgoste das Crianças Perdidas ou de Isaac. Apenas sente que, de tempo em tempo, precisa desses momentos de solitude. De estar apenas e unicamente consigo mesma.
“Poderia estar indo pegar algum job, mas cá estou eu.” ela fecha a cara, mal humorada, pensativa. “Pelo menos tô na guilda, assim posso passar esses dias ‘de boa’.”
Ela abre a porta que dá para a garagem, finalmente saindo das escadarias, após longos cinco minutos, ou mais, descendo todos aqueles lances e mais lances. Junto com essa área das escadas, tem vários lugares para jogar o lixo, e o odor dele invade agressivamente as narinas de Wendolyn. A maior parte das pessoas vivem em mega prédios, como esse. O ápice da riqueza é morar numa casa. É ter um espaço só seu. Sem ninguém acima ou abaixo. Só que isso é para gente da Cidade do Sul A, o lugar onde mora somente a nata do CUS. Onde moram os ricos, os que trabalham para eles e tudo que é, para Wendolyn, desnecessariamente luxuoso. E mesmo assim, vez ou outra, ela fantasia com a ideia de poder morar em uma casa com Isaac, apenas os dois. Podendo cuidar dele. Relaxar. Sem preocupações sobre o dinheiro que entra e sai. Ou com a quantidade de trabalhos a cumprir. Ou pessoas maldosas e de mau caráter vindo atrás de Isaac.
Wendy chega na sua garagem e bate duas vezes na porta de metal, fechada.
— Any — ela chama. — Sou eu, abre aí.
Um grito se ouve de dentro da garagem, de susto. Wendolyn baixa o olhar, mesmo de máscara tentando disfarçar um sorriso, já que, é possível ver isso pelos olhos. E ela sabe que a amiga é bem tímida. Não quer envergonhá-la. A porta se abre por completo e Anastasia está limpando as mãos, sujas de graxa, em um pano qualquer. Ela é uma garota alta, com um metro e oitenta, e com longos cabelos cacheados (e um tanto desgrenhados) loiros, bastante volumosos. A postura dela é insegura e está com um sorriso tímido no rosto, alegre por ver Wendolyn, e por ela ter vindo vê-la, mas receosa de expressar isso. Seu olhar está desviado, mas teimando em tentar fazer contato com Wendy.
— Ei! Oi, Wendy. É, o que veio fazer aqui? — ela pergunta.
A voz de Anastasia é bastante mansa, agradável, mesmo que às vezes, por causa de sua timidez, um pouco baixa demais. Ela usa uma máscara azul translúcida, sendo possível ver sua boca e seu nariz. Ela também usa um macacão cinza esverdeado, naturalmente sujo de graxa, sempre com manchas aqui e ali.
— Oi, Anastacia. — Wendy acena. — Desculpa por pedir um conserto assim de última hora.
— Relaxa, Wendy, isso não é nada — Anastasia responde, a voz nervosa, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha. — Amigas são pra isso.
Wendy meneia a cabeça para o lado.
— Ainda assim, desculpa por algo tão grande do nada. Fui pega de surpresa e tudo mais — ela resmunga, com um pouco de amargor. — Não esquenta que te pago pelo conserto, tá?
Anastasia, nervosamente, dá dois passos para trás, negando com a cabeça.
— Não precisa. — Ela ergue a voz, começando a gesticular bastante conforme fala. — Deixa disso, Wendy, por favor.
Wendolyn suspira, sabendo que ela agiria assim. Ela adentra a garagem e se encosta na parede.
— Você é uma das melhores mecânicas que conheço, Any. Seria maldoso, depois de tudo que já me fez, eu não pagar por algo.
Anastasia se encolhe, como se pudesse se esconder por causa disso.
— Que tal se você me pagar metade e daí me ajudar aqui? — ela resmunga, sua voz ficando cada vez mais baixa.
Wendy, apesar de ter que prestar bastante atenção em dobro por causa da voz baixa da amiga, assente positivamente, saindo da parede e se aproximando de Anastasia.
— Como vai o conserto? — Wendolyn pergunta. — Muito difícil?
Any nega com a cabeça, indo até uma mesinha e pegando o seu tablet.
— Bem, você tem uma janela que precisa ser trocada e todas as outras para serem reparadas também, visto que tomaram bastante bala — ela começa a listar, lendo seu tablet. — As balas na lataria é fácil de resolver, nada demais. Eu passei a maior parte do tempo na verdade, além de rodar análise, desinfetando.
— Dando uma segunda mão? — Wendy indaga, erguendo uma sobrancelha.
Anastasia faz que sim, passando a mão por uma das alças do macacão. Wendolyn não tem nada contra, na verdade, visto que depois da limpeza ainda teve que andar por um bom tanto antes de chegar no prédio. Anastasia aproveita e já fecha a porta da garagem, para ficar mais à vontade para trabalhar. Wendy entende bem o motivo. Anastasia é uma feiticeira, afinal.
— Sua magia deve ser uma mão na roda, não? — Wendolyn diz, enquanto observa as marcas de bala na lataria do carro.
— Me salva um bom tempo — Anastasia responde. — Você acha que é trapaça?
Wendy suspira, prendendo um sorriso. Ela olha para a mecânica e nega com a cabeça. Anastasia sorri, de modo doce, genuinamente tocada pelas palavras. Se sente segura. Ela invoca seu familiar, sua técnica mágica particular: uma pequena criatura, um pouco maior que uma mão, que se assemelha a um polvo. Ele flutua e também é um pouco translúcido, apesar da cor metálica, com uma esfera preta que serve como olho e que pode se movimentar livremente através do corpo da criaturinha.
Feiticeiros, mesmo que podendo usar magias de formas diversas e variadas, não limitadas a apenas um, possuem geralmente algo próprio e único, algo particular, e que alguns dizem, que deriva da própria personalidade do feiticeiro. Esses feitiços próprios possuem categorias e divisões, dependendo de como ela se manifesta e atua, com o feitiço de Anastasia sendo classificado como materialização, visto que traz a existência desse ser, materializando ele. E de fato, ele atua bem como o familiar de uma mecânica, sua habilidade é de analisar objetos, vendo o quão bom ele é, o que pode ou precisa ser consertado e como. Anastasia diz que quanto maior o que ela quer analisar, mais tempo leva. E que não funciona com coisas de madeira.
A criatura começa a flutuar ao redor do carro, com seus quatro tentáculos se movendo como se estivesse nadando pelo ar. Um pequeno laser esverdeado sai debaixo dele e começa a passar pelo carro, com os olhos de Anastasia brilhando em verde também, começando a digitar freneticamente em seu tablet. Wendy assiste aquilo com fascínio, é sempre bonito ver a magia dela acontecer. O familiar termina de analisar o veículo e Anastasia perde o brilho verde nos olhos (que voltam a sua cor natural: verde) e ela volta o olhar para Wendolyn.
— Certo, sem mais traços de radiação mágica no carro. Vou começar reparando a lataria, okay? Já retirei os vidros danificados mesmo — ela resmunga, voltando a olhar pro seu tablet. — Vou pedir pra alguém entrar no meu quarto e me trazer uns vidros novos.
— Você tem isso guardado? — Wendy indaga, um pouco surpresa.
— Gosto de ter um pouco de tudo guardado e estocado — Anastasia explica, sorrindo. — Bom, você pode ir lá pegar? Acho mais rápido até.
Wendolyn assente e, enquanto abre a porta da garagem, o familiar de Anastasia se esconde atrás da dona. Wendy sai da garagem e tira um fone do bolso e coloca na orelha, entrando em uma chamada com Anastasia, para manter uma conversa fluindo.
— Onde você costuma guardar elas? — Wendy pergunta.
— Caraca. — Anastasia parece bastante surpresa. — Você já chegou no apartamento?
Wendolyn respira fundo, segurando um riso.
— Não, apenas estou conversando mesmo.
— Ah tá — Any responde, tímida. — Bem, é, como você está?
— Bem? — Wendy responde, incerta. — De quarentena sem poder fazer “freela”. Preocupada, também.
Anastasia fica quieta, por um momento, sem saber como prosseguir a conversa.
— Hum, bem, é… E como foi esse ataque, aliás? Tinha algum deles mutado por radiação ou, sei lá, algo assim? — Anastasia fala, puxando assunto.
— Na verdade, não cheguei exatamente a reparar nisso. Não pareciam ter nada assim. Também não vi nenhum alienígena, todos eram humanos — Wendy responde, pensativa, se recordando.
Anastasia fica um pouco quieta, pensando no caso de mutação que conhece: seu pai. Morreu por ter tido o azar de contrair Infecção Radioarcano Sanguínea, ou como é conhecida por várias pessoas, pelo maldoso nome de Praga de Feiticeiro. O que é irônico, já que a família de Annie, como era chamado por sue pai, era toda feita de feiticeiros. Tentando esconder esse fato em uma cidade ainda mais ao sul, muito mais problemática e preconceituosa com feiticeiros. Annie era a filha do meio dentre cinco outros filhos. Por sorte ou azar, seu pai contrai a versão da doença onde seu sangue cristaliza, pouco a pouco. Não preciso ver seu corpo lentamente esfarelando ou se tornando uma versão enlouquecida do homem que um dia lhe ensinou tudo que sabe hoje sobre consertos.
Wendy sabe disso e também fica sem saber o que falar. Essa doença é algo tão maldito nesse mundo, tão incerto. Ao mesmo tempo que é uma doença que se torna horrorosa após se contrair, ela é cheia de probabilidades. Talvez você contraia, ou não. Talvez você contraia mas não tenha sintomas, apenas a passando à frente. E pior, quais sintomas e efeitos você vai ter. É uma doença maldosa. Geralmente a chamam ou por IRS ou por Rosaleta.
— Ei, Any — Wendy chama.
— Oi? — Anastasia, que martelava algo, responde.
— Você é a melhor mecânica que eu conheço, okay? — Wendolyn fala.
— Okay? — Any responde novamente, um pouco tímida e confusa.
Wendolyn, que continua subindo as escadas, pragueja mentalmente. Quis tentar deixar a amiga bem, mas só conseguiu pensar nisso. Ela é péssima com isso.
— De todo modo, tu acha que eu deveria fazer uma revisão das extensões quando? — Wendy pergunta, buscando mascarar o constrangimento que sentiu.
Anastasia pensa por um momento, ela era a mecânica pessoal de Wendy quanto às extensões.
— Olha, acho que temos alguns meses antes de uma revisão, a não ser que sinta que algo está errado. Talvez movimentos sincronizados ou perda de tato.
— Eu senti um pouco disso de manhã. Mas depois de tomar o remédio melhorou — Wendy conta.
Any passa mais um tempo quieta. Wendy consegue ouvir o barulho dela mexendo no carro, o martelar no metal.
— Olha eu posso dar uma olhadinha, mas pode ter algo a ver com, talvez, estresse. Ou quem sabe foi só um tempo sem tomar o remédio. De todo modo, dou uma olhadinha depois sem problema.
— Valeu, Any.
— Já pensou em colocar alguma outra extensão? — Anastasia pergunta, e agora, dá pra sentir a empolgação em sua voz, até mesmo fazendo-a erguer o tom de voz.
Wendy acaba soltando um fraco riso, que faz Anastasia, na garagem, corar.
— Bem, eu ainda não sei. Não quero por mais ferro dentro de mim por um tempo. E também não sei se precisa. Não quero me modificar sem razão ou motivo, sabe? — Wendy explica.
— Sei. Acho válido, na verdade — Any responde. — Sabe, já tratei de pessoas que acabaram viciadas em extensões e a quantidade de AN-SV que elas precisavam tomar era só absurdo. Várias delas não voltaram mais para consultas, e temo que tenham sei lá…
— Parado de funcionar? — Wendy completa a frase.
— Talvez, quem sabe. Querendo ou não, é uma droga. Quem tem extensões é totalmente depende delas para operar de verdade. E com o número de extensões que aquelas pessoas tinham, a quantidade, dose e espaço de tempo entre elas com total certeza aumentou — Any diz, com a voz tendo um pingo de tristeza. — Saiba que quando pergunto se você quer melhorar ou expandir suas extensões eu não… Eu não tô querendo te por em um beco sem saída ou te deixar presa consumindo bateria para poder continuar ativa.
— Any, eu sei que você não é esse tipo de pessoa — Wendy fala, buscando tranquilizar a amiga, assim que sentiu certa culpa na voz de Anastasia. — Eu sei que você não está tentando me prejudicar ou me fazer me tornar presa aos remédios e a constantes manutenções e cirurgias.
— Desculpa — Anastasia resmunga mais uma vez.
Wendy suspira, dando um sorriso, e chegando, enfim na porta do apartamento. Ela aperta a campainha que dava para uma pequena tela com uma câmera e um microfone também. A tela não liga mas ela escuta a caixa de som ligando.
— Alô? — ela ouve através da caixinha do interfone. — Ah! Wendy! Que tu quer?
É a voz de Lulliana através do interfone.
— Eu tô ajudando a Any, lá com o carro. Tu pode entrar no quarto dela e procurar por…
— Janelas de carro — Anastasia fala, no fone de Wendolyn.
— Janelas de carro? — Wendy repete, incerta.
Lully solta um riso.
— Okay, tô indo lá ver — ela avisa, desligando o interfone.
Wendy preferiu fazer desse jeito, já que, caso pedisse que alguém tivesse que ir entregar, teria que tomar uma ducha. E se ela entrasse, teria que tomar uma ducha pra entrar. O microfone liga mais uma vez.
— Ei, Wendy, avisa a Annie também disso — Lully diz. — Zumbi disse que o almoço tá pronto, venham comer. Continuem isso depois.
— Any, ouviu isso? — Wendolyn indaga.
— Tá em call com ela? — Lully pergunta.
— Sim — Anastasia responde.
— Sim — Wendy também responde.
Lulliana ri com isso.
— De todo modo, venham logo. Vamos almoçar — Lully diz e desliga.
Wendy se espreguiça.
— Quer que eu espere você? — ela pergunta, tocando o fone.
— Ei! Eu não sou uma criancinha! — Anastasia responde, emburrada na garagem.
— Você quer? — Wendy repete, com mais ênfase.
Um momento de silêncio das duas.
— Sim — Any, tímida e emburrada, responde, desligando a chamada.
Wendy fica ali, mexe no seu celular para olhar o mural de trabalhos, ficando pensativa. Queria poder sair para fazer algo, mesmo que simples. Ganhar algum dinheirinho. O elevador apita, indicando que parou naquele andar, e Wendolyn vê pelo canto do olho Anastasia saindo dele, acenando para ela, a cabeça baixa e os ombros erguidos.
— Demorei?
Wendy nega com a cabeça.
— Ufa — ela responde, aliviada, colocando a mão no peito. — Vamos entrar então, espero que a comida de hoje esteja boa.
As duas entram na casa, passando pelo ritual de se limpar e desinfetar. Anastasia, contanto, quando chega na parte do banho, aperta um botão ao lado do registro, que desce uma cortina ao redor de seu chuveiro. Ela é bem mais tímida que o resto do grupo. Wendolyn não se preocupa muito com isso. Não tem muito o que ver nela. Nem vergonha, nem vaidade. Ela olha para o próprio corpo, por um breve momento, e não vê beleza. Queria poder ver isso. Ela morde o lábio, travando e engolindo sentimentos que gargarejam em sua garganta. E os engole. Sem tempo para isso. Ela pega sua toalha e se enxuga, partindo para o próximo cômodo e pegando seu pijama, para por novamente. Ela confere seus timers. Logo vai ter que tomar remédio e trocar o filtro da máscara. Pior ainda: como iria comer? Teria que ir pra varanda do apartamento, provavelmente.
Elas entram na sala de estar, enfim, e o cheiro de comida invade elas. Anastasia está com o cabelo preso em um rabo de cavalo e uma outra muda de roupa, idêntica a que ela estava usando antes (só que um pouco mais limpa de graxa). Na mesa de jantar, aberta para comportar todos da casa, já estão Lully e Isaac, esperando ansiosamente pela comida.
— Ué, cadê o resto? — Wendy indaga.
— Ja’ri saiu faz pouco tempo — Isaac responde, alegre, erguendo a mão.
Wendolyn sorri docemente para o irmão.
— Como foram as aulas? — ela pergunta, com a voz se adoçando.
Anastasia caminha até a mesa, se sentando calmamente e sentindo bem o cheiro. Aquilo não é a comida de sempre, tem algo a mais naquele cheiro. Além das rações e comidas pré-feitas, feitas nas fazendas no lado oeste da Cidade do Sul B. Onde reinam o maquinário, o industrial e a fumaça. Diferente do lado leste, com plantações de verdade, além das fazendas de energia solar.
Anastasia se inclina na mesa, para frente.
— O que vai ter de almoço? — ela sussurra.
Lully se inclina para frente, também.
— Eu tava ajudando o Zumbi e, olha, vai estar bem gostoso. — Ela coloca a mão na lateral do rosto, como se isso fosse abafar o som.
Wendolyn ergue uma sobrancelha, se senta à mesa ao lado do irmão.
— E por que isso do nada? Aconteceu algo? — Wendy pergunta.
— A gente notou que você está murchinha, animal — uma voz atrás de Wendolyn, vindo do corredor, fala.
Wendolyn, novamente com a feição séria, encara Nero Pelin, outro sujeito da guilda. Ele caminha em passos pesados, que combinam com ele. Ele é alto, tendo um metro e noventa, e um corpo bastante musculoso. Seu cabelos loiros são raspados do lado esquerdo, contudo o resto é bastante longo, preso com um rabo de cavalo e uma prisilha. Ele tem várias cicatrizes pelo corpo, pela antiga vida que teve, mas a que marca seu rosto é apenas uma: no queixo.
— Como vai a baixinha mais murrada da guilda? — Nero pergunta, se apoiando nas costas da cadeira onde está Wendy.
Wendy respira fundo, e sua mão direita que está na mesa, se retrai, indo com uma força incrível na direção do rosto de Nero, que dá dois passos para trás, colocando a mão a frente do nariz golpeado. Ele ri.
— Bom golpe!
— Ei! Não briguem na hora da refeição, seus vândalos! — uma voz vinda da cozinha braveja.
Alguém sai da cozinha, um homem negro de pele clara, um pouco mais alto que Wendolyn. Zumbi, o namorado de Lulliana, um sujeito bastante agradável. Seu cabelo, preso com um arco, está com um tom cinza claro, sendo bastante cacheado e volumoso. Ele está com um avental branco a frente de sua roupa, cuja camisa branca tem gola particularmente larga.
— Posso servir vocês? Mais fácil do que trazer pra cá as panelas — Zumbi, com sua voz calma, pergunta.
— Quero bastante, hein? — Nero avisa, se sentando a mesa.
Zumbi ri, acenando com a mão, como quem abana uma mosca, e retorna para a cozinha.
— Como foi a missão ontem, Lully? — Nero pergunta, com riso na voz. — Noite romântica ou nem?
Lulliana suspira.
— Foi de boa, acho — ela responde. — Digo, não era nada complicado, matar umas baratas não é difícil.
— Sim, mas é um bicho tão nojento — Nero faz cara de nojo.
— Verdade — Anastasia concorda. — Já viu o tamanho deles?
— Já vi um do tamanho do meu braço inteiro, sabia? — Nero conta.
— Sério? — Isaac, abismado, exclama.
— Isaac, não grite — Wendy pede, gentilmente.
— Desculpe, Wendy — o menino pede. — Mas ainda assim, é verdade, Nero?
O homem balança a cabeça positivamente.
— Nem vem — Lulliana responde antes. — Baratas tem no máximo em torno de vinte e oito centímetros.
— Mas eu viiiii! — Nero teima, com a voz manhosa.
Zumbi retorna com duas tigelas, servindo Lully, sua namorada, e Anastasia. Zumbi tem uma cicatriz debaixo do olho direito, pequena mas que marca seu rosto, que ele precisa sempre se controlar para não coçar.
— Pelos espíritos, vocês tão falando disso na mesa? — ele ri. — Já chego com os demais pratos.
Lully sorri para a comida, com Anastasia sorrindo abobado para sua tigela, com Isaac tentando espiar, se levantando um pouco. O prato do dia é macarrão, provavelmente feito das porções de proteínas, vindo das fazendas, com o gosto enriquecidos por temperos e condimentos. Junto dele tem uma porção fina de carne, uma iguaria rara e cara hoje em dia.
— Carne! — Isaac alegremente fala.
— Não é todo dia que temos isso — Lully comenta. — É frango, se não me engano. Eu sugeri usarmos algum substituto mais barato, mas Zumbi insistiu em usarmos um pouco de carne.
— Relaxa! Tirei a grana dela do meu bolso — ele retorna a sala com mais duas tigelas, dando-as para Wendy e Isaac.
— ‘Pera, isso é carne mesmo? — Wendolyn, surpresa, pergunta. — Não é nenhum genérico de proteína?
Zumbi nega, alegremente, fazendo todos na mesa sorrir em diferentes graus.
— Usei alho e óleo pro macarrão e depois realcei o gosto com mostarda — ele conta, parando no batente entre cozinha e sala. — A carne eu primeiro fritei com sal e pimenta e depois empanei. Daí fatiei e dei uma última cozinhada com isso no macarrão, pra pegar gosto.
Nero assobia, babando pela sua tigela. Wendy sorri para o prato mas então seu sorriso some, ainda de máscara.
— Eu vou comer lá na varanda — ela tristemente diz, pegando a tigela.
Zumbi tenta dizer algo, mas acaba tropeçando nas palavras, vendo ela sair da mesa e ir para a varanda, através de uma porta do outro lado da sala.
— Ah, desculpa. — Zumbi baixa a cabeça.
Wendy aparace na janela e toca o celular. Anastasia tira o celular do bolso e o atende.
— Pronto, podemos conversar assim — ela diz, através da ligação.
Zumbi retorna para a cozinha e quando retorna passa direto pela sala, indo para o corredor, batendo em duas portas e dando as tigelas para as pessoas lá.
— Zumbi! Minha tigela! — Nero bate de leve na mesa, dando tapinhas nela.
— Calma, ô — ele ri.
— Por que os dois garotões não podem comer com a gente? — Lully indaga, girando seu palitinho de plástico no dedo.
— Ambos cheios de trabalho — Anastasia responde, ainda de boca cheia, apenas para pedir por um momento e engolir apropriadamente. — Johnny tá com um trabalho de arrumar um sistema de uma empresa pequena e o Alluleth eu honestamente não sei.
— Coisas de médico — Nero brinca.
— E o Baco? Ele tá em casa? — Wendy pergunta. — Não vi ele de manhã.
— Ele tá dormindo, eu acho — Isaac responde.
— Eu não vi ele chegar — Lulliana responde. — Bem capaz dele ainda estar fazendo as coisas dele.
Zumbi retorna para a sala uma última vez, dando uma tigela para Nero e deixando uma em um espaço vazio à mesa.
— Aliás — Zumbi diz. — Teremos sobremesa.
— Eba! — Anastasia e Isaac comemoram.
Wendy, na varanda, arregala os olhos, se perguntando o que seria. Nero, entretanto, bufa.
— Também vou ficar em laranja pra ganhar uma pizza ou sei lá — ele resmunga. E então olha para Zumbi. — Eu ganharia uma pizza?
Zumbi nega.
— Ah qual é! — Nero choraminga e ri depois.
— Besteiras de lado — Lully diz, tomando a vez de fala. — Eu e Johnny observamos que tá numa época de alta de trabalhos. Temos que ir com tudo com isso, com exceção de Wendy, lógico.
Wendy baixa a cabeça, mordendo o lábio. Feliz que, pelo menos, ninguém está vendo ela. Se sente tão burra. Presa na quarentena numa época boa de trabalhos. Sabe que não teve culpa de ter sido atacada. Sabe que já é passado. Mas ainda resta um pingo de amargor no peito que parece sempre se diluir, por mais ínfimo que seja, por todo seu ser.
— Ei, Wendy, — Nero chama, de boca cheia.
— Hm? — ela responde, limpando uma lágrima que teimou em brotar no olho.
— Tu topa pagar por uma daquelas roupas de proteção química? — ele pergunta. — Conheço uns caras que vendem isso, posso pegar uma de segunda mão ou sei lá.
— E isso é permitido? — Wendy retruca, tentando mascarar a esperança na voz calma e seca.
Lully termina de engolir o que tinha na boca e diz:
— Bem, dentro do regulamento diz que tu pode assumir trabalhos, sob essas condições, de nível quatro e três. Entregas, no geral, desde que se atente às normas de segurança e tudo mais.
— Nero, eu… Por favor, faça isso. Nossa, eu não sei nem o que dizer — Wendy fala, não podendo conter a alegria.
— Mas tu que vai pagar, hein? — Nero avisa.
— Que seja — ela retruca, sem se importar com isso. Poderia repor o dinheiro.
Zumbi sorri com isso, aliviado com as boas energias. Isaac olha para o colega da irmã com certo fascínio e Zumbi reconhece isso, seu olhar se cerrando, pensativo. Ele abre a boca para falar algo, mas sendo cortado por sua namorada, que limpa a garganta, chamando atenção para si.
— Bem, isso são boas notícias. Vamos poder lucrar bastante e talvez até sem ter que todo mundo se sobrecarregar — Lully diz, sorrindo mais tranquila, sem ter percebido que Zumbi ia falar algo.
Wendy, na varanda, sorria abobalhada, sentindo que um peso foi tirado de suas costas.
— ‘Sepá que eu consigo trazer um ainda hoje, na moral — Nero diz, com o rosto apoiado na mão. — Só tenho que falar com esse cara, ver se tem algum e os preços. Vejo isso e te passo depois do almoço, pode ser, Wendy?
— Claro — ela responde.
— Pode falar, te fiz sorrir com isso, não fiz? — ele brinca, rindo.
— Any?
— Sim, Wendy? — ela responde, receosa.
— Tape os ouvidos do Isaac, por favor — Wendy, ainda calma, pede.
Anastasia acata o que ela pede.
— Vai se foder, Nero — ela, com a voz ainda no mesmo tom calmo.
— Oi, oi, oi — Zumbi fala. — Palavreado na mesa.
— Perdão — Wendolyn pede, bufando.
Zumbi ri, voltando a comer, e então seu olhar é tomado por clareza, se lembrando de algo. Ele ergue a mão, chamando atenção para si, e terminando de mastigar e engolindo.
— Amanhã eu peguei um job, um freela, é em tese bem de boa. — Ele coloca a mão na frente da boca, abafando um arroto. — Levar corpos pro necrotério.
Nero ergue a sobrancelha.
— E? — ele pergunta, confusa.
— Ah, são corpos de IRS, é pra levar lá pro radionecrotério. Fora da Cidade C. — Zumbi complementa. — Nero, queria te pedir ajuda com isso.
— Meio a meio? — Um sorriso surge no rosto do freelancer.
— Quarenta pra ti, se tudo correr bem — Zumbi corrige, rindo.
— E se tudo correr mal? — Noro pergunta, confuso mas já com um sorriso no rosto.
— Daí é meio a meio — Zumbi responde, rindo.
Lulliana suspira, preocupada, olhando para sua tigela, que está a raspar.
— Esse trabalho vale a pena? — ela pergunta. — Ir para lá tende a ser um risco grande.
— O pagamento vai valer bastante a pena, sinceramente — Zumbi conta, sorrindo bastante e comendo mais um pouco de macarrão. — E, qual é, mesmo se der algo errado. É eu e o Nero. A gente dá conta. A gente é bravo.
— Isso ae, ‘nóis é zica — Nero complementa rindo.
Lully respira fundo, juntando paciência.
— Apenas voltem vivos e sem precisar de extensões.
Zumbi ri, desconcertado, coçando por um momento sua cicatriz, mas parando após duas passadas de dedo. O almoço prossegue com mais conversas sobre trabalhos que cada um terá hoje e nos próximos dias e Isaac dizendo o que estudou. Wendy eventualmente termina de almoçar, voltando para a sala, deixando a tigela na pia e agradecendo pelo almoço, indo tomar seus remédios e trocar o filtro da máscara.
Wendolyn se sente de barriga cheia, foi um excelente almoço. Não tem do que reclamar, foi algo especial. Teve carne de verdade, teve tigela cheia para todo mundo. Ela toma seus remédios. Fizeram isso para ela. E ela se sente mal por isso. Se sente em débito com eles. Mesmo que talvez não deva. Enquanto troca o filtro de sua máscara, memórias acabam invadindo sua mente, a contragosto, quase que um remédio de gosto amargo atravessando a garganta e manchando a língua com seu gosto.
Wendolyn Noah se lembra de quando seus pais eram vivos. De quando seus braços, seu corpo, não era moldado para serem armas, instrumentos de trabalhos e algo que possa proteger seu irmão caçula, Isaac Noah. Quando a vida era mais fácil, mais simples. Wendy nasceu numa base subterrânea de humanos, uma base que resistiu os Mil Anos de Inferno. Que entrava no chão e percorria uma montanha. Era quase como um livro de fantasia.
Vivia com um largo grupo de famílias, com a sua sendo composta por seus pais e, além de Wendy e Isaac, seu irmão mais velho — Efe Noah. Wendy, nessa época, era apenas uma garota, apenas uma garotinha normal. Tinha o luxo de poder ficar brincando, de usar vestidinhos. Não ter que se preocupar com remédios para sustentar extensões. Sua mãe era uma doce mulher que ajudava a cuidar da distribuição e controle de suprimentos dentro da base e seu pai um excelente cozinheiro, além de um excelente caçador. Seu irmão, Efe, adorava brincar de caçar, queria ser igual o pai nesse sentido. Um garoto que queria explorar o mundo. Wendolyn não pensava em nada disso. Aquilo para ela estava bom. Quem sabe, entretanto, um dia pudessem sair e explorar o mundo junto do irmão?
E infelizmente isso acabou se tornando verdade no dia que um grupo pesado de saqueadores rastreou a base, uma base rica em tanto materiais e suprimentos, e fez um ataque pesado contra ela. Em seu quarto, após tomar seus remédios, ela olha para suas mãos, tremendo, lembrando de quando sua mão os puxou para fugir e ela viu uma parede caindo sobre ela. Uma boa mãe até o fim, buscando tirar os filhos do perigo. Tentando guiá-los para uma saída de emergência.
Wendy é arrancada para fora de suas memórias, assim que ouve Zumbi a chamar, bem alto.
— A sobremesa, pô! Deu trabalho de fazer isso tudo — ele bronqueia. — Wendy! Vem pegar!
Wendy, e todos os demais, retornam para a sala subitamente interessados. Lully, que havia ajudado a fazê-la, tranquilamente sorri. Zumbi volta da cozinha com uma bandeja com pretzels doces, a comida preferida de Wendy. Os olhos da garota até brilham ao ver isso. Zumbi e Lulliana sorriem orgulhosos.
— Sabíamos que isso ia te por pra cima — Lully comenta, pegando um pretzel para si.
— Isso aí, eu até disse a parada da roupa por causa disso — Nero comenta, já de boca cheia.
Wendolyn sorri, docemente, sua mão chegando a hesitar para pegar a sobremesa.
— Não precisava — ela murmura.
— Você tava claramente pra baixo — Lully comenta. — Além disso, somos amigos. E nossa amiga estava precisando de um pouco disso. Aproveite!
Lully abraça Wendy, que pega o pretzel, doce, com canela e açúcar sobre ele. Ela dá uma mordida, ainda tímida. Pode não ser o mesmo que seu pai fazia, e talvez nunca vá encontrar um igual o dele. Mas já é bom o bastante. O bastante para fazer um sorriso, de começo tímido e contido, inundar o rosto de Wendolyn, com lágrimas teimando em brotar, querendo escorrer rosto adentro.
O pequeno Isaac ao ver isso corre e abraça a irmã, pelo menos a cintura dela, com força. Nero coça a nuca e se dirige a porta, terminando de comer seu pretzel. Ele carrega uma larga maleta, praticamente uma caixa com uma alça.
— Bem, eu estou de saída — ele avisa. — Wendy! Fica atenta que vou te mandar mensagens sobre a roupa lá.
— Beleza — ela diz, limpando os olhos.
Nero deixa o apartamento, certamente para algum trabalho. Lulliana se separa do abraço e começa a comer o seu pretzel. Anastasia começa a ir, sorrateiramente para a porta também, para voltar a reparar o carro.
— Any! Parada aí mesmo, eu vou te ajudar lá — Wendy diz, indo em passos pesados até.
— Lully! Ajuda! — Anastasia choraminga, correndo para a porta.
— Lully, não! — Wendy braveja, começando a correr também.
— Lully, sim! — Lulliana ri enquanto usa sua magia para puxar Wendy com tudo para o sofá.
Wendolyn apenas sente o solavanco quando a magia de Lully a puxa para trás, fios laranjas que saem de cada um dos dedos da feiticeira líder da guilda Crianças Perdidas. A porta se fecha com força, com Anastasia podendo fugir para a garagem.
— Ei, Lulliana! Me solta, me deixa ir ajudar a Any — Wendy ordena, irritada.
— Nem pensar, você tá de quarentena — Lully responde. — Vai descansar, sua teimosa.
Wendy abre a boca para retrucar mas Lully interrompe-a.
— Eu sou sua chefa, além de sua amiga — ela diz. — Por favor, Wendy. Descanse.
Wendy, sabendo que ela tem razão, suspira. Ainda tenta parecer brava e olha para Isaac, passando por ele e afagando seus cabelos.
— Eu vou ir pro quarto, malhar — ela diz. — Não posso sair de forma.
O dia se passa e Wendolyn sai do quarto para encher sua garrafinha de água, usando um top preto e uma bermuda. Ela pega água gelada, sentindo a própria garrafa ficar mais gelada e coloca na barriga, começando a voltar para o quarto, quando a porta do apartamento se abre, com Nero, entrando, apenas de bermuda e regata.
— Wendolyn! — ele brada. — Sua roupa está comigo!
Ela ergue as sobrancelhas.
— Ah, conseguiu então? — Ela sorri.
— Sim! Nero Speranzio Pelin conseguiu! Ele conseguiu! Ele venceu uma vez mais! — ele começa a contrair os músculos, se exibindo.
Wendy perde o sorriso no rosto.
— Está nas minhas coisas! Me ajuda a limpar elas? — ele pede, juntando as mãos em prece.
Ela dá os ombros, seguindo para ajudá-lo a fazer isso. No fim, acabou sendo ela fazendo isso sozinha, já que Nero ficou dançando alguma música boba no corredor. Ela tira a roupa de uma sacola. É uma roupa toda vedada, apenas com um zíper nas costas. A cor da roupa é de um amarelo forte. No meio do peito tem uma foto do rosto de Nero, piscando um olho. Wendolyn passa um bom tempo encarando aquilo. A roupa é colocada para lavar. Wendy vai até o corretor, ao encontro de Nero. Ela o derruba com um forte soco na barriga. Nero cai no chão, gemendo baixinho.
— Imbecil — ela bufa, indo para seu quarto.
— Me paga pela roupa — ele geme, chorando, a vendo entrar no quarto.
— Depois! — ela exclama, fechando a porta de seu quarto.
Fale com o autor