Arautos

3 Dias de quarentena - parte 2


Wendolyn aperta um botão em um tablet e confirma a entrega de um pacote, após o cliente fechar a porta. É a vigésima sétima entrega do dia. E ainda é de manhã. Ela visualiza o relato da entrega para ver se receberia alguma gorjeta e a avaliação do cliente. Sem gorjetas, mas ele deu quatro estrelas. Wendolyn cerra os olhos.

“Por que só quatro?” ela pensa, emburrada.

Ela olha para si mesma no reflexo dos vidros de seu carro. A roupa que está tendo que usar claramente não soa muito atrativa, e talvez cause uma má impressão. Ela bufa. Ela retorna ao carro, vendo se os outros pacotes estão bem. Precisa entregar as outras marmitas. É só isso que pode transportar. Comidas e entregas de pacotes simples, transporte de itens simples. Wendy liga o carro e confere onde é a próxima entrega, querendo chegar rápido lá, para tentar cumprir o máximo de entregas no melhor tempo possível.

No fundo, Wendolyn se sente angustiada, pois queria estar nas missão “normais” que geralmente pegava. Rendiam bem mais dinheiro e colocam suas armas e extensões em uso. Afinal, do que adianta ter tudo isso e estar presa em um volante de carro, entregando marmitas e outras coisas bobas? Wendy suspira, sabendo que esse é o preço por ter sido pega naquele incidente bobo. Sabe que não teve culpa mas ainda assim deixa ela angustiada aqui e ali por não ter sido capaz de evitar.

“Se ao menos o vidro não tivesse quebrado” ela pensa, parando em um sinal vermelho.

Parada no sinal, esperando-o abrir, ela tenta ignorar as projeções de comerciais que aparecem para os motoristas assistirem. Fast-foods, uma loja de roupas com descontos, previsão do tempo e um aviso sobre o número crescente de casos de infecção por IRS. Wendolyn se sente alvo disso. Afinal, ela está em alerta laranja. Seu aperto no volante fica mais forte. Tem medo de acabar contraindo IRS. Medo de acabar tendo que se isolar ainda mais, ter que ficar presa. Medo de ser um risco e pior que isso um fardo. E o que a deixa irritada é que não foi por ela não se cuidar. Foi por causa de uma maldita aleatoriedade. Foi a pessoa errada, no lugar errado, na hora errada.

Seus olhos se atentam nos pedestres atravessando e ela vê três crianças cruzando a rua. Duas delas pareciam ter uns dez anos, um menino e uma menina. O menino carregava nas costas uma criança ainda menor. Os olhos de Wendolyn observam aqueles três jovens com uma atenção enorme. Por mais boba que ache, Wendy acaba lembrando de sua vida com seus irmãos. Se sente tão boba por se lembrar disso. Da época após a destruição da base onde viviam. Quando se tornaram órfãos, sobrevivendo sozinhos em um mundo agressivo como aquele. Efe, seu irmão mais velho, era quem os protegia. Ele era quem saía atrás de comida, de remédio. Wendolyn cuidava de Isaac e só precisava se preocupar em manter o local onde eles moravam, numa pequena casa subterrânea no deserto, a salvo. Ela gostava disso, apesar de ainda doer. Ter perdido tudo.

E então Efe sumiu. Em um dia ele saiu para ir atrás de alguns trabalhos e… Nunca voltou. Sozinha. Com um irmão novo demais e sem nenhum preparo sobre o que fazer. Tentou e tentou esperar para ver se ele retornava, uma vez até mesmo foi procurá-lo, retornando pouco tempo depois sem muitas respostas. Wendolyn se via no dever de assumir o papel de Efe também. Agora ela era tudo que Isaac tinha.

— Dá a seta antes de virar, imbecil! — Wendolyn, em seu carro, grita.

Ela bufa e olha para o GPS. Ia ser um longo dia. O motorista do carro que subitamente virou sem dar a seta coloca a cabeça para fora, sem máscara e começa a xingar ela. Wendy tem uma arma no porta luvas do carro. Nunca soou tão tentador para ela cometer um crime de ódio.

Enquanto isso, já fora dos muros da cidade, os colegas de Wendoly, Nero e Zumbi, estão em um caminhão. Foram contratados pela cidade através de um serviço freelance para levarem um caminhão cheio de mortos até o necrotério próprio para pessoas que morreram, seja pelo Ar Toximágico ou por causa da doença contraída por causa dela, a Infecção Radioarcana Sanguínea. Por medidas de segurança, eles são deixados nesse grande prédio que os dois freelancers já conseguem ver dali, ainda no caminho. Uma grande construção no formato de uma cruz branca. Lá, eles não podem infectar mais ninguém e nem fugir, passando por um processo de cremação e então contenção de resíduos por causa da toxicidade neles e porque os aliens fizeram acordos atrás de acordos que os povo das CUS evitariam causar maiores danos ao meio ambiente do planeta, já horrível. O motivo deles serem armazenados ali, tão longe das CUS é para o caso que aconteça algo. Como zumbis. Radioativos. Mágicos. O povo da cidade confia esse tipo de atividade (como levar corpos infectados) para freelancers, visto que é um trabalho relativamente arriscado e que pouca gente ativamente escolheria como um trabalho fixo.

Cadáveres com relações com a radiação acabam sendo bastante temidos e antigamente era ainda mais trabalhoso de lidar, com freelancers atuando como exterminadores em casa de algum morto se levantar da tumba e tentar sair por aí atacando civis. Logo, o necrotério começou a ser movido para cada vez mais afastada da cidade, logo, sendo construído o edifício fora das cidades.

Nero está dirigindo o veículo, com uma jaqueta vermelha característica dele, que combina com sua máscara, preta com chamas vermelhas e amarelas. Seu cabelo loiro está preso em um coque no topo de sua nuca. Ele passa a mão pelo lado esquerdo da cabeça, raspado, e faz um biquinho.

“Talvez eu deva logo raspar de volta” ele pensa.

Ele olha para o lado, vendo o colega Zumbi, girando uma faca enquanto cantarola a música que toca no rádio. Zumbi usa seu clássico moletom azul com calças cargo. Nero não gosta da pochete que o colega usa, mas Zumbi diz que é mais prático para guardar certos objetos que ele usa em combates. A máscara de Zumbi é preta e ele sempre se sente incomodado de como ela se mistura com o cabelo. Zumbi uma vez já cogitou colocar uma extensão no rosto que permitisse encaixe de máscaras. Lulliana e Wendolyn olharam para ele com muito julgamento no olhar.

— Não vai chover — Zumbi resmunga, olhando pela janela.

— Isso é mau? — Nero questiona, olhando para ele com o canto do olho.

— Meu pacto favorito usa chuva — ele explica. — De qualquer modo, estaríamos em um lugar fechado então…

Zumbi dá os ombros e Nero solta um barulho de concordância. Pactos. Dizem que a opção mágica para quem nasce sem magia. Ou que é algo profano e horrível. Pactos são formados com espíritos. E Nero sabe que Zumbi tem pacto com mais de um espírito. Sempre teve vontade e curiosidade em saber como funciona ou como e quais são os pactos. Só que sempre fica com vergonha em como tratar o assunto ou de Zumbi ficar desconfortável. Vai que é algum código de usuários de pactos é não revelar eles.

“Mas ele falou aquilo da chuva!” Nero aperta o volante com mais força, cerrando os olhos.

Conhece Zumbi faz mais de um ano e ainda assim sente vergonha. Pior! Zumbi nunca o contou sobre! Nero nunca tinha conhecido alguém que usa pactos. Quando era criança e vivia no submundo da Cidade do Sul C, no subterrâneo, ele ouvia contos de pessoas e aliens capazes de falar e ver espíritos, e além disso, criar tratos para poder usar os poderes deles.

“O amigo da tia de um colega conhece alguém que trabalha com isso” Nero pensa.

Nero Speranzio Pelin foi um dos vários órfãos em um orfanato, mas com um coração que desejava a liberdade, brigas e aventuras. E não tardou para que o jovem Nero fugisse do orfanato, rumando para o único lugar que aceitava qualquer um: os subterrâneos da Cidade do Sul C. Entre ser parte uma gangue por um tempo e depois ganhar a vida em ringues de luta ilegais no submundo da Cidade C.

Um dia, levou uma surra de alguns maus perdedores, e acabou sendo salvo por Zumbi e Johnny, que o levaram para ser cuidado por outro membro das Crianças Perdidas. Nero se sentiu em débito e começou a fazer parte da gangue para pagar seu débito, mas logo começou a gostar da vida com eles e se afeiçoou com a vida que tinha agora. Deixando a vida de marginal e de lutador ilegal, de repente, Nero conseguiu achar o misto das aventuras, brigas e rebeldia com alguma coisa que sentiu que não tinha antes. Nem no orfanato, nem nas gangues dos subterrâneos e nem nos ringues ilegais.

Wendy para seu carro, saindo dele e tirando um envelope do porta mala. Uma regra muito importante sobre o mundo de entregas de cargas é que se trata como “errado” perguntar demais sobre o que você carrega. Se o cliente não diz, o entregador não deve perguntar demais sobre o produto. E a garota evita sacudir ou tentar descobrir o que deveria estar dentro do pacote através de peso e barulhos que fazia ao mover a pequena caixa. Ela caminha para a portaria de um prédio e se identifica, avisando que veio entregar o pacote.

Ela bate o pé contra o chão impaciente, o cliente disse que vinha pegar ele mesmo. Tinha uma voz masculina, mas no contrato tinha o nome de uma mulher. Ela não quer julgar, mas tem medo de ter tocado o interfone errado. Ela sacode um pouco a cabeça, para mover o cabelo e tirar uma mecha que caiu no olho.

O cliente chega e é um alien bem exótico, o que explica sua voz. A máscara dele está meio torta mas ele nem possui orelhas, então Wendy presume como por máscara deve ser só um saco.

“Me pergunto o que trouxe esse cara pra cá,” Wendy pensa enquanto termina a entrega, dando o pacote e confirmando-a em um tablet.

Existem alienígenas na Terra e os que vêm para cá são bastante escusos. Ninguém vem para cá à toa. É um planeta novo, praticamente sem lei. Sim, tem toda a questão de uma névoa perigosa que ronda o planeta, mas é um ótimo planeta para recomeçar. Para fugir.

Fugir.

Essa palavra ecoa na sua mente, seu passado ainda ecoando com memórias de seu irmão e sua juventude. Ela fecha o rosto, embravecida. Não quer pensar nisso. Não quer gastar mais nada de si mesma nesse assunto. Ela retorna ao carro e fecha a porta, apertando o botão para desinfetar o interior do veículo, após ter saído. Poderia ter feito isso, quando foi atacada pelos saqueadores, se ao menos o vidro não tivesse sido estilhaçado. A garota respira fundo. Isso já passou. Não é hora para isso.

Wendolyn remove a parte da cabeça de sua roupa de proteção, por um momento, e pega uma garrafa de água e bebe um gole, tirando um pouco a máscara do rosto. Ela dá dois longos goles e então baixa a garrafa, ficando encarando algo muito além do que seus olhos vêem. Sua mão vai até seu peito, sentindo seu coração. Ela então ergue a mão para si mesmo, vendo as dobras da extensão. Ela teria essas extensões se Efe não tivesse sumido? Teria encontrado Anastasia e Lully? Teria que ir tão longe se ao menos ela não tivesse sido abandonada. Ela respira fundo, mais uma vez, e bebe outro gole de água. Ela confere o horário de seus remédios e aproveita para tomá-los. Também está começando a sentir fome. Ela pega um pacote de várias barrinhas de proteínas, de sabores diversos e os encara por um breve tempo, cogitando qual seria melhor comer agora. Barras de proteína são bastantes comuns, visto que são uma comida econômica para trabalhadores. Uma simples barra de vários gostos que carrega consigo o suficiente para ou te deixar acordado ou te deixar suprido nutricionalmente.

Wendolyn acaba pegando uma que simula o sabor de tacos e come-o sem muita alegria, se encostando no banco do carro por um breve período. Pega seu celular e confere as entregas, nenhum deles exige urgência. Ainda está no prazo de entrega, mas também não quer perder tempo. Quer uma boa review na sua aba de trabalho. Ela manda uma mensagem para Isaac, perguntando como ele está e se está conseguindo fazer as tarefas sem dificuldades. Ela sorri vendo a foto dele, sentindo-se mais motivada.

Ela confere através de seu celular, transmitindo a tela para o painel do carro, onde seria a próxima entrega. Se espreguiça e liga o carro, partindo para o ponto de entrega. Contra sua vontade, sua mente acaba fazendo retornar mais uma vez para as memórias de sua juventude. Nos motivos que poderiam ter feito seu irmão ter deixado eles. Ele se cansou deles? Efe sempre foi um irmão dedicado, que os protegia. E ainda assim… Abandonar os dois? Isaac era apenas uma criança. Claro que pode ter acontecido algo pior. Ele poderia ter sido atacado. Pego, capturado, roubado. Morto. Wendolyn se lembra como tudo isso passava por sua mente repetidamente durante aqueles dias, e por vários que os seguiram. Foi enlouquecedor. E pior, ela tinha que prezar por Isaac, não tinha tempo para surtar, pois ela sabia que agora seu irmão caçula tinha ela.

Wendolyn bufa, no carro, pisando no acelerador e aumentando o volume da música. Sua mente, seu coração e seu rosto estão cheios de irritação. Não quer pensar nisso, não quer! Não quer uma resposta, não quer entender o que houve, não quer sofrer por isso. Wendolyn Noah não deseja saber a resposta pelo que fez Efe Noah, seu irmão mais velho, não retornar naqueles tempos que vivia no deserto. Pois, se descobrisse que, sim, ele morreu, iria se sentir miserável. Seu irmão estava morto esse tempo todo. E ela não conseguiu nem encontrar o corpo, nem dar um enterro decente. Perdeu o irmão e agora é real. Se, por outro lado, ele só tivesse fugido… Ela se sentiria abandonada. Jogada para trás com Isaac por alguém que ela pensou que os amava.

Irritada, ela faz outras três entregas no caminho para uma entrega bem distante, em um distrito mais pobre da Cidade do Sul C. Pelo que consegue ver enquanto se aproxima do lugar, é um daqueles conjuntos habitacionais feitos a partir de containers, e não é dos bonitos (um estilo de vida simples porém bastante econômica). Não é um sinônimo de pobreza mas sim de um estilo de vida mais simples, um apartamento menor, que muitas pessoas acabam por optar, com algumas juntando mais de um apartamento para melhor satisfazer as necessidades habitacionais de certas pessoas.. Só que o que Wendolyn está dirigindo é visivelmente em mau estado. Pintura descascando, ferrugem, a região em volta em maus cuidados. Ela até ajusta a máscara em seu rosto ao ver o estado do lugar, como se aquele lugar fosse mais tóxico e ajustar a máscara lhe desse mais segurança lá fora.

Ela pega o tablet de entrega e avisa que já chegou no local e o cliente pede para que ele suba pois não quer descer ali.

“Realmente, não posso nem julgá-lo por isso” ela pensa, com um suspiro. “Porém, que saco.”

Wendy sai do carro, fechando a porta com força, e vai até o porta mala, retirando os dois pacotes destinados para esse local: um pacote fechado e uma marmita. Essa parte do carro da garota é adaptado para colocar cargas, com travas para que pacotes não ficam batendo, sacudindo e se revirando no porta malas, garantido a segurança das entregas e a satisfação dos clientes. Ela coloca-o debaixo do braço e fecha o porta malas, pegando o tablet do bolso e estendendo a tela holográfica, curiosa com a descrição da entrega. “Item especial, evitar sacudir demais e atenção com a fragilidade do mesmo”. Não diz o que é. Uma parte de Wendy sente curiosidade mas é rapidamente abafada. É uma freelancer que busca ser o mais profissional possível. Sem perguntas demais. Limitar a curiosidade. A outra entrega era yakissoba com batata frita.

Ela chega na portaria e se identifica, mostrando o tablet e que está em uma entrega. O porteiro, uma inteligência artificial, liga para o morador para quem Wendy está indo fazer a entrega. Ela olha para o tablet, vendo o nome e se perguntando se é um alien. Parece um nome de fora, mas ela não quer julgar por causa disso. O porteiro autoriza a entrada dela e assim ela faz, caminhando por um breve caminho de concreto vendo a terra seca ao lado, com alguns grandes caixotes de lixo transbordando de sacos. O cheiro que emana daquilo parece físico, e mesmo de máscara, a freelancer se sente enojada, apressando o passo. Ela chega no hall de entrada, um nome elegante demais para aquilo talvez. Existe um pequeno shopping ali, como em todo edifício. Um pequeno armazém, uma farmácia, um mecânico e uma área para pagar contas. E eles são igualmente em um estado bem baixo de qualidade. Wendolyn não se considera de classe alta. Do contrário, sabe como todos da guilda ralam para manter eles num estado de vida bom. E é sempre estranho ver que tem gente abaixo.

Ela suspira, tirando pensamentos da cabeça e começa a subir as escadas, tendo que pular alguns sacos de lixo jogados a esmo nas escadarias. Correr com a roupa que ela precisa usar acaba sendo complicado, pois abafa bastante. Após um bom tempo cruzando lances e mais lances de escadas, ela sai das escadarias e adentra em um andar. As cores do condomínio são bastante metálicas, seja por causa do material dos alojamentos ou por causa do local ser decorado com isso. O piso, corrimões, detalhes nas paredes. Algumas paredes possuem concreto, sim, mas o metal predomina o local, junto com luzes néon verdes preenchendo o escuro do local.

Wendy retira o tablet e confere em qual apartamento que deveria adentrar, avisando que já havia chegado no andar. Ela ouve o barulho de uma porta se abrindo e presume ser o cliente.

“Veio me receber na porta?” ela se pergunta.

Ela vira a cabeça na direção do barulho e é tomada de surpresa. É um homem que deve ter um metro e oitenta. Robusto, grande, braços e torso grosso. Ele usa uma máscara de porca, com a porta da boca sendo transparente, apenas para que Wendolyn possa ver a boca contraída em raiva e espuma. Ela ergue uma sobrancelha, confusa.

— Você que pediu o yakissoba? — ela indaga, receosa da resposta.

O homem grunhe e avança para cima dele, de braços abertos tal qual uma fera. Os olhos de Wendy se estreitam. Estaria aquele homem acometido por IRS? Ou é só um homem escroto? A linha entre os dois é frágil.

“Bom, eu estava reclamando da calmaria” ela pensa. “Contudo esse cara aparecer quase não faz sentido. Ele saiu do nada assim para ferrar meu dia?”

Wendy segura o pacote com mais cuidado. Não vai estragar aquele pedido! Sua honra está em jogo como freelancer. Apesar de ainda não ser licenciada. O homem avança para cima dela que desvia para o lado, passando pelos flancos dele. Não pode usar as armas em suas extensões — iriam danificar a roupa de proteção. Só pode contar com sua força. O homem ainda está de costas e ela corre para cima dele, dando um forte na coluna dele, e em seguida, um forte soco na base da coluna. O homem grunhe e se vira tentando acertá-la com um soco com o braço direito e em seguida um direto com o punho esquerdo. Wendy consegue desviar do primeiro, mas o segundo golpe raspa nela, tocando na roupa. Ele aproveita e a agarra pela roupa e a puxa, jogando-a contra o chão.

Ela tomba no chão e as duas caixas com ela caem no chão, com o olhar de Wendy se enchendo de desespero. O homem parte para cima dela, grunhindo, e ela se apoia nos braços, acumulando força e se propulsiona para frente, acerta o peito do sujeito com os dois pés. Ele vai para trás e bate contra uma porta. Wendy olha para as caixas e morde o lábio. Ali estão seguras. Ela se levanta e parte para cima do seu inimigo, começando com um uppercut de direita que acerta o queixo do homem com força o bastante para fazer o corpo dele se esticar para cima. Em seguida acerta o rosto dele com as costas da mão, num ato de flagelo, que é seguido da tentativa de acertar o peito dele com um direto de esquerda. Contudo, os braços do homem agarram seu corpo, tal qual um urso, e apertam com força.

Wendy solta um grito fino de dor, sentindo seus pés sendo tirados do chão, remexendo eles, tentando alcançar o chão. Lhe falta ar. Tenta se debater mais e mais, porém sente a força lhe escapando. O ar dentro da roupa começa a ficar abafado, quente. O aperto dele parece ficar cada vez mais forte. Ela começa a por força em suas extensões, seus braços, e ela sente afrouxar, de fato, mas não o bastante. O homem está tomado pela loucura que a doença, a Infecção Radioarcana Sanguínea, lhe acometeu.

— Desgraçado… — ela rosna por entre os dentes cerrados.

Wendolyn pensa em Isaac. Iria deixar o garoto sozinho? É a última pessoa que ele tem. A última parte de sua família que perdura. Seus pais? Mortos. Seu irmão? Ela não sabe. Ela não sabe! Teria ele morrido? E se sim, Wendolyn teria o mesmo fim? Conseguiriam descobrir? Não quer Isaac, um garoto tão bom, sentindo o mesmo amargor que ela.

— Não — ela rosna. — Não assim.

O aperto aumenta e a tensão em seus braços, que ainda fazem força, é imensa.

— Eu quero a porcaria das cinco estrelas no pedido! — Wendy grita.

Suas pernas se enroscam na cintura do cara, lhe dando mais apoio, e acerta uma cabeçada tremendamente forte. O aperto se afrouxa um pouco, não o suficiente, mas causa efeito. Ela continua a dar cabeçada após cabeçada, sentindo o aperto afrouxando, com sangue sujando o visor de sua roupa, conforme ela amassa o nariz de seu agressor.

Wendolyn cai no chão, quase acertando os pacotes da entrega com um dos braços. Ela cai de cócoras, respirando pesadamente, enquanto o homem cambaleia para trás. Ela toma fôlego, com a vista embaçada, mas sabendo onde ele está. Sente seu braço soltando vapor pelo esforço, mas precisa de só mais um pouco. Ela acerta um chute na região da boca do estômago do homem, para deixá-lo sem ar. Em seguida ela dá uma rasteira, derrubando-o. Ela começa a chutar o homem, nas costelas e na barriga. Ele finalmente perde a consciência.

Ela vai para trás, respirando ofegante e dá um último chute, de pura irritação. Ela confere sua roupa, após limpar o visor. Nada rasgado. Um suspiro de alívio sai de sua boca, conforme ela pega as duas caixas do chão e segue para a porta da entrega, cansada. Seus pés se arrastando, a respiração pesada. De frente a porta, ela toca a campainha. Ela percebe que a porta possui uma câmera.

— É a entregadora? — uma voz fina pergunta, através de uma saída de som, perto da campainha.

— Sim, Wendolyn Noah, com a entrega 6327 — ela responde, calma, lendo a numeração da entrega no tablet.

Sons de trancas sendo abertas são ouvidas.

— Pode entrar e deixar as duas caixas aí — a voz fala.

Wendy acata isso e o faz, fechando a porta e indo para o interfone, com a voz bastante cansada.

— Pronto, o produto está ali. Agradeço a paciência, espero que tenha um bom dia — ela fala, tentando puxar uma voz educada de si.

A voz na caixa de som demora para sair.

— Okay — ela diz, desligando em seguida.

Wendolyn bufa, não de irritação. De cansaço. Ela caminha até a escadaria e tira o celular. Avisa que vai demorar para voltar porque precisa chamar a polícia para ver um cara que atacou ela. E isso, claro, demora. Ela espera eles chegarem por medo dele acordar e atacar alguém. Durante esse tempo, a review do pedido acabou de chega. Wendolyn sente a vontade de quebrar seu celular. Sente vontade de chutar a porta do cliente. Ele deu duas estrelas e comentário “Veio virado e frio” para o yakissoba com batatas fritas.

Wendolyn sai do prédio se sentindo exausta. Cansada. Ela vê seu carro com ainda mais algumas poucas entregas e sente vontade de parar por hoje. Aquilo, por quão ridículo que seja, parece tê-la esgotado emocionalmente. Quando entra no carro, ligando a purificação de ar, sente sua visão lentamente ficar úmida e embaçada e retira a parte de cima da roupa e limpa as mãos antes de limpar as lágrimas. Se sente ridícula por isso, por algum motivo. Até agora está preocupada com isso. Ela dá pequenos socos no volante do carro, irritada e sem saber como por isso para fora.

O choro para, mais súbito do que como veio. Ela limpa o rosto e respira fundo. Ela abre o tablet e vê onde é a próxima entrega.

“Sem tempo para isso. Sem tempo” ela diz para si mesmo em sua mente.

As entregas continuam, com um áudio de seu irmão sendo o bastante para recarregar o emocional da garota. Lembrou do motivo de estar ali. De fazer isso tudo. Se Efe foi embora ou morreu, não importa. O que importa é que ela está ali agora, e que Isaac vai estar seguro. Ela vai crescer. Vai ter tido a melhor infância que sua irmã conseguiu suprir. Uma boa educação. Boas pessoas por perto. Boas histórias.

Um áudio chega no grupo da guilda, de Nero. Wendy sorri e coloca-o para tocar:

— Alguém vem tirar a gente do radionecrotério! Deu merda! Socorro! Zumbi, rápido, pegue o pote de requeijão e joga dentro do caminhão! — Nero grita no áudio.

Notas finais
Peço perdão pelas demoras de Capítulos. Estou tentando conciliar todas as fic que estou fazendo sem deixar nenhuma para trás. Acho que agora consegui e vamos ver como vamos me sair com tanto projeto. Espero que gostem do capítulo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.