Arautos

1 Criança Perdida pelo deserto


Um carro cruza o deserto. Um deserto que, incontáveis anos atrás, foi uma cidade. O carro, numa velocidade constante, deixa para trás de si um rastro de poeira, da terra que os pneus racham e esfarelam pelo ar. É um início de uma tarde quente, e o sol está no seu ápice. O carro, cinza e de modelo sedan, segue em direção a cidade a sua frente. A Cidade do Sul C, parte do complexo CUS, sigla infame para Cidades Unidas do Sul, um conjunto de três cidades, A, B e C. As Cidades Unidas são o segundo maior complexo habitacional de toda a região sul do que, um dia, já foi o Brasil. Hoje, pouco se vê na estrada do que um dia, tantos e tantos anos atrás, existiu ali. Um pouco de vegetação às vezes. O que restou de prédios, casas, e de toda uma civilização, desesperadamente tentando sobreviver ao tempo. A poeira. As plantas que tentam também, desesperadamente cobrí-los. Quase como se tentassem esconder uma história há muito tempo levada a catástrofe. A vegetação possui cores variadas, não somente verdes. Algumas vermelhas. Outras em tons de violeta, indo do rosa até o azul. Em formatos também bastante variados.

Já houve uma cidade aqui, por onde o carro cruza. Esse deserto já abrigou tanta coisa aqui. Esse mundo já abrigou muito mais vida nele. Antes dos Mil Anos de Inferno. Antes dos cogumelos de fogo, as bombas. Antes da magia. A motorista atravessa por esse terreno sentindo calor em seu carro, fechado para evitar contato com o ar. O refrigerador é ligado, através de uma tela no painel e com um botão sendo girado. Não apenas isso, mas a pessoa no banco do motorista usa uma máscara no rosto, como uma proteção extra. Nunca é demais. Com o som do refrigerador vindo junto com o ar gélido, refrescando o interior do veículo, vem a necessidade de se aumentar o volume da música. No banco do carona, uma escopeta repousa.

O carro se mantém avançando, com música relativamente alta tocando. Quem o dirige está retornando de um trabalho simples mas que o pagamento era bom o bastante para se aceitar apesar da distância que tem da Cidade Sul C: Ajudar um centro de pesquisa a lidar com algumas pestes que estavam tentando atacar o local e danificar alguns dos aparelhos da base além de trazê-los suprimentos da CUS. Um pouco na contramão, ter que sair da cidade, mas o pagamento valeu bem a pena. Um trabalho que muitos recusaram por ser fora da cidade e distante, mas que foi um bom trabalho, com um pagamento igualmente satisfatório. Poderia relaxar e passar mais tempo em casa. Esse pagamento permitiria não somente isso, mas pensar em coisas a se resolver, sua licença como freelancer e até talvez roupas e equipamentos mais ocupados.

A pessoa no volante nota que, através do retrovisor, algumas motos estão saindo de trás de uma construção tombada, coberta por grama. Os olhos que encaram as motos pelo retrovisor se estreitam. Sabia bem o que era isso. Não contava com isso, mas não é uma surpresa. As mãos no volante se fecham com mais força. São oito motos, algumas com duas pessoas sobre ela. Gritando em celebração, talvez para intimidar ou apenas pela empolgação do saque vindouro. Alguns com tacos de madeira, outros barras de ferro e alguns com armas de fogo. Um dos motoqueiros, sozinho em sua montaria, a empina e grita:

— Sabem o que fazer! ‘Vamo pra cima daquela besta de ferro, meus camaradas! — Ele começa a acelerar a moto e a gritar.

As motos começam a acelerar, na intenção de cercar o carro, em um “U”. Todos os motociclistas usam roupa cobrindo boa parte do corpo, vermelha e branca. Todos usam capacetes escondendo seus rostos. Mais do que segurança, aqueles capacetes os protegiam dos males que o ar dali trazia. Até o ar do planeta parece ter se tornado hostil. É possível ver eles nos retrovisores do carro. Um suspiro é dado dentro do carro enquanto aumenta o som da música e confere o retrovisor. Mãos seguram o volante com mais força por um momento, aliviando a tensão em seguida. Uma das mãos confere a máscara que está no rosto, averiguando-a para caso das coisas irem mal.

“Eu só queria voltar para casa sem demorar muito.”

Uma das motos finalmente alcança o carro, tendo contato visual com quem o dirige. Parece uma mulher de cabelos lisos escuros e cortados curtos. Jovem. Ela usa uma blusa verde piscina escura e está usando uma máscara no rosto. Ele não consegue ver muito do resto do rosto dela atrás do vidro e pela falta de estabilidade. Não parece forte. E mais do que isso, não parece alguém perigosa. Seus olhos, frios e de cor azul, se mantêm fixos na estrada. Não dá nenhuma atenção para o motoqueiro ao seu lado.

— Ae, moça! Encosta essa joça! — ele grita. — Senão a gente mete bala até teu carro capotar!

Wendy Noah suspira, entediada, observando pelo espelho que já tem alguns bem próximos da traseira de seu carro, além de outros na direita e na esquerda. Ela bufa. Sabia da possibilidade de ter que lidar com isso quando aceitou o trabalho. Sair da cidade é sempre aceitar o risco de ser pego pelos saqueadores. O motoqueiro bate na sua janela com a arma e alguns outros dão tiros para cima, para tentar assustar a garota que ainda dirige o carro sem diminuir a velocidade. Wendy sabe que acelerar só faria eles tentarem ativamente atirar no carro. E isso só seria um saco.

— Ei! Vaca! Tu tá me ouvindo ou a música tá muito importante? — o motoqueiro ao lado do carro grita, aborrecido.

Um motoqueiro do lado oposto, do lado do banco do carona, grita:

— Escuta o chefe, piranha! Encosta e vai passando todo crédito e cristal que tu tiver aí!

Wendy olha diretamente para o saqueador do seu lado, ignorando o cupincha no lado do carona. Olhos frios e calmos que fazem ele parar de falar, antes que pudesse disparar outros xingamentos contra ela. Ela não quer ter que abrir a janela para lidar com isso. Limpar o carro, por causa do ar poluído, dá um trabalho miserável. E ela só quer chegar em casa e descansar. Ela aumenta mais o volume. Segura o volante com uma mão firmemente, a outra no câmbio. Wendy deixa de acelerar o carro e deixa ele perder a velocidade, suavemente pisando no freio, e então se prepara para o impacto assim que o carro se encontra com duas motos, que não esperavam por isso. Uma terceira moto, que vinha logo atrás das outras duas, acaba não tendo tempo o bastante para desviar e bater contra seus dois colegas.

Wendy rapidamente faz o carro voltar a ir para frente, cantando os pneus do veículo, que por um momento dançam no chão de terra. Poeira sobe. Um dos saqueadores a direita saca sua arma, uma submetralhadora, e começa a disparar contra o vidro, que por sorte, a dona fez questão de comprar algo resistente. Wendy vê um dos vidros à direita trincar conforme os disparos atingem ele. Sabe do risco das estradas e dos riscos até dentro da cidade, e não poderia ter um carro qualquer. Contudo, a proteção não é perfeita: o vidro não aguentaria para sempre, trincando mais e mais, e estão estragando a pintura da lataria. Isso irrita Wendy, que gira o volante com tudo e acerta esse saqueador com a traseira do carro, rapidamente girando o volante novamente para o carro ficar de frente para a estrada. Poeira sobe e o líder daquele grupo, ao fundo, vê ela atropelar outro camarada.

Ele sacode a cabeça e acelera, para ajudar os dois que restaram. Não tem como eles perderem desse jeito. A moto acelera atrás do carro, que está tentando derrubar os dois saqueadores restantes de suas respectivas motos. Os dois tentam atirar contra os vidros, e o motoqueiro da esquerda vê seu colega na direita chutar o vidro já rachado três vezes e o vidro quebrar um pouco. Cacos e pedaços de vidro caem sobre Wendy, que morde o lábio, irritada. Agora eles conseguiram. O saqueador ri, indo pegar sua arma para disparar diretamente contra a garota, quando ele vê que na mão direita de Wendy agora tem a escopeta que estava até então no banco do carona.

A moto que vem avançando atrás do carro, o líder, está prestes a sacar sua própria arma quando vê seu companheiro levar um disparo direto contra sua cabeça. A cabeça tendo um solavanco antes do corpo todo ficar mole. O líder precisa manobrar para não bater na moto e no corpo morto de seu colega. Sente seu corpo tremer. Era para ter sido um dia comum de saque. Assustar a pessoa, fazer ela sair do carro, tirar tudo que ela tem. Talvez agressões. Talvez um sequestro. Mas não era para ser assim. Ele vê seus últimos três companheiros ainda avançando e sente um alívio. Um deles é um feiticeiro.

Wendy, pelo retrovisor, nota que tem outro chegando pela esquerda, com outra moto logo atrás. Esse tem uma arma. Ela está perigosamente exposta. Girando o volante, faz o carro dar um giro de cento e oitenta graus, assustando as últimas duas motocicletas que a perseguem, que freiam e quase caem da moto. Agilmente mexendo no câmbio, Wendy coloca o carro para ir de ré, acertando o que sobrou do vidro com a coronha de sua arma, deixando-a com uma visão melhor. Ainda de ré, ela pode ver que a moto com dois ocupantes está vindo até ela, enquanto uma última moto, lá atrás, está ganhando velocidade, se aproximando.

Novamente, ela dá um “cavalo de pau” com o carro, afastando a moto com dois saqueadores e acelerando. O motoqueiro que estava a sua frente, se aproxima de seu vidro. Ele está levantando a arma quando o visor de seu capacete é quebrado pelo cano da escopeta que o atinge com força o bastante para derrubá-lo de sua moto. Wendy vê o corpo dele girando pela estrada, se perdendo junto a moto que também capota. E pelo retrovisor ela também vê a moto que se aproxima, através da nuvem de poeira que ela ergueu. Dois ocupantes. Um com um taco. Outro com um cabo de ferro.

— Por favor, desistam — ela resmunga, sabendo que ele não poderia ouvir. — Facilita isso para gente por favor.

Wendy deixa a escopeta de lado. Teria que recarregar ela, isso enquanto manobra um carro e lida com esses imbecis. Seria difícil. E infelizmente, eles não recuam, continuam a acelerar, chegando a empinar as motos, gritando cheio de fúria. Wendy revira os olhos. A moto com apenas um ocupante, o chefe daqueles saqueadores, acelera e chega na janela de Wendy primeiro. Ele saca a arma e Wendy diminui a velocidade, escapando das rajadas de tiros que ele dá. Seus olhos observando não somente ele, mas a moto atrás dela.

“Por sorte aqueles dois não tem armas pra atirar em mim por trás” ela pensa.

Ela começa a segurar o volante apenas com a mão direita, exercitando e alongando a esquerda. Com o carro atrás da moto, ela começa a acelerar, dando pequenas batidas contra a motocicleta. O saqueador chefe se vira contra o carro, disparando contra o vidro frontal, sem grandes resultados, mas não parando de atirar. Wendy diminui a velocidade novamente, apenas para acelerar uma vez mais, com a moto saindo do caminho do carro.

“Essa é minha chance!” o saqueador pensa, preparando-se para atirar contra seu alvo.

A arma não dispara. Na verdade, ela cai no chão se perdendo na poeira que os dois veículos faziam. Junto da mão direita do saqueador. Ele grita, perdendo a compostura e o controle da moto, até que tomba junto da moto. A motosserra para de girar e se contrai para dentro do braço de Wendy novamente, as partes do braços dela se encaixando novamente. Ambos os braços de Wendy Noah são robóticos. Extensões. Partes robóticas, próteses, coisas que podem melhorar seu desempenho em algum aspecto físico. Os usos são tantos que seria desnecessário listá-los. Os braços de Wendy a tornam mais forte, mais resistente e com apetrechos extras. No esquerdo, uma motosserra.

— Porra, vou ter que limpar o carro inteiro agora quando voltar — ela bufa. — Muito obrigado, hein!

A última moto continua vindo, com Wendy sorrindo. Sorrindo de irritação. Se querem sujeira, então Wendolyn Noah daria para eles a sujeira. Mexer com uma freelancer como ela no meio do nada? Ótimo. Sem ninguém pra poder dizer se ela “exagerou”. Ela fecha o olho direito e foca sua visão no olho direito, que também possui uma extensão. Para melhorar sua visão, sua mira. Vira seu carro mais uma vez, ficando de frente para a última moto. O carro começa a avançar contra a moto. O chefe dos saqueadores rasteja para fora da estrada apressadamente, chorando de dor ainda, com o coto sangrando. Nenhum dos dois parece que vai frear. O chefe ao chão tenta se puxar para fora da estrada mais rápido. Wendy, na última hora, gira o carro, acertando a moto com o lado esquerdo do mesmo, observando o motorista com os olhos assustados encarando a motorista do carro. Wendy começa a erguer a mão direita. A mão direita de seu braço também é robótico. Nas costas da mão possui o tambor de uma arma. Ela fecha o punho, cerrando-o. O piloto da moto é salvo pelo seu carona, com a barra de ferro. Um feiticeiro. Alguém capaz de usar magia.

Sua barra de ferro se deforma e vira um escudo, o metal da barra se esticando para proteger o colega do disparo. O carro termina de girar, dando um cento e oitenta. A poeira se ergue e a moto com os dois cai por cima do chefe já caído. Wendy bufa.

— Manipulação — ela pensa em voz alta. — Um feiticeiro, huh? Nada mal. Nada mal mesmo. Me sinto até mal de ter batido em ti. Nada contra feiticeiros, okay?

O carro, ainda roncando, está parado, com ela observando a situação dos três últimos bandidos. O chefe, por baixo, geme de dor, com a motocicleta por cima dele. Aquele que deveria ter sido morto com um tiro pela extensão de Wendolyn está jogado um pouco mais a frente, tendo sido atirado. Já o feiticeiro está caindo em cima da moto. Ele tenta se mover, com a barra de ferro em sua mão começando a mudar de forma quando um disparo quase acerta sua mão.

— Não faria isso se fosse você — ela avisa. — Talvez vocês consigam chegar na Cidade C, sabe? Para tratar disso tudo aí. Claro, se tentar outra imbecilidade contra mim… Bem...

Wendy ri, sem jeito.

— E eu até poderia sair do carro e eu saquear vocês, mas sem tempo, irmão. Sem tempo.

O líder engole em seco, assustado, e ergue o olhar para o companheiro caído mais longe. A garota havia quebrado sua perna.

— Aquela… vadia… — o saqueador rosna, cerrando o punho. Singular agora.

Wendy observa os destroços de toda essa tentativa pífia de assalto na estrada. Eles não tinham nada de realmente interessante. O bandido feiticeiro, notou a distração dela e uma porção da barra de ferro se desprende e se torna um projétil. Wendolyn, em sobressalto, ao perceber isso, puxa a alavanca de seu banco, que se reclina. Ela vê aquele disparo mágico atingindo e quebrando sua outra janela. Ela bufa.

O feiticeiro, que nem conseguiu entender o que houve, apenas vê a motorista aparecer de supetão e a extensão em sua mão disparar contra ele, agora despreparado e atingir o pulso que segura a barra. Ele tenta gritar de dor, mas nada saiu de sua boca, tamanho o choque. O chefe apenas escuta isso, totalmente incapaz de ver o que aconteceu. Somente ouviu o disparo e então seu colega se contorcendo de dor, com ruídos de dor.

"Ela é uma ciborgue, e das perigosas" ele pensa, sentindo seu corpo tremer cada vez mais. “A chefe vai ficar furiosa quando descobrir. Isso se a gente conseguir voltar.”

— Vai seguir meu conselho agora? — ela pergunta, erguendo a sobrancelha.

O saqueador faz que sim com sua cabeça, a balançando enquanto busca não tremer tanto.

— É só para ter certeza, mas sei que lembra do que falei. Cidade, hospital, pedir ajuda — Wendy diz, seu tom de voz extremamente calmo. Sem deboche.

Ela acelera o carro, querendo chegar e resolver isso o quanto antes. Para um grupo de saqueadores da estrada, eles estavam bem equipados. As roupas, capacetes e até o modelo das motos. Agora quanto ao método de ataque? Péssimo. Poderiam só ter atirado contra os pneus do carro, mas assim foi melhor para Wendy. Pode resolver tudo isso sem sair do carro.

“Anastasia vai ficar feliz, pelo menos, vai ter algo para consertar” Wendy pensa, conferindo se a máscara está bem encaixada. “Agora o Johnny vai ficar louco quando ver como o carro ficou.”

Wendy é uma garota aos seus dezoito anos. Na flor da liberdade. Uma freelancer não licenciada. Nasceu fora das três cidadelas do sul, numa base isolada. Vivia com sua família tranquilamente até que a base foi atacada. Nunca soube exatamente por e pelo o quê. Tinha um irmão mais velho, que sumiu. Agora é só ela e Isaac, seu irmão mais novo. Ela sacode a cabeça, não quer pensar nisso agora. No passado. Não quer ter que pensar no passado. Algo que só a puxa para trás e para baixo, quando seu futuro está a frente. Ela acelera o carro. E em frente ela vai.

Seu cabelo castanho escuro sacode com o vento. E seus olhos, azuis esverdeados, fitam de maneira séria e compenetrada a estrada. Começou a ficar com fome. Ela estava em um trabalho simples, ajudar uma base científica com abastecimento e lidar com pequenos problemas. Algo chato? Sim. Teve um bom lucro? Sim. Ainda mais sabendo que ela não tem licença de freelancer ainda.

“Arranjar essa licença seria bom” ela reflete. “Mais dinheiro. Trabalhos melhores.”

Freelancers são pessoas que fazem qualquer tipo de trabalho, um tipo de trabalho difícil e respeitado, se você tiver bons resultados. A quantidade de pessoas que são freelancers, sejam com um bom desempenho ou com mau, estima-se ser entre quarenta por cento e sessenta por cento, com o resto sendo pessoas com trabalhos fixos, home office ou não. A recepção de ser freelancer varia, desde ser visto como um trabalho menor e mais desesperado (por serem faz-tudo) desde serem tratados com respeito pelos serviços que eles oferecem e poupando trabalhadores fixos de se arriscar em missões e trabalhos arriscados. Você pode encontrar freelancers focado em delivery, seja de comida ou de pacotes. Ou focados em guarda costas, mercenários ou outro trabalho mais… Ofensivo.

“Talvez a única vantagem de ter um trabalho fixo seja plano de saúde. E seguro desemprego” Wendy reflete, tamborilando.

Ao observar a proximidade que está da entrada da cidade, ela guarda certas coisas no porta luvas, apertando o botão de desinfecção em seguida. Alguns papéis, armas e coisas que era melhor não deixar serem expostas aos procedimentos de entrada. Wendy olha para sua janela e seu olhar se entristece.

“Isso só vai me causar problemas” ela reflete. “Não ter isso seria bom num dia como esse.”

Seu carro finalmente chega nos portões de entrada da cidade, e dois guardas saem de uma guarita, devidamente vestidos, com rostos e corpos protegidos. Roupas limpas, brancas. Um deles puxa um carrinho que flutua, com alguns equipamentos de medição e inspeção, o outro possui um tablet que usa de prancheta. É o procedimento padrão de entrada, nada de anormal. Wendy consegue ver apenas os olhos dos guardas, mas reconhece eles, graças aos crachás. Clodoaldo e Wesley, geralmente entra e sai da cidade passando por eles.

— Olha só quem voltou. Wendolyn, minha freelancer favorita — Wesley comenta, trazendo o carrinho. — E esses vidros quebrados?

— Saqueadores — Wendy resmunga. — Felizmente eram bem incompetentes.

— Bom, fizeram um rombo nas janelas, hein? — Clodoaldo resmunga. — Sabe bem os protocolos.

Wendy resmunga a história toda, enquanto sai do carro, e Wesley ri.

— A boa e velha Wendy. — Ele tira um equipamento de leitura e começa a passar pelo carro. — É, tem um pouco de vestígios de Ar Toximágico aqui. Diz que cerca de vinte por cento, mas sabe como é…

— Protocolos — Wendy assente a cabeça.

Clodoaldo termina de registrar o áudio da história de Wendy no registro de entrada enquanto eles confirmam documentos e outros dados. O Ar Toximágico, ou Efeito Radioarcano, é uma dor de cabeça gigante na vida de todo mundo. Dentro da cidade ainda existem filtros e tudo mais, e ainda assim existe uma chance de vinte por cento de você contrair caso for descuidado. E o que irrita Wendy nem é a doença em si. É as pessoas que não ajudam a cuidar da doença. Mas acaba sendo “compreensível”. É uma doença tão incerta de se pegar. Porém tão perigosa quando se pega. A Infecção Radioarcana Sanguínea ou IRS, tristemente chamada por humanos não feiticeiros de Praga de Feiticeiro.

E por causa desse perigo, que a cidade em si tem diversos e diversos protocolos, principalmente de entrada. O mesmo detector é passado em Wendy, que também marca certos pontos de contaminação em sua roupa, com Wesley tirando um borrifador do carrinho e o usando contra a garota. Um pouco de álcool e gel anti-arcano é colocado nas mãos dela, que espalha. Wesley começa a usar uma máquina, uma mochila com uma mangueira que dispara um jato de uma solução, com bastante pressão, para desinfetar o carro.

— Você não vai poder sair da cidade até consertar essa janela — Clodoaldo resmunga, mexendo em seu tablet. — Se apresentar qualquer sinal de infecção arcano-radioativa, sabe que vai ser automaticamente posta em quarentena, né?

Wendy mexe a cabeça positivamente.

— Você será marcada como laranja — o guarda Clodoaldo fala, quase que por costume do que para educar Wendy, uma freelancer que já sabia dessas coisas. — Sem passeios em shoppings, cinemas e mercados pra você, mocinha. Dura só duas semanas, tu aguenta.

— Você mora com aqueles teus amigos? — Wesley pergunta, parando por um momento os jatos no carro.

— São meus colegas de guilda. A gente divide missões e “tals” — ela explica. — Mas sim, moro com eles.

Wesley assente com a cabeça e aponta para o interior do carro.

— Posso passar aqui dentro também ou tem problema? — ele pergunta.

Wendy dá um sinal positivo e a limpeza começa.

“Vou ter que sentar no banco umedecido." Ela suspira, triste com a ideia.

— É — Wesley resmunga, em tom de voz alta. — Pelo jeito tem alguma gangue de saqueadores alocada por aqui.

— Como assim? — Wendy pergunta.

— Você é o oitavo caso disso. No caso você acaba sendo mais uma tentativa de saque do que o saque per si, né — Clodoaldo conta, com a voz tranquila, observando o carro. — E pelo modo como você descreveu e o lugar onde ocorreu, bate com os outros sete relatos e casos. Por sorte tu saiu inteira, freelancer.

Ela se vira para Clodoaldo, interessada nisso, em toda essa história. Clodoaldo ri.

— Está pensando em pegar eles por uma recompensa?

Wendy ri e dá os ombros.

— Freelancers… — Ele retorna a encarar seu tablet. — Algo a relatar na entrada? — Clodoaldo indaga. — Para constar.

Wendy nega com a cabeça.

— Se já não houvessem outros sete casos disso, diria para avisar que essa rota que peguei está com pique de saque — ela responde enquanto ruma para próximo do carro. — Estarei no aguardo de uma notificação no mural para ir atrás desses saqueadores.

— Uh, vai ir com aquela minigun sua? — Wesley pergunta altamente entusiasmado, retirando a mochila de desinfecção.

Wendy solta um pequeno risinho e faz que sim com a cabeça. Com a limpeza pronta e seus documentos verificados, ela entra no carro e dirige portões à frente, que se abrem com mais rajadas de sprays desinfetantes soltados no carro, como uma última medida. Wendy retira seus documentos e vê a luz laranja piscando. Dá um longo suspiro. Talvez fosse melhor até ficar longe de Isaac, seu irmão mais novo. Ela tira seu celular do bolso, uma pequena barra de metal e plástico, do tamanho de um dedo, e aperta o botão numa das pontas. O aparelho se estende em um retângulo, com uma fina camada de vidro onde se projeta a tela. Wendy sempre quis um daqueles de pulso. Anastasia comenta que poderia ajudá-la a instalar em sua extensão ocular algo que conectaria seu smartphone no olho, mas Wendolyn não sabe se seria confortável isso.

Ela coloca o celular em um espaço do carro, feito para se plugar o celular. Uma tela surge no para-brisa com Wendy vendo a tela em um dos cantos, próximo do banco do motorista. Mexendo na tela de vidro, ela vai para os contatos e liga para Anastasia, que certamente estaria na casa deles. Enquanto a chamada é feita, Wendy atravessa as ruas da Cidade Sul C. Os mercados, as lojas, as residências. Poucas casas, lógico. É uma área comercial e também bem de classe média. Casas são para membros da alta classe, os ricos. Boa parte das pessoas vivem nos mega-prédios. Nem todas estão usando máscaras e isso causa certa irritação em Wendy. Estava pensando em no caminho comprar pretzels para ela e Isaac, mas com o vidro desse jeito, é melhor ir para casa de uma vez. De lá pediria qualquer coisa. Isaac provavelmente iria querer batata frita e coisas do tipo.

Cidade do Sul C. Uma cidade com dois níveis claros, um dedicado à habitação de classe baixa e média e o comércio e o outro nível dedicado à corporativos, residência classe média alta e mais um pouco de comércio. Enquanto a Cidade do Sul A é puramente a nata desse lugar em qualquer aspecto, sendo até em um local mais alto, e a Cidade do Sul B é mais focada na agricultura e indústrias, a C é a mais populosa. A mais rica em culturas. E mais fácil de se ganhar a vida. É aqui que Wendolyn e seu irmão Isaac moram, junto com um grupo de freelancers não registrados, que fazem parte de um grupo junto dela. Uma guilda. Dividem trabalhos, dinheiro e se ajudam.

Entrou nesse grupo por causa da pessoa que antigamente lhe ajudava com suas extensões, sua mecânica e amiga. Ela quem instalou suas extensões e ela quem reparava e ainda hoje repara-as. Não tardou muito para Anastasia lhe apresentar a líder dessa guilda.

— Vamos, Any — Wendy resmunga, impaciente. — Atende.

E nada da ligação ser atendida pela mecânica. Wendy presume que ela deve ter se perdido em algum reparo e não ouviu o toque. Compreensível. Ela agora tenta ligar para a líder da gangue que faz parte. Lulliana Gerard. Lully, para os próximos. Ou qualquer um com um trabalho que renda uma boa e merecida grana. Ela em contraponto com Anastasia, atende na hora. A voz de Lulliana é fina e agradável, apesar de ficar bem aguda nas horas que ela se empolga.

— Olá, Wendolyn — Lulliana fala. — Como foi o trabalho?

— Simples. Fácil. Só longe.

— Entendo, e como você tá, garota?

— Cansada mas bem, como estão as coisas por aí? — Wendy pergunta.

— Olha, creio que bem. Alluleth está no quarto como sempre. Ja’ri e Nero saíram para fazer um trabalho. Baco tá fazendo alguma das maluquices dele. Zumbi está descansando de um trabalho. Johnny está me ajudando a resolver umas contas e ir atrás de uns documentos. A Any tá cuidando de um trabalho — Lully calmamente conta.

Wendy escuta tudo isso em silêncio, assentindo com a cabeça, mesmo sem Lulliana ali.

— E o Isaac? — ela indaga.

— Estudando, sabe como ele não vacila com isso — Lully responde. — Aliás, como sua chefe, posso perguntar por que está com identificação laranja?

— Eu fui atacada por saqueadores na volta para cá. Estou bem, mas tô no laranja. Liguei justamente para avisar o Isaac disso. Vou ter que fazer uma quarentena esses dias — Wendy conta.

Ela escuta, pela ligação, o suspiro de Lully.

— Entendi. Não se preocupe. Só venha logo para cá — Lully diz. — Você tá bem, né? Sem machucados?

— Eles não me machucaram nem nada. Eu só zoei um pouco o carro. — Wendy passa a mão pelo rosto, tirando um cabelo que voou para seu olho. — Logo chego. Tchau.

Andando de carro mais um tanto pela cidade, ela passa por lojas, áreas comerciais, becos, fábricas e outros lugares até chegar em seu condomínio. Um lugar não exatamente luxuoso, mas nada a desejar. É o necessário. Ela entra na garagem, que é bastante grande por sinal, fazendo sentido com a quantidade de apartamentos que existem naquele prédio, e deixa o carro na sua vaga, esperando a porta abrir para deixá-lo ali. Cada vaga é como um pequeno galpão para o carro, privando-o de outros moradores. Ela sai do carro e agora pode avaliar o quanto as portas e vidros foram danificados. Isso fora as duas janelas que foram estilhaçadas e a marca de batida causada pelo impacto contra a última moto. Wendolyn respira fundo. Sente vontade de chorar. Era só uma volta para casa. Deveria ter sido tranquilo. Ela se encosta nas paredes de sua garagem e sente vontade de se sentar ali. Sente suas pernas fraquejarem. Consertar isso daria trabalho. E agora ela passaria duas semanas no laranja.

“Isaac deve estar me esperando” ela pensa e isso lhe enche de forças.

Wendolyn se ergue, indo até o carro e pegando tanto sua mochila, sua escopeta e o envelope com seu pagamento, cheio de créditos e uma pequena sacola com cristais de mana. Um bom pagamento, que Wendy pegou justamente pelo pagamento grande mas que agora, vendo tudo que terá que arcar com reparos e a pausa no trabalho, sente que… Não valeu tanto a pena assim. Ela range os dentes e cerra os punhos. Sem tempo, irmão.

Saindo dali, ela pega o elevador. O prédio demonstra ser bem vazio, para um dos super condôminos, feitos para abrigar muita gente em pouco espaço, esse era bem vazio. É horário de trabalho, afinal. Crianças devem estar em seu quartos, assistindo suas aulas. Pais e adultos devem estar em seus trabalhos, seja por home office ou seja por aqueles que precisam sair para trabalhar. Alguns robôs estão limpando os corredores do lugar e Wendy os cumprimenta com um aceno de cabeça.

Entra no elevador pois não seria prático usar as escadas nesse momento. Está só… Exausta. Quer logo descansar. Quer logo poder tirar uma soneca enquanto come algo. A porta do elevador se abre e a freelancer caminha pelo corredor até a porta do apartamento que vive. Ela tira sua carteira e passa um cartão por um leitor na parede, ao lado da porta. Abre a porta e entra no apartamento, que como todo apartamento atual, possui uma área de desinfecção. Uma pequena salinha com bancos que possui uma porta que leva para um chuveiro e uma portinhola por onde ela coloca sua mochila e a sacola com os lucros da missão.

Wendy tira sua roupa antes de passar pela porta, deixando-as em um cesto de roupa suja. Só com roupas íntimas, finalmente tirando a máscara de seu rosto. O box do chuveiro é bem largo, tendo inclusive dois chuveiros, pia com torneira a parte, um espelho. É um espaço feito para uma total limpeza antes de se entrar de verdade na casa. Enquanto ela toma banho, provavelmente alguém está lidando com sua mochila e sacola, limpando-a e deixando em um ambiente para desintoxicar.

No banho, Wendy para e se olha no espelho, tateando seu rosto. Tateando seus lábios pequenos e no pequeno sinal abaixo de seu olho esquerdo, que denota sua extensão ocular. Também passa a mão pelos braços. Em um mundo com feiticeiros, gente de fora e tantos outros perigos, ela era alguém tão vulnerável. Tão fraca. E ela não poderia ser isso. Tinha Isaac. Precisava proteger ele de pessoas mal intencionadas. E por isso, Wendy deu a si mesma a força que lhe faltava. Ninguém faria mal ao seu irmão. Ninguém.

Na sala de estar, Isaac Noah, o irmão de Wendy, estuda, lendo um livro na mesa próximo a janela, em um e-book escolar. Ele observa a paisagem cinzenta enquanto faz uma pausa para processar o que estava aprendendo. Vê seu reflexo no vidro da janela. Seu cabelo preto, curto e arrepiado. A pele clara, como a de sua irmã. E os olhos, parecidos com os de Wendy, mas o verde quase se mesclando em um tom de azul, incerto. Wendy diz que é algo turquesa. O pequeno garoto, de dez anos, estava aprendendo sobre a história do planeta. Sobre a história da magia. É dito que a magia, eventualmente, desabrocha e surge em todo planeta. Mas cada planeta tem um tempo para isso. Em alguns é algo existente desde o príncipio. Outros demoram alguns séculos. Em outros? Milênios se passam sem que um pingo de magia nasça. E na Terra foi assim. Demorou. Demorou muito, mas eventualmente chegou. Um dia, a magia começou a florescer pelo planeta. Primeiro pela natureza e pela terra. Algumas criaturas então nasceram com ela. E finalmente nasceu o primeiro ser humano com magia. As crianças do milagre, como chamavam.

E a partir daí, mais crianças assim nasceram. Muitos com uma quantidade ínfima de magia em seus corpos, mas que passaram a lentamente se mesclar. A crescer. Muitos viviam suas vidas sem sequer saber disso, mas logo veio ao mundo a existência dessas pessoas e dessa nova fonte de… Poder. Com um incidente bobo em um mercado ou algo do tipo, com um jovem tendo um mau entendido e acabando por liberar um pouco de caos. Até mesmo a polícia sofreu para contê-lo. E com um novo poder na mesa, vem uma era de mudanças. Logo, todo governo queria recrutar e achar a maior quantidade de feiticeiros dentre de seus territórios. Um exército de magos . Se aprendeu a identificar eles. E assim começaram a existir campos onde eles eram presos.

Uma tensão de guerra iminente. Uma tensão de países ameaçando um ao outro. De algo pior que o perigo nuclear. E essas ameaças e provocações, toda a tensão, no fim culminou na guerra. Na guerra que todos temiam. Uma guerra horrorosa. Onde nada de bom saiu. Nenhuma conquista. Nenhum avanço. Apenas o terror daqueles correndo para se abrigar. Os coitados que tiveram que viver os Mil Anos de Inferno. O vínculo humano com a magia, recém formado, foi apenas fragilizado. Estilhaçado. Postergado.

Isaac fecha seu livro. Nunca aprenderia tudo isso naquelas apostilas. Porque muito desse conhecimento já se perdeu, após os Mil Anos de Inferno. Ele escuta a porta se abrindo e seu rosto se ilumina com um sorriso. Wendolyn adentra a casa, com uma larga camisa branca e um largo macacão de moletom azul claro, com só uma das alças presas. O rosto dela é de início sério. Frio. Como sempre. Até que seu olhar chega em seu pequeno irmão. E o rosto é tomado de alegria. Um sorriso feliz. Os olhos brilhando. O pequeno Isaac corre até a irmã, que se assusta, colocando os braços na frente.

— Isaac! Não! — Wendy dá um passo para trás.

A sala é bem espaçosa, tal qual o resto do apartamento, escolhido para poder abrigar toda a guilda de freelancers. A esquerda possui um arco que leva para a lavandeira e outro que leva a cozinha e a sala de jantar. A parte onde tem o grande sofá, com três partes, e a televisão ficam em um desnível. Um corredor no lado direito leva para os dois banheiros e para os seis quartos. Antes que Isaac chegue na irmã, para abraçá-la, um fio rosa o puxa para trás. Um fio de magia que sai dos dedos de Lully Gerard. A líder das Crianças Perdidas. Uma jovem um ano mais velha que Wendy, com dezenove anos e sendo praticamente da mesma altura que ela. Usa um vestido simples, rosa claro, e os cabelos castanhos curtos estão bagunçados. Ela é uma feiticeira e tem um copo de água com uma pílula na mão.

— Não te falei que tua irmã tá laranja, ‘Zaquinho? — Lully bronqueia.

O garoto se encolhe, dando um riso tímido. O fio rosa se dispersa no ar, se desfazendo. Lulliana se aproxima e estende o copo de água para a colega, junto com a pílula, um suplemento vitamínico que poderia ajudar o corpo de Wendy a lidar com uma possível infecção de Ar Toximágico.

— Deveria ter tomado mais cuidado, Wendy — Lully resmunga, um tanto mal humorada. — Talvez assim não teria ficado assim.

Wendy pega o copo e o remédio, colocando primeiro a pílula e depois tomando da água.

— Apesar de ter sido um ataque amador, teria dado na mesa — Wendy fala, seriamente. — Talvez se eu tivesse saído do carro e lidado um a um teria sido melhor mas… Duas pessoas talvez só teria deixado duas pessoas no laranja.

Wendolyn olha para Isaac e recupera o sorriso.

— Mas como meu irmãozinho está? Ele se comportou bem enquanto eu ‘tava fora?

— Ah, sabe como ele é, Wendy, ele é um garoto tranquilo — Lully comenta. — Ficou estudando direitinho.

— Você bem que poderia me levar nas suas missões, pra eu aprender um pouco contigo — Isaac choraminga, com o olhar baixo.

Wendy dá um suspiro.

— Não, lá fora é muito perigoso. Um dia você vai poder — Wendy diz, ficando de cócoras para olhá-lo nos olhos. — Mas até lá quero que você estude. Quero que você aproveite sua infância e não tenha que viver preso num carro e em trabalhos de adultos.

— Mas eu queria ir contigo! Seria super legal!

Wendy suspira em um riso triste e Lully afaga os cabelos do garotinho.

— Isaac, eu saio para fazer coisas sérias, e exatamente por isso você fica aqui, pra ficar seguro — ela explica para o irmão. — Me conte o que estudou, sim? Podemos jogar videogame hoje se quiser.

Os olhos de Isaac se iluminam.

— Vamos poder passar a noite juntos? — ele saltita.

Wendy faz que sim e Lully ergue a sobrancelha, tirando seu celular do bolso.

— Você tinha um trabalho para a noite — Lully resmunga. — Posso cobrir você.

— Você não ia ficar de folga hoje? — Wendolyn indaga, com um pouco de culpa em seu peito.

Lulliana abana a mão, como quem espanta uma mosca.

— Relaxa, Zumbi vai comigo então vamos poder passar um tempo juntos matando radio-baratas — a chefe da guilda conta. — Programão de um casal de freelancers.

Lully ri mas Wendy suspira e olha em volta.

— Onde está ele, aliás?

— Foi junto com o Johnny desinfetar suas coisas — Lully fala, soltando Isaac e indo até a mesa, onde está seu tablet. — Agora vá descansar. Precisamos de você bem.

— Tá bom — a garota suspira, indo com pés pesados para seu quarto.

Ela marcha para seu quarto, a porta abrindo assim que ela digita sua senha. Logo atrás, vem Isaac, cuidando da distância de dois metro.

— Posso ficar contigo? De longe — ele tristemente pergunta.

Wendy ergue a mão, pedindo por um momento. Ela toma outro remédio, feito para tentar se prevenir que uma pessoa com risco de estar contaminada de espalhar o Ar Toximágico. É um remédio incerto, ele apenas diminui as chances. Ela ainda coloca uma máscara transparente, colocando um timer em seu celular, para que soubesse quando fosse a hora de trocar o filtro da máscara.

Ela dá um sorriso triste para seu irmão caçula. Pelo menos ele está ali.

— Sabe as regras? Não podemos ficar muito próximos. Nem posso te tocar — ela explica.

— Nem um cafunezinho? — Isaac indaga.

Ela solta um suspiro, se sentando na beira da cama, passando um pouco de um gel desinfetante em suas mãos.

— Vem cá — ela fala, com um sorriso.

Isaac abre um largo sorriso e saltita até a irmã, que acaricia seus cabelos. São da mesma cor, escuros. Eles são bastante parecidos, apesar de Wendy ter feições mais sérias, quando está cuidando de assuntos que exigem dela. Mas nessas horas, nesses momentos com Isaac, ela pode baixar a guarda e sorrir livremente.

— Como foi seu dia, Isaac? — ela fala, em um tom de voz baixo e manso.

— Bem, foi bom. Eu acordei. Tomei café da manhã que o Zumbi fez. Daí fui pra aula de manhã. Foi bom. Foi tranquilo — ele conta bem devagar, pensativo. — Almocei. Foi bem bom. E daí eu assisti um pouco de desenhos e depois fui estudar. E daí você chegou!

Wendy sorri.

— E o que estava estudando? — ela questiona, parando de dar cafuné e se reclinando na cama.

O menino para e pensa, colocando a mão no queixo e desviando o olhar.

— Como a Terra ficou assim — ele diz.

— Ah sim, isso é bacana — Wendy resmunga, com um sorriso. — Quer me falar sobre?

Isaac faz que sim, entusiasmado, pulando na cama e começando a contar. Tenta evitar contar coisas que aprendeu fora das apostilas da escola, claro. Wendy não entenderia.

Longe dali, fora da Cidades Unidas do Sul, num galpão no meio dos desertos áridos e radioarcanos, um grupo de saqueadores feridos finalmente retorna para sua base. A base da gangue que eles pertencem é a Laranja Andróide. Tem até uma bandeira recém feita, uma laranja com um olho robótico e uma cartola. O plano é até o fim do ano ter um mascote fantasiado, desde que conseguissem dinheiro para a fantasia. Ou ameaçar um costureiro. Ou sequestrá-lo. Algo nessa linha. Todos eles estão arrasados pelo encontro que tiveram com uma garota em um carro, que ia rumo para o CUS. Na tentativa de saqueá-la, alguns deles morreram. A mulher não era só uma viajante comum. Era uma ciborgue, tinha braços robóticos e tudo mais. Talvez fosse uma freelancer. A líder, a Rainha Betinha, certamente não gostaria de ver todos naquele estado. Nem um pouco. Baixas, colegas feridos, motos destruídas. E nem tem um nome de quem fez isso.