Aquilo Que Ficou de Nós
4 O Toque da Memória
Erika acordou lentamente, o corpo ainda dorido da noite anterior e a cabeça latejando de forma insistente e a boca seca. Durante alguns segundos, não soube onde se encontrava, nem quanto tempo tinha passado desde o beco. Mas a sensação de segurança que a tinha envolvido durante o sono persistia, como uma sombra suave a acompanhá-la. Um silêncio confortável preenchia o quarto, interrompido apenas pelo leve zumbido da cidade lá fora.
Observou o tecto branco, onde a luz suave da manhã entrava pelas cortinas entreabertas. Quando tentou mover-se, teve a noção do grau de dor de cabeça, que intensificava-se cada vez mais na sua cabeça, arrancando-lhe um gemido baixo..
— Nestas condições, não vou poder ir trabalhar hoje… — murmurou para si mesma, ainda deitada, tentando compreender o turbilhão de emoções que a assaltava, levando a mão à testa.
Pouco depois, ouviu uma batida suave à porta, que chamou a sua atenção.
— Erika? — chamou Seki, do outro lado.
— Entra — respondeu, com a voz cansada e fraca.
Seki entrou com um copo de água e alguns comprimidos, aproximando-se da cama com a mesma calma e cuidado de sempre. A presença dele parecia mais intensa do que qualquer programa podia justificar, e Erika não conseguiu deixar de reparar nisso.
— Detecto que tens, dor de cabeça. Sugiro que repouses. — disse Seki, com a voz neutra mas cuidadosa.
Erika sentou-se e tomou a medicação, sentindo o calor da água e a sensação de cuidado que, de algum modo, parecia quase humano. Por impulso, começou a falar. Desabafou sobre o jantar, a caminhada, o beco, e, mais do que tudo, sobre o vulto que a salvara. À medida que as palavras saíam, um sorriso quase incrédulo surgia-lhe nos lábios. Como podia aquilo ter acontecido?
— Deve ter sido o álcool… ou ao choque. — disse, rindo baixo abanando ligeiramente a cabeça. — Mas parecia mesmo ele.
Seki manteve-se em silêncio, observando-a com uma atenção de uma forma diferente. Erika nunca tinha percebido antes, mas havia algo mais profundo naquele olhar fixo. Era como se ele compreendesse o que ela não dizia, como se cada gesto e cada lágrima fossem mensagens que apenas ele podia decifrar.
— Em que estás a pensar? — perguntou, intrigada.
— Nada — respondeu Seki, desviando o olhar e mantendo a neutralidade, embora algo no seu tom sugerisse profundidade.
O assunto morreu ali, mas Erika percebeu que a tensão persistia no ar. Quando pousou o copo de água na mesa de cabeceira, os dedos tocaram inadvertidamente na mão de Seki. Um arrepio percorreu-lhe o corpo, e a lembrança do beco voltou com intensidade. Os olhos deles encontraram-se por um instante demasiado longo, e o tempo pareceu suspender-se.
Seki recuou primeiro afastando-se, recolhendo o copo e saindo do quarto, quebrando o silêncio e a intensidade daquele instante.
Mais tarde, após um banho quente, a luz falhou subitamente em toda a casa. Erika chamou por Seki, mas não obteve resposta. Avançou cuidadosamente pelo corredor, com o tacto guiando-a, tentando chegar ao quadro elétrico para restabelecer a luz. No entanto, num passo em falso não viu um objecto fora do lugar e tropeçou, quase caiu, onde preparou-se para o impacto, mas foi agarrada por braços firmes antes de atingir o chão.
Algo a agarrou e puxou-a com firmeza para trás. O coração disparou-lhe no peito. No reflexo do espelho, iluminado apenas pela lua, viu um vulto com o capucho levantado. O perfume familiar atingiu-a imediatamente. As memórias de Seiji invadiram-na, e um arrepio percorreu-lhe o corpo. O vulto envolveu-a num abraço, respirando suavemente junto ao seu pescoço, despertando sensações há muito esquecidas. As noites partilhadas, os abraços silenciosos, a forma como Seiji a segurava quando tudo parecia desmoronar.
— Não podes ser ele… — murmurou, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto.
Ela agarrou o braço dele e virou-se para o vulto, onde encontrou os lábios dele. Erika não recuou. Pelo contrário, aprofundou o beijo, como se o mundo tivesse deixado de existir naquele instante, entregando-se ao calor e à segurança que tanto ansiava.
Mas a realidade trouxe-a de volta a consciência da perda. Erika afastou-se com pressa, mas o vulto segurou-a gentilmente, sem força, onde Erika deixou de dar luta com a realidad
— Podes fica comigo… só até eu adormecer? — pediu, em voz baixa.
Sem mais palavras, foram para o quarto. Erika deitou-se, a cabeça apoiada no colo dele, e pela primeira vez em muito tempo, adormeceu tranquila, sem medo, permitindo-se finalmente entregar o coração ao conforto que precisava.
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