Aquilo Que Ficou de Nós
5 A Fronteira Invisível
A manhã seguinte trouxe consigo uma estranha sensação de vazio. Erika acordou devagar, os pensamentos ainda presos à noite anterior. Procurou pelo o vulto, mas a cama estava vazia. Apenas o silêncio preenchia o quarto, e a memória do toque e do perfume continuava a ecoar-lhe na mente. Tocou levemente nos lábios, como se pudesse reviver o beijo que a tinha deixado sem fôlego, e sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo.
Erika levantou-se e foi tomar banho, tentando afastar os pensamentos, a água quente ajudou a acalmar-lhe os nervos, mas não a confusão. Ao sair da casa de banho, encontrou Seki na cozinha, de costas, a preparar o pequeno-almoço. Por um instante, o reflexo nos gestos dele fez-lhe pensar novamente em Seiji. Aquele detalhe simples, a forma como movia as mãos, a postura calma despertou memórias antigas que ela pensava perdidas.
Erika piscou várias vezes e esfregou os olhos. Era novamente Seki.
— Está tudo bem contigo? — perguntou Seki, virando-se para ela com a sua voz habitual, serena, mas estranhamente reconfortante.
— Sim — respondeu Erika, embora não conseguisse afastar o nervoso miudinho que sentia. Os olhares deles encontraram-se por breves segundos. Erika desviou rapidamente o olhar, tentando controlar o coração que batia mais depressa.
Depois de tomar o pequeno-almoço em silêncio,
Erika foi para o trabalho. O dia decorreu de forma normal, com tarefas acumuladas do dia anterior, reuniões e telefonemas. Nada de extraordinário ocorreu, mas na mente de Erika estava longe do escritório, perdida nos eventos recentes e na sensação de que algo em Seki era diferente, mais próximo do que jamais fora.
Ao regressar a casa, depois de jantar, Erika dirigiu-se ao escritório. Estava concentrada no trabalho quando Seki entrou com uma chávena de chá quente e pousou-a na secretária.
— Obrigada — disse Erika, oferecendo-lhe um sorriso, que ele não respondeu com emoção visível, mas permaneceu atento.
Quando Seki se preparava para sair, Erika chamou-o, impulsivamente..
— Seki… será que podes fazer-me companhia? — pediu, tentando que a voz não traísse a ansiedade.
Ele assentiu e sentou-se numa das cadeiras, abrindo um livro para ler. Mas Erika não conseguia concentrar-se, os olhares fugiam constantemente para ele. Algo no seu comportamento, na sua presença silenciosa, mexia com ela de uma forma inexplicável.
Sem perceber, Seki aproximou-se, ficando ao seu lado. Erika sobressaltou-se e levantou-se de forma brusca, onde recuou, encostando-se à parede.
— O que estás a fazer? — perguntou, um pouco nervosa.
Seki manteve a distância, mas não se afastou.
— Estou a cuidar de ti, a proteger-te. — respondeu Seki, com a voz baixa, quase humana, igual à de Seiji. Erika sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
— Deixa-me passar! — exigiu, tentando afastar-se.
— Não posso — disse Seki, antecipando cada movimento dela e bloqueando a saída.
Num movimento rápido, Seki inclinou-se e roubou-lhe um beijo profundo. Não foi agressivo, mas foi inesperado.
— Pára! — disse, com a voz a falhar.
Erika tentou afastar-se, tendo o coração a disparar e as lágrimas a correrem. Demasiado real, onde ele manteve o contacto por breves segundos, antes de a deixar ir, recuando um passo.
— Erika, desculpa-me — disse, num tom baixo, quase humano.
Erika saiu do escritório a correr, sentindo o peito apertado, a mente confusa e o corpo a tremer. Seki ficou parado, suspirando fundo, olhando para o vazio por alguns segundos, pensativo, tentando compreender a fronteira que acabara de atravessar algo novo e perigoso.
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