Na manhã seguinte, o silêncio era pesado. Erika e Seki mantiveram-se distantes, o pequeno-almoço decorreu sem palavras, apenas o som dos talheres a baterem na louça. Havia uma tensão no ar que Erika não podia ignorar. Cada gesto parecia calculado, cada respiração medida.

Erika foi a primeira a quebrar o silêncio.

— Vou devolver-te ao fabricante — disse, finalmente, com a voz firme, quase fria. — Vou substituir-te por outro modelo, hoje ao final da tarde.

Seki permaneceu imóvel, os seus sensores processando a informação, sem protestos, sem perguntas. Aceitou a decisão silenciosamente. Erika sentiu um aperto no peito, mas não recuou. Aquela decisão parecia racional, necessária, ainda que dolorosa.

— Compreendido, — respondeu apenas.

O dia de trabalho arrastou-se lentamente, cada hora pesada e interminável. Erika tentou concentrar-se, mas as imagens repetiam-se na sua mente: o vulto, o perfume, o beijo, a voz. Quando regressou a casa, o silêncio do apartamento recebeu-a de forma cruel.

Seki já não estava. Já tinha sido recolhido pelo fabricante.

No seu quarto, sobre a cama, um envelope aguardava-a. Com as mãos trémulas, Erika sentou-se e abriu-o. Reconheceu de imediato a caligrafia inconfundível de Seiji. O coração começou a bater-lhe descontroladamente.

“Minha Erika,

Se estiveres a ler isto, é porque já parti. Sei que vais sofrer, mais do que alguma vez admitiste. Por isso fiz o que fiz. Seki não é apenas um robô. Programei-o com partes de mim, as minhas memórias, os meus padrões emocionais, a minha forma de cuidar de ti. Não para me substituir, mas para que nunca estivesses sozinha.”

As mãos de Erika tremiam.

“Perdoa-me, se isto te parecer errado, mas fiz por amor.”

— Seiji

As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto. O peso da saudade misturou-se com uma súbita compreensão. Sem pensar, ergueu-se e correu para o fabricante, sem perder tempo, sem hesitar.

Ao chegar ao fabricante, recebeu a notícia que temia. O modelo do Seki já foi enviado para abate. O pânico tomou conta dela. Sem perder tempo, deslocou-se para o local indicado. Durante o percurso, uma única certeza ecoava-lhe na mente: perder Seki não era opção.

Ao chegar, irrompeu pelo espaço industrial.

— Parem imediatamente, por favor! — gritou.

O responsável interrompeu o processo e aproximou-se, confuso. Erika explicou a situação com voz firmeza, cada palavra carregada de determinação e emoção, apesar das lágrimas.

— Por favor. Quero recuperá-lo, agora.

Após alguns instantes de hesitação, o responsável acedeu e libertou Seki. Erika não perdeu tempo, correu para os braços dele, segurando-o como se nunca mais quisesse soltar.

Em casa, Erika olhou nos olhos de Seki, fixamente.

— Eu li a carta… — disse. — És o Seiji? — perguntou, com a voz embargada.

Ela aproximou-se lentamente e tocou-lhe no rosto. Seki fechou os olhos por um breves segundos, um gesto humano emergiu. Fechou os olhos ligeiramente, tal como Seiji faria.

— Sim — disse, finalmente.

Erika deixou-se cair nos braços dele, chorando, mas sentindo finalmente o alívio que tinha procurado durante meses. Seki, de forma cuidadosa, envolveu-a num abraço firme, completo. Pela primeira vez, sentiu que podia olhar para o futuro, não como algo vazio, mas como uma continuação possível do amor que nunca desaparecerá.

E assim, no silêncio do apartamento que outrora parecia tão frio, Erika e Seki, guardando nele o espírito de Seiji, aprenderam a viver novamente. Passo a passo, dia a dia, descobrindo que o amor pode persistir de formas inesperadas, mesmo quando tudo parece perdido, e que o que realmente permanece não se mede em carne e osso, mas em presença, cuidado e memória.

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