Aquilo Que Ficou de Nós

3 O Beco das Sombras


O vento da noite soprava pelas ruas da cidade, carregando consigo aromas de café, asfalto quente e um toque de perigo que Erika ainda não conseguia identificar. Cada passo que dava parecia ecoar demasiado alto, como se o mundo inteiro a estivesse a observar. O efeito do álcool ainda persistia, tornando os reflexos lentos e a mente ligeiramente turva, mas não diminuía a sensação crescente de ameaça. Ela apenas queria apenas chegar a casa.

Foi então que reparou neles.

Três homens surgiram à sua frente, bloqueando o caminho de forma coordenada. O olhar deles era frio, calculista, carregado de intenções que Erika reconheceu de imediato como hostis o que despertou o seu instinto de sobrevivência. Tentou recuar, acelerar o passo, mas o corpo traía-a. Um deles avançou e agarrou-lhe o braço com firmeza.

— Larguem-me! — gritou, tentando libertar-se.

A força dela era insuficiente. Outro homem posicionou-se à frente dela, cortando qualquer possibilidade de fuga. Tentou gritar, mas uma mão tapou-lhe a boca antes que qualquer som pudesse escapar. O medo tomou conta do seu corpo, as pernas tremiam, o coração martelava contra o peito. Cada movimento parecia demasiado lento, cada pensamento demasiado atrasado.

Foram empurrando-na para um beco escuro, longe da rua iluminada, e Erika sentiu a desesperança crescer-lhe dentro. Sabia que resistir era inútil, uma vez que força deles era esmagadora. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto, misturando-se com o suor da adrenalina. O mundo parecia afundar-se ao seu redor. Naquele momento, uma certeza cruel instalou-se dentro dela, estava sozinha.

De repente, o homem que a segurava caiu de repente, sem qualquer explicação aparente, como se tivesse sido desarmado por uma força invisível. Os outros dois ficaram em alerta, olhos arregalados, instintivamente prontos para reagir.

— O que foi isto? — murmurou um deles.

Antes que pudessem reagir, um vulto emergiu das sombras. Movia-se com rapidez e precisão sobre-humanas, cada passo calculado, cada gesto letal. Em segundos, os homens caíram, inconscientes, espalhados pelo chão do beco. Erika permaneceu imóvel, incapaz de processar o que via, os músculos rígidos, os olhos fixos naquele estranho salvador.

O vulto aproximou-se dela, e Erika sentiu um perfume familiar que lhe provocou um choque profundo. O seu coração saltou no peito. Aquilo não podia ser possível. Movida por uma mistura de incredulidade e esperança, esticou a mão, quase trémula.

— Seiji…? — sussurrou, quase num sopro, a voz embargada pela emoção.

O vulto inclinou-se para a levantar e, num movimento rápido mas cuidadoso, segurou-a nos braços. Erika sentiu o calor familiar, a segurança que há muito lhe faltava. O cansaço, o medo, a adrenalina da noite, tudo desapareceu num instante de alívio absoluto.

— Não… isto não pode ser… — tentou dizer, mas a voz falhou.

A visão começou a ficar turva. Fechou os olhos, entregando-se à sensação de proteção que a envolvia, e pela primeira vez em muitas semanas, sentiu-se segura. O mundo podia continuar a girar lá fora, mas naquele beco escuro, nos braços daquele vulto inexplicavelmente familiar, Erika permitiu-se finalmente relaxar. O sono veio-lhe aos poucos, tranquilo, pesado, e ela adormeceu, deixando que a noite levasse consigo não apenas a dor física, mas também o peso do medo e da solidão.