Aquele que Juntava

41 Capítulo 41– SEM AMOR


– Anda Magali! Saí logo daí! – Dizia Mônica, afastada junta aos outros da caverna. Todos apontavam suas armas, esperando a saída do Assimilador. – Anda!

A preocupação era geral. A garota já não dava sinal de vida havia mais de meia hora. Astronauta parecia estar a ponto de enlouquecer, pois falava à si mesmo “Ela ficará bem. Você não deveria ter trazido essas crianças aqui”.

Viram os espaços entre as rochas emitir um brilho. Um brilho esquisito. O som estava abafado, e nenhuma conversa podia ser captada de dentro da caverna. As rochas que bloqueavam a saída repentinamente saltaram para longe, desobstruindo a armadilha de rocha.

– Maga! Saí daí! – Gritou Cascão com notável desespero. – Corre!

Magali saiu da caverna, mas não do jeito que a Turma esperava. Ela foi atirada de dentro da caverna até os pés de Mônica e os outros. Estava suja de sangue. Os olhos fechados. Estava desmaiada e parecia ferida.

O ódio tomou conta do povo. Todos olharam, sem exceção, para dentro da caverna. Esperavam raivosos a vinda do inimigo. Não ligavam se iriam morrer ou não, pois apenas pensavam na destruição do canalha.

E o Assimilador veio com uma velocidade indescritível. Sem armadura, o corpo adolescente, que disfarçava tão bem as fraquezas e as marcas do corpo de Jean Nido, se deslocou entre a turma com movimentos sutis. Não queria machucar ninguém, mas machucaria se fosse estritamente necessário.

O primeiro que veio foi Cascão. Ele conseguiu se por em frente ao Assimilador e tentou acertar-lhe um soco. Foi em vão. O jovem inimigo segurou o punho de Cascão e o girou no ar. Cascão caiu de costas no chão, com o pulso levemente torcido.

Essa parada foi quase mortal para o Assimilador. Por pouco, o jovem não foi atingido por uma pedra gigantesca, carregada por Cebola. O Assimilador desviou da pedrada e acertou um chute certeiro na boca do estômago de seu rival. Feito isso, Cebola caiu, sem ar, de joelhos.

O rapaz tinha que ser rápido. Apesar de estar sendo odiado como nunca, sua fonte de poder estava se esgotando rápido. O Astronauta seria o oponente mais difícil, disso o Assimilador sabia. O jovem mal pensou em atacar com certa violência.

O Assimilador então tentou acertar um chute no rosto de Astronauta. Péssimo movimento, afinal o oponente não somente se defendeu do chute, como conseguiu contra-atacar com outro chute no peito do Assimilador. Feito isso, o rapaz recuou um pouco devido ao chute e, logo em seguida, caiu após ser atingido por dois certeiros socos no rosto.

– Você já não é tão bom, né? – Animou-se Astronauta, tentando pular sobre o corpo caído do inimigo, tática que não obteve sucesso.

O jovem tentou acertar um chute no rosto de Astronauta, que conseguiu recuar seu corpo a tempo de desviar. Após o desvio, Astronauta levantou-se e tentou acertar um novo soco no rosto do Assimilador, que segurou o braço de seu oponente e lhe chutou as axilas. Com o chute, o Astronauta caiu na hora.

– Agora, você já não é tão bom, né? – Brincou o Assimilador, tentando atrair ainda mais ódio do inimigo.

Mônica se sentiu impotente. Ela protegia o corpo caído de Magali, que por sua vez espiava tudo com olhos cerrados, fingindo estar machucada.

O caminho estava livre. Jean não via ninguém que pudesse lhe atrapalhar. Correu até o centro e prostrou suas duas mãos sobre o grande círculo. Aquilo iria acabar, finalmente.
Hesitou por um minuto. Olhou para seus pés e, em seguida, olhou para trás. “Vai fazer frio. Tudo vai voltar ao que era antes, inclusive eu. Meus ferimentos acumulados aqui vão aparecer com força total”, ele então olhou para Magali. Prometera à garota que iria fazer tudo voltar ao normal. “Não sei se o meu coração vai suportar, mas tenho que fazer isso”.

Acabara a hesitação. Ele fechou os olhos, se concentrou. Sua energia novamente se unificou ao centro, que lhe falava mentalmente, através da voz de Rosa. Voz essa que somente o Assimilador podia escutar no momento.

– Decidiu acabar com esta tolice? – Perguntou Rosa, que todo este tempo sabia do sofrimento do Assimilador, e que por todo este tempo sabia que o garoto iria se arrepender. – Ou melhor, descobriu que você ainda pode ser feliz?

– Não posso viver – Respondeu Jean. – Mas, isso não faz com que os outros também não possam. Desculpe-me por tudo que fiz.

– Não peça desculpas. Você fez apenas o que achava ser certo. Não há problema algum nisso.

– Você acha?

– Acho. Agora, vamos para casa – Repentinamente, a voz do Centro pareceu espantada. – CHICO SEU IDIOTA! JEAN, ATRÁS DE VOCÊ!

O Assimilador olhou para trás. Havia se esquecido de Chico Bento e Zé Lelé. Os dois caipiras estavam escondidos o tempo todo, esperando uma oportunidade para atacar. Chico mirou sua arma e acertou, com sua última bala, um tiro certeiro no já prejudicado braço direito do Assimilador. O jovem inimigo caiu ao levar o tiro, e gritou. Seu grito entretanto foi abafado pelo golpe fortíssimo da pá de Zé Lelé em seu rosto. Um corte imenso se fez na testa de Jean, que sentia sua energia se esgotar velozmente.

– Parem! – Gritou Magali, subitamente se levantando e espantando a todos. – Ele quer nos ajudar!
As marcas de sangue não eram da garota. Dentro da caverna, Jean tinha feito um pequeno corte em seu braço direito. Em seguida, usou o sangue que escorrera do corte para sujar Magali, fazendo-a parecer ferida. Por último, o Anjo explodiu a entrada da caverna e atirou Magali para longe. Um plano perfeito, pois assim os jovens odiariam o Assimilador como nunca.

O anjo então apareceu. Voou até Chico e o arrastou para longe do Assimilador. O jovem estava com a visão embaçada. Mal via o centro direito. Ele se arrastou. Um pouco de sangue cobriu-lhe a visão. Ele tocou o centro. Sentia sua perna ficar menor. Estava voltando ao normal e tinha uma missão para terminar. Apenas as pontas dos dedos no centro. Zé Lelé, burro como uma porta, ergueu sua pá novamente.

– Não! – Gritou Chico ao entender tudo. – Empaca, Zé Lelé! Empaca!

E o jovem empacou. Parou, ao lado do Assimilador, com a pá levantada. Jean, com a pouca força que lhe restava, falou:

– Desassimilar.

Antes de desmaiar, o jovem estalou os dedos. Todos os adultos presos no castelo, além de Dudu, voltaram à terra. Só após isso o jovem desmaiou. Seu corpo voltou a ser o de uma criança. O centro simplesmente desapareceu e Rosa apareceu em seu lugar. A garota correu até Chico, assustada com tudo o que tinha acontecido.

– Entrem nesta bolha logo! – O Anjo juntou as mãos e criou uma gigantesca bolha, que ocupou grande área ao seu redor. – Com ela, voltaremos seguros para casa!

O lugar começou a cair. Pedras e mais pedras vinham de todos os lados.
– Isso vai cair? – Perguntou Cebola, ainda com uma mão sobre a barriga. – Vamos todos morrer!

– Não vamos, não! – Disse o Anjo, surpreendido por Zé Lelé ter desempacado. Mas, havia algo de errado. – Zé Lelé, você não trouxe o menino?

– Uai, o guri não é inimigo? – Disse Zé Lelé, que ainda não havia compreendido a história.

Era só o que faltava. Jean ainda estava próximo ao que antes era o centro. Caído, o garoto não movia músculo algum.
– Vamos embora logo! – Gritou Astronauta, sabendo que sua missão estava completa. Ele também era outro que não havia entendido os fatos ainda. – O garoto deve ser um disfarce do Assimilador!

O Anjo mal poupou tempo. “Agora, Jean tem um anjo. Eu sou seu anjo, e eu não vou deixar nada de ruim acontecer a ele!”. O Anjo então voou rápido em direção ao pobrezinho e segurou seu corpo magro. Com um rápido movimento, ele se voltou à bolha e voou em sua direção. Pedras teimavam em tentar lhe acertar. Precisava ser mais rápido!

Alcançou a bolha e gritou algumas palavras inteligíveis. De repente, um branco claro tomou a visão de todos. Ninguém enxergava nada. Ninguém sabia o que estava acontecendo.

Notas finais
Faltam apenas alguns capítulos para nosso derradeiro final. Não quero desagradar ninguém, mas creio que os próximos dois capítulos encerrarão a série. Após isso, planejo somente mais alguns tie-ins (Capítulos extras, explicando alguns fatos).

Bom final de semana à todos.