Aquele que Juntava
42 Capítulo 42 - RODA DO INFORTÚNIO
O garoto acordou. Estava deitado na grama, possivelmente não muitos metros longe da caverna onde tudo começou. Seu corpo totalmente molhado de suor não se movia. O garoto estava no limite da exaustão. Não comia há dias, mesmo antes de tudo começar. Suas pernas, seus braços, sua cabeça, tudo reclamava em uníssono.
Não tinha energia alguma para sequer falar ou pensar. Era quase um peso morto. Inacreditavelmente, seu braço direito – Aquele que fora atacado durante toda sua jornada – não lhe doía. Aliás, ele mal sentia o braço direito, que estava repleto de cortes e alguns buracos. Em contrapartida, seu corpo todo doía e apresentava não só as marcas que ele conseguiu com o tempo, mas também as novas.
O primeiro movimento que ousou fazer foi mover a cabeça. Olhou ao redor, procurando por algum indício de pessoa. Não viu nada e nem ninguém. Ficou feliz. Não queria ser mais um peso para ninguém, quanto mais um vilão.
Tentou se levantar inutilmente. O único dia em que sentira uma fraqueza tão grande foi quando voltara do trabalho num dia chuvoso. Nesse dia, o garoto desmaiara no meio do caminho, acordando no mesmo lugar algumas horas depois.
“Vou tentar de novo”, pensou o garoto. No momento em que conseguiu se sentar, a dor no braço direito e na cintura surgiu forte e rápida como um trovão. O garoto gemeu de dor enquanto caía novamente, segurando seu braço direito com força. Ofegante, sabia que seria um inferno sair dali.
Lembrou-se novamente de alguns outros fatos de sua vida. Era como se esta estivesse lhe passando pelos olhos com velocidade ímpar. Normal, afinal o garoto não teve muitos momentos marcantes, mesmo.
Um dos fatos curiosos do qual se lembrara foi quando viu seu primeiro e único e talvez último filme. Chovia também. Era engraçado como os momentos marcantes de sua vida ocorriam na chuva. Ele estava de passagem por um dos internatos em que passava. Um dia antes de ir embora – Para não causar gastos complicados para a instituição –, ele viu um filme de um tal de Bruce Liu. Neste filme, “A voadora do Dragão”, Bruce Liu interpreta um chinês pobre, que vem ajudar uma prima a proteger seu restaurante. No fim, Bruce Liu duela com Chuco Nóris e o vence. Filme curioso, que fez o garoto despertar certa paixão sobre artes marciais. Desde então, Jean praticou muitas das coisas que vira no filme todos os dias.
O céu não aparentava chuva. Nada de bom ou diferente iria acontece naquele dia, então, pensou Jean. Sua cabeça sangrava levemente. Os cabelos lhe incomodavam muito. Ouviu um barulho
Procurou a origem do som. Não viu nada. Percebeu só depois que o som provinha das moitas. Se fosse um animal selvagem, Jean estaria morto. De uma das moitas, Chico Bento espreitava com o cano da espingarda laser erguido. Iria atirar a qualquer sinal de perigo ou movimentação estranha.
O garoto estava tenso desde o minuto em que acordara. Com esses sons estranhos, a situação só piorara. O garoto só não suava mais porque seu corpo não permitia. Algo correu em sua direção. Algo segurou sua cabeça.
O garoto só não gritou pois percebeu que quem segurara sua cabeça era Magali. A garota ergueu a cabeça do menino e a colocou confortavelmente sobre suas pernas. O menino, pela primeira vez há tempos, ficara aliviado e se sentira confortável.
– Relaxa, tá bom? Eu já mandei alguém chamar um médico – Magali ajeitou os cabelos do garoto para que eles não mais o incomodassem. – Você vai ficar bom.
Jean não respondeu. Seus olhos brilhavam tristes. Magali sabia o que estava passando pela cabeça do garoto. E ela falou:
– Você não fez nada de errado. Olha só, tudo está perfeitamente normal! Agora, não chore, pois vai ficar tudo bem.
O menino chorava. Havia errado e sabia disso. Tinha vergonha de olhar para o rosto de todos aqueles que havia feito sofrer. Ah! Que ódio de si próprio o garoto possuía! Mal queria ter nascido, quanto mais causado problemas!
– Não tem como ficar bem, Magali – Chorou o garoto.
– Se o problema é o dinheiro para a cirurgia, ou sua estadia, ou família, não se preocupe! Eu já disse que vai ficar tudo bem!
– Mas isso me irrita! Eu não fiz nada para merecer algo bom! Eu só fiz coisas ruins!
– Garoto! Isso que me irrita! – Disse Mônica, que se aproximava, vinda de uma moita. – Você é só uma criancinha boba! Você tem vivido uma vida desregrada e ainda conseguiu se manter na linha por um bom tempo! Você é uma criança e não tem obrigação nenhuma! Bote nesta cabecinha mixuruca que você precisa ser feliz, merecendo ou não! Você nunca foi feliz, o que é um pecado!
– Como sabe dessas coisas? – Perguntou Jean com certa curiosidade. Sua voz estava fraca.
– Magali me contou.
– Tá ficando frio – Reclamou Magali. – Será que nenhum dos meninos tem uma roupa quente para emprestar. Afinal, você só está vestindo essa calça.
– Eu estou acostumado ao frio – Retrucou o garoto, mais por tentativa de não “incomodar” Magali. Na verdade, o garoto odiava o frio.
Seus olhos se fecharam por um momento. Quase desmaiou. Foi despertado por alguém rapidamente. Era Chico Bento e Rosa, que haviam saído de trás das árvores.
– Não druma! – Disse Chico se ajoelhando próximo ao garoto. – Se ocê drumi agora vai fica dificir prus médico di ti ajudá!
– Cê ainda tem que faze tanta coisa – Concluiu Rosa.
Logo, Cascão e Cebola apareceram também. Demoraram a achar os outros. Cascão se aproximou também do menino e sorriu.
– Você sabe uns movimentos bem legais! Você vai me ensinar né?
O menino não respondeu. Cascão ainda sorria. Realmente, achara os movimentos de luta do menino algo de outro mundo. Afinal, todos sabem que Cascão tem um lado Nerd inveterado, que o faz amar alguns seriados japoneses e americanos com lutas marciais.
Pela primeira vez, o garoto sorriu com certa sinceridade. Estava rodeado de pessoas que, de certa forma, gostavam dele, mesmo após tudo aquilo que acontecera. Magali nitidamente era a pessoa que mais o amava.
– Por... Quê... Você...? – Perguntou Jean, já com a voz mais fraca que antes. Ele perguntara, logicamente, para Magali. A menina entendeu a pergunta de pronto.
– Não sei. Eu senti, desde o primeiro dia, uma ligação com você. Algo me diz que eu te amo como um grande amigo. E é esse amor que me fez pensar que você não era de todo mal – Magali acariciou a cabeça do menino. – E nunca foi! Eu estava certa!
– Esquisita – Brincou o garoto. Todos riram. – Finalmente, tudo acabou.
Não. Não havia acabado. O garoto repentinamente sentara-se na grama com as duas mãos apertando fortemente o peito. O menino tentava gritar, mas não conseguia. Assustados, todos somente conseguiram presenciar os poucos e assustadores segundos. Em cinco segundos, o garoto fizera tudo isso narrado e voltara a cair deitado.
– Jean! – Gritou Magali, pensando em como socorrer o menino.
– Saí! Eu li algo sobre primeiros socorros na internet! – Disse Cebola se pondo à frente. Ele colocou seu ouvido sobre o coração do menino e procurou por algum sinal de pulsação. – O colação dele palou!
O coração do garoto não havia resistido. Os ferimentos e o cansaço haviam contribuído para a rede de infortúnios que se apresentou. Jean Nido nunca foi feliz e nunca será.
Mônica chorava descontroladamente, sendo amparada apenas por Cebola. Magali mal chorava devido ao choque. O restante chorava silenciosamente. Eis o fim.
– Não! Ainda não! O fim não pode ser assim! – Disse uma voz se aproximando velozmente do lugar onde jazia Jean, rodeado pela turma. – Eu não vou deixar o fim ser assim!
Notas finais
Obrigado à todos pela colaboração e pela paciência (Da-lhe paciência!). Foram quase 25 semanas postando, e postando, e postando!
Vejo vocês no sábado. Mas, vejo vocês no sábado e verei vocês também no futuro!
Um abraço do Tio Goiabinha.
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