Apontando o lápis
2 "ECAAA, QUE NOJO!" (livre)
Notas iniciais
Naquele instante, a ansiedade tomou conta do corpo de Daisuke. Estagnado por estar vivendo o primeiro dos inúmeros dramas adolescentes, o jovem garoto de 13 anos sentiu uma palpitação desenfreada, suas mãos suando e um leve enjoo revirar seu estômago.
O ruivo, apesar do comportamento irreverente e da forte personalidade, viu-se totalmente vulnerável diante de toda aquela situação. Estava prestes a perder o “BV”.
Não, você não leu errado!
O mesmo que havia liderado seus amigos numa longa jornada no Digimundo, vendo seu parceiro Veemon evoluir diversas vezes, destruindo torres negras, conquistando os brasões da coragem e da amizade e ser um dos pivôs da extensa batalha contra o retorno de Diaboromon ao lado do seu melhor amigo, Ichijouji Ken, unindo ExVeemon e Stingmon em Paildramon, Imperialdramon e Paladino Imperialdramon, respectivamente.
E apesar do histórico memorável, Motomiya Daisuke se sentia totalmente amedrontado perante o fato de dar o seu primeiro beijo. Já tinha pesquisado em inúmeros sites algumas dicas do que fazer e não fazer e diversas técnicas que usou com maçãs, laranjas e até com a própria mão. Por sorte, não havia sido flagrado em nenhum desses momentos constrangedores.
Imagine só Jun, sua irmã mais velha, surpreendê-lo mordiscando a própria mão num exercício que promete deixar os lábios mais flexíveis?! O ruivo fechou os olhos e sacudiu a cabeça tentando afastar qualquer vestígio desse pensamento louco da sua mente.
— Tá tudo bem? – perguntou a garota bem a sua frente.
— hmm, não... digo, sim. Tá tudo bem. – respondeu aos tropeços – É só que... é a minha primeira vez. – continuou, pigarreando, numa tentativa fracassada de não aparentar o nervosismo na voz.
— Tudo bem, é a minha primeira vez também. – murmurou a adolescente com uma voz doce e, num gesto gentil pousou uma das mãos no ombro do rapaz, puxando-o para mais perto de si.
Ao se inclinar para beijá-lo, a moça parou por um instante e o encarou, mudando o semblante gentil para um totalmente sério, dizendo:
— ISSO NÃO PODE PASSAR DAQUI! Quero deixar claro mais uma vez que só comecei isso porque quero estar bastante treinada para beij...
— Beijar quem? O Ken? – interrompeu o garoto num riso de deboche.
— NÃO QUERO FALAR SOBRE ISSO. E vamos logo com isso, antes que eu me arrependa. – respondeu num tom feroz, pegando-o pela gola da camisa.
Inoue Miyako ajeitou os óculos antes de o ato começar. Sentados ali num banco mais reservado, localizado atrás de um dos prédios da escola, pouco frequentado durante os intervalos e a hora do almoço. Os raios de sol os procurava entre as frestas dos galhos da árvore que os encobriam por cima das cabeças, formando desenhos muito peculiares com as sombras no extenso chão gramado.
A garota dos cabelos violáceos ainda não acreditava no que havia se arriscado fazer, mas já era tarde demais para desistir. O parceiro de Veemon não era nem de perto o seu favorito, dentre os seus amigos, dada as suas eventuais discussões e atritos. Isso não significava que ela não gostava do rapaz. Ao contrário, admirava-o muito. Mas havia certos comentários e atitudes infantis que a deixavam bastante irritada devido ao seu pavio curto.
E isso era uma característica que o ruivo conhecia muito bem. E mesmo ciente de tal atributo na portadora do brasão do amor e da sinceridade, Daisuke se atrevia a testar a paciência da jovem.
Contudo, Inoue viu a oportunidade fácil para se tornar mais experiente ao saber que o seu grande aliado das inúmeras batalhas que já tinha travado no Digimundo compartilhava a mesma particularidade que ela: ainda tinha a boca virgem.
Agora não podia mais voltar atrás. Não depois do esforço que tivera para inventar uma desculpa aceitável para suas amigas, não chamar tanta a atenção de alguns conhecidos durante o caminho para o local combinado e despistar alguma possível perseguição.
Tomando a iniciativa, Miyako voltou a se inclinar, enquanto sentia uma das mãos de seu amigo segurar sua cintura, ainda sentados. Levemente, os lábios dos dois se tocaram. Ficaram assim, sentindo o toque um do outro durante alguns poucos segundos até se afastarem.
A menina enrubesceu ao abrir os olhos e ver que o tinha beijado realmente, mesmo que por um breve momento. Quando reparou, já estava rendida a mais um beijo, dessa vez mais longo. Até que Daisuke ousou, numa tentativa um tanto quanto afobada, pedir passagem com a língua, como bem se lembrava dos tutoriais dos sites que visitara durante a semana.
Imediatamente, a adolescente de 14 anos se desprendeu do momento mágico que estava desfrutando, arregalou os olhos, vendo o ruivo ainda preso aos seus lábios, afastou o rapaz e se levantou do banco como num reflexo.
— ECA, QUE NOJO! – disse rapidamente limpando a boca com as costas da mão.
—...mas o quê?
Sem dar satisfações, ela se virou para sair correndo, mas não tinha se lembrado que ali havia uma escada de incêndio externa, levando uma pancada bem forte de frente pouco depois de tomar a direção oposta.
Daisuke se levantou às pressas pra ajudar sua amiga caída no chão, desacordada. Felizmente, não tinha ninguém por perto presenciando aquele momento de extrema vergonha.
‘Ela tinha ficado com nojo só por causa da língua?’ pensou ele todo desconsertado.
Parou sua linha de pensamento, ajoelhando ao lado dela, vendo-a acordar gemendo de dor.
A garota se sentou levando uma das mãos até a testa, onde o impacto havia sido mais forte. Poucos segundos depois, uma vermelhidão surgiu, dando forma a um volumoso hematoma.
— Miyako-chan? Você tá bem? – perguntou o garoto, contendo o riso, ao perceber o enorme galo que se formava.
— Ai Senhor... – a moça gemeu mais uma vez, ao se levantar – NUNCA MAIS EU VOU VOLTAR A BEIJAR NA VIDA. – e saiu andando a procura dos óculos que tinham se perdido logo após a queda. Praguejou ao encontrá-lo com as lentes trincadas. Definitivamente aquele não era o seu dia.
E o mais interessante disso tudo foi o fato da garota ter dito que manteria sua boca bem longe dos outros garotos, arrependendo-se profundamente com este momento frustrante.
Uma semana após o ocorrido, Miyako passou a beijar praticamente tudo que anda.
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