Apontando o lápis
3 "me. Aguarde." (livre)
Notas iniciais
Seguido de uma estrondosa trovoada, um relâmpago iluminou a tarde coberta por uma densa camada de nuvens negras. Takeru moveu a alavanca que acionava os limpadores de para-brisa, que prontamente corresponderam ao comando, num movimento frenético e repentino, removendo a enxurrada de água que bloqueava o campo de visão dos ocupantes do carro.
O jovem meneou levemente a cabeça, olhando através da janela do veículo para a extensa floresta que acompanhava a estrada. Somada as fortes gotas de chuva e a paisagem que transmitia paz e tranquilidade, o loiro não pode deixar de abrir um pequeno sorriso ao pensar que aquele era clima perfeito para um final de semana de descanso.
Depois de longas semanas de estudo intensivo para provas, simulados e trabalhos da faculdade, Takeru ainda nem acreditava que tinha cortado a cidade para aproveitar um final de semana inteiro fazendo nada.
A ideia de fazer uma pausa logo surgiu quando Yamato comentou sobre o famoso chalé de inverno dos tios, numa cidade mais afastada de Tóquio, próximo ao Monte Fuji. Com exceção de Jou, que ainda persistia na dura jornada de estudos e estágio do curso de medicina, todos concordaram em passar um tempo juntos.
Às 17hs54min daquela tarde de sexta, o loiro já tinha dirigido cerca de 120 km desde que haviam embarcado no automóvel. Sentada no lado carona, Sora mantinha uma conversa agradável com mais três moças, que ocupavam os lugares traseiros. Mimi e Miyako estavam tão empolgadas com o programa que, descontroladamente, quase não deixavam espaço para os outros falarem. O jovem Takaishi se perguntava se conseguiria descansar com essas duas tramelando o tempo inteiro.
Pelo retrovisor, vez ou outra seu olhar cruzava com o de Hikari que, instantaneamente, abria um sorriso em deboche por ver suas amigas tão agitadas. Ao ver o rapaz inclinar a cabeça para frente e dar aquela sorriso de canto, a morena entendeu que era hora de começar.
— Miyako, por favor, mas que fogo é esse? Nosso amigo nem vai estar lá! – murmurou Hikari. A morena sabia o quanto isso a deixava sem jeito. E era justamente esse o principal motivo de tirarem tanto sarro da cara dela.
Por trás dos óculos, a moça fechou os olhos e deu um longo suspiro antes de responder.
— EU SEI QUE O KEN NÃO VAI APARECER. Ele viajou com a família. – Seu tom de voz regrediu ao dizer a ultima frase.
Miyako, a famosa garota dos cabelos violáceos, olhou pela janela a fim de esquecer mais uma vez aquele assunto. Ken Ichijouji era sim um rapaz que lhe despertava muita admiração. E isso estava mais do que claro, afinal, ela transbordava sinceridade e era super transparente. Mesmo sendo meio maluca e dotada uma risada descontrolável, a jovem era sentimental.
Mas no momento, entedia que devia dar tempo ao tempo. A hora certa para os dois chegaria.
— Mas não me referia ao Ichijouji. Falava de Daisuke... Sabemos que você tem uma queda por ele.
A moça voltou a olhar para dentro do carro não acreditando no que tinha acabado de ouvir.
— É VERDADEEEEE! – Sora concordou não contendo o riso – Além disso, os xingamentos e os tapas são só pra disfarçar.
— Admite aí, Inoue! Você já deu uns agarros naquele cara, né? Fontes me disseram que vocês trocaram saliva e tudo mais...
Miyako engasgou ao ouvir aquilo.
— MAS O QUÊ? — A garota enrubesceu ao se lembrar do fato. Será que Daisuke tinha metido a língua nos dentes e ela não sabia? Inoue cerrou os dentes só de pensar na ideia, imaginando qual das armas do seu arsenal usaria contra o ruivo quando o encontrasse – hmm, NEM MORRRTAAA! NUNCA FARIA ALGO DESSE TIPO – falou aos tropeços, tentando se mostrar convicta.
Miyako parou sua linha de pensamento por um instante e voltou a atenção para os seus amigos, que, descontroladamente, riam de sua fúria.
Ela tinha caído direitinho. Mais uma vez.
A menina suspirou, voltando a cor normal. Se Daisuke era mesmo um linguarudo, não importava, pois procuraria saber disso outro dia. No momento ela tinha que revidar as provocações.
A garota pigarreou, tentando voltar a um tom mais calmo e, de esguelha, forçou um olhar de ‘agora você me paga’ para a escolhida da luz.
— Sora, não acha melhor deixar a Hikari sentar na frente? – e deu uma cotovelada em Mimi, forçando-a a ajudá-la.
— Ei, não tente mudar de assun... – Takeru tentou se pronunciar, mas foi interrompido.
— Taichi já sabe? TAKERU, SE PREPARA, PORQUE ELE VAI TE PEGAR! – disse Mimi, botando a mão no ombro do rapaz.
— Você tem sorte, Hikari. Meu cunhado é um amor. E é ainda mais lindo de chofer! – Sora sorriu e passou a mão na cabeça dele, enquanto dirigia.
— Vocês já saíram juntos de carro?
— HMMMMMMMMM, e pra onde vocês foram?
— Ah, como eu queria que esse carro falasse.
Agora foi a vez de Miyako gargalhar. Seu plano tinha dado certo. As meninas ficaram tão entretidas em atacar o casal, que nem se lembravam de terem mencionado uma lembrança do passado negro da violácea.
***
Como haviam combinado no decorrer da semana, Yamato, Taichi e Izzy iriam mais cedo para arrumarem o chalé e comprarem a comida. Ah, e claro, levar a primeira remessa das malas de Mimi.
Takeru, por fim, tinha ficado com a tarefa de levar as garotas mais tarde, e como não sabia exatamente onde era, marcaram um ponto específico para se encontrarem.
***
18hs21min.
O caçula Takaishi ainda dirigia tranquilamente, oscilando na velocidade, percorrendo com muita cautela entre 75 km/h e 90 km/h, com as mãos firmes no volante, fazendo o horário das “nove e quinze”, como tinha aprendido na autoescola.
Entretanto, o asfalto estava bem molhado e, em um momento de deslize, o loiro não reparou numa cratera empoçada, colidindo o pneu dianteiro e traseiro esquerdo, fazendo os ocupantes pararem a linha de conversa por alguns instantes e se desestabilizarem do assento ao sentirem o impacto. Apesar do grande susto que fez Takeru frear bruscamente, jogando todos para frente, ninguém havia se machucado.
O rapaz de vinte anos estacionou o veículo no acostamento com certa dificuldade na direção, ligou o pisca alerta e saiu para examinar o ocorrido. Os dois pneus tinham furado e, para o azar deles, só havia um estepe no porta-malas.
Do lado de fora do automóvel, Miyako murmurou:
—Ah, que ótimo! Dois pneus furados, não tem sinal de celular, tá escurecendo e a chuva não para de cair.
— Você esqueceu de mencionar que não tem nenhum carro passando aqui pra nos ajudar. GARANTO QUE SE EU ESTIVESSE FAZENDO SEXO NO MEIO DO ASFALTO, ATÉ O PRESIDENTE JÁ ESTARIA SABENDO. – completou Mimi.
Com as roupas encharcadas, o caçula Takaishi consultou mais uma vez a quilometragem do painel, certificando-se de que estavam há uns dois quilômetros do ponto de encontro. A solução era ir andando até o local e avisar seus amigos do pequeno contratempo.
— Não tem problema, estamos bem perto. Vou andando até lá e já volto com ajuda. – garantiu o rapaz.
Mas antes que pudesse sair, Sora falou:
— Espera, Takeru! Ali tem uma casa, vê se tem alguém pode nos ajudar ou emprestar um telefone.
Com poucos passos, o jovem sorriu ao encontrar um casebre perdido no meio das árvores perto de onde estava o seu carro. A casa antiga estava tão escondida que qualquer um passaria despercebido. A tinta nas paredes já estava envelhecida, os vidros bem manchados e o telhado coberto por limo, revelando ser um lugar abandonado. Mas a luz interior estava acesa e alguns ruídos eram ouvidos do lado de fora.
Ao ver aquilo, o jovem engoliu em seco ao pensar que, levando em consideração a forte chuva, os relâmpagos e a lâmpada da varanda que piscava sem parar, a velha casa no meio do nada terminava de compor o cenário perfeito para um filme de terror.
Ele subiu os três degraus que davam para a porta de entrada e caminhou com cuidado pelo assoalho de madeira da varanda, que parecia estar apodrecido.
As moças assistiam tudo dentro do automóvel, enquanto o loiro fazia o trajeto. Tinham perguntado se ele queria companhia, mas ele meneou a cabeça em negativa, dizendo que estava tudo sobre controle e que logo voltaria com notícias. Elas acharam até estranho da parte dele fazer essa desfeita até pela companhia de Hikari, mas Takeru insistiu, dizendo que seria melhor que ficassem ali dentro do carro.
O fato começou a ficar mais estranho quando viram que Takeru não precisou nem bater a porta. Ao se abrir, repararam na expressão assustada do rapaz, que prontamente levantou os braços e foi puxado para dentro.
A luz da pequena casa se apagou e alguns gritos foram ouvidos. Gritos de Takeru.
Antes que as meninas pudessem pensar em sair do carro para ver o que tinha acontecido, dois rapazes encapuzados apareceram na pequena varanda de entrada, trazendo o corpo do loiro nos braços, com o rosto ensanguentado pela forte pancada que deviam ter lhe dado.
As moças imediatamente se abaixaram dentro do veículo, com certa suspeita de que conseguiram ser vistas pelos delinquentes.
— Gente, pelo amor de Deus, o que a gente vai fazer?
— Shhhh, fica quieta, Mimi! – Censurou Sora. A ruiva levantou cautelosamente a cabeça. De relance, ela conseguiu ver os rapazes acima do painel. Um pegou a chave do carro no bolso de Takeru e apertou um dos botões. Imediatamente, os vidros foram fechados e as portas foram trancadas, logo após o bipe.
Droga! Ela pensou. Eles sabiam que elas estavam ali. E estavam encurraladas.
— AI MINHA NOSSA, EU NÃO QUERO MORRER!
— Mimi!
— MEU DEUS, EU SOU TÃO JOVEM. E nem tive a chance de comprar aquela bota linda na vitrine do Shopping Central de Odaíba.
— MIMI! – repreendeu Hikari mais uma vez, com a voz mais firme.
— Tá, parei.
Os rapazes se aproximaram, deixando um TK desacordado perto do meio fio, com muito sangue no rosto. As moças continuaram abaixadas e a escolhida da sinceridade desesperada, já estava chorando. A cada passo que ouvia, seu coração parecia bater mais forte.
As outras também se mostravam aflitas, mas faziam um esforço enorme para não expor muita movimentação dentro do carro. Os passos ficaram mais audíveis e depois pararam.
De dentro do carro as meninas ficaram esperando por algo, mas nada aconteceu.
Alguns minutos passaram e tudo ainda continuava em silêncio.
Hikari resolveu levantar para ver a estranha quietude. Pelo vidro molhado das janelas, a morena não viu mais ninguém, exceto Takeru ainda caído. Ela queria fazer alguma coisa, mas continuavam trancafiadas ali dentro. A única solução no momento era quebrar o vidro. Entretanto, antes que pudesse pensar em pegar qualquer coisa para quebrá-lo, inesperadamente um dos rapazes com capuz apareceu na janela gritando com uma faca na mão.
Nesse momento, as garotas entraram em desespero. Mimi se esgoelava, com os olhos vermelhos e as lágrimas escorrendo. Os rapazes ao verem a expressão de pânico da moça não se contiveram. Um deles foi obrigado a sentar no chão de tanto gargalhar.
Aquele que estava com a faca na mão tirou o capuz preto, revelando um Taichi com os olhos vermelhos de tanto rir. Em seguida Yamato, que era o outro encapuzado, fez o mesmo. Izzy saiu de dentro da casa e Takeru, que estava caído no asfalto, levantou-se passando o dedo no suposto sangue que escorria na sua cabeça e o levou até a boca. Era apenas ketchup.
Sora não pôde acreditar no que estava acontecendo. Eles tinham armado tudo isso só pra pregar uma peça nelas? E seu namorado também estava envolvido nisso?
No momento, ela queria xingar o máximo que pudesse, correr atrás deles e dar uma surra. Mas continuava trancada. Takeru sorriu aliviado por ter se lembrado de levar as chaves do carro, do contrário, ele e seus amigos já estariam mortos.
Orgulhoso por seu plano ter sido concluído com sucesso, Taichi sorriu para as garotas do lado de fora e disse:
— Adivinha quem teve essa ideia?
Mimi Tachikawa, que não chorava mais, numa expressão séria e raivosa, pronunciou apenas duas palavras:
— ME. AGUARDE.
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