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62 Capítulo 62 - No cinema
Notas iniciais
Julie chegou na casa da sua tia por volta das 14 horas. Levou um susto ao descer do carro... “não sabia que tinha tantos primos assim!”. Estavam todos esperando pela sua chegada. Já vieram logo ajudar a descarregar as malas do carro. A boa notícia, a casa era realmente enorme e deslumbrante. A notícia ruim: tinha um quarto só pra ela — “seria bom antes, mas agora sem o Dani não”. E a notícia péssima: suas primas tinham implorado para deixarem Julie ficar junto com elas num mesmo quarto e conseguiram. Eram 15 primas no mesmo quarto. Praticamente um albergue.
Na pior das hipóteses, se Daniel não conseguisse encontrá-la, teria muita coisa pra se ocupar naquelas duas semanas. Até começou a ser contagiada pela euforia dos primos. Balada, praia, jogar vôlei seria sua rotina nessa viagem. Não conhecia Rio das Ostras. Parecia uma cidade lindíssima, perfeita para renovar as energias.
Depois de arrumarem suas coisas no lugar, todas enchiam sua cabeça com milhares de perguntas. Queriam saber todas as novidades. Ela só não podia contar as duas coisas mais importantes que estavam acontecendo com ela. Ter uma banda de rock de fantasmas e namorar um fantasma. Ninguém podia saber disso, mesmo porquê não acreditariam. Estava exausta da viagem, mas pelo visto não conseguiria deixar de ir à noite num show que teria na beira da praia.
Julie tentou ligar pra Bia, pra passar o endereço novo, mas só então se lembra que o telefone dela está estragado.
.............
Daniel volta para a edícula e encontra Félix. Ele conta que não encontrou ninguém no endereço que Julie tinha lhe dado. A casa parecia desocupada, como se tivessem mudado de lá há pouco tempo. Andou pela vizinhança e alguns vizinhos só sabiam que eles tinham ido de vez para Rio das Ostras. A única solução seria conseguir falar com ela pelo celular. E a primeira pessoa que ele pensou pra ajudar foi Bia.
Daniel arrastou Félix até a casa de Bia. “É agora que ele descobre!” – Félix pensou.
Félix levantou a mão para tocar a campainha e foi repreendido.
– Não acredito! Pra quê você vai tocar a campainha?!
– Mas é claro que vamos tocar a campainha! Não é certo en...
Daniel desapareceu, entrando na casa dela. Voltou: — Ela não está em casa!
– Não faça mais isso! Ela pode se assustar!
– E eu sei onde vamos encontra-la! Eu soprei o nome da Bia no ouvido da mãe dela e descobri. – sorriu torto.
– E onde é que ela está então?
Daniel imitou a voz da mãe dela: — “A Beatriz já está demorando naquela locadora!”
– A gente não devia ficar espionando a vida dos outros! – Félix o repreende.
– Ahh! Pára com isso! Eu sei que você está mais interessado em saber onde ela está do que eu. – Daniel disse e ficou esperando a reação do amigo, que ficou sem graça.
– Eu não quero que ela pense que fico investigando cada passo que ela dá. – Félix se desculpou.
– Mais isso é muito normal...- Daniel afirma sarcástico. – Quando a pessoa está apaixonada ela fica tentando descobrir tudo sobre a outra. É assim mesmo. Mas já que você não está apaixonado, não iria querer saber por onde ela anda agora, não é mesmo?
– Eu gosto da Bia. Somos amigos. Eu me preocupo com ela.
Félix só se deu conta de que estavam indo em direção à locadora quando Daniel exclamou:
– Parabéns! Ela não falou mentira pra mamãe! Está mesmo na locadora.
Félix pediu pra ele falar mais baixo. Entraram na locadora, só estavam visíveis para Bia. Ela percebeu duas pessoas se aproximando e olhou espantada pra ambos.
Ela sussurrou a pergunta que Félix temia ouvir:
– Como foi que vocês me acharam aqui? — O rapaz atrás do balcão ficou olhando pra ela. — Daniel, não era pra você estar lá na praia com a Julie a uma hora dessas?
– Foi por isso que viemos atrás de você! Nós precisamos da sua ajuda pra descobrir onde ela está. – Félix diz.
– A tia da Julie não está morando mais no mesmo endereço. Ela se mudou pra outra cidade.
– Sério? –Bia fica surpresa. – Coitada da Julie. Tenho que dar um jeito de achá-la. Só preciso primeiro me decidir qual filme vou levar. – Olhou pra Félix, que só balançava a cabeça negativamente, por trás de Daniel. Ela estava segurando “Amor Além da Vida.”. Daniel viu e não hesitou a perguntar:
– Ahh! Esse filme é bem interessante! Está apaixonada também Srta. Bia? Porquê eu conheço alguém que...
Félix tapou a sua boca antes que terminasse a frase. Pra disfarçar ele convidou Bia pra ir ao cinema à noite, junto com os três.
Os olhos dela até brilharam. – Juntos? Quer dizer... nós quatro? Vocês vão visíveis né?
Félix confirmou pelos quatro. Daniel já se sentiu sobrando, mas ia também porquê não tinha nada melhor pra fazer.
– Pronto! Então vamos lá! Não precisa mais levar filme nenhum. Vamos Bia! Você tem que ligar pra Julie.
Eles finalmente conseguiram arrancá-la da locadora.
Bia não conseguiu falar com Julie. Só dava caixa-postal. Abriu o notebook, procurou pela amiga, mas ela não estava on. Então só deixou uma mensagem pedindo pra que ela entrasse em contato com urgência.
.......
Martin chegou mais cedo do seu passeio porque a Galeria estava transbordando de gente viva e morta. Lá ficou sabendo que o motivo de tanta aglomeração era que as lojas entrariam em promoção de Natal.
Voltou de lá com muitas idéias na cabeça e as mãos vazias, ou quase.
Quando saía de lá, encontrou no chão um pequeno pacote de presente que apanhou automaticamente. Olhou em volta e nem sinal de alguém procurando pelo pacote. Então a curiosidade falou mais alto e abriu o pacote. Apenas sorriu. “Ah... esse presente não pode ficar sem um dono. Já sei quem vai ganhar.!”
Ao chegar na edícula, Martin se depara com os dois se arrumando. Félix parecia bem empolgado. Eles tinham conseguido uma revista com vários estilos masculinos. Já que não tinham muito o que fazer, ficaram testando o visual. E as mensagens não paravam de chegar no mundo espectral, deixando Demétrius fora de si. Faria de tudo pra sumir com eles de vez, quando chegasse a hora certa.
Martin também achou estranho encontrar Daniel ali. “Será que eles brigaram?” Logo ficou sabendo de todos os desencontros do dia... inclusive que sua querida Laila havia o procurado lá.
Daniel conta quase tudo, afinal não seria ele que iria falar mal da garota. Apenas omitiu o beijo acidental. Disse que ela estava esperando sua ligação e aproveitou pra avisa-lo que ele estava intimado a ir com eles no cinema.
Martin imediatamente sai à procura de um jeito de ligar pra Laila. Entrou invisível na lanchonete e “pegou emprestado” o celular de uma garota que estava praticamente ficando com um carinha lá dentro.
Ligou pra Laila e tentou ser breve e ignorar o fato que todos olhavam pra ele usando um celular cor-de-rosa.
– Oi! Está afim de assistir um filme com a gente hoje? Lá pelas 17h, no shopping. Senti saudades. Olha, não posso demorar porque estou falando do celular de um amigo. Posso te esperar lá?
Laila mal pôde pensar. Resolveu aceitar. “Então eles vão, os três... isso será bem interessante.” – Laila sorriu e foi se arrumar.
....
Os três estão prontos. Só faltava mesmo a Julie. Era estranho saírem sem ela. Daniel tinha todos os motivos para ficar mal-humorado. E pra completar ia segurando uma vela dupla.
– Não se esqueçam! Nada de fotos! Cuidado com os espelhos – Daniel fala com eles. – Não temos reflexo! Não temos matéria!
Os 5 se encontram no hall do cinema. O filme em cartaz era “O Massacre da Serra Elétrica” em 3D. Bia pede pra Laila se ela pode fazer uma ligação rápida de seu celular. Tenta falar com a Julie novamente, mas só chama e ninguém atende. Nem ia atender porquê ela estava aproveitando a praia e o celular ficou dentro da bolsa.
Daniel continuava intrigado com os óculos escuros de Laila, que ela só tirou para colocar o de 3D.
“Estranho, ela quase não enxergava hoje de manhã, como pode agora estar assistindo filme com óculos escuros?”
O filme tinha uma vantagem, ninguém conseguia pensar em comida. E isso era ótimo porquê só Bia ia poder comer. Félix fica apavorado com as cenas enquanto Laila se aproveita para se agarrar a Martin e eventualmente apertar a mão de Daniel.
O celular começa a vibrar na bolsa de Laila. Era Julie retornando a ligação. Laila pediu licença e saiu da sala para atender.
Desconfiado, Daniel vai atrás. Fica de longe observando, invisível. Se aproxima dela até conseguir ouvir nitidamente.
“Então, o Dani pediu o celular emprestado para ligar pra você. Nós estamos no cinema!”
Ele viu um sorriso se formando nos lábios dela. E pensou “Como ela pode falar desse jeito com a Julie!”
Mas de repente, algo lhe chamou a atenção. Era o vidro que separava a área do cinema dos banheiros. Ele refletia as pessoas que passavam por ali. E viu que ela não tinha reflexo, apesar de estar parada bem perto. Ficou pensativo, tinha alguma coisa errada ali e precisava descobrir.
Ele puxou-a pelo braço, voltando a ficar visível. – O quê você está fazendo?
Julie ouviu a voz do Daniel. “Então era verdade! A garota não estava mentindo.
– Que foi amor? – Laila pergunta cinicamente, destacando a última palavra.
– Alô! Daniel? O que está acontecendo? – Julie fica muito ansiosa.
– Me dá esse celular! – Daniel vai pra cima de Laila, tentando pega-lo.
Laila deixou o celular cair no chão de propósito e quebrar o visor.
– Ahh! Olha só! Que droga! Agora fiquei sem celular!!
– Daniel puxou-a pra um canto e disse:
– Que história é essa de falar desse jeito com a Julie? O que foi que você fez?
– Nossa! – diz Laila. – Você é um estúpido! Podia pelo menos me agradecer pelo endereço que eu anotei pra você! E pedir desculpas também por quebrar meu celular! – “Tudo bem. Ele vai demorar um pouquinho mais de tempo pra encontrara casa, porquê eu mudei só um pouquinho. Ela disse 137 e eu anotei 187.”
– Ela te falou esse endereço? Mas é de outra cidade?
– Vim aqui fora atender, numa boa, só queria ajudar. Agora você me trata desse jeito? Sim! Ela disse que era em Rio... Rio alguma coisa.
– das Ostras! ?
– É isso.!
– E o que mais a senhorita está sabendo que eu não sei, hein Srta. Laila? – “Que é fantasma!”-pensou.
Ele percebe que Laila fica meio nervosa quando ele fala a encarando muito. Mas fica muda.
– E o que você está tentando esconder com esses óculos? – levantando a mão em direção ao seu rosto. Provavelmente para tira-los.
– Não tenho nada pra esconder!
“Pelo menos ela anotou o endereço. Mas pra quê esconder que é fantasma?” – ele pensou. “Se ela se arrisca desse jeito, interagindo com o mundo dos vivos, como é que a Polícia Espectral não a capturou ainda?”
Laila já estava aflita pra voltar logo. – Podemos voltar agora?
– Só mais uma pergunta. Posso?
– O quê?
– Você é uma de nós?
Ela se sentiu acuada. Teria que disfarçar muito bem. O Daniel é muito esperto. Olhando pra ele, apenas suspendeu as sombrancelhas fazendo ar de surpresa.
– O quê? Uma de nós?
– Você sabe do que eu estou falando... fantasma!
Ela hesitou em revelar que sim. Mas apenas respondeu.
– Fantasma!? Você é doente! – voltou pra sala de exibição rapidamente, fazendo cara de incrédula. Mas isso ficou martelando sua cabeça o restante do filme.
Ele ficou olhando-a escapar e fala pra si mesmo. – Faltou perguntar por que você passou o filme todo agarrando minha mão.
Daniel também voltou. Ninguém percebeu a confusão que tinha rolado. Martin parecia uma criança rindo à toa de mãos dadas com Laila. Félix e Bia estavam alheios ao restante do público. E ele torcendo pro filme acabar. “Quer saber, vou lá nesse endereço agora!”
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