Apenas mas uma de amor
45 Renesmee- Fila de doação
Notas iniciais
O jantar tinha sido um desastre. Eu não sabia o que esperava, mas definitivamente não era aquilo. Jacob parecia irritado com a noiva dele — que parecia ter uma ideia muito diferente da minha sobre o que seria um encontro casual — causando uma cena, me deixando sem saber para onde olhar. Eu não tinha direito de me sentir assim, mas não conseguia evitar. A raiva crescia dentro de mim, sem saber como lidar com tudo aquilo.
Quando voltei para o hotel, estava furiosa, e nem mesmo eu entendia o porquê. Eu tinha a impressão de que algo estava errado, algo que eu não poderia controlar, e isso me deixava ainda mais irritada. Tirei os sapatos com força e me joguei na cama, fechando os olhos. Queria tanto falar sobre Aurora, mas as palavras estavam presas. Como eu poderia falar com Jacob sobre ela se ele tinha uma vida? Uma vida que não incluía eu, que não fazia parte do que ele sonhou para o futuro.
A campainha tocou, e por um momento pensei em ignorar, mas então ouvi o som da voz dele. Jacob estava ali. Levantei-me e fui até a porta, surpresa por vê-lo.
— Jacob, como você... — comecei, mas ele me interrompeu, entrando rapidamente no quarto.
— Sei que você me procurou para me dizer algo, e eu quero saber o que é. — Ele disse com firmeza, mas também com uma suavidade que me fez perceber que não havia volta.
Eu fechei a porta devagar e me virei para ele, cruzando os braços, tentando esconder a confusão que estava por dentro. A última coisa que eu precisava era falar com Jacob sobre tudo o que havia acontecido, mas ele parecia determinado.
— Isso é invasão, sabia? — Minha voz saiu mais dura do que eu queria.
— Talvez. Mas você me deixou com mais perguntas do que respostas, Nessie. — A expressão dele era séria, mas havia algo mais ali. Curiosidade. Ansiedade. Algo que eu sabia que ele não poderia controlar, assim como eu não conseguia controlar o que sentia.
Eu suspirei. Isso não estava saindo como eu esperava.
— Não era assim que eu queria ter essa conversa. — Eu admiti, sentindo o peso das palavras.
— Então vamos fazer do seu jeito. Fale, eu estou ouvindo. — Jacob se sentou na poltrona, me olhando com uma paciência que parecia infinita.
Eu encarei-o por um momento, tentando reunir forças. Eu precisava falar, Aurora precisava dele. Mas não era simples, não era apenas uma conversa. Era tudo o que estava preso dentro de mim.
— Não é tão simples, Jacob. — Minha voz vacilou, e eu me senti perdida por um instante. Como eu poderia explicar tudo o que estava acontecendo, tudo o que não podia mudar?
Ele me olhou com a mesma intensidade de sempre, mas algo em seus olhos dizia que ele estava disposto a ouvir, mesmo que ele não soubesse onde isso nos levaria.
— Nessie, eu não vim até aqui para receber mais enigmas. Diga o que precisa dizer. — Ele estava impaciente agora, mas ainda com aquele olhar atento, como se estivesse esperando por uma resposta que ele soubesse que eu não teria facilidade em dar.
Eu fechei os olhos por um momento, buscando forças em Aurora. A menina que me fazia lutar por tudo o que eu acreditava ser certo. Suspirei fundo e olhei para Jacob, decidida a começar.
...
Eu fiquei ali, olhando para a porta por um bom tempo depois que Jacob saiu, furioso. O som de seus passos se afastando ainda ecoava na minha mente, e eu sentia meu peito apertado com o peso de tudo o que tinha acontecido. A conversa sobre Aurora não havia saído como eu esperava — claro que não sairia. Eu tinha omitido a existência dela por nove longos anos. Eu sabia que Jacob não entenderia de imediato, que ele ficaria magoado, e, talvez, até raivoso. Eu sabia o quanto ele tinha direito de estar assim, mas a realidade de enfrentá-lo com a verdade me fez perceber o quanto ele ainda significava para mim.
Eu me joguei na cama, abraçando meus joelhos, sentindo as lágrimas escorrendo sem parar. Eu não queria chorar, não queria me mostrar vulnerável, mas não havia mais como esconder. Eu precisava admitir o que eu já sabia: meus sentimentos por Jacob não haviam mudado. Eu ainda o amava. Eu ainda queria que ele fizesse parte da minha vida. Mas, de repente, me senti tão pequena e perdida, como a Nessie de dez anos atrás, que não sabia o que fazer com tudo o que estava sentindo, que não sabia como lidar com as emoções que cresciam dentro de mim.
— Como eu pude fazer isso? — sussurrei para mim mesma, a voz embargada. Eu tinha escolhido esconder a verdade por tanto tempo, e agora, depois de tanto tempo, as consequências estavam aqui. Eu sabia que Jacob tinha todo o direito de ficar furioso, de se sentir traído, mas ao mesmo tempo, eu precisava que ele entendesse. Eu precisava que ele soubesse que, apesar de tudo, eu nunca o deixei de amar.
Mas será que ele me perdoaria? Será que o fato de ter me afastado por tanto tempo e de ter escondido Aurora de todos faria com que ele me visse de uma maneira diferente? Eu não sabia mais. Eu queria acreditar que ele ainda tinha algo por mim, mas agora a dúvida me consumia. Eu não sabia o que esperar.
— Eu não posso perder você de novo. — Murmurei, as palavras escapando entre as lágrimas. Eu não queria perder Jacob. Não depois de tanto tempo, não depois de tantos anos. Mas eu sabia que as coisas nunca mais seriam as mesmas entre nós. Eu sabia que ele precisava de tempo, e eu não sabia se ele seria capaz de perdoar tudo o que eu havia feito.
Me levantei da cama e fui até a janela. O céu lá fora estava escuro, e o vento parecia refletir o que eu estava sentindo por dentro. Eu estava perdida. E a verdade era que, por mais que eu quisesse correr atrás de uma solução, não havia nada que eu pudesse fazer agora. Eu tinha que lidar com o fato de que, por mais que a dor fosse forte, o tempo teria que se encarregar de curá-la. E, quem sabe, de dar a Jacob e a mim a chance de reconstruir o que restava.
...
Na manhã seguinte, após uma noite de insônia e reflexões, eu sabia que precisava falar com Aurora. O peso da minha conversa com Jacob ainda me consumia, mas minha filha sempre teve a capacidade de trazer alguma calma ao meu coração. Peguei meu celular e, com as mãos ainda tremendo, fiz a vídeo chamada para ela.
A tela piscou por um momento antes de Aurora aparecer, seu rosto parcialmente iluminado pela luz suave do quarto. Ela sorriu, mas eu notei imediatamente as olheiras escuras sob seus olhos, um sinal claro de que ela não estava dormindo bem.
— Oi,mãe! — ela disse, tentando sorrir mais animada do que eu sabia que ela estava, mas a falta de energia era visível.
— Oi, meu amor. Como você está? — perguntei, sentindo meu coração apertar. Eu podia ver o cansaço evidente em seu rosto.
Aurora fez uma careta, os olhos se estreitando ligeiramente.
— Estou... estou bem, mãe. Só... um pouco cansada. Acho que não dormi direito. — Ela se ajeitou na cama, e pude ver que estava tentando disfarçar o quanto estava exausta.
Eu não pude deixar de notar. As olheiras eram mais profundas do que o normal, e isso me preocupava.
— Aurora, você está comendo direito? Dormindo bem? — minha voz saiu preocupada, mais do que eu pretendia. Eu precisava que ela soubesse que me importava com sua saúde, mais do que qualquer coisa.
Aurora hesitou por um momento, mexendo no cabelo com uma expressão cansada.
— Eu... estou tentando, mãe. Eu tomei a medicação como a tio Dan pediu, mas... eu não sei, parece que não está ajudando muito. — Ela disse, a voz baixa.
Nesse momento, Bella apareceu na tela, sorrindo para mim.
— Oi, Renesmee. Está tudo bem com você? — perguntou Bella, mas seu olhar logo se desviou para Aurora— Aurora, você fez uso das medicações direitinho— Bella disse com uma voz suave, mas que carregava uma preocupação óbvia.
Aurora assentiu, mas sua expressão não era das melhores.
Eu olhei para Bella, que me lançou um olhar compreensivo.
— Isso é efeito colateral. Infelizmente, essas medicações podem causar um cansaço extremo, especialmente nos primeiros dias de uso. Não se preocupe tanto. — Falei tentando acalmar a todos. Eu sabia que isso era normal, mas ainda assim, a preocupação não deixava meu peito.
— Eu sei que é difícil, mas vai passar. Tente descansar, querida. — Bella disse com um sorriso suave, olhando para Aurora com carinho.
Aurora sorriu levemente, mas ainda assim parecia exausta.
— Eu sei, vovó. Vou descansar mais. — Ela respirou fundo, tentando se recompor.
Eu sorri para ela, tentando esconder minha própria apreensão.
— Eu te amo, Aurora. Cuide-se. Vou dar notícias logo. — Eu falei, sentindo um nó na garganta.
Aurora, com um olhar esperançoso, fez uma pausa antes de perguntar, quase ansiosa.
— Você falou com o meu pai, mãe? — ela perguntou, um brilho de expectativa nos olhos.
Eu fechei os olhos por um momento, sentindo a dor da situação, e então respirei fundo.
— Sim, falei com ele, querida. — Eu disse, tentando ser o mais suave possível. — Mas ainda não é o momento. Em breve, você vai vê-lo, eu prometo.
Aurora pareceu animada com a possibilidade, e seus olhos brilharam.
— Em breve, mamãe? Eu mal posso esperar! — ela disse, quase saltando de empolgação, e isso me fez sorrir, mesmo que meu coração estivesse pesado.
— Em breve, minha princesa. — Eu falei, a voz tremendo um pouco.
Aurora acenou e deu um último sorriso para mim.
— Te amo, mamãe. Cuidado aí! — ela disse antes de a tela se desligar.
Eu suspirei profundamente quando a chamada foi encerrada. Olhei para o celular por um momento, pensando nas palavras de Aurora e no que realmente significava estar longe dela.
Meu coração ainda estava pesado, mas, ao menos, eu sabia que Aurora estava com Bella e que ela estava sendo cuidada. Isso me dava um pouco de conforto, mas a ansiedade sobre Jacob apenas aumentava.
Depois de terminar a chamada com Aurora, sentei-me no sofá, deixando meu corpo relaxar por um instante. O peso da conversa ainda estava sobre mim, e eu precisava processar tudo o que havia acontecido. Mas, antes que pudesse fazer isso, meu celular tocou novamente. Olhei para a tela e vi o nome de Daniel. O coração apertou dentro de mim. Era cedo para ele ligar.
— Olá, Daniel — disse, tentando disfarçar a ansiedade na minha voz.
— Renesmee, eu fiz uma nova coleta de Aurora — começou ele, com um tom sério. — Infelizmente, a doença dela não regrediu em nada. Os resultados ainda são preocupantes.
Meu peito se apertou. Eu já sabia que não seriam boas notícias, mas ouvir aquelas palavras ainda foi como um golpe. Eu fechei os olhos por um momento, tentando processar a informação.
— Então o que devemos fazer o transplante? — perguntei, a voz tremendo.
— Nós vamos precisar fazer o transplante, Renesmee. Eu já coloquei Aurora na fila de doação, mas precisamos nos preparar para o procedimento o quanto antes. Ela precisa da nossa ajuda agora.
Aquelas palavras ressoaram em minha mente, mas minha mente estava distante. Eu sabia que isso era um risco, que a vida de minha filha dependia disso, mas o que mais poderia fazer? Estava tão impotente diante da situação.
— Obrigada, Daniel — murmurei, a voz baixa. — Farei o que for preciso.
Ele tentou soar reconfortante. — Eu estarei aqui para o que precisar. Não se preocupe. Vamos cuidar dela.
Agradeci novamente e desliguei a chamada, sentindo o peso da responsabilidade e da preocupação tomar conta de mim. O coração batia acelerado, e minha mente girava com as informações. Eu não sabia o que fazer com tudo isso, mas uma coisa era certa: eu tinha que estar forte para Aurora. Tinha que ser forte por ela.
Fechei os olhos, tentando manter o controle, mas uma onda de emoção tomou conta de mim. Eu comecei a chorar, sentindo todo o medo, a raiva, a impotência se misturarem em um só lugar. Eu não queria perder minha filha. Eu não podia.
De repente, o som do interfone me tirou do meu transe. Levantei-me rapidamente, tentando me recompor. Respirei fundo e atendi.
— Sim? — perguntei, com a voz ainda trêmula.
— Senhorita Renesmee, o Senhor Jacob Black deseja vê-la — informou a recepcionista.
O nome de Jacob fez meu coração disparar, mas havia algo mais por trás disso. Eu ainda não havia dito tudo a ele. Eu precisava falar sobre Aurora, precisava que ele soubesse. Não podia mais adiar isso. Meu corpo estava tenso, mas sabia que era a hora.
— Pode liberar a entrada — respondi, tentando sozinha encontrar algum equilíbrio.
Senti o nervosismo crescer dentro de mim enquanto me levantava do sofá. O tempo parecia se arrastar, e logo a campainha soou. Dei um último suspiro, tentando me recompor antes de abrir a porta.
Quando abri, meu olhar se encontrou com o de Jacob. Ele estava ali, com uma expressão tensa, como se houvesse muito mais para dizer. Antes que eu pudesse reagir, ele me puxou para um abraço apertado, envolvendo-me de forma inesperada. Eu fiquei paralisada por um momento, mas logo o senti mais firme, mais presente.
— Me desculpa, Nessie...
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