Apenas mas uma de amor

43 Jacob- Uma nova chance



O apartamento de Rachel era o mesmo refúgio de sempre: iluminado, acolhedor e com aquele cheiro familiar de café recém-passado. Quando entrei, ela estava sentada no sofá com um livro no colo, e Paul, ao lado dela, mexia no celular. Assim que me viu, Rachel fechou o livro e franziu a testa, claramente percebendo que algo estava errado.

— Jake? — Ela se levantou, vindo até mim. — O que aconteceu? Você está com uma cara...

Paul se levantou também, mas se afastou para a cozinha, talvez para nos dar privacidade.

— Eu encontrei a Nessie. — Soltei as palavras como se elas fossem pedras, pesadas e carregadas de emoção.

Rachel parou por um segundo, surpresa.

— Você encontrou com ela? E como foi?

— Ela disse que tinha algo importante para me contar. — Respirei fundo, apertando as mãos em punhos ao lado do corpo. — E contou.

Rachel me encarou, esperando que eu continuasse.

— Eu tenho uma filha, Rachel. Aurora. Ela tem nove anos, e Renesmee... ela nunca me contou.

Os olhos de Rachel se arregalaram, e ela levou a mão à boca.

— Você está falando sério?

— Estou. — Minha voz saiu mais áspera do que eu queria. — Nove anos, Rachel. Nove.

Paul voltou da cozinha com um copo de uísque e me entregou sem dizer nada. Tomei um gole, sentindo o líquido queimar na garganta. Rachel, por outro lado, parecia absorver cada detalhe, processando lentamente.

— Ela não mencionou nada... — Rachel murmurou, mais para si mesma.

— Porque ela escondeu isso de todos. — Respondi, ríspido. — Disse que estava com medo, que não sabia se a criança era minha ou do... — Minha voz falhou ao pensar no nome de Tom. — E depois decidiu que não tinha coragem de me procurar.

Rachel suspirou, sentando-se novamente no sofá.

— Jake, eu não sei o que dizer.

— Não tem o que dizer, Rachel. Ela tirou de mim a chance de ser pai.

Rachel olhou para mim, com os olhos cheios de compaixão, mas também com algo mais: determinação.

— Jake, eu sei que isso é um choque. Mas você tem ideia do que ela passou naquela noite? — perguntou, a voz séria. — A humilhação, o sequestro, a violência, o trauma... Ela estava sozinha. Você não faz ideia do peso psicológico que isso teve nela.

— E você acha que isso justifica esconder a minha filha de mim? — rebati, a raiva voltando à tona.

Rachel balançou a cabeça.

— Não estou dizendo que ela fez a escolha certa. Mas posso entender por que ela agiu assim.

— São nove anos, Rachel. Nove. Ela me deixou fora da vida da minha própria filha.

Rachel se levantou novamente, cruzando os braços.

— E agora ela está aqui. Procurou você, não foi? Isso significa alguma coisa.

— Não muda o que ela fez.

Rachel deu um passo à frente, me encarando de perto.

— Jake, você ainda ama a Nessie. Sempre amou. E agora você tem a chance de conhecer a sua filha, de fazer parte da vida dela.

Suspirei, passando a mão pelos cabelos.

— É muita coisa, Rachel.

— Eu sei. — Ela colocou a mão no meu ombro, apertando levemente. — Mas o destino te deu uma nova chance. Ao invés de ficar preso ao passado, talvez seja a hora de olhar para frente.

Paul, que até então estava em silêncio, deu de ombros.

— Sua irmã tem razão, cara. Se ela procurou você, é porque quer consertar as coisas.

Olhei para os dois, percebendo o peso das palavras deles. Rachel tinha razão. Renesmee me procurou porque precisava de mim, talvez pela primeira vez em anos. E agora eu precisava decidir se estava disposto a ouvir, a realmente entender.

Jacob


Cheguei ao Fórum no horário de sempre. O lugar estava já em pleno movimento, advogados circulando com seus processos, juízes entrando em suas salas, e Molly, impecável como sempre, me esperava perto da entrada.


— Bom dia, Dr. Black. — Ela me cumprimentou com um sorriso profissional e ajustou os papéis em sua mão. — Você tem uma agenda cheia hoje. Às dez, reunião com o promotor sobre o caso dos Peterson. Às onze, revisão dos depoimentos da audiência de amanhã. E... — Ela hesitou por um instante. — Renata está na sua sala.

Suspirei, já sentindo o peso da manhã.

— Molly, cancele tudo. — Passei uma mão pelo rosto, exausto. — Hoje não vou conseguir me concentrar nessas reuniões.

Ela me olhou, surpresa, mas assentiu.

— Claro. Cuido disso.

Segui para minha sala, empurrando a porta e encontrando Renata sentada na poltrona diante da minha mesa. Ela se levantou assim que me viu entrar, sua expressão indecifrável.

— Jacob, obrigada por me receber. — Ela começou, a voz hesitante.

Fechei a porta atrás de mim e caminhei até minha cadeira, mas não me sentei.

— Renata, o que você quer?

Ela respirou fundo antes de falar.

— Quero pedir desculpas pela maneira como agi ontem. Eu... eu estava com ciúmes, com raiva, e acabei falando coisas que não deveria. — Seus olhos procuraram os meus. — Sei que estraguei tudo.

Cruzei os braços, mantendo um tom calmo.

— Eu aceito suas desculpas, Renata. E agradeço por ter vindo até aqui para falar sobre isso.

Ela pareceu aliviada, mas logo emendou:

— Eu só queria entender. Foi por causa dela, não foi? Por causa da Renesmee?

Suspirei, sabendo que ela merecia a verdade.

— Não é apenas sobre a Renesmee. — Fui honesto. — A verdade é que... tem muita coisa acontecendo na minha vida agora. Coisas importantes, difíceis. E você tem razão, Renata. Eu não posso te colocar como prioridade nesse momento.

Ela assentiu lentamente, seus olhos brilhando de uma emoção que ela tentava segurar.

— Então é isso? Acabou mesmo?

Eu a encarei, sentindo o peso da situação.

— Sim, acabou. — Falei com gentileza. — Você merece alguém que possa te dar toda a atenção e o carinho que você deseja. E eu simplesmente não sou essa pessoa.

Renata mordeu o lábio, segurando as lágrimas. Após um momento, ela respirou fundo e se endireitou.

— Tudo bem, Jacob. — Sua voz era firme, embora seus olhos mostrassem o contrário. — Eu espero que você encontre o que está procurando.

Ela pegou sua bolsa e saiu, fechando a porta atrás de si.

Sentei-me na cadeira, passando as mãos pelos cabelos e soltando um longo suspiro. A conversa com Renata havia sido mais tranquila do que eu esperava, mas ainda assim me deixou abalado. As palavras de Rachel e Paul ecoavam na minha cabeça: "O destino te deu uma nova chance."

Olhei para os papéis sobre minha mesa, mas sabia que não tinha cabeça para nada daquilo. Levantei-me e saí da sala, encontrando Molly no corredor.

— Molly, não vou voltar mais hoje. — Informei, ajeitando o paletó.

Ela me lançou um olhar curioso, mas não fez perguntas, apenas assentiu.

— Certo, eu reorganizo sua agenda.

Com isso, deixei o Fórum, decidido a seguir meu coração, não importava onde isso me levasse.

Cheguei ao hotel decidido, embora meu coração estivesse batendo mais rápido do que o normal. Passei pela recepção e me aproximei do balcão.

— Boa tarde, eu gostaria de falar com a senhorita Cullen. Pode anunciá-la, por favor?

A recepcionista pegou o telefone e fez uma ligação rápida.

— Senhorita Cullen, o senhor Jacob Black está aqui na recepção e gostaria de vê-la... Sim, claro. — Ela colocou o telefone no gancho e me olhou. — Sua entrada está autorizada, senhor.

— Obrigado.

Segui até o elevador, apertando o botão para o andar dela. Enquanto subia, me perguntei se estava fazendo a coisa certa. Era uma bagunça; minha mente estava em um turbilhão, mas uma coisa era clara: já tinha perdido Renesmee uma vez. Não estava disposto a cometer o mesmo erro.

Quando cheguei à porta do quarto, respirei fundo e toquei a campainha. Esperei alguns segundos que pareceram uma eternidade, até que a porta finalmente se abriu.

Renesmee estava ali, mas algo na sua expressão me desarmou. Seus olhos estavam vermelhos, o rosto inchado, claramente de tanto chorar. Ela me olhou em silêncio, surpresa por me ver ali, mas não disse nada.

Sem pensar duas vezes, puxei-a para os meus braços, segurando-a firme.

— Me desculpa, Nessie. — Murmurei contra seus cabelos.

Ela parecia hesitar por um momento, mas então seus braços envolveram minha cintura, e senti o tremor em seu corpo.

— Jacob... — Sua voz saiu em um sussurro fraco, carregado de emoção.

Eu não disse mais nada, apenas a segurei, tentando passar com aquele gesto tudo o que as palavras não poderiam expressar. Ela precisava saber que, apesar de tudo, eu estava aqui agora. E não ia a lugar nenhum.