Apenas Um Olhar
17 O homem por trás da máscara.
Notas iniciais
Passei a ajudar meus filhos com a lição de casa. Agora que tinham entrado na escolinha, notei que estavam bem mais espertos. Aprenderam uma variedade enorme de cores, aprenderem as letras do alfabeto e a contar. Isso já era um grande progresso. Eu estava muito orgulhosa dos dois.
Sempre que chegavam em casa estavam famintos. Mas primeiro precisavam tomar um banho e trocar de roupa. Eu os ajudava, mas também gostava que eles aprendessem a se virar sozinhos e não depender tanto de mim. Depois de comer, nós sentávamos na mesa e começávamos a fazer a lição.
Eles faziam tudo basicamente sozinhos, eu só estava ali para dar um apoio. Vinicius era mais dedicado, terminava tudo muito rápido. Depois eu só dava uma conferida para saber se estava tudo certo. Já o Gustavo demorava mais. Ele até pedia para o irmão fazer a lição para ele, para ele poder ir brincar no quarto.
Ele era muito distraído e agitado.
Mas eu dava um jeito de contornar isso.
Quando Heloísa aparecia com a filha dois anos mais velha, os garotos faziam uma festa. Eles gostavam muito de ter companhia novas para brincar. E quando eu raramente ia visitar a minha família, eles passavam o dia todo no quintal brincando com os primos.
Juliana já estava grávida do seu quarto filho.
Augusto estava com a terceira namorada. Achei que ele iria durar mais com a Paola. Mas eles terminaram quando ela teve que ir para a faculdade. Ele ainda não pensava nesse tipo de coisa. Só queria aproveitar a vida, o que deixava a mamãe uma fera.
Sua nova namorada chama-se Thaisa. Ela é um ano mais velha. A garota até que é bonita. Tem um cabelo ruivo grandão e olhos claros. Mas ela é chatinha. Muito fresca. Não sei se esse namoro vai durar muito. Eu particularmente espero que não. Acho que meu irmão, apesar de cabeça-dura, merece algo melhor.
— Gustavo, querido, por favor, ajuda seu irmão a recolher os brinquedos espalhados pelo chão. – eu pedia, com toda paciência do mundo. Não gostava de fazer o trabalho pesado por eles.
— Ah, mãe, depois eu ajudo. – dizia ele, com um leve dar de ombros. Era de dar nos nervos. Mas eu nunca gritava ou batia nos meus filhos. — Agora estou ocupado assistindo tevê.
— Gustavo – Carlos que estava sentado no sofá com o computador sobre o colo lhe chamou a atenção. — você não ouviu sua mãe, não? Ou será que vou te que falar uma segunda vez?
O Carlos sim era muito mais duro e firme com eles do que eu.
— Ta bom, pai. – Gustavo bufou. — Eu já entendi.
Carlos e eu não estavam muito bem. Quer dizer, eu já estava acostumada com essa situação. Ele lá e eu cá. Eu cuidado da casa e dos filhos e ele ocupado com o seu trabalho.
Nada me tirava da cabeça que ele tinha outra mulher. Eu não gostava de pensar nessas coisas. Ainda gostava muito dele. Não posso dizer que os sentimentos são os mesmo de antes. Mas ainda consigo enxergar o homem bom pelo qual me apaixonei por trás dessa casca grossa que ele tem.
Eu posso estar completamente enganada, mas a esperança é de fato a última que morre.
Sexta-feira, no finalzinho da tarde, Heloísa e eu decidimos levar as crianças no cinema. Pelo menos uma vez por semana inventávamos de fazer um programa juntos.
Eu sempre gostei de ver filmes de animação, mas pelo visto a Heloísa não era tão fã quanto eu. Ela pediu para eu ficar com as crianças vendo o filme, enquanto ela iria fazer compras.
Eu aceitei numa boa.
Depois do filme nós marcamos de nos encontrar na praça de alimentação do shopping, que por sinal estava lotada. Ficamos na fila do Mc Donald’s quase meia hora para pedir os lanches. Depois foi mais difícil ainda encontrar uma mesa vazia.
Eu estava tão diferente desde que me casei e tive filhos, mas a Helô continuava linda e impecável, com seus cabelos dourados cheios de ondas e seu corpo vilão.
Por muitas vezes, enquanto estávamos conversando e as crianças brincando com seus brindes do lanche, eu me perguntei mentalmente como é que ela conseguia ter uma vida tão perfeita. Claro, ela deveria ter seus problemas também. Mas ela estava sempre tão arrumada, tão calma e feliz, e parecia mais do que nunca apaixonada pelo marido.
Sim, eu sei as pessoas podem esconder todos seus problemas atrás de uma máscara. Assim como eu. Mas eu duvidava muito que a vida da Helô fosse tão difícil quanto a minha.
— Preciso te contar uma coisa. – disse ela, me trazendo de volta a realidade. Heloísa estava sorridente.
— O que foi? Por acaso você descobriu quem é a amante do meu marido? – realmente, eu estava muito doida.
Helô me olhou assustada.
— Não, Mel. Não é isso. – ela soltou um risinho. — É que eu tenho uma novidade.... Eu acho que estou grávida!
— Não acredito! – eu estava feliz por ela, mas também com muita inveja. Como é que ela conseguia? Porque é que eu também não podia ser assim? — Nossa, Helô. Isso é incrível!
Heloísa estava animada com a possibilidade de estar esperando seu segundo filho. Ela disse que ela e o Fred tentaram por muitas vezes, mas nunca dava sério. Até que eles desistiram.
Em casa, naquela noite, me preparando para dormir, eu pensei se eu e o Carlos seriamos capazes de ter outro filho. Eu queria. É claro que queria! Mas acho que ele não pensa assim. E eu nem ouso a perguntar. Dos jeitos que as coisas estão entre nós é bem capaz que ele me dê um tapa e me chame de maluca.
No sábado, aproveitei a linda manhã de sol para ficar lá fora lendo um livro chamado Limites sem Trauma para mamães de primeira viagem, enquanto os gêmeos brincavam no ofurô como se ele fosse uma piscina para crianças.
Carlos passou o dia fora, mas quando chegou trouxe rosquinhas açucaradas para as crianças. Eles fizeram a festa! Eu me preocupava bastante com a alimentação deles, apesar de não dar a mínima para a minha. Mas como mãe eu também sei que os filhos merecem uma folga de vez em quando.
Como passaram o dia todo fazendo bagunça e brincando em todos os cantos possíveis desse apartamento, os gêmeos dormiram cedo e eu fiquei na sala, assistindo um filme dramático com um balde de pipoca em mãos só para mim.
Carlos tinha acabado de tomar um banho e desceu. Seus cabelos escuros estavam molhados. Ele já estava com roupa de dormir quando se juntou a mim e mergulhou a mão dentro do balde de pipoca e me lançou um sorrisinho.
— Que filme é esse?
— Você não vai gostar...
— Eu só quero saber o nome.
Olhei para ele, com um sorriso de lado.
— O Doador de Memórias.
— É bom?
— Eu gosto.
— Começou agora?
— Faz uns dez minutos.
Ele assistiu ao filme comigo, calado. Apenas mastigando a pipoca. Depois que o balde estava vazio ele foi até a cozinha e trouxe papel toalha para eu limpar as mãos. De repente, as mãos dele foram parar nas minhas pernas nuas.
Ele estava me fazendo carinho.
Coisa que não acontecia fazia um bom tempo.
— Como você está? – ele perguntou assim que o filme terminou e eu desliguei a televisão.
— Bem.... Por que?
— Eu só queria saber como você está. Não posso?
Soltei um riso fraco.
— Faz tempo que você não me pergunta isso.
Só me dei conta da besteira que eu tinha digo segundos depois. Automaticamente me arrependi. Abri a boca para acrescentar algo. Uma desculpa esfarrapada. Mas não tive tempo. Pois ele já estava com a boca colada na minha.
Carlos me beijou com desejo.
Tentando não fazer muito barulho, nós fizemos amor ali mesmo, no sofá da sala. Dessa fez foi um ato gentil e leve. Sem grosseiras ou frieza. Apenas.... Algo carinhoso.... Com amor.
Depois acabamos adormecendo ali mesmo, abraçados. Acordei durante a madrugada com ele me cutucando, pedindo para eu me levantar e subi para o quarto com ele.
Na quinta-feira, após ter deixado os gêmeos na escolinha, fui para o shopping fazer umas comprinhas. Estava mesmo precisando de roupas e sapatos novos. Eu estava feliz! Carlos estava diferente nos últimos dias. Mais sorridente, mais gentil, carinhoso, atencioso. Ele tinha voltado a ser o homem de antes.
Eu estava apaixonada outra vez.
Naquela tarde ele foi buscar os garotos na escolinha e depois saíram para tomar sorvete. Só os três. Aproveitei para passar um pouco de roupa e quando fui organiza-las no closet foi que eu tive uma grande surpresa.
Em meio aos ternos do meu marido eu encontrei um bilhete escondido com uma linda caligrafia feminina.
“Sempre que você se vai eu já fico com saudade. Aguardando ansiosamente até a sua próxima visita. “
E foi quando eu finalmente tive a confirmação de todas as minhas suspeitas. Então eu não estava só ficando louca. Eu tinha razão. Eu estava certa. Ele tinha mesmo uma amante.
Xinguei mentalmente o Carlos de todos os palavrões possíveis.
Peguei aquele bilhetinho e rasguei em mil pedaços. Pensei seriamente em fazer uma cena assim que ele chegou com os meninos. Mas eu não queria assustar os meus filhos. E além do mais, eu precisava de mais provas.
Passei a dar uma de detetive. Comecei a seguir o Carlos para cima e para baixo. E quando ele não estava olhando eu dava uma xeretada básica em seu celular ou em seu computador de trabalho. Mas eu nunca encontrava nada de anormal. Eu nunca o flagrava nos braços de outra.
Ele estava me enganando direitinho.
Como a Heloísa não estava me ajudando em nada, por achar que eu estava paranoica, eu resolvi apelar para o Fred. Marquei de me encontrar com ele um dia desses para um almoço entre amigos. Pedi que ele não contasse nada ao Carlos por enquanto.
Ele me prometeu que não o faria.
— Você quer beber alguma coisa? Você parece nervosa.
— Não, obrigada, Fred. Eu estou bem. Eu só queria te fazer uma pergunta e preciso que você seja totalmente sincero comigo.
— Nossa, você está me assustando...
— É sobre o Carlos. Eu sei que vocês são melhores amigos desde que eram garotinhos. Mas eu preciso que você me diga, por favor, o Carlos tem outra mulher? Você sabe de alguma coisa?
— O quê? – Fred arregalou os olhos, espantado. — Não! Você está brincando, né? – ele riu. — O Carlos jamais...
— Nem ouse a defender seu amigo! – digo, brava. — Eu já sei de tudo. Encontrei um bilhete muito suspeito no meio das coisas dele. Mulheres têm um sexto sentido pra isso, você sabe, não sabe?
— Mel, sério, acho que você ficou maluca...
— Não, Fred. Eu não fiquei maluca! Eu sei que existe outra e eu não vou descansar até descobrir quem é a vadia.
Fiz ele prometer que não contaria nada daquilo ao Carlos.
Era terça-feira e eu estava muito tranquila, sozinha em casa, limpando as janelas com água e sabão quando algo me ocorreu.
Eu não iria desistir tão facilmente, eu iria desvendar esse mistério. Eu precisava acabar com essa história! Precisa jogar umas verdades na cara do Carlos, por ele ter me feito sofrer todos esses anos, como uma refém de suas garras afiadas.
Não era justo comigo viver um dia acreditando que as coisas voltariam a ser como antes e no outro sabendo que eu era a única me sacrificando para esse casamento dá certo.
Demorou, mas eu finalmente acordei pra vida.
Como os gêmeos estavam na escolinha e demoraria algum tempo até a hora de ir busca-los, eu desci correndo até o andar da Heloísa. Eu a convenceria de me ajudar nessa. Hoje eu iria descobrir quem era a outra. Eu precisava descobrir!
Não sabia por onde começaria e nem o que faria, nem que fosse preciso confrontar o Carlos de frente, mesmo sabendo de todos os ricos. Sabia que ele não seria capaz de me bater se a Heloísa estivesse ao meu lado, me apoiando nessa.
Primeiro toquei a campainha. Pelo menos umas três vezes. Será que ela não estava em casa? Me arrisquei a virar a maçaneta e descobri que a porta estava aberta.
Não tinha ninguém ali na sala. Ela poderia estar no quarto ou em outro cômodo. Sei que é muito errado da minha parte invadir a casa dos outros assim. Mas éramos amigas, não éramos?
A curiosidade só aumentou quando ouvi alguns ruídos vindo do quarto dela. Ela não podia estar com o Fred, porque a essa hora ele o Carlos estavam no trabalho. Mas ela poderia estar brincando com a filha lá dentro ou fazendo qualquer outra coisa.
Coloquei a mão na maçaneta e abri a porta devagar...
Fiquei completamente paralisada com o que vi.
Heloísa estava ali, como eu tinha previsto. Mas não estava sozinha. Ela estava parcialmente deitada em sua cama, com as pernas para cima e praticamente nua. Havia um homem entre suas pernas. E esse homem não era o Fred. E sim, o Carlos.
Eles não me viram entrar, porque eu nem fiz barulho. Por isso continuaram a fazer o que estava fazendo. Ela mordia os lábios com força, acho que para não gritar alto, pois ele lhe dava estocadas com forças, fazendo a cama toda balançar.
Pisquei várias vezes. Aquilo não podia ser real. Heloísa e Carlos não estavam tendo um caso. Ou será que estavam? É obvio que sim. Eu só não queria acreditar que fui tão cega durante todos esses anos. Eu pensei que ela fosse minha amiga. Minha melhor amiga! Sabe, poderia ser qualquer outra. Mas não ela.
Começou a subir uma raiva demasiada dentro de mim.
— Interrompo alguma coisa? – pigarrei, para que eles pudessem me ouvir ao meio aos gemidos sufocados.
Quando ouviram a minha voz os dois pararam de se mexer e viraram os olhos para mim, assustados.
— Vocês nem se preocuparam em trancar a porta.
— Melissa, o que você faz aqui?
Não. Isso não é sério! Ele não está me fazendo essa pergunta.
— Eu vim atrás da minha amiga. – sorri de um jeito exagerado. — Mas e você, Carlos? Também veio recorrer a ajuda da sua amiga? Ou devo dizer, a mulher do seu melhor amigo?
Heloísa se levantou da cama em um salto e abaixou o vestido, ajudando ao corpo esbelto. Seus cabelos dourados estavam mais selvagens do que nunca. A vadia ainda conseguia ser bonita mesmo após foder com o marido de outra.
Me desculpem pela palavra grotesca.
— Eu não acredito que pedi ajuda justamente a você. – olhei para ela com um sorriso debochado. — Eu pensei que fossemos amigas... Eu pensei que que a nossa amizade era verdadeira...
Não sabia se ria ou se chorava de desgosto.
Heloísa abriu a boca, provavelmente para falar alguma barbaridade como desculpa. Mas eu a impedi a tempo.
— Há quanto tempo isso está acontecendo? – olhei para os dois que continuavam mudos e imóveis. — Aposto que o filho que você está esperando é dele e não do seu marido.
Eu estava com tanto ódio e raiva que poderia quebrar tudo que estava a minha frente. Inclusive os dentes daquele canalha. Mas antes eu iria arrancar cabelo por cabelo daquela traidora.
Voei em sua direção, como uma ousadia que eu nunca tive antes em toda minha vida. Apertei minhas mãos em volta do seu pescoço fino, pronta para matá-la. Comecei a xinga-las de todos os palavrões possíveis, até mesmo os que eu desconhecia. Eu nem era muito de falar palavrão. A cena não era nada bonita.
Heloísa começou a ficar vermelha e sem ar. Eu estava muito perto de matá-la quando Carlos – agora vestido, menos mal – me puxou pelo braço, me colocando longe dela antes que eu fosse capaz de alguma besteira da qual não teria volta.
Mas eu ainda não tinha desistido e relutei, me debatendo loucamente enquanto ele me segurava com forças. Eu gritava muito, fazia questão que todos os vizinhos escutassem aquela baixaria. Eu queria bater nela. Queria meter a minha mão na cara dela.
— Mel, me desculpe. – dizia ela, com lágrimas nos olhos. Lágrimas de crocodilo. — Eu sinto muito. Eu realmente gostei de você desde o primeiro momento. Mas isso começou a acontecer muito antes de você aparecer.
Que vaca! Ela não tinha um pingo de respeito pelo marido, nem pela própria filha ou o bebê que estava a caminho.
— Mel, para. – pedia o Carlos, ainda me segurando. — Para com isso. Chega! Vamos para casa. Vamos conversar.
— Me solta, seu canalha! – eu gritava, olhando furiosamente para ele. Se ele não tivesse me segurando eu iria bater nos dois. Não sei como. Mas eu iria. — Me solta agora, seu animal.
Contra minhas forças, Carlos me tirou dali. Não sei como ele conseguiu me levar de volta para casa. Eu estava impossível. Gritando, me descabelando, me esgoelando, me debatendo.
Não sei de onde tirei tanta força.
— Você gosta dela? – eu cuspi quando ele me soltou dentro de casa. Agora éramos só nós dois. — Você nunca me amou, não é mesmo? Então porque resolveu me conquistar? Porque disse tantas coisas bonitas? Porque me fez promessas? Você nunca teve nenhum tipo de consideração por mim. Nem por ninguém! Nem mesmo pelo seu melhor amigo. Porque é claro que ele não sabe, não é mesmo? Coitado. Você não tem pena das pessoas?
— Melissa, você não entende. – disse ele, calmamente. — Eu gosto de você. Eu amo você. Mas algumas coisas são mais fortes, entende? Eu precisava de um refúgio quando me sentisse sufocado. Eu precisava de uma distração quando estava cansado de tudo. E a Heloísa estava ali, trabalhando para mim. Quando tudo começou ela nem estava se relacionado com o Fred ainda. Houve um tempo que decidi parar com isso em respeito ao que eles estavam construído juntos. Mas não conseguimos! Havia algo nela que eu não conseguia ignorar. Algo que ela me fazia sentir quando estávamos juntos. Pode parecer loucura. Você nunca entenderia.
Soltei uma risada sarcástica.
— Você é ridículo, sabia? Minha vida não era perfeita antes de você aparecer, mas era muito boa. Você não precisava ter aparecido e mudado tudo se sabia que uma hora ou outra iria estragar as coisas. Eu não acredito que me enganei por tanto tempo. Eu não acredito que algum dia eu fui capaz de amar um homem como você. – eu falava tudo isso olhando no fundos dos olhos dele. Queria que ele sentisse toda a minha amargura. — Então, você estava com ela todo esse tempo? Não era só o trabalho.
Ele não conseguia nem me olhar de vergonha.
Pelo menos isso!
Não era nem capaz de mentir olhando nos meus olhos.
— Você deveria ter o mínimo de respeito pelos seus filhos. Tudo bem que eu nem sempre tenha merecido o melhor. Mas e eles? Eles não merecem isso. Não merecem o pai que tem! Um mentiroso, um traidor, um hipócrita. Você não pensou neles nem por um momento? Seus filhos merecem a verdade!
— Não meta nossos filhos nessa história! – ele berrou, para me amedrontar. Mas dessa vez eu não recusei, nem abaixei a cabeça.
— Mas eles fazem sim parte dessa história. Quer você queira ou não. Quer saber? Você nunca pensou nele antes, porque é que iria pensar neles agora? Eu vou embora. Vou pega-los na escola e ir para casa dos meus pais. E nem ouse a vir atrás de mim. Nem ouse me convencer do contrário. Não acredito em mais nenhuma palavra sua.
Virei as costas, estava prestes a subir para pegar minhas coisas, quando ele me puxou com força pelo braço.
— Você não vai tira-los de mim! – ele me olhava de forma desafiadora, apertando meu braço cada vez mais. — Você não pode fazer isso comigo, Melissa. Eu sou o pai deles!
— Agora que você lembra que tem uma família? Porque até minutos atrás você parecia ocupado demais para pensar nisso.
Tentei me soltar dele, mas ele era muito mais forte que eu. Carlos estava vermelho de raiva. Parecia prestes a explodir. Mas eu não estava com medo. Eu o odiava e estava fervendo de raiva também. Eu era seria qualquer coisa para proteger meus filhos. Para leva-los para longe daquele monstro. Era exatamente o que tinha em mente, quando ele me jogou com força no chão.
Algo muito ruim havia se apoderado dele. Vi isso através de seus olhos amendoados. Algo muito pior do que todas as outras vezes em que ele levantou a mão para mim. Eu nem tive tempo de me defender quando ele começou a chutar a lateral do meu corpo. Como se estivéssemos no meio de uma luta, da qual eu certamente sairia perdendo.
Carlos me chutou muito. Sentia que estava perdendo o ar. Tudo estava doendo muito. Eu pedi para ele parar. Eu gritei para ele parar. Disse que ele estava me machucando de verdade e que eu jamais o perdoaria por isso. Mas ele parecia não estar ouvindo nada. Ele estava possuído por uma força maligna.
Ele iria me matar. Da mesma forma que eu quis matar a Heloísa alguns minutos atrás. E como se chutes e pontapés não fossem o bastante, ele sentou em cima de mim. Me pegou com força pelo queixo e me fez olhar dentro de seus olhos raivosos.
Ele me disse coisas terríveis.
— Eu odeio você, sabia disso? Eu odeio você com todas as minhas forças. No começo eu achei que te amava. Eu quis muito construir uma vida com você. Achei que seria bom para mim. Mas sempre te achei boba demais, ingênua demais, sonhadora demais. E isso me irritava muito. Com o tempo eu passei a ter nojo de você.
Ele socou o meu rosto. Se já estava difícil respirar, tinha ficado muito pior. Minhas forças simplesmente se esgotaram. Eu já não gritava mais. Não tinha voz! Só chorava de dor. Parecia que um trator havia passado por cima de mim várias vezes.
— Olha só pra você. Você é ridícula! Se acha muito forte, muito superior, muito sortuda, muito sábia. Mas você não é nada. Você é insignificante. Não serve pra quase nada. Você me dá náuseas. Sua família me dá náuseas. Os seus gostos me dão náuseas. A suas roupas, o seu cabelo, seus lábios, seus olhos, o seu corpo. Não consigo não olhar para você e não sentir desprezo.
Ele continuou dizendo um milhão de coisas ruins ao meu respeito, das quais eu nunca imaginei ele dizendo para mim. Mas de repente eu já não ouvia mais nada. Apenas um zumbido. Só conseguia sentir os tapas e socos dele no meu rosto e no meu peito. Seus dedos grossos em volta do meu pescoço e dos meus braços.
Eu torci muito para que alguém aparecesse a tempo de me salvar. Mas era o fim para mim. Porque ninguém apareceu.
Eu parei de escutar e sentir.
A minha vida começou a se dissipar do meu corpo.
E de uma para outra eu não vi mais nada.
Eu apenas mergulhei em um buraco negro e sem fim.
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