Apenas Um Olhar

18 Apenas um olhar


Notas iniciais
Surpresas... Uma nova fase da história. A Melissa merece ser feliz, vocês não acham?

PARTE II

Eu não conseguia enxergar direito, mas quando eu abri meus olhos a primeira coisa que eu vi foi um par de olhos negros, bastante profundos. Não eram olhos sombrios e sim bastante gentis e calorosos. Era um rapaz. Como uma pele clara e limpa e cabelos curtos e loiros.

Eu estava morta.

E ele só poderia ser um anjo.

— Eu estou morta? – perguntei, me sentindo bastante fraca. Ele me olhava atentamente. — Por acaso eu estou no Céu?

O rapaz era um anjo, disso eu não tinha dúvidas. Mas eu não poderia estar no Céu. Porque tudo o meu corpo doía muito. Eu sentia dificuldades até para respirar. E eu nunca pensei que eu fosse capaz de sentir algo assim quando fosse para o Céu.

Na verdade, eu estava bem confusa.

— Olá. – o rapaz finalmente disse alguma coisa. — Que bom que você acordou. Estava começando a ficar preocupado.

Juro que não entendi uma só quer palavra.

Do que diabos ele estava falando?

Mesmo sem eu te pedido, o rapaz ajudou eu a me sentar. E foi nesse momento que eu me dei conta de que não estava no Céu coisa nenhuma. Eu estava em um quarto de hospital ligada a vários aparelhos. Um quarto muito branco e estava usando aquelas roupinhas azuis ridículas que parecia muito com um pijama velho.

— Como você se sente? – o rapaz perguntou com sua voz doce. Ele tinha um lindo sorriso. E duas covinhas muito fofas!

— Para ser sincera, eu me sinto péssima. – fiz uma careta e foi o bastante para fazer meu rosto todo doer.

De repente, eu me lembrei de tudo. Eu não estava morta, isso já estava muito claro para mim. Mas eu estive muito próxima da morte. Disso eu me lembro bem. Me lembro das palavras grosseiras do Carlos, meu marido, ou devo dizer ex-marido? E me lembro dos seus tapas, chupes, socos e pontapés.

— Ai meu Deus! – comecei a me desesperar. E até tentei me levantar da cama e me livrar daqueles aparelhos todos. Mas o rapaz me impediu com muita calma. — Meus filhos! Alguém foi buscar meus filhos na escolinha?

Olhei para o rapaz, apavorada.

— Olha, você não tem que se preocupar com isso. – ele sorria de maneira gentil e contagiante. — Fique aqui. Eu vou chamar a sua família para vocês conversarem, ta bom?

Eu apenas assenti.

Não demorou nem um minuto e a minha mãe entrou no quarto. Estava muito agitada e parecia preocupada. Ela pegou a minha mão e beijou a minha bochecha, com cuidado para não me machucar. E então ela me olhou, com os olhos cheios de lágrimas.

— Mamãe, o que aconteceu? – automaticamente meus olhos também se encheram de lágrimas.

— Você estava em coma, querida. Ficamos todos muito preocupados com você. Mas você acordou e isso é ótimo!

Percebi que ela estava fazendo um esforço danado para sorrir.

— Por quanto tempo estive apagada?

— Três dias.

Parecia pouco, mas na verdade não era não.

Abri a boca fazer mais perguntas, porque eu tinha milhões delas para fazer. Mas parei no meio do percurso, pois ouvi os berros da minha irmã no corredor. Ela estava brigando com todo mundo, só para poder entrar no meu quarto e me ver.

— Mel! – ela veio correndo me abraçar. Fez meu corpo todo doer. Mas eu não me queixei. Estava feliz que ela também estivesse ali. Eu estava morrendo de saudade. — Ah, Mel. Eu me sinto tão culpada por ter incentivado você a se envolver com aquele homem...

Pelo visto já estavam todos cientes de quem era o responsável pelo meu estado.

— Você não tem culpa de nada, Ju. Eu que me deixei levar. Eu me apaixonei muito rapidamente e eu mal o conhecia! Achei que todo aquele mistério fizesse parte do charme dele. Eu fiquei tão empolgada com o rumo novo da minha vida que acabei ficando completamente cega por um homem que eu nunca conheci de fato.

— Não vamos mais falar sobre isso, por favor. – mamãe pediu, ainda segurando a minha mão. — Vamos esquecer isso. Já passou! Graças a Deus você acordou e daqui pra frente tudo será melhor.

Eu queria concordar com ela, mas eu duvidava muito que a minha vida algum dia pudesse melhorar depois de tudo que passei.

— Onde estão os meus filhos?

— Não se preocupe, filhinha. Eles estão seguros em casa, com o seu pai e o seu irmão. Nós vamos cuidar bem deles até você ficar completamente recuperada. Está tudo sob controle.

— Eu queria pedir um favor para vocês. – alternei o olhar entre as duas. — Não conte nada disso a eles. Só digam que eu estou doente, ou inventem outra desculpa qualquer, mas não entrem em detalhes. Eles são muito novinhos e inocentes para saber a verdade. E também não tragam eles para vir me ver. Não quero que eles me vejam nesse estado. Seria um grande choque.

Elas assentiram em concordância.

— Com licença – o rapaz que estava comigo a poucos minutos atrás bateu na porta antes de entrar. — Eu sinto muito, mas vocês precisam ir agora. Já acabou o horário de visitas. Ela precisa descansar. Mas voltem amanhã pela tarde.

Com muita relutância, mamãe e minha irmã foram embora, após me darem um beijinho na testa.

Fiquei sozinha naquele quarto. Pensativa. Olhando para as paredes brancas. O céu lá fora estava muito claro. Parecia um ótimo dia para ir à praia se divertir. Mas a minha realidade agora era outra. Eu queria muito que isso não passasse de um pesadelo.

Até pensei em dormir, porque tinha convicção de que quando acordasse eu estaria bem outra vez. Mas de jeito nenhum conseguir pegar no sono. Meus pensamentos estavam muito elevados. E por mais que eu quisesse ignorar as lembranças daquele dia em que eu quase morri, elas não saiam da minha mente.

E eu voltava a reviver cada detalhe daquele momento.

Era agonizante. Uma tortura sem fim. Eu poderia ter imaginado que o Carlos era um homem de mau caráter. Mas nunca imaginaria que ele pudesse me espancar até a morte, mesmo depois de eu ter acabado de descobrir que ele me traia com a minha melhor amiga, esposa do seu melhor amigo de infância.

— Oi. Olha eu aqui de novo. – o rapaz entrou de novo no quarto, agora com uma bandeja em mãos. Pela única janela do quarto, vi que o sol já estava se pondo. — Está com fome?

— Não muito.

— Mas você precisa comer algo. Vamos lá. – ele deixou a bandeja em cima do criado mudo ao lado da cama. Eles eram os únicos dois móveis que tinha ali naquele quarto. — Eu te ajudo.

Educadamente ele me ajudou a sentar mais ereta na cama. Depois, muito cuidadosamente, ele colocou a bandeja sobre as minhas pernas, para eu poder comer.

Era um sopa e tinha algumas frutas picadas em um pratinho pequeno. A aparência era horrível. Imagine o gosto daquilo.

Fiz uma careta.

— Não dá pra comer isso.

Ele riu.

— Não seja ingrata. Pode não ser bonito, mas você nunca vai saber se é gostoso ou não se não experimentar.

Ele estava falando comigo como se eu fosse uma criancinha.

Era assim que eu falava com meus filhos quando eles rejeitavam algo do prato que ainda não haviam provado.

Esse pensamento me fez sorrir.

Eu tinha que ser o exemplo para os meus filhos, mesmo que eles não estivessem ali para presenciar esse momento.

Devagar levei a mão até a colher e mergulhei-a na sopa.

Cada músculo do meu corpo doía muito sempre que fazia algum movimento, por menor que fosse.

— Você quer ajuda? – o rapaz que ainda estava ali de olho em cada movimento meu, perguntou gentilmente.

Assenti, bastante envergonhada.

Ele me dar comida na boca além de ser estranho, fez eu me sentir ainda mais infantil. Eu mal conseguia olhar nos olhos dele de tanta vergonha. Jamais imaginei passar por isso!

De fato, a sopa não estava tão ruim assim. Dava para comer. E para completar, comi um pouco das frutas também.

— Por acaso você é o meu médico? – perguntei, assim que terminei de comer. — Você pode explicar qual é a minha situação?

— Eu não sou seu médico. – ele sorrio. Era hipnotizante, mas eu não ia me enganar uma segunda vez.

Muitos sorrisos podem ser bonitos, mas muitos sorrisos podem também facilmente esconder terríveis segredos.

— Eu sou apenas um enfermeiro. Mas de qualquer forma, eu posso sim te explicar com o maior prazer como está a sua situação.

Ele pegou uma prancheta pendura atrás da minha cama.

— Quando você chegou aqui alguns dias atrás, seu estado era bastante crítico. Você mal respirava! Você foi levada às pressas para a emergência, fizeram uma demorada avaliação no seu corpo. Você fraturou uma das costelas e alguns ossos. Por isso, ainda deve sentir muita dor. Mesmo com todos os analgésicos. Além das várias marcas roxas espalhadas pelo seu corpo e um inchaço no seu olho esquerdo. Você ficou em coma durante três dias. Em algumas horas seu médico virá aqui para maiores informações.

— Obrigada.

Ele pegou a bandeja vazia em mãos e foi em direção a porta do quarto.

— Ei. Espere! – chamei por ele, antes que ele voltasse a desaparecer. — Você pode, por favor, chamar alguém para me ajudar a tomar um banho? Ou eu não posso tomar banho?

— Claro que você pode tomar banho! – ele riu. — Espere um pouquinho. Eu vou falar com o médico e algumas enfermeiras.

Ele se foi.

Meia hora depois um médico grisalho apareceu.

— Olá, Melissa. Como você está?

Será que todo mundo ia me fazer essa pergunta ao entrar no meu quarto e me ver acordada? Porque é meio claro e obvio para todo mundo que estou em péssimas condições.

Nem consigo me mexer direito!

— Bom, posso dar uma olhadinha em você? – ele perguntou, se aproximando mais de mim. Apenas fez que sim. Ele escutou as batidas do meu coração, pediu para eu inspirar e respirar, meteu uma luz dentro dos meus olhos e pediu para mexer algumas partes do corpo. — Você me parece bem melhor agora que acordou. Mas ainda terá que ficar aqui na clínica se recuperando.

— Por quanto tempo?

— Não sei ao certo. Sua situação está estável. Mas não posso te dar alta agora e muito menos uma previsão de saída. Você precisará fazer mais alguns exames e falar com um psicólogo. Você não se importaria em ficar aqui pelo tempo que for preciso, não é mesmo? É para seu próprio bom. Se você se recuperar logo, em breve estará livre daqui para voltar a sua rotina de antes.

Pelo jeito eu não tinha muitas escolhas.

Mas de jeito nenhum queria voltar par minha rotina de antes. Não naquela cidade, não naquele apartamento, não com aquele homem. Se possível, eu nunca mais queria vê-lo. Porque ele é o único responsável por tudo isso.

— Vou chamar uma enfermeira para te ajudar no banheiro.

Uma senhora negra e gorducha de sorriso aberto entrou no meu quarto com uma cadeira de rodas. Ela ajudou eu me levantar e sentar na cadeira de rodas. Depois seguimos em direção ao banheiro mais próximo. Ela era muito simpática.

— Será que você pode me deixar sozinha por alguns minutos?

— Tem certeza?

— Qualquer problema que eu tiver eu te chamo.

Ela piscou e fechou a porta.

Pela primeira eu me olhei no espelho e vi que a coisa era muito pior do que eu poderia ter imaginado. Meu rosto estava todo inchado e marcado, repleto de manchas rosas. E meu olho esquerdo estava tão inchado que eu mal conseguia abri-lo. Em volta dele havia um grande círculo roxo e vermelho.

E conforme eu fui tirando aquele pijama velho de hospital, percebi que as coisas foram ficavam piores. Foi um grande sacrifício me despir sozinha, mas eu não queria que ninguém me visse nua. Meu corpo estava todo dolorido e marcado. Havia uma faixa enorme em volta da minha barriga. Eu bem que tentei tira-la, mas eu quase gritei de dor.

A enfermeira deve ter percebido, porque entrou dentro no banheiro no mesmo segundo. Ela pediu para eu respirar fundo, enquanto ela tirava a faixa com o máximo de cuidado.

Não tive com escapar. Até para tomar um banho eu precisava de ajuda. Não pude deixar de reparar como a enfermeira olhava para as marcas do meu corpo de forma intrigada. Por um momento achei que ela iria perguntar o que tinha acontecido comigo.

Eu não teria coragem de dizer a verdade.

Era vergonhoso!

De volta ao quarto, fiquei sozinha novamente. Não tinha nada para fazer. Nem mesmo uma televisão. O céu lá fora já estava completamente escuro. Eu só conseguia ouvir os passos dos enfermeiros de um lado para o outro pelos corredores.

— Você vai me ver por aqui muitas vezes por dia. – era o rapaz de novo, pela terceira vez no dia. — Trouxe o seu jantar. Dessa vez capricharam um pouquinho mais. Você vai gostar.

Para o jantar ele trouxe arroz com cenoura, feijão, alguns legumes cozidos e uma saladinha de alface.

Ah, e um copo de suco de laranja.

Dessa vez ele nem precisou perguntar e mais uma vez ele me ajudou a comer. O que antes era uma tarefa simples, agora já não era mais.

Mais tarde, quando ele estava prestes a ir embora, eu o chamei novamente, antes que fosse tarde demais.

— Não tem nada para fazer. Eu nem consigo dormir. Seria muito abuso se eu pedisse para você me levar para conhecer a clínica?

Ele olhou para a cadeira de rodas parada ali e abriu um sorriso.

— Claro. Vamos lá, então.

A clínica era grande, cheias de corredores e portas. Parecia um labirinto. Além de ser tudo muito claro e limpo, com cheiro de desinfetante. Eu já tinha passado algumas vezes em frente daquela clínica. Mas nunca imaginei que algum dia eu estaria dentro dela.

Lá fora, na parte externa da clínica, havia um jardim. Uma grande área de convivência para os pacientes. Pedi para o rapaz me deixar ali sozinha por alguns minutos, respirando ar puro.

Era uma linda noite.

Ele voltou alguns minutos depois com uma garrafinha de água e corpos descartáveis. Nós voltamos para o meu quarto, pois já estava ficando tarde e era fim do seu expediente. Ele precisava ir para casa. Eu quase perguntei se ele sempre morou ali em Niterói, porque eu nunca tinha o visto antes. Mas achei que era muito ousado da minha parte. Nós nem éramos íntimos!

Como eu estava sozinha e não tinha nada para fazer ali, acabei pegando no sono. Mas tive um terrível pesadelo. Sonhei que o Carlos corria atrás de mim com uma grande faca em mãos. Dessa vez eu não tinha escapatória. Ele iria me matar de vez.

Acordei suando frio durante a madrugada. Estava tudo muito escuro. A porta do meu quarto estava trancada. Me inclinei para pegar um copo e enche-lo com água, mesmo que esse pequeno movimento me fizesse sentir muita dor.

Não consegui voltar a dormir. Fiquei um bom tempo olhando para o nada, pensando nos meus filhos. Será que eles perguntavam de mim para as pessoas? O dia já estava claro lá fora quando alguém entrou no meu quarto pela manhã.

— Bom dia. – era o rapaz, sorridente. Ele abriu as janelas do meu quarto para deixar o ar e a luz entrar.

— Oi. Bom dia. – tentei sorrir, feliz por vê-lo. Eu não conhecia muitos enfermeiros, mas ele já havia se tornado o meu preferido. — Você sempre chega tão cedo assim e sai tarde da noite?

— Não, só algumas vezes por semana. Não vivo só de trabalho, sabe. Eu também tenho uma vida.

— Menos mal.

— Bom, espere aqui. Vou buscar seu café-da-manhã.

Ovos mexidos.

— Você pode me ajudar a ir até o banheiro?

— Não quer que eu chame uma enfermeira?

— Não. Você só precisa me levar lá. Eu me viro sozinha.

Ele praticamente me pegou nos braços – pude notar que ele era bem cheiroso e tinha braços fortes – e me colocou na cadeira de rodas.

Já no banheiro, fiz toda minha higiene pessoal. Tentando ignorar a dor. Minutos depois ele me deu alguns remédios para tomar para amenizar a dor. Mas nem deu tanto resultado.

— Mais tarde eu volto para te levar ao jardim.

Meu pai e minha irmã apareceram na hora do almoço e me ajudaram com a refeição. Minha irmã falou praticamente o tempo todo, falando dos gêmeos. Meu pai ficou calado, apenas me olhando, como se sentisse muito, mas não soubesse como expressar isso em palavras. Senti um aperto no coração.

Quando eles se foram, não demorou muito para o rapaz, o tal enfermeiro, aparecer para me levar para um passeio.

Rodamos o jardim inteiro em minha cadeira de rodas.

Quando paramos de baixo de uma arvore, na sombra, ele sentou-se em um banco de concreto e colocou minha cadeira ao lado, me acomodando melhor para observar o movimento em volta dos pacientes e seus respectivos enfermeiros.

— Eu ainda não sei o seu nome. – comentei, virando-me para ele.

O rapaz que estava com o olho fixo em outro ponto, também se virou para mim.

Nos trocamos um olhar demorado. Era como se ele tivesse analisando todo o meu rosto marcado, assim como eu fazia, analisando todo seu rosto perfeito e aveludado.

Eu não estava me apaixonando nem nada, mas sabia reconhecer um homem bonito. E ele era muito bonito! E bastante familiar também.

— Eu me chamo Rodrigo.

Continuei olhando fixamente para ele com a leve impressão que eu o conhecia de algum lugar. Mas como isso seria possível?

Aquele rosto, aqueles lábios, aquela pele, aquele nariz, aquelas covinhas, aquele cabelo claro, e principalmente, aqueles olhos negros e profundos.

Demorou, mas enfim a ficha caiu.

Era ele! Só podia ser ele.

O garotinho de muito tempo atrás.

Agora ele era um homem e estava ali bem na minha frente.

Notas finais
Gostaram? Me falem o que acharam do Rodrigo, o garotinho que virou um grande homem.