Apatia
10 Capítulo 10
Notas iniciais
A luta de Kenpachi com Renji estava fazendo jus a uma sentença conhecida: olho por olho, dente por dente. Ou você matava, ou você morria. Renji tinha um sorriso no rosto. Um sorriso carregado de ódio. Já Kenpachi estava feliz. Fazia tempo que não lutava com alguém... Razoavelmente forte. Não há dúvidas de que Renji melhorou absurdamente desde sua saída do décimo primeiro esquadrão. Porém Kenpachi não tinha conhecimento da evolução completa do tenente. E nem Renji da evolução do capitão.
“Abarai, pensei que você não iria dar nem pro começo.” Sendo sincero, nem Renji pensava. Estava agindo por impulso. Se Kenpachi conseguisse acerta-lo, com certeza seria seu fim. O ruivo tinha alguns cortes no rosto e braços. Kenpachi sequer tinha arranhões. Renji estava propenso a julgamento da sorte. Sabia que Zaraki era mais forte que ele. E que um deslize poderia ser fatal.
“Nossa luta mal começou.” Renji passou as costas da mão em um corte de seu rosto, limpando ligeiramente o sangue. “Essa luta só vai terminar quando um de nós morrer.”
“Nunca pensei que eu fosse ouvir isso um dia de você, Abarai.” O capitão sorriu. Aquilo o animou ainda mais. “Acho que estou pegando leve com você.”
Zaraki sequer tinha começado.
O capitão começou a desferir ataques no tenente, sem pausas. Renji reagia bem, conseguia se desviar e manter a espada de Kenpachi sob controle. Mas não por muito tempo. O capitão acertou o braço direito de Renji. O ruivo ficou com o braço machucado desde o fim de seu ombro até o começo do cotovelo.
“Desgraçado!” O tenente gritou enquanto colocava a mão esquerda no braço machucado. Um corte nem tão pequeno, porém fundo.
“Mas já desistindo, Abarai? Se você esquecer essa ideia de voltar a ter o Byakuya talvez eu possa poupar sua vida.” Kenpachi riu. Como sempre fazia.
“Dizem que quem ri por último ri melhor. Acha que um cortezinho miserável desse vai me fazer desistir?” E o ruivo sorriu. “Cansei dessa porra toda. Bankai!” E ainda com o sorriso no rosto, Renji exibiu sua Hihiou Zabimaru, escandalosa como sempre.
“Grande coisa.” Zaraki foi atacar o tenente ainda usando de força bruta. Ele tinha um plano, para o desprazer de Renji. Zabimaru sustentava os ataques de Kenpachi, de forma equilibrada, porém não conseguia contra-atacar. Zaraki aprimorou sua velocidade numa proporção incrível. Retirou o tapa olho por pouquíssimos instantes e já havia conseguido uma velocidade tão boa quanto a da bankai do ruivo. Problemas.
“Mas que saco.” Renji atacava e atacava e atacava, se defendendo em seguida; Zaraki desviava e contra-atacava. Ficaram naquilo por um bom tempo. Até o momento em que Zaraki parou de contra-atacar. Se desviava da Zabimaru e... Nada mais. Renji estranhou aquilo. Não tinha noção do que Zaraki poderia fazer. Começou a se desesperar. O capitão não tinha mexido mais em seu tapa olho e Renji já usava sua bankai fazia algum tempo. Internamente, o ruivo praguejou Zaraki e o mundo. Não demorou muito para que a bankai de Renji chegasse ao seu limite. O tenente gritou de raiva enquanto encarava o chão. Seu cabelo havia se soltado, caindo sobre suas costas com um quimono gasto. A ideia de Zaraki tinha dado certo. Desde quando o capitão da décima primeira divisão tinha ficado tão inteligente?
“Olhe seu estado, Abarai. Dá até vergonha de querer te matar desse jeito.” Zaraki soltou uma gargalhada. No pequeno jogo de ‘gato e rato’ que Kenpachi fez, Renji desperdiçou muita reiatsu, tendo como resultado uma bankai enfraquecida e seu corpo musculoso no chão. Renji soltou alguns palavrões e levantou. Encarou Kenpachi. Ele ainda tinha capacidade para lutar, apesar da reiatsu fraca.
Não, ele não tinha capacidade para lutar.
“Filho da puta.” Gritou, no chão.
Sua reiatsu estava fraca demais. Qualquer movimento o faria enfraquecer cada vez mais. Porém o tenente não se deu por vencido. Tentou ferir o braço de Zaraki, mas não conseguiu. Era o máximo que podia fazer no momento. Voltou ao chão.
“As vezes não ter uma bankai pode ser útil, sabe?” E sorriu. “Vou te matar logo, cansei de você.” Zaraki foi à direção de Renji com a espada empunhada, seguida do punho da zanpakutou ensanguentado. “Até que você é um homem bonito, Abarai. Uma pena ter que te matar.” Zaraki ajoelhou e passou os dedos no rosto do ruivo. Acariciou seu cabelo, observando as tatuagens cobertas pela franja. Renji mordeu os lábios; não tinha força para se levantar. O jeito era esperar a morte vir, ou a sorte o salvar.
“Byakurai.”
A espada de Zaraki encontrava-se no chão, a poucos centímetros do rosto do Renji. Kenpachi estava a alguns metros afastado do tenente. Uma pequena queimadura deu o ar da graça com o kidou acertando em cheio a palma da mão de Kenpachi.
“Taichou...” Renji sussurrou enquanto Byakuya abaixava e observava o rosto de seu subordinado acompanhado dos fios vermelhos colados em sua testa.
“Quieto.” Byakuya colocou o dedo indicador nos lábios do tenente e roubou-lhe um selinho. Renji corou e sorriu com o gesto. Kuchiki Byakuya beijando alguém em batalha era algo interessante a se presenciar.
“Vocês me dão nojo.” Zaraki se esticou e suspirou. Fez menção de pegar sua espada, mas não foi necessário. Byakuya pegou a zanpakutou e a jogou para Zaraki.
“Fique atrás de mim. É a minha vez de salvar o dia.” Renji apenas assentiu e se ajeitou atrás de Byakuya. “Você vai pagar caro, Zaraki. Muito caro. Bankai.”
E todo o ambiente estava rodeado por pétalas de cerejeira.
“Senbonzakura Kageyoshi.”
Zaraki sabia que a desvantagem da bankai era unicamente, a velocidade. Poderia desviar com facilidade e ainda chegar perto da zona não atingida pela espada.
Erro fatal.
Várias pétalas da Senbonzakura atingiram o braço de Kenpachi. O último não pensava que a bankai do Kuchiki pudesse ser aprimorada ainda mais. O capitão da décima primeira divisão tirou o tapa olho e sua reiatsu pôde ser vista a olho nu. Aquilo iria ficar interessante.
Byakuya selou sua bankai e começou a lutar com Zaraki no mano a mano, algo completamente inverso a 'filosofia' comum de batalha do Kuchiki. Em pouco tempo, Byakuya e Zaraki trocavam cortes na zanpakutou alheia, ambos com uma boa velocidade e manejo. Zaraki conseguiu atingir a pele pálida de Byakuya; mas aquilo era só uma distração. Na primeira brecha que tivesse, iria continuar com o seu plano. O verdadeiro alvo de Zaraki não era o Kuchiki.
Renji.
Em um reflexo, Renji desviou do ataque de Zaraki. Mas o capitão conseguiu acertar seu braço machucado, piorando ainda mais o corte. O ruivo exclamou de dor; já tinha apanhado bem mais, porém Zaraki colocava toda a sua reiatsu em seus ataques, ocasionando mais impacto e dano. Byakuya não hesitou e atacou Kenpachi por trás. Fez um corte nas costas de Zaraki, que acabou gritando devido a surpresa... E dor. Mesmo que pouca.
“Seu oponente sou eu, não o Renji.” Kenpachi se virou com a afirmação de Byakuya. “Não vou hesitar em te matar caso você o machuque ainda mais.”
Kenpachi não deu a mínima.
Fez menção de atacar Renji novamente. Byakuya atacou Zaraki no mesmo lugar. A marca feita nas costas do último tinha forma de x.
“Se você não quiser mais lutar comigo, não temos motivo para continuar.” Byakuya passou tranquilamente ao lado de Kenpachi, chegando até Renji, que se apoiou em seu corpo. “Isso é um adeus.”
“Eu ainda tenho a foto, idiota.” Kenpachi disse com a voz baixa.
“Acho que não.” Byakuya guardou a zanpakutou e tirou a foto do obi, a mostrando para Zaraki. O último apenas guardou sua espada e foi embora. A luta dos dois não tinha acabado, não ainda. Mas era o suficiente para manter Kenpachi longe dos dois por um bom tempo. Byakuya se mantinha em cautela. Era estranho Zaraki deixar a luta tão facilmente, por vontade própria. Byakuya internamente tinha consciência do porque de Zaraki ter abandonado o campo de batalha em momento tão importante. Mas preferiu não comentar com Renji. O Kuchiki sabia que aquela luta acarretaria na morte dos três. E recuar, mesmo para Zaraki, era o melhor a se fazer. Provavelmente, o capitão da décima primeira divisão achava que morrer por um mero tenente não passa de um desperdício.
“Taichou... Você está bem?”
“Sim, Renji. Feche os olhos que já vamos chegar.” O tenente assentiu e adormeceu nos ombros do capitão.
—
Renji acordou numa sala clara deitado em uma maca, com seu braço enfaixado e provavelmente, com o corpo de Byakuya sentado na cama ao seu lado. Sorriu. Mesmo estando em um estado deplorável, um sorriso sincero habitava seu rosto.
“Taichou?”
“Sim, Renji?” Byakuya virou o rosto e falou com uma voz serena.
“Estamos no quarto esquadrão?”
“Sim.”
“Como o senhor explicou nossa situação?”
“Não a expliquei... Mas acalme-se. Tudo tem o seu tempo.”
“Tudo bem então.” Renji levantou-se da cama, olhando diretamente para a imensidão cinzenta dos olhos de seu superior.
“Renji,” Byakuya se levantou da cama, indo sentar ao lado de Renji.
“Sim?”
“Eu te amo.” Seu rosto corou instantaneamente. Não havia orgulho algum naquelas palavras, pela primeira vez.
“Eu também, Byakuya.” Renji segurou de leve o rosto do capitão, o puxando para um beijo. O risco de serem vistos por alguém era altíssimo, mas importava alguma coisa no momento?
Após alguns instantes, o tenente separou seus lábios e encostou sua testa na de Byakuya. Acariciou a face envergonhada de seu capitão e novamente soltou um sorriso. Seus dentes brancos desalinharam de tanta felicidade. Não faziam nada fora trocarem alguns selinhos e carícias naquela cama do quarto esquadrão. O corpo de Renji já dominava por completo o de seu capitão. Byakuya passou as unhas no quimono de tecido fino do subordinado e soltava alguns sorrisos, aparentemente forçados, mas eram mais sinceros que qualquer coisa que Byakuya já pôde fazer em vida. Ouvindo barulhos de passos, logo voltaram para suas respectivas camas, escutando batidas na porta em seguida.
“Entre.” Renji falou meio desapontado. Olhou para o rosto inocente de Hanatarou.
“Desculpe interromper vocês. Podem se trocar e irem para o sexto esquadrão, Isane-san deu alta a vocês.”
“Obrigado.” Renji sorriu e o oficial saiu do quarto. “Então... Onde estávamos?”
E o rosto pálido de Byakuya ganhou mais cor a partir daí.
Epílogo.
Dois meses depois.
Byakuya e Renji trabalhavam normalmente no sexto esquadrão. Preenchiam relatórios e eram designados para algumas missões de vez em quando. E para a alegria dos dois, Zaraki não voltou mais a aparecer. Renji estava cansado de trabalhar. Não que fosse uma novidade; estava no fim do expediente e logo iria para casa.
“Eu quero férias, taichou.” Byakuya apenas ouviu as palavras do tenente em silêncio.
“Isso é hora de ficar apático, taichou?” Renji direcionou um olhar de escárnio para o capitão. O despia com os olhos; nada muito inusitado vindo de sua parte. Byakuya não evitou o riso. Assinou o último relatório e levantou de sua cadeira, retribuindo com um olhar de desejo e até divertimento. Incitou Renji a levantar de sua cadeira; Byakuya guiou o ruivo até a ponta direita da mesa e inclinou seu corpo até alcançar o pescoço de Renji. O mordeu. Renji suspirou.
“Acha que eu me esqueci da nossa futura noite? À noite em que você vai arquejar como nunca, Renji?”
“Você ainda lembra isso?” Renji deu um sorriso fino.
“Por que eu iria esquecer?” Byakuya roçou os lábios no rosto de Renji. Apenas tocando de leve o rosto do subordinado, já sentia Renji ficar ativo. A vontade do último era dominar Byakuya ali mesmo.
“Você é alguém muito ruim, taichou.”
“Eu sei.” Byakuya soltou uma risadinha baixa. “Sabe... Eu pensei em tudo que aconteceu nesses meses e eu cheguei a uma conclusão.”
“Qual?”
“Que apesar de tudo que aconteceu, eu repetiria a situação mais uma vez.”
“Sério?” Renji olhou para Byakuya carregando um semblante duvidoso.
“Sim. Eu iria começar a amar você pela segunda vez.” O capitão ficou com o rosto vermelho.
“Pois saiba que eu faço você se apaixonar por mim quantas vezes quiser.” Renji abraçou seu capitão, inclinando seu rosto para lhe roubar um selinho.
“Sério mesmo?”
“Sério. E o que você acha de se apaixonar de novo por mim lá em casa? Garanto que você nunca vai deixar de me amar após essa noite.” O tenente sorriu malicioso.
“Eu adoraria.” Byakuya beijou seu tenente. Mordeu o lábio do subordinado no fim, o puxando e fazendo qualquer tipo de ‘arte’. Mostrando que aqueles lábios eram apenas seus.
“Possessivo.” Byakuya soltou o lábio de Renji e o tenente sussurrou, lançando um olhar divertido ao capitão.
“Tenho meus motivos, Renji.” E Byakuya soltou um sorriso fino. Tentador o suficiente para levar seu subordinado a loucura. Não só naquele momento, como também no resto de suas noites juntos. Que se tornaram cada vez mais frequentes, levando toda a apatia inicial ao fim de seus dias.
Fim.
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