Apatia
9 Capítulo 09
Notas iniciais
Byakuya POV.
Uma semana se passou. Desde aquele dia, eu não vi mais sinais de vida do Renji. Ele não apareceu nem no trabalho, nem no esquadrão... Nem ao menos sabe separar a vida sentimental do trabalho. Desgraçado. Por mais que, ele não tenha motivo para olhar na minha cara, deveria pensar ao menos no esquadrão. Desgraçado irresponsável. Eu estava cansado de trabalhar sozinho. Aquela vida estava me deixando cada vez mais próximo do fundo do poço.
Agradeci aos céus por Zaraki não ter me chamado nestes dias. Porém eu ainda precisava de um plano. Minha cabeça doía só de pensar em cada instante com aquele homem. Que deixou minha dignidade e corpo aos pedaços.
Eu não iria conseguir falar um pedido de desculpas. Muito menos contar sobre a situação. Alguma hora, a verdade iria vir à tona. E não seria nada bom se eu continuasse a adiar o inevitável. Saindo dos meus pensamentos ligeiramente doentios, observei a mesa de Renji bem a minha frente.
Como eu sentia sua falta.
Antes de tudo, Renji se dirigia a minha pessoa com uma ponta de medo. Com o tempo, ele foi aprendendo a se acostumar com a minha presença. E desde a nossa primeira noite juntos, tudo mudou. A monocromática sala principal do sexto esquadrão ganhou cor e vida com Renji mostrando sua felicidade pelos poros. A única coisa que antes vinham de Renji eram reclamações, gritaria e palavrões. Sendo substituídos por piscadinhas maliciosas e sorrisos de escárnio. Renji adorava tirar minha concentração do trabalho. Olhava-me fixamente, observando qualquer e todo detalhe do meu corpo. Ele soltava desde palavras obscenas no ar, sem contar às olhadas que me despiam em sua mente. Porém ele também conseguia falar o mais sincero 'eu te amo'. Sem contar os instantes no qual Renji enlouquecia e ameaçava tirar cada parte do meu quimono com a boca, sem se importar com as janelas abertas. Fora isso, há um bom tempo que eu comecei a reparar em insignificantes detalhes. Quando Renji não conseguia fazer uma tarefa, ele tinha o costume de estalar as costelas. Ele também desenhava em folhas soltas quando não tinha nada para fazer. Soube também que Renji coloca sempre uma colher de açúcar no chá, não importando o sabor. Mas o meu coração derretia toda vez que, quando o trabalho era extenso, Renji mexia numa mecha de cabelo, a colocando atrás da orelha esquerda.
Arrumando os relatórios, no momento duplicados devido à ausência de Renji, observei alguns papéis em branco e uma caneta. Isso. Eu não precisava de mais nada. Só de que Renji não perdesse sua confiança em mim. Mas ainda tinha algo a ser feito fora isso. Eu estava apenas aguardando o expediente ser finalizado para colocar meu plano em ação.
POV Off.
Renji POV.
‘Acabado’ é pouco para definir o meu estado. Essa semana foi uma tortura. Mesmo com tudo, eu ainda conseguia a proeza de sentir amor por... Ele. Alguém que não é digno do sorriso de ninguém. Não via a hora de ser demitido e nunca mais se lembrar da pessoa que foi Kuchiki Byakuya.
Eu aproveitei esse ‘tempo livre’ para passar no mundo real e comprei uns potes de sorvete de massa. Nas minhas estadias na terra entre pessoas ‘comuns’, ouvi boatos de que o doce cura até a mais profunda depressão. E eu precisava do mínimo de felicidade. Estava sendo uma tortura viver de forma tão entediante, longe do Byakuya... Mas viver próximo a ele também tem contras. Vários contras. Porém adotar uma vida sedentária e acabar com três potes de sorvete em pouco tempo não é algo que eu faria estando perto dele. É, problema.
POV Off.
A semana passou com um Renji vestido desleixadamente, cabelo embaraçado e olheiras fundas. Já Byakuya ostentava um olhar mais sombrio que o de costume. Torturante, ou até mais do que isso. Nenhum dos dois estava apto a vencer o orgulho para se pedir desculpas, ambos tinham razões, porém aquela brincadeira não iria durar para sempre. Não por muito tempo.
—
Três dias depois. Segunda feira, 17h11.
Byakuya finalizou rápido o trabalho, mesmo estando sem o tenente. Queria colocar um fim naquilo tudo. Já adiou tudo por muito tempo e talvez não tivesse outra chance depois. Com cautela, deixou o esquadrão sozinho e foi à décima terceira divisão. Precisava da ajuda da irmã.
“Kuchiki-taichou!” Ukitake falou de forma serena. Soltou um leve sorriso.
“Juushirou Ukitake.” Falou com o tom sério de sempre. “A Rukia está?”
Nem precisou dizer mais. A baixinha apareceu com os olhos brilhando.
“Nii-sama.” Suspirou.
“Venha aqui, Rukia.” Byakuya chamou a irmã alguns metros longe de Ukitake, que apenas sentia a brisa. Rukia não hesitou em imitar cada passo do irmão.
“Que honra te ver aqui, nii-sama.”
“Rukia... Eh.” Byakuya parou. Como continuaria a frase? O orgulho o atacou logo naquele momento.
“Sim?” A expressão de admiração de Rukia não saía do rosto.
“Você... Poderia fazer uma coisa para mim?”
“Seria uma honra.” O ego da garota inflou. Seu irmão pedindo algo a ela, somente ela. Um acontecimento que teria a chance de não acontecer nunca mais.
“Você poderia... Entregar isso para o Renji?” Byakuya estendeu um envelope negro nas mãos de Rukia. A garota pegou de bom grado.
“Se você puder fazer isso hoje, eu ficarei muito agradecido.”
“Eu vou agora! Deseja algo a mais, nii-sama?” Rukia falou animada.
“Só isso. O... Obrigado, Rukia.” E então, Byakuya usou shunpou para se retirar do esquadrão. Rukia estava com o orgulho nas alturas. Por ter recebido uma ordem do irmão e por ele ter lhe agradecido. Parecia um sonho.
“Taichou, eu posso visitar o Renji agora?”
“Vá. Só não demore muito, por favor.”
“Obrigado, taichou!” E logo Rukia encontrava-se usando shunpou e seguindo para a casa do amigo. Apertava o envelope com força mas fazia o máximo para não o estragar. Não demorou muito a chegar na casa do amigo. Mesmo sendo desnecessário, bateu na porta. Renji a atendeu.
“Você está parecendo um mendigo, Renji.” Rukia soltou uma gargalhada ao ver o estado do amigo. Cabelo emaranhado e yukata florida amassada. Poderia facilmente ser confundido com um morador de rua se pedisse esmolas.
“Não me diga.” Renji fez bico.
“Então, eu não posso demorar muito. O nii-sama mandou eu te entregar isso. Depois fala comigo, tudo bem?”
“Tudo bem.” Rukia entregou o envelope para Renji. O tenente olhou com certo descaso. Rukia se despediu do ruivo e voltou para o seu esquadrão. E Renji encarava o envelope, enquanto voltava para a sala.
“O que esse desgraçado quer?” Renji tirou a carta do envelope e apenas passou o olho. A rasgou em quatro pedaços. Amassou e jogou no canto da sala. A impecável caligrafia de Byakuya se encontrava desprezada no canto da sala de Abarai Renji. Afronta. Ao orgulho dos dois.
“Vou voltar para o meu sorvete que eu ganho mais.” Renji se espreguiçou e voltou para o sofá no qual passou grande parte da semana, encarando as paredes e o quarto. Tal quarto que já teve a presença de Kuchiki Byakuya entre arquejos e unhas arranhando suas costas impecavelmente tatuadas.
—
Terça feira. 11h50.
Quase meio dia e Byakuya não teve nenhum sinal de Renji. De acordo com o pensamento do Kuchiki, Renji leria a carta, voltaria para o esquadrão e viveria feliz com Byakuya até seu último dia de vida. Então, era a hora do plano B. Caso não desse certo, Byakuya mataria Kenpachi, Renji e não se importaria com mais nada. E com a coragem necessária, foi até a pequena casa do tenente. Sem haori, sem kenseikan, cabelo preso. Byakuya parecia ter uns dezoito anos daquela forma. E com os dedos trêmulos, tocou a campainha.
“Mas que surpresa.” Renji olhou para Byakuya de baixo a cima com descaso. Sentia repugnância ao ver o homem que lhe tirou a vontade de viver há pouco tempo atrás. Mas sendo sincero... Que saúde, hein Byakuya. “O que deseja?”
“Como assim o que eu desejo? Você deveria estar trabalhando!” Byakuya falou com raiva.
“E ver você logo cedo? Prefiro morrer.” Renji continuava com o olhar de descaso.
“Você não leu o que eu escrevi?”
“Perder meu tempo com você? Não mais, Byakuya.”
Facada certeira.
Byakuya baixou o rosto. Uma lágrima quis dar o ar da graça, porém o moreno conseguiu guarda-la para si. O capitão morria de ódio, ira. Queria bater em Renji e extravasar toda sua raiva. Mas não seria certo. Nada seria certo naquele momento. Byakuya apenas foi embora e deixou Renji com cara de tacho. O tenente soltou uma risadinha. Voltou ao seu pote de sorvete. Era a coisa mais útil que poderia fazer naquela terça feira.
—
Byakuya terminou mais um dia sozinho no esquadrão. Sendo um capitão tão eficiente, ninguém dava por falta de um tenente. O Kuchiki, mesmo cansado, tinha a capacidade de cuidar de tudo sozinho. Mas o dia foi definitivamente improdutivo. Após a manhã maçante com Renji, o trabalho saiu deliberadamente mal feito.
Aquela voz invadiu a sala.
“Que saudade de você, Byakuya.” Kenpachi adentrou a sala pegando no cabelo negro de Byakuya e soprando seu pescoço. O Kuchiki ficou em silêncio.
“Daqui à uma hora, quero você no lugar de sempre. Vou te esperar.” Zaraki mordeu o pescoço de Byakuya, arrepiando os pelos da região. “E nem pense em não ir.” Sorriu e foi embora, deixando Byakuya sozinho na sala, novamente. O capitão já estava se dando por vencido. Só tinha como opção aceitar o abuso, se acostumar com a situação. E esquecer Renji. No caso, ‘tentar’ seria a palavra certa. Ou então, torcer para que o tenente lesse a carta e fosse salvar Byakuya daquele pesadelo.
—
Renji, por pura curiosidade, pegou a carta que Byakuya o mandou. Desamassou e juntou os pedaços. Uma caligrafia perfeita em péssimo estado.
“Renji,
Eu não sei realmente o que você pode pensar da minha pessoa após o que eu disse. Eu não teria a devida coragem para te encarar e contar tudo que andou acontecendo comigo. Mas vou tentar ser direto. Faz algum tempo que... O Zaraki descobriu a nossa foto juntos. Ele ameaçou mostrar a fotografia para toda a Soul Society caso eu não cumprisse suas vontades, sem contar que ele faria algo com você. Fui humilhado e digamos, também violentado. Minhas costas estão cheias de hematomas que não pude reagir. Fora isso, eu admito que, no começo, eu até achei interessante quando lhe rebaixei, devido à chantagem do Zaraki. Meu orgulho foi inflado de forma doentia. Mas depois disso, minha vontade de morrer aumentou a cada dia. Renji, eu te amo. Eu não sou nada sem você. Eu queria ser capaz de falar isso pessoalmente a ti, mas no entanto, é algo impossível. Venha me ver depois do expediente. E peço que acredite em mim. Mesmo atirando tantas mentiras em pouco tempo. Mas foi pela sua segurança. Me culparia eternamente se Zaraki tocasse um dedo em você.
Eu te amo. Mas acho que você já sabe disso.
Kuchiki Byakuya.”
Renji amassou a carta. Jogou no mesmo canto de antes. Trocou de roupa e seguiu para a sexta divisão. Seria hora de agir. A verdadeira hora de trazer Byakuya de volta a seus braços.
—
Vazia. Levando em conta que a carta foi mandada um dia antes, a ausência era devidamente bem justificada. Renji entrou na sala e observou todos os detalhes. Sentia como se não fosse trabalhar há um ano. Então Byakuya só poderia estar... Lá.
Renji usou o shunpou e chegou à décima primeira divisão o mais rápido que pode. Sentia a reiatsu de Byakuya bem fraca, como em outras duas vezes. O tenente não teve tantas dificuldades em andar por lá, tanto que já trabalhou na mesma.
Frustração.
“Mas olhe só quem chegou Byakuya.” Renji praticamente arrombou a porta da sala principal do esquadrão. Zaraki alimentava um sorriso sádico enquanto Renji observava Byakuya. Estava ajoelhado e virado de costas, sem a parte de cima do seu quimono, sem contar as costas machucadas. Aquelas marcas escuras eram agoniantes... Renji mordeu o lábio de raiva.
“Como você teve coragem?” Renji já tirava a Zabimaru da bainha.
“Você é um ex-namoradinho bem chato, Abarai.” Zaraki falou estranhamente animado. “Se quiser, pode se juntar ao Byakuya. Dois de uma vez pode ser interessante.”
“Bastardo.” Renji correu e atacou Zaraki, que desviou. O último aproveitou para empunhar a espada também.
“Vai brigar comigo? Logo comigo?” Kenpachi soltou uma risada alta. “Por acaso quer morrer, idiota? Talvez você dê um aquecimento bom.” Novamente, Kenpachi sorriu. Aquele sorriso sádico que arrepiava qualquer um. Inclusive Renji.
“Eu não vou deixar barato, Zaraki. Zabimaru!” Gritando como sempre, Renji liberou a shikai de sua zanpakutou e atacou Kenpachi. O ruivo quase destruiu uma parede da sala, e Kenpachi repeliu o ataque com sua espada.
“Eu já volto, Byakuya. Nem pense em fugir porque eu apenas comecei.” O último se direcionava para fora da sala, e Renji o seguiu. Lutar fora da sala era o melhor a se fazer para ambos os lados. Caso a sala fosse destruída, Kenpachi teria que inventar motivos do porque do ocorrido. E isso não era recomendado caso ele quisesse continuar com Byakuya.
Também, era a chance de Byakuya.
O Kuchiki, com certas dificuldades devido a reiatsu enfraquecida, começou a procurar em todos os documentos da sala a maldita foto. Não estava em nenhum local. Nenhum. Kenpachi não era tão ignorante a ponto de deixar a fotografia aparente. Então, era a hora do plano inicial.
Yachiru.
Byakuya se vestiu e foi em busca da garota de cabelos róseos. Foi normalizando sua reiatsu aos poucos, para que Kenpachi não se distraísse do confronto com Renji. A menina estava desenhando, no seu quarto. Algo ligeiramente comum a alguém com seu porte físico e idade aparente.
“Byakushi!” Animada, a menina soltava pulos de alegria. “Bya-kun veio desenhar comigo?”
“Yachiru... Você sabe onde está a foto?” Meio sem jeito, Byakuya indagou.
“É segredo!” E novamente, voltou a pular.
“Se você me contar, te dou um mês de quanto doce você quiser.”
“Pode ser dois?”
“Feito.”
“Só um minuto, Byakushi!” Yachiru pegou uma caixa cheia de bichos de pelúcia. Abriu um ursinho velho e... A foto. Céus. Ninguém nunca desconfiaria. A garota entregou a foto para Byakuya.
“Passe amanhã em casa. Vou te dar quanto doce você quiser.”
“Ok, Bya-kun!”
“A propósito, o Zaraki sabe que a foto estava aí?”
“Sim, Byakushi! Ele que mandou eu esconder a foto aqui!” A garota sorriu inocentemente. Byakuya colocou a foto no obi do quimono e foi em direção do sexto esquadrão o mais rápido que pode. Sentiu-se meio sem graça após o feito; tinha subornado uma criança! Também estava surpreso. Quem diria que Zaraki teria um local tão bom para esconder uma fotografia? Agora, a sorte precisaria colaborar com Byakuya, para impedir que Renji se machucasse demais antes do gran finale. Quem terminaria com aquela história seria ele. Com suas próprias mãos e honra em jogo.
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