Apatia
1 Capítulo 01
Notas iniciais
Ele nunca deu a devida atenção ao seu tenente, ao menos até aquele dia.
Kuchiki Byakuya, capitão da sexta divisão. Devido à esposa falecida, tornou-se o homem que todos conhecem. Insensível e meticuloso. Mas naquele coraçãozinho, ainda tinha um pouco de luz sobrando. Ainda mais após os conflitos relacionados à sua irmã de criação. Mesmo sendo um pouco melancólico, agora o amor o aquece mais do que antes.
Mais um dia se iniciava na tediosa Soul Society. Acordar, preencher relatórios para Byakuya, fazer um chá no fim do dia e ir pra casa. De vez em quando, sair pra beber em áreas do Rukongai. Diga olá a vida de Abarai Renji. O tenente da sexta divisão, sempre com o cabelo rubro preso e um temperamento instável. Mesmo com isto, é um bom homem. Aguentava as provocações (inexistentes) de Byakuya todos os dias e ainda tem de fazer chá no fim do expediente. Isto estressa qualquer um. Mas Renji aguenta quieto (na verdade não). Afinal ele sabe que em um deslize, poderia ter a Senbonzakura atravessada em seu pescoço.
“Bom dia, taichou.” Renji entrou na sala principal da sexta divisão desanimado. Algo não muito comum vindo de seu feitio. Byakuya apenas assentiu e voltou à pilha de papeis que poluía sua mesa. Percebeu uma mudança clara no estado de Renji, mas nunca perguntaria se o subordinado estava bem ou não. O orgulho falava mais alto, e isso, todo mundo já sabe.
As horas tardaram a se passar e finalmente, o expediente chegou ao fim. Renji mostrou-se apático o dia inteiro. Não aparentava estar doente pela cor bronzeada que ainda habitava sua pele, mas também não parecia triste. Renji nunca foi bom em esconder as coisas e Byakuya sabe disto. Renji apenas se despediu cordialmente e se retirou da sala principal. Ou melhor, pretendia se retirar.
“Renji.” Byakuya disse sem querer. O tenente, surpreso, virou-se com o mesmo rosto sem feições de antes. Byakuya gelou e suas bochechas ganharam tonalidade como a do cabelo do tenente. Ficou surpreso consigo mesmo, pelo fato de ter demonstrado alguma preocupação. Mas não por muito tempo. Byakuya tossiu falsamente e disse que não era nada. Que constrangimento.
“Cuidado para não se resfriar, taichou. Boa noite.” Renji saiu deixando Byakuya com cara de tacho. Aquele não era Renji e aquilo não estava acontecendo. Era algo muito surreal para ser aplicado no momento. Byakuya decidiu ignorar. Retirou-se dos aposentos da sexta divisão e foi para casa. Pensativo como nunca esteve antes. Banho demorado, chá, cama. Isso resolveria a preocupação inútil do dia.
Ou não...
Renji passou a semana com o estado apático de sempre. Nesta hora, Byakuya já tinha ideias de que Mayuri o drogou e alimentava planos de transforma-lo em uma Nemu II. Byakuya riu. Algo não muito comum vindo dele. E começou a rir do próprio riso. Fazia muito tempo que não sorria com coisas bobas. E não tão bobas assim. Então, Byakuya se decidiu. Iria perguntar se estava tudo bem com o subordinado. Tinha um prazo de algumas horas para criar a devida coragem antes de só poder ver o tenente na segunda feira. Podia matar várias pessoas com uma bankai, levar as habitantes de Rukongai aos delírios por ser rico, bonito e forte e ainda ser objeto de desejo da associação feminina de shiningamis para a realização de um photobook. Não só isto, também como a caligrafia perfeita e as outras várias qualidades que ele tem. E entre tantos prós, não consegue fazer uma simples pergunta: “Você está bem?”
Aquele era o fim.
E mais uma tarde repugnante se passou. Vários tenentes indo sair pra beber, outros para descansar. E Byakuya continuava com o dilema. Era sua chance. Renji saiu da usual maneira da semana, apenas com um aceno e um 'tchau' desgastante. Byakuya nunca iria admitir que sentia falta dos convites de Renji para beber no Rukongai, todo fim de noite. Ele estava até cedendo o convite antes da apatia incomum do tenente com o término dos convites. Antes de ir embora, o capitão interrompeu a ida de Renji.
“Renji,” Byakuya soltou forçadamente. Não foi de propósito. Mas falar o nome do tenente mais amigavelmente era um desafio. Renji olhou surpreso. A segunda vez na semana que Byakuya chamava pelo seu nome ao invés de assentir como fazia.
“Sim, taichou?”
“Você... Você... Está bem?” Byakuya olhou para o chão. Sentia-se humilhado. Seu ego estava no fim do precipício.
“Sim, por que eu não estaria?” A vontade de Renji era rir como se não houvesse amanhã. Mas seu plano estava dando certo.
“Você... Anda muito calmo.” Byakuya quis soltar um 'não é como você costuma ser', mas seria demais. Renji soltou um leve sorriso.
“Eu estou normal. A propósito, não quer sair pra beber?” Byakuya deu pulos de felicidade. Internamente, claro.
“Pode ser.” Fez uma cara séria, nunca poderia falar que estava feliz com o convite. Renji sorriu. Byakuya estava agindo conforme a dança.
“Te busco aqui mesmo daqui a duas horas. Esteja pronto. Até depois, taichou.” Renji voltou à expressão robótica de antes e foi embora. A única coisa que Byakuya pensava era ‘que ousadia!’, mas na situação que estava não poderia reclamar.
Foi para casa com o mesmo ar pensativo que habitava seus pensamentos durante a semana. Mas não tinha tempo a perder. Depois de um banho demorado e um chá, como costumava fazer, escolheu uma roupa versátil: Camisa preta de cetim e jeans escuro. Simples e atraente. Retirou as kenseikan e prendeu o cabelo em um rabo de cavalo baixo. Irreconhecível, se não fosse pelo rosto pálido de sempre. Não prendia o cabelo com frequência, mas gostou do resultado. Avisou Rukia que tardaria a chegar em casa e foi ao encontro de Renji. Que não demorou a chegar. Vestia uma camiseta justa realçando os músculos, além de deixar uma das tatuagens a mostra e um jeans comum. Bem a cara do tenente. O cabelo estava do mesmo jeito que o de Byakuya, o deixando com um ar misterioso e sereno. Byakuya olhou Renji de cima a baixo, aprovando o visual. O tenente quebrou os pensamentos de Byakuya com um ‘vamos’ com a voz baixa e Byakuya o seguiu. A noite seria boa. Pois o capitão estava exatamente do jeito que Renji queria:submisso.
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