Anti-Heróis
4 Qual É O Meu Lugar?
Notas iniciais
Bella Swan
Eu nunca dava motivos para ser levada à delegacia. Não me envolvia em confusões, não comprava drogas e muito menos roubava. Já era ruim o bastante ser uma puta, não queria acrescentar prisões ao currículo.
Estava com medo do meu cliente prestar queixa, não tinha dinheiro para pagar uma fiança. Mas o que ele alegaria? Que eu havia me recusado transar com ele sem proteção? Mesmo assim foi um alívio quando fomos liberados.
Queria ir pra casa, descansar e não pensar no amanhã, mas me impedi ao ver Edward parado do lado de fora da delegacia pronto para fumar um cigarro. Eu devia à ele uma conversa jogada fora e foi isso o que eu fiz, ganhando um cigarro de brinde.
Me lembrava do nome dele, mas não queria que ele contasse vantagem sobre isso, homens poderiam ser bem idiotas. Sabia como poderiam se emocionar sobre uma história de amor com uma puta e eu não estava aberta ao amor de ninguém. Nunca.
Amar era algo dolorido, não havia um lado bom e, se havia, sempre terminava na dor, fosse a dor da perda para a morte ou separação. Eu já tinha muita coisa para me preocupar e o amor com certeza não seria uma delas.
Não deixei que ele me acompanhasse até em casa, não por ter vergonha, mas por temer que ele fosse tentar algo. A Marie havia tentado transar com ele, era verdade, mas a Bella não estava tentada a fazê-lo. A Bella só queria descansar sem ter que manter a educação e convidá-lo para tomar um café na minha casa minúscula.
Eu não tinha fome então apenas tomei um banho e deitei na minha cama, observando o amanhecer enquanto caía no sono. Havia sido um dia louco, cansativo e eu só precisava ir para o meu lugar preferido: o mundo dos sonhos.
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— Fechado? Como assim fechado? Kate, não!
Eu havia chego para trabalhar aquela noite na boate, mas encontrei um tumulto na porta. A boate estava lacrada e impedida de ser reaberta. A chegada dos policiais no dia anterior trouxe mais consequências do que poderíamos imaginar.
— É tudo culpa sua, Marie! — Chelsea veio para cima de mim, apontando o dedo no meu rosto. — Por sua culpa nós teremos que voltar às ruas!
— Custava dar para o cara sem camisinha?! — Heidi gritou bem atrás dela.
Kate veio em minha defesa, se colocando entre mim e as duas garotas.
— OK, vamos nos acalmar! — Pediu, vendo as duas recuarem. — É apenas por enquanto. Vamos dar um jeito de reabrir a boate. Certo, Laurent?
O dono da boate estava parado de frente para a porta, as mãos na cintura enquanto parecia perdido em pensamentos. Laurent quase nunca estava por perto e preferia lidar com os negócios de longe — exceto quando tratava de contrato, aí ele preferia estar dentro de nós.
O homem se virou na nossa direção e suspirou profundamente:
— Sim. Nós vamos dar um jeito. — Assentiu.
— E como vamos saber? — Uma das garotas perguntou.
Laurent olhou para cada uma de nós e colocou as mãos nos bolsos, umedecendo os lábios antes de falar:
— Até semana que vem terei tudo acertado e então vocês poderão voltar.
— Enquanto isso... — Soprei.
Ele pareceu ouvir, olhando na minha direção e dando de ombros. Eu sabia o que aquilo significava: enquanto isso nós teríamos que nos virar na rua. Seria uma longa semana.
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Antes de trabalhar na boate, eu já havia me prostituído nas ruas. Era mais perigoso, vulnerável e eu trabalhava muito menos. Na boate, eu pagava pelo quarto que usava, mas a rotatividade e segurança eram melhores. Na rua, eu tinha que me deslocar até um motel ou utilizar o carro desconfortável do cliente, então acabava perdendo um tempo considerável e atendendo menos.
O importante é que eu havia encontrado um ponto e não havia sido nenhum problema até o momento. Algumas garotas que eu não conhecia estavam em outras esquinas próximas, mas ninguém pareceu se incomodar com a minha presença.
Para a minha sorte, a neve já havia se dissipado e a primava começava a surgir na cidade. Não teria como ficar na sua apenas de saia e sutiã em cima daqueles saltos altíssimos se estivéssemos no inverno. Eu me lembro bem de ter pego um pouco do inverno na rua e sempre usava um casaco, mas logo fui contratada na boate e não precisei me preocupar.
Eram quase duas horas da manhã e eu só havia feito um boquete dentro de um carro. Não era o suficiente e eu comecei a temer não ter dinheiro para pagar o aluguel naquele mês. Sei que deveria procurar um emprego que fosse menos perigoso, mas eu não era qualificada para absolutamente nada que não fosse sexo.
Ouvi alguns homens barulhentos virando a esquina e temi. Sabia que homens bêbados não seriam bons para uma puta como eu. Já ouvira relatos de estupros que outras garotas, naquela mesma situação, haviam sofrido. O problema do homem era achar que, por sermos putas, tínhamos que aceitar que eles transassem conosco sob qualquer circunstância. Nós podíamos dizer não porque também éramos donas do nosso próprio corpo.
Tentei recuar, virar de costas, mas não conseguiria me cobrir já que não havia trazido um casaco para isto. Teria que lidar com o que estivesse por vir. Talvez eu devesse começar a trazer um canivete ou...
— Marie?
Franzi o cenho e me virei na direção da voz, vendo Edward e Jasper sorridentes.
— Oi. — Murmurei. — O que estão fazendo aqui?
— Nós moramos logo ali. — Jasper apontou para uma das ruas paralelas.
— O que você está fazendo aqui? — Edward desfez a expressão feliz e ficou a dois passos de distância de mim. — Foi mandada embora?
— A boate fechou. Temporariamente. — Dei de ombros, passando as mãos pelos cabelos e puxando para o colo, tentando cobrir os meus seios. — Tenho que dar um jeito enquanto isso.
— Será que foi por isso que Heidi e Chelsea não apareceram? — Jasper se virou para Edward, que continuava me encarando sem realmente ouvir o amigo. — Edward?
Engoli em seco e cruzei os braços na frente do corpo. Edward não estava fitando a minha nudez, ele estava olhando em meus olhos, procurando por alguma coisa neles.
— Heidi e Chelsea não apareceram porque não querem transar com você, Jasper. — Edward virou o rosto na direção dele e sorriu de lado. — Supere.
— Você é mau. — O loiro murmurou emburrado.
Edward ignorou o amigo e se voltou para mim:
— Está precisando de algo? Está com fome? Sede?
— Estou bem, Edward. Acho que vou para a casa. — Abri um pequeno sorriso e respirei fundo, jogando os cabelos para trás e me lembrando de quem eu deveria ser. — Vão querer um programa?
Jasper arregalou os olhos em expectativa para Edward, mas o homem apenas encarou o amigo com raiva e o loiro revirou os olhos.
— Obrigado, Marie. Vamos ter que recusar. — Jasper disse com pesar na voz.
— Se precisar de algo, é só gritar. — Edward disse, a expressão séria.
— Obrigada. — Sorri e assenti.
Jasper seguiu na frente, mas Edward ainda ficou por um momento enquanto acendia um cigarro e me entregava.
— Boa noite, Marie.
Traguei o cigarro antes de responder:
— Bons sonhos, Edward.
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Eu não voltei àquela esquina.
Por algum motivo não queria estar exposta aos cuidados de Edward e Jasper. Não entendia porquê eles queriam tanto cuidar da Marie, em especial Edward. Temia que tivessem segundas e terceiras intenções, por isso era melhor me manter afastada.
Não consegui me sair muito bem nas ruas e havia arrecadado pouco dinheiro naquela semana. Quando voltei à boate, contando com a palavra de Laurent, mais uma vez encontrei a porta lacrada.
— Droga! — Resmunguei, dando um soco na porta e me arrependendo quando começou a latejar.
Eu não tinha um celular, não tinha como me comunicar com Kate, Laurent ou qualquer outra pessoa. Achava que ter um celular era apenas um desperdício de tempo e dinheiro, mas deveria começar a repensar em situações assim.
Fiquei parada ali por um momento, esperando que algum milagre acontecesse e alguém aparecesse, mas nada acontecia. Não havia sinal de que alguém estaria ou esteve ali em muito tempo. Quando começou a anoitecer, eu voltei a andar pelas ruas, sem rumo e sem saber para onde ir.
Com certeza não queria continuar nas ruas, mas como iria procurar outra boate? Como iria me restabelecer em um novo lugar? Talvez eu devesse ir embora daquele lugar, rumar para Las Vegas e ficar lá, exatamente como havia planejado desde o início. O que eu estava pensando quando quis vir para Nova York?
Eu sabia exatamente no que estava pensando e senti o meu corpo tremer com a mera lembrança.
Congelei no lugar ao perceber que estava na mesma esquina da semana passada, bem próxima da rua onde eles haviam dito que moravam. Balancei a cabeça em negação, caminhando alguns passos para trás e me virando bruscamente, me chocando contra alguém.
— Me desculpa. — Pedi, cabisbaixa e desviando do que parecia ser um homem.
— Marie? — Ouvi meu nome ser chamado e fechei os olhos.
Poucas pessoas me conheciam por Bella, mas ainda assim sentia o meu corpo retesar ao ouvir o meu nome de puta.
Me virei calmamente e vi Edward pigarrear, reconhecendo-o de imediato. Não havia reconhecido a sua voz, o meu instinto de proteção assumia o controle em todas as situações.
— Oi. Edward, certo? — Perguntei, mesmo sabendo exatamente quem ele era.
— Sim. Você desapareceu. A boate reabriu? — Puxou assunto, trocando a sacola de papel de uma mão para outra.
— Não. — Umedeci os lábios e abracei o meu próprio corpo.
Nós ficamos um momento em silêncio, apenas olhando um para o outro até que eu desviei o olhar.
— Está tudo bem? — Edward voltou a perguntar e eu o olhei. — Você parece... Perdida.
Pensei por um momento no que ele estava dizendo e imaginei que era uma boa oportunidade de conseguir falar com Laurent, Kate ou qualquer outra garota. Eu não tinha o telefone deles, mas Jasper estava saindo com Heidi e Chelsea então talvez fosse a minha deixa. Talvez até acabasse me dando bem e ganhando algum dinheiro com os dois amigos em um sexo à três.
— Na verdade, Edward, eu estava pensando se poderia usar o seu celular. Preciso fazer uma ligação para alguém da boate, mas não tenho um aparelho ou telefone de algum deles. — Expliquei.
O rosto do homem se iluminou e ele sorriu gentilmente.
— Claro, Marie. Jasper deve ter o telefone de algum deles. Por que não subimos e esperamos até que ele esteja em casa? — Apontou com o polegar para as suas costas enquanto falava.
— Parece ótimo. — Assenti.
Comecei a andar na sua direção, passando por ele e ouvindo os seus passos se apressarem para estar ao meu lado, agora me guiando na direção do seu prédio. Subimos em silêncio até o seu apartamento e eu me surpreendi ao vê-lo por dentro. Era tudo bem arrumado, organizado e não pareciam que dois homens jovens moravam ali.
— Só moram você e Jasper? — Questionei, deixando minha bolsa no aparador ao lado da porta.
— Sim. Por quê? Bem organizado? — Edward parecia estar achando graça da minha reação.
— Muito. — Assenti, olhando para ele e vendo um sorriso encantador em seu rosto. O homem era mesmo bonito. — Vocês tem alguma ajuda?
— Não, mas não fomos sempre assim. Demorou algum tempo para criarmos uma rotina de limpeza até que deu certo. — Deu de ombros e apontou para o sofá da sala. — Por favor, fique à vontade. Vou pedir algo para comermos. Gosta de comida chinesa?
— Acho que nunca comi. — Fiz uma careta e me sentei no sofá, olhando o homem mexer no seu celular. — É crua?
— Não. A crua é a japonesa, mas garanto que esta você vai gostar. — Piscou e mordiscou a unha do seu polegar. — Vou abrir o vinho que eu comprei. Me acompanha?
— Edward, acho que estou abusando da sua boa vontade. — Pressionei os lábios, apalpando a almofada em meu colo.
— OK, então serão duas taças. — Ele me ignorou e caminhou até a cozinha, visível daquele ponto da sala.
Fiquei observando o homem abrir a garrafa de vinho enquanto uma música que eu não conhecia tocava de um pequeno rádio próximo dele. Edward cantarolava e eu apenas admirava a sua voz, seus músculos e constatando o que eu já sabia desde o início: ele era muito gostoso.
Aquele era um dos poucos homens com quem eu foderia de graça.
— Pronto, aqui está. — Ele se aproximou com o rádio embaixo do braço e me entregando uma taça.
— Obrigada. — Sorri e beberiquei, deixando a taça na mesa de centro ao lado do seu rádio. — Jasper irá demorar?
— Acredito que não. Enviei uma mensagem e ele disse que em breve estará aqui. — Sorriu para mim, bebendo um gole do seu vinho. — Jasper não dispensa comida chinesa.
— Com tanta propaganda, vou acabar fingindo que gostei da comida mesmo se não gostar. — Brinquei, vendo Edward gargalhar. Porra, ele era fodidamente bonito quando gargalhava.
— Não faça isso. Irei querer saber sua opinião sincera. — Edward colocou a taça ao lado da minha e pegou o celular mais uma vez. — Então me diga: que tipo de música você gosta de ouvir?
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