Subi correndo às escadas, minha visão turva por causa das lágrimas, e me tranquei em meu quarto. Mal se passaram alguns segundos e Nick começou a gritar e esmurrar a porta. — Abra a porta, Marisa! Nossa conversa ainda não acabou. Eu não vou deixar você terminar as coisas desse jeito!

Sufoquei um soluço e me desencostei da porta. Se eu precisasse permanecer aqui, escondida, até que ele fosse embora, eu faria. Não me importava se agora estava dando uma de covarde, depois da explosão que tive lá embaixo. Não me importava se meu comportamento era de uma adolescente e não de uma mulher adulta.

— Não há mais nada para conversar, Nick! — Gritei de volta. — Já dissemos tudo o que queríamos um ao outro. Agora vá embora!

— Tudo bem, Risa — escutei seu suspiro cansado. — Vou deixar você se acalmar antes de continuarmos. Mas, não pense nem por um segundo que vou desistir de nós dois. Se você não entende o temos, eu entendo. O amor não se explica, Marisa, simplesmente acontece!

Quando ouvi seus passos se distanciarem, permiti-me cair sentada no chão, sucumbindo ao choro, fruto de uma tristeza sem fim que inundava meu coração. Não sei por quanto tempo permaneci assim, chorando como uma menininha que havia se perdido dos pais e agora não sabia para onde ir, mas quando dei por mim o quarto já estava escuro.

Levantei-me com dificuldade, pois minhas pernas estavam dormentes, não oferecendo a sustentação necessária para que eu pudesse ficar de pé. Apoiei-me na parede, e, com passos lentos, entrei no banheiro. Não olhei meu reflexo no espelho, a imagem certamente mostraria como estava me sentindo por dentro: abatida, vazia. Eu não precisava de mais lembretes. A sensação de ter perdido uma parte minha já era suficiente para me atormentar, sem que eu tivesse que encarar a realidade da minha aparência desgrenhada.

Rapidamente me livrei das roupas que vestia e entrei no chuveiro. A água morna em contato com minha pele só fez com que a sensação de letargia se intensificasse. Eu não sentia coragem de fazer nada. Tudo em que conseguia pensar era em deitar e dormir para sempre. Como se não tivesse uma preocupação no mundo.

Mas, claro, que a realidade não podia ser do modo que eu queria. O hospital não poderia ficar sem uma de suas enfermeiras, só porque ela estava com o coração partido.

Ainda ignorando o espelho, saí do banheiro e abri a porta do guarda-roupa. Vesti meu uniforme, calcei sapatos confortáveis e escovei o cabelo, prendendo-o em um rabo de cavalo. Dei duas batidinhas nas bochechas para dar-lhes uma cor mais viva, e apliquei uma camada de brilho labial nos lábios.

Dando um profundo suspiro, abri a porta do quarto e encarei o corredor vazio. Caminhei até o antigo quarto de Nick e analisei o cômodo, que estava com a porta aberta. Não havia mais nenhum sinal de seu outrora ocupante, e isso fez com que meu coração doesse mais um pouco — se é que isso era possível.

Resisti a um impulso de entrar no quarto e continuei meu caminho até às escadas. Minha vida não podia girar em torno de um amor que não dera certo. Eu tinha um trabalho que exigia toda a minha dedicação, portanto, não poderia ficar me apegando a este drama. Precisava seguir em frente, e era isso que faria. Custasse o que custasse.

*** * ***

Os dias que se seguiram ao meu término com Nick foram os piores da minha vida. Embora estivesse convicta de que havia feito o certo, me sentia angustiada, com o coração doendo de tal maneira que, se não fosse uma loucura, pensaria ter adquirido uma doença cardíaca.

Também não ajudava o fato de Nick tentar de tudo para fazer-me mudar de opinião. Ele ligava várias vezes ao dia, e, como eu não o atendia, deixava incessantes recados em minha caixa de mensagens. Cada vez que escutava o toque que designara para ele, meu coração quebrava um pouco mais. Já não aguentava mais ouvir Primeiros Erros. Essa música era a cara do Nick, e era triste não poder mais ouvi-la na voz dele.

Eventualmente, tive que trocar o número do meu celular, pois não suportava mais seus telefonemas; aquilo só me fazia mal.

No entanto, mesmo sem suas ligações constantes, meus pensamentos não conseguiam se desviar dele, não importava o quanto eu tentasse me distrair. E isto era uma tortura. Eu havia me privado de ter o homem que queria, mas não conseguia deixar de pensar nele.

Era em momentos como este que eu gostaria de ter minha mãe comigo, para poder me aconselhar. Ela saberia me dizer como agir agora; o que fazer para abrandar esta dor que, às vezes, ameaçava me sufocar. Infelizmente, como todos que eu amava, havia perdido ela também. Papai cuidara para que eles partissem juntos. Ele não suportaria ter de encarar sua vida bêbada mais nenhum dia, e achou que seria justo levar minha mãe com ele. Afinal de contas, duas adolescentes e um bebê poderiam muito bem se virar sozinhos, não é?

As lágrimas começaram a escorrer por meu rosto, quando a lembrança daquele fatídico dia me veio à mente.

Janeiro de 1993

Nicholas não parava de chorar um segundo e Marley já estava ficando desesperada. Com três meses de vida, ele era um bebê agitado, e mesmo com minha ajuda era difícil cuidar dele. Para nossa sorte, mamãe era paciente e nos ensinava tudo o que não sabíamos, e também cuidava de Nick nos momentos em que Marley não sabia o que fazer para acalmá-lo. Como agora, só que nós estávamos na rua, e mamãe estava em casa com papai, cuidando da mais recente bebedeira dele.

— Ah, Risa! Por que ele não para de chorar? — Mar perguntou com a voz embargada.

— Tenha calma, amiga. Nós só vamos comprar um pacote de fraldas para ele e logo voltamos para casa.

Nick continuou a chorar todo o caminho da mercearia até em casa, e Marley estava com lágrimas nos olhos por não ter conseguido acalmar o filho. De certo modo, eu até entendia o menino. Ter passado pela experiência horrível de conhecer os avós era traumático para qualquer um, inclusive um bebê.

Marley achou que, passado o choque de ter uma filha adolescente grávida, e com o bebê um pouquinho crescido, seus pais iriam querer conhecer o neto. Eu sabia que aquela ideia não era boa, mas não comentei nada. Não queria ser eu a tirar o brilho de seus olhos. Entretanto, eles não reagiram da forma que ela esperava e isto só a magoou mais. Pior, Nick ficou mais agitado do que era normalmente, após ouvir sua avó bradar para que sua mãe se retirasse da residência dela com aquele bastardo. A família Reymond, que tinha orgulho de sua descendência francesa, jamais aceitaria uma criança que não tivesse nascido de um casamento.

Ninguém merecia passar por aquela humilhação, especialmente Marley, que já sofrera tanto.

— Quer que eu o segure um pouquinho? — Perguntei, quando estávamos a uma quadra de casa. — Você deve estar com os braços cansados. Esse garotão pesa um bocado!

— Eu ficaria grata, Risa. — Ela sorriu, um pouco sem jeito, enquanto me passava o menino. Entreguei-lhe a sacola de compras com a mão que estava livre, e com a outra apoiei o corpinho rechonchudo de Nick. Encostei sua cabecinha em meu ombro, e tentei acalmá-lo, eu mesma.

Por alguma ironia do destino, pela primeira vez consegui conter o choro de uma criança. Eu nunca havia sido muito boa com crianças, não sabia como falar com elas com uma vozinha infantil, e muito menos como fazer para que parassem de chorar. Mas eu vinha me esforçando com Nicholas, e estava aprendendo, aos poucos, como cuidar dele.

Olhando por sobre o ombro, constatei que ele havia adormecido. Deveria ter sido vencido pelo cansaço.

— Não tô nem acreditando que ele dormiu — sussurrei para Marley, não querendo despertar Nick de seu soninho.

— Obrigada, Risa. Eu não sei o que seria de mim sem você.

— Não foi nada, Mar. Amigas são para isso mesmo. Para ajudar em todos os momentos, principalmente nos de dificuldade. — Dei-lhe meu sorriso encorajador. — Agora, você poderia abrir a porta para mim? — Pedi enquanto lhe entregava a chave de casa.

Finalmente havíamos chegado em casa. Eu não via a hora de me esticar no sofá, e beber um copo de suco de laranja feito pela minha mãe.

Estranhei o silêncio que nos recepcionou quando entramos, e olhei para Marley, que estava com o cenho franzido, também achando esta quietude esquisita. Normalmente, a esta hora do dia, papai já estaria acordado, resmungando por toda a casa, culpando Deus e o mundo por sua ressaca infernal; e mamãe estaria cantarolando enquanto preparava o almoço.

A falta de resmungos, e de panelas batendo na cozinha deixou-me com uma sensação ruim, que tratei de ignorar. Talvez papai ainda estivesse dormindo, e mamãe, no banho. É, era isso. Ela tinha que trabalhar hoje após o almoço, por isso tinha que estar pronta antes de servir a refeição.

— Mãe, nós chegamos! — Falei em tom não muito alto, enquanto avançava pela casa. Marley, ao meu lado, permanecia calada. — Eu vou colocá-lo no berço, ok? — Pedi sua aprovação, antes de começar a subir às escadas.

— Espera, eu vou com você. Preciso trocar de roupa.

Ela foi na frente, e eu a segui, tomando cuidado para que Nicholas não acordasse. No último degrau, Mar repentinamente parou, e arfou audivelmente.

— Mar, será que dá para você andar? O Nick pesa, sabia?

— Risa. Ah, meu Deus! — Ela sussurrou, como se estivesse em choque. Isto me preocupou.

— O que foi, Mar? — Perguntei, preocupada.

— Seus... Pais. — Ela arquejou.

— Meus pais?

Passei por ela, agarrando o bebê para que não caísse, e parei abruptamente após ter dado dois passos no corredor. A cena diante de mim fez com que eu congelasse no lugar. Meus... meus pais estavam no chão do corredor. Havia uma poça de sangue ao redor deles, e a uma faca de chef atravessava o peito do meu pai.

— NÃO! — Gritei, apertando a criança em meus braços, recusando-me a acreditar naquilo que estava vendo, e Nick acordou chorando.

O som de uma batida na porta trouxe-me de volta à realidade, e um soluço escapou por meus lábios enquanto tentava acalmar a respiração. Eu não queria pensar em todo o sofrimento que vivi a partir daquele dia. Foi uma confusão. A casa foi isolada para as investigações, Mar e eu tivemos que dar depoimento... E depois, quando o caso foi concluído, tivemos que nos virar sozinhas. Foi horrível. Além de ter uma criança para cuidar, ainda tínhamos que conciliar trabalho e escola. Com toda certeza aquela foi a pior época da minha vida, a mais sofrida. Mas, pelo menos, eu tinha Marley para dividir este fardo.

Apertei o laço do roupão que estava vestindo, e caminhei para a entrada da casa. Espiei pelo o olho mágico e constatei que era apenas o carteiro do outro lado. Não sei por que me senti desapontada, mas havia uma ínfima parte em mim que queria que fosse Nick; que ele estivesse lá para tentar convencer-me mais uma vez a aceitá-lo de volta. Mas não era.

Apesar do que dissera, sobre lutar por nosso relacionamento, e fora as ligações, ele não fez nenhum outro movimento para tentar consertar as coisas entre nós. Não que ainda houvesse algum conserto, mas fiquei decepcionada que ele não tivesse lutado mais. E isto era loucura. Eu tinha que parar de fantasiar. Droga!

— Bom dia — cumprimentei educadamente, quando abri a porta.

— Bom dia — o homem me cumprimentou de volta. — Senhorita Marisa Vasconcelos? — Indagou.

— Isso mesmo.

— Tenho uma entrega para a senhorita, poderia assinar aqui? — Entregou-me uma prancheta, onde indicou o lugar em que deveria assinar.

Agradeci quando ele me entregou o pequeno embrulho e fechei a porta. O que poderia haver ali dentro? Era uma caixa tão pequena... Quem teria me enviado? Procurei pelo remetente, mas estranhamente não tinha. Será que... Não, não ia ficar me iludindo com essas coisas.

Rasguei o papel que envolvia o pacote e balancei um pouco, ouvindo o barulho de algo de sacolejar lá dentro.

Levantei com cuidado a tampa da caixinha dourada, e me surpreendi ao encontrar um pendrive lá dentro. Mas não era só isso, havia também um bilhete. Se eu fosse esperta, não o leria, porque já tinha certeza de quem me enviara aquele pacote. Entretanto, eu já havia provado que quando se tratava de Nick esperteza não era meu forte.

Tirei o papel de dentro da caixa, com as mãos trêmulas, e o fitei, absorvendo as palavras ali escritas, ao mesmo tempo recriminando-me mentalmente pela alegria que senti ao lê-las.

Eu disse que não iria desistir de nós dois, espero que você entenda isso de uma vez por todas. Por favor, não ignore como fez com minhas ligações.

Coloquei o bilhete de volta na caixa e a fechei. Eu não podia perpetuar mais isso, não podia mais me torturar. Além disso, era hora de me arrumar e ir trabalhar.

*** * ***

Cheguei em casa no início da noite, cansada. Mas era gratificante saber que passara o dia cuidando de pessoas que precisavam da minha ajuda, que eu era necessária para alguma coisa. A rotina de um hospital podia ser esgotante, no entanto, além de normalmente já gostar do meu trabalho, ele mantinha minha mente ocupada de certos pensamentos que não deveria ter. Mesmo que fosse só por algumas horas, isso era um alívio para minha alma.

Subi às escadas, e no meu quarto, tirei o uniforme e fiz um alongamento, sentindo todos os meus ossos estalarem. Segui para o banheiro, onde tomei um banho demorado, que me deixou deliciosamente relaxada. Quando desci para preparar algo para jantar, peguei um vislumbre da caixa que estava tentando esquecer. Ela estava ali, em cima do aparador, incitando-me a me aproximar, hipnotizando-me com seu brilho dourado sendo refletido pela luz.

Tentei ignorá-la novamente, mas havia algo me puxando, como se fosse um imã, e eu, um metal facilmente atraído. Caminhei até onde ela estava e a abri. Em um impulso peguei o pendrive, sentindo sua forma em minha mão, conforme eu o apertava. Eu iria ver o que estava aqui. Estava decidido. Mas primeiro iria jantar. Depois resolveria esta última pendência. Era só isto o que faltava para eu dar esta história por encerrada. Não era?

Passei a refeição inteira inquieta, pensando no maldito pendrive que havia guardado no bolso do meu short jeans. Chegou um determinado momento em que isto se tornou insuportável, e eu resolvi acabar logo aquela aflição.

Fui para o escritório e conectei o pendrive ao notebook. Após alguns segundos abri a pasta correspondente, mas encontrei apenas um arquivo de vídeo de 4 minutos e 30 segundos.

O que quer que Nick quisesse me dizer estaria ali. Será que 270 segundos eram suficientes para resumir tudo o que vivemos?

Cliquei duas vezes e esperei começar. Assim que a imagem de Nick apareceu, contudo, pausei a reprodução para que pudesse lhe estudar as feições apenas mais esta vez, a derradeira.

Ele ainda era o mesmo Nicholas de quem eu me lembrava, embora seu olhar agora fosse perdido, vazio.

Isto foi o que você fez com ele, Marisa — uma vozinha irritante murmurou em minha mente.

— Não é verdade! — Gritei, agarrando os braços da cadeira em que estava sentada, enquanto esperava minha respiração, subitamente alterada, normalizar. — Eu fiz o certo; o que era melhor para ele — sussurrei.

Uma lágrima desceu por meu rosto, e eu a sequei com raiva. Já estava cansada de tanto chorar. Era a coisa que eu fazia com mais frequência ultimamente.

Pensei em desligar o computador e dar o assunto por encerrado, mas não consegui. Porque no fundo eu sabia que não ficaria tranquila se não soubesse o que havia ali. Foi apenas por isso que apertei o play novamente.

— Olá, Risa - sua voz, mesmo em vídeo teve efeito em mim. Minha frequência cardíaca aumentou, e os pelos em minha nuca se eriçaram -, sei que você pensa que fez o que era melhor, mas está errada. Cada dia sem você tem sido uma tortura. Estou vivendo no inferno, mas entendo seu lado. Como te conheço bastante, sei que apenas minhas palavras não a convencerão, caso contrário nem estaríamos nesta situação agora — ele deu um sorriso torto, o meu favorito. — Encontrei uma canção que reflete bem o que estamos sentindo, porque eu sei, Risa, que você está tão desolada quanto eu.

Nick se sentou e pegou um violão, que estava fora da minha linha de visão, antes. Quando começou a cantar Memórias, da banda Malta, meus olhos lacrimejaram, e logo eu já estava chorando, de novo. Ele estava certo, aquela música resumia bem o que estava sentindo, a forma como a cada dia recordava mais e mais momentos que vivemos juntos. A canção chegou ao fim e ele disse apenas: Eu te amo, Risa. Por favor, seja minha.

O que eu devia fazer agora? Ele havia conseguido me balançar, fazendo meu idiota coração bater como um bando de pássaros.

Olhei para meu celular em cima da mesa, a indecisão me corroendo. Por que não podia simplesmente esquecer isso? Envolver-me com Nick havia sido um erro, um erro que eu já tinha corrigido. Ou pensava ter corrigido.

Antes que pudesse ter um pensamento racional que me impedisse, peguei o celular e disquei seu número; aquele que eu conhecia tão bem.

— Nick? — Falei assim que ele atendeu, embora eu só pudesse ouvir um ruído e algumas vozes ao longe. Certamente ele estaria se apresentando em algum barzinho hoje.

— Desculpe, mas não é o Sr. Reymond — respondeu uma voz feminina. — Estamos com seus pertences e já iríamos telefonar para avisar alguém da família sobre o que aconteceu.

Ah, meu Deus.

Senti meu sangue gelar nas veias. Pressentia que o que ouviria não seria nada bom.

— O que aconteceu com ele? — Questionei.

— O Sr. Reymond sofreu um acidente de carro. Você é uma pessoa próxima ou da família?

Assim que ela perguntou isso, senti consolidar-se em mim o que eu vinha tentando negar há tanto tempo.

— Sou tudo o que ele tem.