Antes que seja tarde
4 Capítulo 3
Julho de 2013
— Eu não sei por que ainda deixo você escolher algo para assistirmos – Resmunguei, ao ver aqueles monstros, intitulados zumbis, na tela da televisão.
— Marisa, antes o meu gosto que o seu – Nick retrucou.
— E posso saber por quê? – Fingi-me de ofendida. Nicholas sempre implicava comigo por eu só gostar de assistir comédias românticas.
— Sinceramente, Risa! – Ele disse, rindo. – Aqueles filmes são horríveis...
— Chato – bati em seu braço, de brincadeira.
Ele revirou os olhos.
— Presta atenção na TV.
Forcei-me a encarar a televisão e continuar assistindo. Em algum momento, consegui me prender ao enredo, e comecei a prender a respiração em determinadas cenas mais tensas. Nick e eu estávamos mais próximos no sofá, e em uma parte que senti medo acabei por abraça-lo. Quando me dei conta do meu comportamento inapropriado, me afastei, no entanto, ao erguer meus olhos, senti-me ficar hipnotizada pelo brilho de seu olhar verde.
O que era isso? Essa sensação estranha me dominando?
Afastei o olhar rapidamente e me levantei, dando uma desculpa sobre ir beber um copo d’água e fui para a cozinha.
O que foi isso que acabou de acontecer?
Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos da minha cabeça e enchi um copo com água. Eu estava precisando.
Andei apressadamente pelos corredores do hospital em que a moça havia dito que Nicholas estava. A cada passo que dava, mais lembranças invadiam minha mente. Foi tão fácil me apaixonar por ele, que nem percebi, quando vi já não tinha como voltar atrás. Depois daquele dia em que me senti estranha após abraçá-lo, mais momentos constrangedores aconteceram. Até que chegou um dia em que a tensão foi demais para suportar e nós acabamos cedendo.
Setembro de 2013
— O que você está fazendo? – Soltei a vasilha de vidro em que estava misturando os ingredientes da sobremesa que pretendia fazer, e ela se estilhaçou no chão, tamanho o susto que levei ao ouvir a voz de Nicholas.
— Nick, você quase me mata de susto, menino! – Levei uma das mãos ao peito, sentindo meu coração bater acelerado. Entretanto, não sabia se o aumento de minha frequência cardíaca se devia apenas ao susto ou se a presença de Nick também tivera alguma influência.
Observei a bagunça que minha cozinha havia se tornado, cacos de vidro estavam espalhados por todo lugar.
— Desculpa, Risa. Não tive intenção de te assustar. Ah, e só para que fique claro, não sou mais um menino – Ele deu um de seus sorrisos sedutores e eu me virei para a pia, pois se continuasse a observá-lo, não seria responsável por minhas ações e isto era inaceitável. Nicholas tinha idade para ser meu filho, e, de alguma forma, era, uma vez que eu o tinha criado.
— Pode até não ser, mas às vezes age como um. – Retruquei, agindo mais uma vez como a adulta chata. Era necessário impor uma distância entre nós dois. – Vai pegar a pá e a vassoura e me ajuda a apanhar esse vidro todo do chão.
Quando ele voltou, eu já tinha colocado os pedaços maiores em uma sacola, só faltavam os menores, que eu não me arriscaria em pegar com as mãos.
— Fala que eu ajo como criança, mas veja só você – ele balançou a cabeça – Não sabia que é errado pegar em vidro quebrado, dona Marisa? Você podia ter se cortado.
— Eu sabia o que estava fazendo – me limitei a dizer. – Agora, me dê a vassoura, para que eu possa terminar de limpar a cozinha.
— Nada disso – ele tirou a vassoura do meu alcance, quando tentei pegá-la. – Você disse que eu ia ajudá-la, e é isto que vou fazer. Afinal de contas, se não fosse por mim, essa bagunça nem existiria.
— Faça como quiser. Eu tenho que aprontar algumas coisas e...
— Você está fugindo de mim, Risa?
— O quê?! – Perguntei, assustada.
— Ultimamente, você passa o mínimo de tempo possível perto de mim. Sempre que estou por perto, você arruma alguma coisa para fazer. Pensa que não percebi?
Engoli em seco, sem saber o que dizer.
— Acho que você está exagerando, Nick. Eu tenho muitas coisas para fazer, não posso dedicar minha atenção o dia todo a você.
— E agora você está fugindo do assunto! – Nick parecia exasperado. – Não minta para mim, Marisa. Tem alguma coisa acontecendo, só não sei o que, mas isto está fazendo você se distanciar de mim, e eu estou odiando isso!
Virei-me e fechei os olhos, apertando as mãos. O que eu podia dizer? Estou me afastando porque me sinto atraída por você e isto não está certo?
— Risa... – Senti sua presença atrás de mim, o calor de seu corpo me fazendo estremecer. – Por que você tem que tornar tudo tão difícil? – Seus braços me rodearam e ele me obrigou a encará-lo. A tensão na cozinha estava tão espessa que daria para cortá-la com uma faca. – Você não percebe que não é a única lutando contra algo, aqui?
— Isto não está certo... – Falei, meio sem fôlego, ao perceber do que ele estava falando. E eu pensando que tinha disfarçado tão bem o que estava sentindo!
— Foda-se o certo – ele disse, pouco antes de seus lábios descerem sobre os meus.
Eu precisava saber notícias dele urgentemente. Estava me sentindo igual ao dia em que me ligaram para avisar que Marley morrera de um infarto fulminante. Ela era tão jovem, e ao mesmo tempo, já possuía tantos problemas de saúde. Fora por isso que ela me designara como tutora de Nick, caso alguma coisa lhe acontecesse. Porque sabia que estava fadado a acontecer, era inevitável. Mar só não sabia que seria tão rápido. E era por isso que agora eu estava tão aflita com medo do que poderia acontecer. Ali, naquele mesmo hospital eu perdi minha melhor amiga, e agora podia perder também o amor da minha vida.
Avistei uma enfermeira e perguntei se ela sabia alguma coisa sobre os dois rapazes que haviam sido trazidos há pouco mais de uma hora, vítimas de um acidente de carro ocorrido na estrada vicinal que dá acesso a Birigui. Foi como se uma faca tivesse me acertado direto no peito e dilacerado meu coração em um milhão de pedacinhos quando ela respondeu que um deles chegara morto, e que não sabia informar sobre o outro, pois ainda estava sendo examinado, mas que o estado era grave.
Pedi aos céus que o morto não fosse Nick, enquanto me afastava, em meio às lágrimas. Se fosse Nick... Eu não sabia se sobreviveria a mais essa perda. Especialmente essa perda.
Ao chegar à sala de espera, reconheci algumas pessoas. Eram os pais de Charles, o amigo de Nick que estava com ele no carro. Eles estavam cabisbaixos, suas expressões desoladas.
Aproximei-me e sentei-me ao lado deles.
— Ah, Marisa... — Ângela soluçou. — O meu Charles... — a voz dela quebrou no meio da frase. — Ele... Ele está... morto.
— Eu sinto muito, Ângela — abracei-a, enquanto também chorava.
— Ele era tão jovem — ela soluçou. — Tão cheio de vida. Por que isso foi acontecer? Por quê?
Esta era a mesma pergunta que eu vinha fazendo desde que descobrira sobre o acidente. Por quê?
Alguns minutos, que pareceram horas, depois um médico apareceu e perguntou se algum familiar de Nicholas Reymond se encontrava no local. Hesitantemente me levantei da cadeira em que estava sentada e apresentei-me como sua ex-tutora. Ele olhou-me por um momento, e eu reconheci as emoções por trás de seus olhos, mesmo que tentasse escondê-las. Eu trabalhava em um hospital, já passara por esta situação outras vezes, mas sempre estivera do outro lado. O lado daqueles que teriam de dar a trágica notícia a uma família.
— Sinto muito, Srta. Vasconcelos, mas ele não resistiu aos ferimentos.
Me senti anestesiada por um momento, e não consegui sentir nada. Estava vazia. Eu afastei Nicholas da minha vida, mandei o homem da minha vida embora de casa porque sentia que nosso relacionamento era errado, e agora o perdi para sempre. Nunca mais veria seu sorriso, ou desaprovaria alguma de suas ideias. Não brigaríamos por motivos bobos, não riríamos de suas tentativas frustradas na cozinha.
Pouco a pouco a realidade foi fixando dentro de mim, e logo senti as paredes se aproximando, tomando o pouco de ar que restava em meus pulmões. Eu estava sendo arrastada pela enchente de emoções que me dominaram, todas de uma vez.
— NÃO! — Gritei, recusando-me a aceitar que aquilo poderia ser real.
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