Antes do fim
11 Quem são eles?
Ana escutou até o último segundo da música sentindo seu coração pulsar em suas veias. Ela segurava o reprodutor enquanto tentava pensar no que poderia falar ou fazer, afinal, a menina havia sido pega de surpresa e não esperava que em um momento ou outro o garoto que amava pudesse falar o mesmo pra ela. Pedro esperava meio inquieto por alguma reação já que a garota parecia estar envergonhada.
Ele foi se aproximando dela, esperando que não estivesse fazendo a coisa errada e que novamente não tivesse entendido tudo errado. Ana levantou o olhar devagar pro menino e reparou que ele estava próximo ao ponto de quase encostarem os narizes. Ela tentou processar algo para falar, mas permaneceu calada, olhando no fundo dos olhos dele. O garoto, por outro lado, sabia perfeitamente o que precisava fazer e empurrou seu corpo lentamente, precisando que a menina consentisse e fizesse mesmo.
— Eu... — Pedro falou em um sussurro quase inaudível. — Posso te beijar?
Ana levou seus braços ao pescoço do menino e assentiu devagar com a cabeça. Pedro então a puxou pela cintura e a beijou como se estivesse esperando por aquele momento desde em que nasceu. Foi como se eles estivessem predestinados um para o outro e com aquele beijo tudo o que suspeitavam ser verdade parecia ter sido confirmado.
Os dois ficaram agarrados até faltarem ar e encerrarem com algumas risadas baixinhas enquanto se entreolhavam com um pouco de timidez. O garoto pegou na mão da menina e a puxou para mais perto. Ana se acomodou no abraço dele e fechou os olhos, esperando que tudo aquilo realmente não fosse um sonho.
— Eu não imaginava... — Ela falou.
— Eu também não imaginava... — Ele respondeu. — Aliás, você não deixou mesmo nenhum papel na minha porta?
— É uma história meio sem graça para ser explicada agora, mas que bom que eles voaram e foram diretamente para você. — A menina riu, se lembrando a situação. — Eu não queria ter que te esperar mais.
— Faz muito tempo que eu venho te amando, como diz a letra. — Pedro falou. — Mas sempre tive medo de ser rejeitado, de acabar estragando nossa amizade, de perder você...
— Estávamos no mesmo barco desde o começo.
— Agora podemos navegar juntos. — Ele concluiu, puxando o queixo da menina para cima com delicadeza. — Eu e você. — E em seguida, a beijou novamente.
— Afinal... — Ela se afastou para que pudesse vê-lo melhor. — Você canta? Por que eu nunca percebi isso antes?
— Eu não tive coragem de mostrar pra ninguém ainda, mas eu sentia que precisava fazer isso da melhor forma possível.
— Você é incrível. — A menina falou. — O mundo precisa te conhecer.
— Não! — Ele pareceu apavorado. — Quer dizer...não agora, eu também quero isso, aliás, eu me matriculei na semana passada para o vestibular de música.
— E não me falou? — Ela deu um soco de leve me seu braço. — O que você anda escondendo?
— Agora não preciso esconder mais nada. — Ele sorriu para ela.
Ana abraçou o menino novamente e depois de aproveitarem outros beijos, voltaram para os amigos, já que não haviam avisado nada e pensaram que provavelmente estivessem preocupados. Durante o caminho, eles preferiram não falar nada a ninguém, afinal, aquele amor só os dois poderiam viver e para que não morressem de tantas perguntas até o resto da trilha, eles passaram o restante do tempo seguindo como bons amigos.
Com o passar do dia, os meninos aproveitaram para comer algo por volta do meio dia e seguiram o resto do caminho de areia enquanto tiravam várias fotos para registrar a viagem. Todos estavam felizes com sorrisos estampados em seus rostos, eles brincavam, dançavam, cantavam juntos e assim fizeram até que o sol começasse a se pôr, avisando de que precisavam voltar para casa. Clara pegou o celular em seu bolso para verificar a bateria e havia notado de que desde que chegaram o seu aparelho continuava sem sinal telefônico.
Na medida em que se encaixam no carro jogando suas bolsas para a mala, os amigos dispararam para casa observando o céu pintar as nuvens de um rosa choque como se estivesse construindo uma obra de arte que estava prestes a ser exposta no The Louvre. A estrada a frente estava tranquila, alguns carros passavam na pista de volta e enquanto a noite ganhava lugar, as luzes dos postes acendiam lentamente, fazendo com que Bruno acelerasse ainda mais para que pudesse chegar a tempo.
Faltando quinze minutos para que chegassem próximo a entrada de Baixa Estação, Bruno observou pelo retrovisor os amigos dormirem encostados uns nos outros devido ao cansaço que estavam sentido. Guto estava ao seu lado observando as estrelas pela janela mesmo que também estivesse lutando contra o sono. As casas e empreendimentos ao redor passavam a ficar cada vez mais reconhecíveis mostrando que já estavam na área da cidade e que em breve completariam o caminho.
A placa de boas-vindas aparecia na visão do menino ao mesmo tempo em que ele notou um pequeno trânsito que se formava a frente. O medo percorreu sobre o estômago do garoto quando percebeu que a estrada estava interrompida por uma blitz, porém não era a polícia que estava responsável e sim o exército brasileiro. Bruno freou o carro enquanto observava um soldado se aproximar com uma prancheta próximo aos outros carros e questiona-los sobre algo.
— Ei... — Bruno bateu no braço de Guto, fazendo o menino prestar atenção e entender a situação. — O que fazemos agora?
— Você está com sua ID falsa?
— Você acha que eu vou apresentar uma ID falsa ao exército? — Ele estava entrando em pânico aos poucos. — Vamos ser presos!
Ana abriu os olhos devagar e se acomodou, percebendo que os meninos a frente estavam discutindo.
— O que está acontecendo? — Ela perguntou, enquanto cutucou Pedro para que também acordasse.
Guto olhou para a amiga e sinalizou com a cabeça de que ela olhasse para a estrada, fazendo a garota perceber imediatamente que eles estavam encrencados.
— Quem são eles?
— O exército. — Guto respondeu.
— Óbvio que são, mas o que eles estão fazendo aqui?
Pedro e Clara acordaram devido a euforia dos outros amigos e começaram a ficar preocupados, esperando para que nada de ruim acontecesse. Os carros andavam devagar, mas tudo parecia estar pacífico, tendo em vista de que todo mundo estava conseguindo entrar na cidade. Um dos soldados começou a andar em direção ao carro que estavam e parou próximo a porta do motorista, fazendo com que Bruno controlasse o seu nervosismo.
— Boa noite, amigo. — O soldado falou. — Posso conferir sua carteira de motorista?
Guto estava segurando a carteira falsa de Bruno em suas mãos enquanto pensava se valeria a pena passar o resto da sua vida na cadeia para salvar um amigo. Ele estendeu o braço e a entregou, observando o soldado ler atento as informações.
— Posso saber de onde estão vindo? — Ele questionou.
— Viemos da trilha próximo a Alta Granada. Passamos o dia inteiro lá. — Ana respondeu, parecendo segura.
— E não viram nada de estranho?
— Estranho? Como assim? — Clara se aproximou para que pudesse conversar com o soldado.
— Vocês são naturais de Baixa Estação, certo? — Ele ignorou a pergunta da menina.
— Todos nós. — Pedro se colocou a frente. — Você pode nos informar o que está acontecendo?
O soldado o encarou como se tivesse algo para falar, mas bateu com a caneta na prancheta que segurava e se afastou do carro. — Podem seguir.
Bruno não pensou duas vezes e se afastou do rapaz que ainda os encarava. Haviam pelo menos cinco carros blindados e muitos deles espalhados pela pista como se estivessem prestes a realizar alguma ação ou prender alguém. Com a volta do sinal, os celulares começaram a tocar ao mesmo tempo. Os meninos perceberam que seus pais estavam ligando e que provavelmente algo estava prestes a acontecer já que o clima que pairava ao redor era de medo e terror. As ruas estavam vazias como se estivesse acontecendo outro confinamento.
— Vai ficar tudo bem, galera. — Bruno falou enquanto acelerava para que pudesse deixar os amigos em casa. — Vamos pensar positivo. — Ele concluiu, sentindo com que seus dias não seriam mais os mesmos.
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