Antes do fim

12 Proporção Nacional


Enquanto percorriam as ruas de Baixa Estação notando que eram os únicos a se locomoverem pela cidade, era possível observar algumas pessoas os encarando pelas brechas das janelas ou entre as cortinas blackouts. Por um momento, os amigos pareceram estrelar algum curta de um terror slash, onde todos estavam se escondendo de algum assassinato a solta, já que era esse o clima que piorava toda a situação.

Bruno deixou os amigos em casa, pedindo para que mantessem o contato sempre que possível, afinal, as coisas não estavam sendo as mesmas ultimamente. Pedro e Ana foram os últimos a serem deixados, já que eram vizinhos. Os amigos se envolveram em um abraço forte e ficaram assim por alguns segundos, até que desceram do carro e correram para suas casas. Ana depositou um beijo na bochecha de Pedro e apertou suas mãos enquanto o olhava profundamente em seus olhos.

— Calma, meu pai deve saber o que aconteceu, vou contar a todos vocês. Não se esquece...estou a uma janela de distância.

Na medida em que caminhava para a entrada da casa, Pedro pôde ouvir o estalar da porta e visualizar seu pai parecer sair apressado de casa. Ele estava com a blusa abarrotada, um pouco descabelado e com uma expressão assustada. O garoto quis abrir a boca e perguntar o que estava acontecendo, mas tudo o que soube fazer foi abraçar o pai com todas as forças possíveis e segurar as suas lágrimas. Aquele era para ser um dia feliz, como havia planejado, não um possível fim do mundo como estava parecendo.

— Pedro, meu filho, por que você não falou comigo? Estou te ligando a um bom tempo.

O garoto levantou a cabeça para cima e se desvencilhou do abraço. — Pai, o que está acontecendo?

O homem encarava seu filho querendo lhe dar alguma explicação, mas não queria o assustar mais. — A questão é que eu não sei, Pedrinho. Me ligaram agora informando que a porra do exército está na entrada da cidade realizando uma ação temporária, mas não me explicaram nada.

— Passamos por eles...questionaram se éramos naturais daqui, se vimos algo estranho e não tem uma pessoa sequer perambulando pelas ruas. É outro confinamento? Tem algo de errado com a cidade?

— Olha... — Ele pousou suas mãos nos ombros do menino. — Eu vou pra lá correndo e volto pra casa na mesma velocidade com todas as respostas possíveis, mas quero que você entre agora e se tranque, está bem?

— Pai... — Pedro não sabia mais o que falar. — Estou com medo.

— Entra e espera por mim.

Pedro observou o pai correr para o carro e dar uma arrancada em alta velocidade sumindo da sua vista em questão de segundos. O garoto se virou para entrar em casa e pôde observar que Ana estava na janela, assistindo toda aquela cena de medo que o garoto tentou não demonstrar enquanto estavam juntos.

O menino trancou todas as portas e janelas e correu para sua cama. Ele conseguia ouvir seu celular vibrar, deduzindo que seus amigos estavam mandando mensagens, mas o garoto não sabia o que fazer naquele momento e tudo o que fez foi ficar deitado no escuro do seu quarto esperando qualquer sinal de que fosse a volta do seu pai.

***

Assim que entrou em casa, Ana foi recebida por uma chuva de perguntas que vinham dos seus pais. A menina tentou acalma-los e demonstrar que tudo estava bem, que ela continuava intacta e que nada havia acontecido. Aparentemente eles também não sabiam de nada e estavam tão confusos quanto ela. A sua mãe chegou a comentar de que o prefeito havia se ausentado o dia todo e que até agora ninguém sabe o seu paradeiro, os grupos nas redes sociais não paravam desde que os canhões do exército começaram a rodar pela cidade no começo da tarde.

— Eles estão pela cidade esse tempo todo?

— E ninguém sabe de nada, já foram questiona-los o porquê de toda aquela situação e dizem que não podem falar nada sobre. Sua avó me mandou mensagem, disse que a notícia chegou a passar nos jornais das cidades pelo nordeste. — Seu pai entrou na conversa.

— Então a proporcão disso tudo é nacional? — Ana perguntou assustada. — Tem algo de estranho acontecendo.

A menina subiu para o seu quarto e tomou um banho demorado, tentando colocar a cabeça no lugar e aproveitando para se acalmar, já que o seu dia virou de cabeça para baixo em questão de uma hora. Após sair do banho e por uma roupa confortável, a garota pôde ouvir Pedro ainda conversar com seu pai, a fazendo correr pela janela e observar toda a cena. Ela nunca havia visto o garoto tão vulnerável, ele parecia querer chorar, questionava tanto o pai e ela percebia que o homem só queria deixar o garoto bem, mas ele também estava em busca de resposta. Enquanto o viu sair em derrapada com o carro, Pedro avistou a menina. Ana levantou a mão em um aceno breve, mas ele não desemboçou nenhuma emoção, apenas correu para dentro de casa.

A garota pegou seu celular e começou a ligar para o menino, tentando saber o que estava acontecendo, mas ele não estava atendendo. Enquanto observava a barra de notificações, os demais amigos também questionavam se todos estavam bem.

Desde que havia perdido a sua mãe, Pedro não tinha outra opção a não ser lidar sozinho com toda e qualquer situação que aparecesse em sua vida e aquela não poderia ser diferente. Enquanto estava deitado e enrolado com seu lençol cobrindo todo o seu corpo o menino ouviu um batucar de leve na porta da sala, fazendo todo o seu corpo acordar com adrenalina.

O garoto se sentou devagar na beira da cama e puxou o lençol para o lado. A casa estava escura e não havia nenhum barulho ao redor, por um momento pensou que talvez tivesse sido algo da sua cabeça, mas o batucar apareceu novamente e ele concretizou que vinha do andar de baixo. O menino correu pelas escadas e notou que havia uma sombra por trás da porta, mas os sapatos que ele via pela brecha não eram do seu pai.

— Quem é? — O menino perguntou enquanto caminhava sorrateiramente. — Pai, é você?