O restante do dia se passou sem que Ana e Pedro acabassem se vendo e tendo contato novamente. A menina havia chegado cansada da aula e aproveitou o resto do tempo livre para descansar e assistir algum filme. Pedro estava aprendendo a escrever uma música com o pouco que havia entendido com o seu professor instrumentista.

Pela manhã, aquele papel amassado que estava sob posse do menino foi motivo total dos pensamentos dele. Ele se questionava se aquele recado teria caído nas mãos certas, como e por quê Ana teria o colocado naquela planta exatamente para que ele reconhecesse...eram muitas dúvidas, apesar de nunca ter percebido que a amiga pudesse ter esses sentimentos escondidos durante todo o tempo, já que ele tinha visto o ano que havia sido escrito.

A verdade é que Pedro sempre gostou da Ana. Foi a exatamente dez anos atrás, quando cada um tinha sete anos de idade e estudavam na Nossa Senhora do Bom Agrado, a escola católica da cidade que eles se conheceram, no momento em que menina sem querer derrubou sorvete na roupa do garoto que estava prestes a se apresentar em um show de talentos. Ele a odiou por bastante tempo, até que o destino decidiu juntá-los três anos depois, fazendo com que se tornassem vizinhos. Desde então, eles nunca se desgrudaram. Ela contava todos os segredos para ele, e assim vice-versa, criando um vínculo indestrutível e de um amor grandioso. Pedro sempre gostou de observá-la, ele adorava os cabelos castanhos e os olhos verdes que Ana tinha. A sua inteligência o fascinava.

Não foi difícil para ele cair na realidade quando percebeu que desde que Ana apareceu na sua vida, nenhuma menina chamava mais atenção do que ela. Ele a adorava. Seu sorriso, suas roupas, seu jeito de falar sobre a vida davam o menino um conforto que ele jamais sentira, ele só era ruim e sentimentos e como expressá-los. Todos os dias ele tentava falar a menina o quanto gostava dela, mas lhe faltava força, voz, coragem, porque o medo lhe dominava. Ele não queria perdê-la, nem a sua companhia e nem a sua amizade...então Pedro guardou durante todo esse tempo tudo o que a menina também sentia.

Com o passar do dia, decidiu que conversaria com ela. Ele queria colocar tudo para fora, sem que pudesse deixar uma palavra escapar, mas tinha medo da reação dela. E se fosse tudo um mal entendido? Como que ela reagiria? Será que ela o acharia louco demais por amá-la daquele jeito?

Ana estava deitada em sua cama enquanto comia um fini de morango e olhava para o teto do quarto, cantarolando Buzzcut Season que estava a tocar no seu aparelho de som. O celular da menina vibrou e ela pôde vislumbrar o nome de Pedro estampar a ligação na tela.

— Pedro? — Ela atendeu. — Você me ligando?

Ele ficou quieto por dois segundos e falou. — Ei, Granger. Você tem planos para hoje?

— Não, hoje estou totalmente entregue ao tédio.

— O que acha de pegarmos um cinema mais tarde?

— Perfeito. — Ela respondeu. — Mas eu escolho o filme, ok?

— Só me avisar, então. Beijo. — Então Pedro desligou.

O garoto estava tão nervoso que não conseguia pensar em algo mais íntimo do que o cinema. Teriam pessoas ao seu redor, mas nada o impediria, já que todo mundo estaria quieto enquanto assistiam ao filme e ele não poderia vê-la correr para longe dele caso tudo desse errado.

Ana lhe enviou uma mensagem informando sobre o filme. Eles veriam Bacurau em uma amostra grátis de cinema brasileiro que estava tendo próximo a praça do centro, ás seis e meia da noite.

Pedro olhou para o relógio e observou que faltavam cinquenta minutos para que pudessem estar lá. O menino correu contra o tempo, tomando um banho rápido e colocando a sua melhor roupa para que pudesse encontrar Ana. Faltando meia hora, ele encontrou a amiga e em seguida, seguiram no carro para chegar a tempo.

Ela estava linda e agindo como se não tivesse feito nada, como se não tivesse deixado um bilhete que explodiria a cabeça do menino em mil pedaços. Afinal, era isso o que ele pensava. Pedro evitava olhá-la algumas vezes, para que não ficasse mais nervoso. Ele gaguejava e a menina ria, ele falava algo sem sentido e ela o perguntava o que o menino havia bebido antes de encontrá-la.

— Você me deixa meio.... — Ele pigarreou. — Esquece.

Ana o encarou, sem entender o que estava acontecendo e achando que provavelmente estivesse louca, pois parecia que o menino confessaria a qualquer momento que a amava, como se estivessem em um filme de romance.

— Você tem algo para me falar? — Ela perguntou séria.

Pedro a encarou por alguns segundos e voltou a fitar a estrada, já que estavam próximos de chegar. A rua era grande e daria tempo de contar para ela tudo que queria e deixar com que ela abrisse a porta para correr e não fosse atingida por outro veículo.

— Eu tenho? — Ele se perguntou em voz alta.

A menina gargalhou vendo o menino naquela situação. — Isso quem me diz é você.

— Eu tenho, sim. — Pedro respondeu encarando a menina.

Ana sentiu suas pernas tremerem, ela também estava nervosa, achando que estava vivendo fora da realidade e que tudo aquilo talvez fosse um sonho.

O menino abriu a boca para começar a falar, mas antes que algum som saísse, algo pesado caiu em cima do carro, fazendo com que ele freasse bruscamente e os dois ficassem assustados. Pedro e Ana ficaram alguns segundos calados e com medo, tentando entender o que havia acontecido. Em meio a pouco tempo, outra coisa pesada caiu em cima do carro.

— Sai do carro, Ana! — Pedro gritou. — Agora!

Ana se virou para abrir a porta, mas antes, ela conseguiu visualizar no carro a frente o mesmo acontecer com o que estavam. Algo preto e de tamanho médio estava caído em cima do capô.

Pedro se aproximou do vidro para tentar enxergar o que era aquilo, mas foi surpreendido com um corvo morto que caiu bem a sua frente. Sem que pudessem sair, diversos corvos começaram a cair e encher a rua, como se uma nuvem pesada estivesse por toda a cidade. Eles estavam por todos os cantos, talvez centenas deles, enchendo a rua de medo, deixando todo mundo desesperado. E para piorar a situação, todos eles estavam mortos.

— O que fazemos agora? — A menina perguntou.

— Eu não sei! — Pedro respondeu assustado. — Melhor esperarmos aqui.