Antes do fim

7 Em busca de respostas


Ana puxou Pedro para perto de tanto medo que estava sentindo naquele momento. Toda aquela cena parecia surreal, fazendo a garota pensar que realmente estivesse sonhando como havia deduzido minutos atrás. Os meninos ficaram presos em um abraço na tentativa de se confortarem, porém o medo corria em suas veias. A cena lá fora parecia coisa de filme, algo que estava longe de acontecer com eles.

Mas aconteceu.

O barulho dos pássaros caindo foi diminuindo gradativamente e em pouco tempo, tudo ao redor ficou em extremo silêncio. Na rua em que estavam haviam por volta de cinco carros, todos eles enfileirados e quase se encostando. Algumas pessoas começaram a abrir as portas e verificar se sair era seguro. Ana levantou a cabeça e começou a observá-los, desvencilhando-se de Pedro, que fez o mesmo, colocando a mão na trava do carro para que pudesse abrir a porta e tentar entender o que estava acontecendo.

Na medida em que sua visão tomava conta do lugar, o menino tentou se esquivar dos corvos que estavam no chão a sua frente e finalmente se pôs de pé, captando toda a situação caótica que as pessoas presentes no ambiente não chegavam a acreditar. Os moradores começaram a sair aos poucos, alguns ainda com medo e protestando para que entrássemos no carro e fossemos direto a nossa família. Por questões de segundos, Ana vislumbrou em sua mente o homem que estava em frente a casa do Bruno gritando para todos que o fim estava próximo.

A menina abriu a porta do carro e se levantou com cuidado para que não tocasse em nenhum dos bichos espalhados, se dirigiu ao lado do amigo e ficou em silêncio esperando que ele falasse alguma coisa. A noite estava fria e o céu limpo e sem nuvens, fazendo a menina se questionar de onde que eles pássaros haviam vindo.

— O que você acha que está acontecendo? — Pedro perguntou, encarando a grande escuridão em cima deles.

— Você acha que o apagão tem algo haver com isso? — Ana rebateu com outra pergunta.

O garoto a encarou e pegou em sua mão delicadamente. — Acho melhor voltarmos para casa, meu pai deve saber de algo a essa altura.

A menina assentiu e eles seguiram de volta o caminho feito. Uma sensação de dejavu tomava conta de Ana, percebendo que já esteve no carro, enquanto desviava daquelas mesmas pessoas que buscavam alguma resposta, filmando e postando o acontecido em suas redes sociais. Na medida em que passavam os quarteirões, ambulâncias, carros de emissoras de tv, da polícia federal, estadual e militar corriam em alta velocidade para a rua que haviam saído, percebendo que a queda havia acontecido exatamente naquele lugar.

Ao chegar em casa, Pedro acompanhou Ana até a porta e pôde ver os pais da menina sentados ao sofá assistindo o jornal, a queda dos corvos já estava em todos os lugares, era o assunto mais falado do momento, tendo em vista todo o burburinho que as casas ao redor pareciam conversarem. O menino se despediu da amiga e seguiu para casa deixando o carro na rua.

Seu pai, que era um homem robusto, com músculos definidos, alto e de pele clara, esperava aflito a chegada do filho e assim que escutou o estalar da porta, correu para verificar se o garoto estava bem. Pedro encarou o homem e o abraçou, esperando que ele começasse uma explicação.

— Por Deus! Onde você estava? — Seu pai perguntou.

— Eu fui ao cinema com a Ana, mas antes que pudéssemos chegar, aconteceu o que aconteceu.

— A cidade está uma loucura, ouvi pelo rádio de que algumas pessoas aproveitaram para furtar já que toda a polícia ativa ao redor está naquela rua agora. Você estava lá? Ana está bem?

— Estamos bem, sim. Estávamos no carro, não chegamos a nos machucar, apenas o susto mesmo. Saímos por pouco tempo e corremos de volta pra cá. — O menino olhou nos olhos de seu pai. — O que aconteceu?

— Ainda não há respostas, estamos nos perguntando o mesmo também. — O homem olhou para o rádio desgastado que estava jogado em cima da mesa de madeira. — Eu vou precisar sair para verificar.

— Toma cuidado, pai. Por favor. — Pedro respondeu ao mesmo tempo em que ouviu a voz de outro policial chamando o delegado Albuquerque.

A notícia estampou a chamada dos jornais que estavam fazendo cobertura, Pedro e Ana acompanharam tudo em suas casas sem tirarem os olhos da tv pelo resto a noite. Os noticiários diversificavam ou omitiam algumas respostas, tentando explicar o que havia acontecido. Alguns falavam que havia sido algo inédito e sem explicação, outros afirmavam que cientistas identificaram uma nuvem densa de alta poluição passando pelo local, o que pegou de surpresa as centenas de corvos que andavam em bando para o nordeste e foram afetados imediatamente. Ana se comunicava com Pedro por mensagem falando sobre o ocorrido, conversando sobre teorias e até duvidando dos próprios cientistas, chegando a beirar o misticismo.

Antes que amanhecesse, a prefeitura local emitiu um alerta de segurança para toda a Baixa Estação. Apesar de afirmarem que tudo estava bem, era preciso que a área fosse analisada por especialistas, portanto, todos os moradores deveriam ficar em confinamento por 3 dias contando a partir daquela data. Os trabalhos tiveram pontos liberados e toda a cidade parou durante esse tempo. Não se via um pio, ou um sombra qualquer nas ruas ao redor, apenas o vento e as ondas de calor que pareciam querer queimar tudo a frente.

Passando-se os dias, Ana pôde aproveitar a companhia dos pais e por muito assunto em dia. Ela adorava como eles a apoiavam independente de qualquer que fosse a sua escolha. Eles se amavam muito e era uma família bastante unida. A menina aproveitou o tempo em casa para estudar língua inglesa e pesquisar sobre as outras faculdades no país para que pudesse ter mais opções quando recebesse a nota do vestibular. Apesar do clima de distração em sua residência, toda vez que Ana conversava com o amigo ou olhava pela janela rua a fora, ela se lembrava de que estava passando por algo que não esperava. Ela sentia medo do que poderia acontecer, mas preferia se manter rodeada de otimismo.

Pedro nunca havia visto o seu pai tão ausente desde que sua mãe havia falecido dois anos atrás em um acidente de trânsito. O menino não culpava o pai, que estava ocupado em seu quarto resolvendo problemas do trabalho. O garoto se sentia aflito, toda vez que se pegava sozinho, desejava sua mãe por perto. Ele sentia tanta falta dela que chegava a se perguntar o que ela faria naquele momento.