Antes do fim
10 Ana's Song
Bruno ligou o carro dando partida e entrando na rua para seguir o caminho. Os amigos de imediato protestaram para que ele colocasse a playlist que haviam feito. O menino riu com a situação e colocou a primeira música para tocar, deixando com que As It Was do Harry Styles tomasse conta do HBO 20 que andava tranquilamente sem muito trânsito na estrada.
Guto, Clara e Ana cantavam a música alegremente enquanto observavam pela janela a cidade ficar para trás. Pedro olhava para Ana e lançava um sorriso de lado por ver a menina feliz como ela estava naquele momento. A garota bateu seu cotovelo no braço do menino sinalizando para acompanhá-los na música e ele começou a cantar baixinho, já que era tímido e não era aquele momento que estava esperando para mostrar a Ana quem realmente era. A garota pôs as mãos sobre a coxa do menino e assim ficou, deixando ele totalmente nervoso e sem graça.
A cada dia que se passava, Ana tinha a certeza do seu sentimento por Pedro. Ele era tudo o que gostava em um cara. Engraçado, carismático, inteligente...Ela adorava as suas covinhas e o contraste que seus olhos davam com seu cabelo e sua pele. Ana estava feliz por poder viajar com ele, ela jamais rejeitaria os momentos em que Pedro estivesse junto, já que estava sendo assim durante o passar dos anos, e para a garota, aquelas memórias eram as melhores que alguém poderia ter. Ela o amava profundamente e sabia disso nos momentos em que conseguia olhar bem no fundo dos olhos do garoto e sentir seu coração dançar em uma sintonia de escola de samba toda vez que ele pronunciava o seu nome.
Com a passagem livre, Bruno acelerou e observou o caminho no GPS do seu celular que estava acoplado na base do carro. A estrada a frente era repleta de vegetação, sem muita coisa para se entreterem, os amigos então começaram a jogar conversa fora. Guto falava sobre o quanto queria cursar Teatro, mas seus pais o obrigavam a estudar Medicina Veterinária para poder seguir com o legado da família. Clara morava com seus avós, e por serem de idade, não entendiam muito sobre, mas sempre gostavam de ouvir a menina falar sobre a área que queria prestar no vestibular. Ana os questionou sobre a faculdade que queriam fazer e todos tinham uma decisão unânime: seria em alguma capital, bem longe de Baixa Estação.
O tempo foi se passando rápido até que depois de quase duas horas, Guto avistou na placa de sinalização que Alta Granada ficava a apenas três quilômetros de onde estavam.
— Agora nós vamos oficialmente entrar na trilha. — Bruno falou enquanto cortou a estrada e seguiu por um caminho de barro. — Podemos parar o carro próximo ao lago, de lá, seguiremos um caminho reto e voltaremos por ele.
— Você tem certeza de que sabe o que está fazendo? — Pedro perguntou.
— Confia em mim. — Ele observou o amigo pelo retrovisor do carro. — Vim aqui alguns meses atrás com aquela gata que eu estava pegando. Ela se amarra em aventuras.
Bruno seguiu o caminho durante pouco tempo até que estacionou embaixo de uma enorme árvore que abrigava uma sombra ao redor até a ponta de um pequeno lago de água corrente. Todos eles saíram do carro observando o lugar e aproveitando para pegar as suas bolsas.
— Todos estão com comida e agua? — Ana perguntou.
— Também trouxe um kit de primeiros socorros caso alguém precise. — Clara falou. — Tem atadura, remédio para dor de cabeça, álcool setenta, antisséptico...
— Você veio preparada, hein? — Guto brincou, ajustando a sua bolsa e passando os braços sobre os ombros da menina. — Vamos, você vem comigo.
Pedro pegou a sua bolsa e esperou Ana se aproximar do carro para convidá-la a ser a sua companhia durante aquele dia. A menina aceitou praticamente sorrindo com os olhos, o que gerou no garoto um pouco mais de esperança que seu plano daria certo. Ele conferiu no bolso da frente se o reprodutor MP3 estava lá e seu coração disparou mais uma vez de tão nervoso que estava. Bruno se colocou a frente, pegou um graveto que estava jogado ao chão e falou. — Vamos a aventura?
Os amigos deram um gritinho de vitória e seguiram o caminho de terra a frente.
— Como não houve chuva durante algum tempo, creio que algumas plantas estejam secas e fiquem cientes de que elas cortam fácil. — Ele continuou a falar. — Bebam água de meia em meia hora e não deixem ninguém para trás, ok?
Todos concordaram e continuaram andando por dentro da floresta. O lugar estava tão calmo, os pássaros cantavam ao redor e o vento parecia conversar com as árvores as fazendo dançar em uma sintonia bonita. No local haviam plantas de vários tipos, rosas tão bonitas que nenhum deles jamais havia visto antes. A trilha possuía apenas um caminho, então as vezes encontravam algum obstáculo como troncos caídos ao chão ou algumas poças d'agua que iam direto ao lago, fazendo com que ao passar, acabassem se molhando.
Os amigos desbravaram o local durante meia hora até que pararam para descansar, ainda havia mais ou menos uma hora de chão pela frente. O lugar que estavam era aberto como um campo de jardim botânico. Haviam algumas árvores ao redor e a grama que estavam sentados era bem verde. Estava um dia ensolarado e muito bonito.
Ana conversava com Clara e Guto sobre alguns lançamentos musicais que haviam acontecido naquela semana. Bruno estava entretido em seu celular enquanto estava deitado sob uma toalha azul de piquenique. Pedro, por sua vez, observava o lugar e sentia que ia explodir a qualquer momento se não chamasse a menina para mostrar o que havia feito. Ele queria fazer o convite sem que parecesse estranho para os amigos, já que só ela poderia acompanhá-lo, mas ele não conseguia pensar muito bem quando estava ansioso.
— Ana... — Ele a chamou meio baixinho.
A menina se virou para ele jogando seus cabelos com cheiro de baunilha ao nariz do menino. — Me chamou?
— O que acha de andarmos um pouco? — Ele perguntou.
— Acho uma boa ideia. — Ela se virou pra chamar os amigos e o menino imediatamente interviu colocando sua mão sobre a dela.
Ana o encarava sem entender, então ele continuou a falar. — Só nós dois. Estava precisando conversar.
Ela não perguntou, apenas se levantou devagar e estendeu a mão para que pudesse ajudá-lo a se levantar. Clara e Guto pareceram não se importar com os dois se afastando sorrateiramente, então Pedro a guiou para próximo do pequeno lago que os acompanhava naquela trilha. Haviam algumas pedras que poderiam se sentar e desaparecer da vista dos amigos.
Ana estava um pouco aflita, já que o menino não havia falado nenhuma palavra enquanto estavam andando, mas todo e qualquer momento ao lado dele valia a pena.
— Está tudo bem com você? — Ela perguntou.
— Tudo tranquilo. — Ele rebateu de imediato como se fosse um pensamento para si mesmo.
— Sobre o que quer conversar? — A menina se encostou próximo a uma pedra um pouco maior que ela e passou a encara-lo.
Eles ficaram alguns segundos ouvindo o barulho da água corre e então ele pigarreou. — Lembra que eu estava querendo falar sobre algo no carro?
— No dia que...os corvos caíram?
— Sim. Aquele dia. Um pouco assustador, né? — Pedro tentou disfarçar colocando um assunto em cima do outro.
— Demais. Pensei que fosse o fim do mundo e por um momento achei que eu nunca mais fosse te ver. — A menina riu.
O garoto fitava a menina a sua frente que estava divinamente linda sob alguns raios de sol que fugiam das enorme árvores ao redor.
— Eu acho que podemos ser diretos... — O garoto falou olhando para baixo e em seguida dirigindo seu olhar para os olhos dela. — Eu recebi o papel que você deixou próximo a minha porta.
A menina o encarava com as sobrancelhas arqueadas. — Que papel?
— O papel em que... — Ele esperava que ela se tocasse do que estava falando. — Você não se lembra?
— Eu não deixei nenhum papel a sua porta, Pedro. — Ana se aproximou dele e cruzou os braços. — Do que você está falando?
O menino ficou totalmente confuso com aquelas palavras, foi como se estivesse vivendo uma realidade alternada em que ele só ele enxergava.
— Eu achei que... — Ele se calou. — Deixa pra lá, acho que entendi tudo errado.
Ana estava sem entender o que Pedro tentava dizer, ela via claramente de que ele estava nervoso e achava fofo a forma que se embolava ao falar, mas o menino vinha agido diferente desde a semana passada. Era como se a qualquer momento ele fosse falar que também gostava dela, como no dia que iam ao cinema. A mente da menina pareceu explodir de uma hora para outra, foi como se pudesse ter algumas visões que ligassem ao que ele estava tentando falar.
De imediato se lembrou dos papéis que havia jogado fora quando estava arrumando seu quarto. Todos eles falavam sobre ele e o quanto ela o amava. Um frio percorreu dentro da garota fazendo suas bochechas corarem imediatamente, então ela se deu por conta de que esses mesmos papéis poderiam ter voado da sua janela até a casa dele.
— Pedro... — Ana falou. — Você leu o papel, então?
— Não era para eu ler? — Ele pareceu confuso.
— Eu...sim, quer dizer, não...Eram meus, havia escrito algum tempo atrás, mas eu espero que não afete nossa amizade.
— Por que afetaria?
— Por que você me chamou para conversar, então? — Ana estava séria.
Um sorriso parecia querer desabrochar dos lábios do garoto, então ele se sentou em uma pedra próximo a ele e tirou o reprodutor MP3 da bolsa. Ana continuava sem entender toda aquela situação, como se estivesse vivendo aquele dia novamente presa em um multiverso.
Pedro estendeu a mão para a menina e falou. — Fiz para você. Espero que goste.
Ana pegou o reprodutor que estava com um sticker amarelo grudado em seu meio com a palavra "aperte aqui". A garota tremia um pouco, mas não hesitou no que ele havia pedido e em questão de segundos, ela começou a ouvir o que parecia Pedro cantar uma música que não havia escutado antes.
— Eu a nomeei Ana's Song. — O menino falou. — É tudo o que eu tenho para te falar.
Ana levou a mão a boca parecendo não acreditar no que estava acontecendo. Ela se reencostou na pedra novamente e escutou atenta o menino cantar.
"Desculpe um pouco a minha demora
Mas andei muito preocupado
Pensei demais em te contar
Sem parecer algo embaraçado
Há um tempo eu venho te amando
E ninguém imagina esse segredo
Preso em uma teia de aranha
Meu coração te entrega esse peso
Existe um além nessa minha história
Que pertence as reticências
E a ti venho achando
Será que me amas como eu penso?"
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