Anotações

1 Diário de Bordo


25 de janeiro de 1991
manhã
Maré baixa. Porto de Calecute próximo. Nenhum problema durante a viagem. Nada digno de nota. Bom tempo
tarde
Bom clima. Carregamento de material de pesca. Requisitar preçário a Herbert. Nada digno de nota.

29 de janeiro de 1991
Maré alta. Herbert Bukovski desaparecido há 3 dias. Buscas iniciadas logo de seguida. Ainda sem sinal.

31 de janeiro de 1991
Boina de Bukovski encontrada a flutuar no meio do mar. Buscas terminaram por falta de esperança. Considero ocorrência suspeita e digna de investigação pessoal.

2 de fevereiro de 1991
Cabine de Bukovski analisada pessoalmente. Sem pertences desaparecidos mas algo acabou por me incomodar. A boina do rapaz estava na cabine mas ninguém se lembra de a ter tirado da água. Por baixo da boina, um diário cuja existência eu desconhecia. Digno de estudo.

7 de fevereiro de 1991
Esperanças de encontrar Bukovski: nulas. Passei os últimos dias investigando a fundo o denso caderno de anotações. Deveres de capitão não sofreram com esta minha tarefa. Tripulação satisfeita. O livro está escrito numa língua que me é desconhecida. Talvez um dialeto morto da zona das Áfricas. Não sei. Questionarei a tripulação sobre o assunto. Preciso de respostas.

8 de fevereiro de 1991
Amanhã de manhã atracamos em Timor. O timoneiro George diz que conhece lá um qualquer bruxo que talvez me consiga traduzir o diário.

9 de fevereiro
Timor
Visitámos as docas. Tratei das papeladas habituais e assinei o livro de registo. Vamos ficar em Timor por mais alguns dias. Falei com o bruxo. Falou-me um nome estranho, um Velho Grande ou Grande Velho ou coisa semelhante. Deixei-o estudar o livro até o dia da nossa partida.

12 de fevereiro de 1991
O bruxo morreu. Segundo os familiares, falecera esta noite de ataque cardíaco enquanto estudava o livro e tirava notas. Li e copiei as notas. Não pedi ajuda a um familiar do falecido, não meterei mais ninguém no meio disto. Muitas das anotações me pareciam ilegíveis. Tratava-se de um africano arcaico ou semelhante de gramática idêntica à do próprio diário. Vou refletir um pouco sobre tudo isto.

13 de fevereiro de 1991
manhã
Maré alta. Partida de Timor. Passarei o dia recolhido na minha cabine.
tarde
Dia passado no estudo do diário. Estudo deverá continuar pelos próximos dias. Nada mais digno de nota.

20 de fevereiro de 1991
Há certas páginas no livro em que não havia reparado. Pensava ter lido tudo mas parece que me enganei. Notei em certas páginas com notáveis diagramas. É estranho não ter visto as páginas antes visto que parecem diferentes das restantes, são mais limpas e brancas. Parecem mais bem cuidadas. O que fazia Herbert com este caderno? São muitas as questões que tenho em mente. Vou dormir sobre o assunto.

21 de fevereiro de 1991
Os desenhos do livro mostram um gigantesco homem, de barbas compridas, erguendo-se sobre as ondas do oceano em plena tempestade. No interior da sua boca, repleta de dentes afiados, está uma figura humana que não se consegue distinguir bem.

22 de fevereiro de 1991
manhã
A tripulação parece irrequieta. Quando acordámos, encontrámos umas vinte carcaças vermelhas de caranguejo. Estão em pânico. Falam de profecias e os cristãos dizem tratar-se de um presságio religioso. O fenómeno pouco me capta a atenção. A investigação do diário ocupa todo o meu tempo livre. Não o desejaria de outra forma. Alguém tem de resolver isto.
noite
Não compreendo. Julguei estar mal do jantar ou do excesso de bebida. Mas não. É real e George confirma-o. A figura na boca do gigante do caderno é o próprio bruxo falecido. Pareceu-me demasiada coincidência. Agora estava certo de que nunca vira as páginas antes. Acredito que alguém as colocou lá enquanto dormia. Porquê? Não sei. Quem? Um mistério. Alguém quer impedir-me de descobrir o que aconteceu a Bukovski e esse alguém consta na minha tripulação. Hoje dormirei armado e com um olho aberto. Amanhã continuarei os meus trabalhos.

25 de fevereiro de 1991
manhã
3 dias se passaram. Passei a guardar o livro no meu próprio corpo. Parece que novas páginas vão sempre aparecendo. Não sei como o criminoso o consegue fazer. Nunca o vi em ação. Mas é a única explicação possível. Aqui, junto a mim, ao meu peito, é impossível o celerado tocar no caderno. Ele que se atreva.
tarde
Para além de alguns esquemas e hieróglifos ilegíveis e de alguns desenhos de bichos do mar, notei uma mudança clara no desenho do titã de barbas. Agora, nas suas garras, reside uma nova figura. Não consigo distinguir a sua imagem, infelizmente. Esperarei até mais tarde para averiguar. Nada de notável com a tripulação. Alguns ainda permanecem obcecados com os caranguejos, viciados nas suas rezas. O meu timoneiro é um deles. Não pára de me lançar os seus Avé Marias aos ouvidos.
noite
Reconheço a figura. É George.

26 de fevereiro de 1991
George morreu. Encontraram-no enforcado, o cadáver balançando, tocando com os pés nas águas do Atlântico. Não posso acreditar no que está a acontecer. Quem quer que esteja a controlar o livro também está a provocar todos estes incidentes. Esse canalha terá de pagar.

2 de março de 1991
Herbert também está no desenho, afogando-se no oceano. Tenho a certeza de que ninguém o desenhou lá. Só eu toco no caderno. Só eu. Barriquei-me na cabine. Não posso confiar em ninguém. Qualquer um deles pode ser o assassino. Bukovski, a tua alma será vingada.

4 de março de 1991
A tripulação notou a minha desconfiança. Não importa. A confiança deles será o sacrifício necessário pela salvação das suas almas. Prometo que os protegerei com a minha vida. Juro pela minha alma. Juro por tudo.

6 de março de 1991
manhã
O navio está a abrandar o passo. Elevada densidade de algas. Não me parece natural. De alguma forma, o malfeitor conseguiu tudo isto. Talvez esteja a controlar o leme enquanto não vejo. É isso. Matou-me o timoneiro e agora controla-me o leme. Deve ser o homem do leme. Deve ser o homem do leme. Esta noite, sairei daqui e tratarei do assunto de uma vez por todas.
tarde
É o Jacob que está ao leme. Sempre suspeitei daquele velho jamaicano. Tu não me controlas. Sou eu. Sou eu que te controlo. Pegarei neste meu carvão e desenhar-te-ei. Nas garras do monstro estarás tu, Jacob. Seu filho da mãe. Seu assassino.
noite
Tratarei de tudo. Tratarei de tudo.

7 de março de 1991
Alguém me viu a largar o canalha ou a carregá-lo ou. Eles sabem. Devem querer o diário para eles. Devem estar com ele se não estivessem o mais certo seria agradecer-me não? não? É isso estão todos com ele e para eles sou eu o monstro. Sou eu o monstro sou Eu o Vosso Monstro. Velho e feio velho e feio. Matem-me já. Desenharei aqui todos vocês. Não. Porque é que, na cara do gigante, vejo a minha cara? Ah ah ah ahah ah ahahah


finis