Anotações

2 Correspondência


2 de janeiro de 1998
Meu caro Henrik,
é com imenso prazer que entro novamente em contacto com a tua pessoa. Sei que só passarei um ano nesta casa mas, mesmo assim, ainda não me mentalizei da grande distância que nos separa. Foi o último desejo do meu estimado avô: que eu próprio tomasse conta da sua velha e poeirenta mansão. Estas paredes, Henrik, só me servem de lembraça dos tempos de outrora, da glória que a minha família já possuiu.
Reza pela minha alma, nobre Henrik, que eu prometerei zelar pela tua.

6 de janeiro de 1998
Amigo Henrik,
sou novamente eu. Trago boas novas do meu estado. Os trabalhos de remodelação estão a correr de forma plena e imensamente satisfatória. Já procedemos à limpeza e restauração de grande parte dos quartos.
Uma divisão da casa que muito me agradou foi a biblioteca. Tu sabes muito bem como sou em matéria de leituras, querido Henrik. Adoro ler. Sempre tirei grande prazer desta magnífica arte que é a escrita. As estantes estão recheadas dos mais curiosos volumes. O meu avô era certamente homem de interesses variados.
Posso desde já dizer-te que não passarei um mau bocado neste sítio. As camas são confortáveis e o calor da lareira crepitante bastam para me fazer sentir em casa.
Em breve, trarei mais notícias.

8 de janeiro de 1998
Henrik,
como prometi, trago-te hoje mais uma mão cheia de novidades. Como te disse na minha última carta, a biblioteca da mansão tomou-me o coração. Passo tardes inteiras embrenhado nas mais fascinantes obras que alguma vez tive a oportunidade de explorar.
Estou de momento a dar uma vista de olhos pelos volumes que me parecem mais "inacessíveis", tanto pelo seu conteúdo como pela sua apresentação. Um deles, um escuro caderno cuja capa é forrada em peles (de um animal que não identifico), interessa-me particularmente. Esse nem sequer consigo ler, mesmo que tente, mas por vezes dou por mim a folhear as suas páginas só para admirar a cuidada caligrafia. Está escrito num dialeto que desconheço, recheado de emblemas, símbolos e ícones que nunca vi antes. Há nele desenhos de criaturas abomináveis e asquerosas. Que vil mão terá redigido tamanha Bíblia de enigmas e vis representações?
Aguardo uma resposta tua, um comentário ou uma opinião. Até lá, prometo manter-me em bom estado. A paisagem é bastante bonita aqui à volta. Talvez um dia me possas vir acompanhar num passeio, quando me vieres visitar. Cuida-te.

10 de janeiro de 1998
Saudações,
meu querido amigo. Hoje terminaram a primeira fase dos trabalhos de remodelação da casa (limpeza, organização e registo das diferentes peças de mobiliário). Passei tanto a manhã como a tarde na biblioteca apaixonado pelo misterioso livro encadernado. Tenho-me fixado nele nestes últimos dias. A sua presença compele-me a estudá-lo, bem como a sua aura de antiguidade. Acredito que um dia conseguirei descodificar estas páginas ligeiramente bolorentas.
Não penses que será um esforço infrutífero. Sabes muito bem que sou um homem de letras, versado nos mais variados dialetos deste nosso globo. Hei de encontrar uma solução. Até lá, adeus.

13 de janeiro de 1998
Henrik,
aviso-te já, logo no início desta minha carta, que estou contente e de boa saúde, não tens que te preocupar. Os ares do campo revitalizam qualquer homem, possuem esse poder.
Quanto ao livro, tenho algumas ideias em mente, algumas demasiado rebuscadas para serem possíveis. Tomei a liberdade de adquirir pessoalmente certos dicionários de dialetos mortos. Não parece ser uma linguagem de origem latina. É bem possível que seja uma língua completamente inventada, uma piada literária do mais alto nível. É bem possível mas recuso-me a acreditar nisso. Todo o grande código deve ter uma solução, uma igualmente grande. Nisso acredito, veementemente.
Os jardineiros estão a trabalhar com afinco para deixar isto tudo apresentável. Não fazem mais que a sua obrigação, eu pago-lhes bem. Não é que o dinheiro seja problema, a herança do meu avô foi tudo menos pobre. Tudo está a correr às mil maravilhas, Henrik. Confia em mim.

16 de janeiro de 1998
Meu caro,
ao que parece, nem tudo por aqui é um mar de rosas. A parede do quarto onde durmo, a parede posicionada mesmo em frente à cama onde o coração do meu avô deu os seus últimos batimentos, começou a revelar-se curiosamente húmida e desbotada. Parece corroída, mas por um ácido inexistente. Porém, este é o menor dos meus problemas.
Nestes últimos dias, tenho dedicado muitas horas do meu tempo ao absurdo livro. Comecei a descobrir um padrão nos carateres escritos quando comparados com os gregos. Contudo, a sintaxe parece assemelhar-se mais a um dialeto africano. África: berço da humanidade. Mas isto, esta abençoada descoberta, não chegou a ser, em tudo isto, o mais surpreendente.
Encontrei um capítulo nesta imensa obra de enigmas impenetráveis que me despertou toda a atenção. Um capítulo que nunca havia notado antes: um diário de bordo de 1991, escrito à mão na nossa língua materna (finalmente algo na nossa língua, caro Henrik). Ainda estou a processar ambas estas descobertas. Sinto-me cada vez mais emocionado, cada vez mais motivado para resolver o mistério. Só acho estranho não ter reparado no capítulo antes.
Deixa-me estudar um pouco mais aprofundadamente este recém-descoberto capítulo que eu amanhã envio mais informações.

17 de janeiro de 1998
Amigo,
consegui compreender a caligrafia com que foi redigido o capítulo e percebi a sua mensagem (percebi em parte, pois o meu cérebro com dificuldade se adapta ao que considera deveras irracional). Porque terá o autor do livro redigido aquele capítulo num dialeto distinto, numa diferente voz? Está escrito numa forma bárbara, apressada, descuidada e irregular (a escrita não pode ser um talento de todos). Mas o restante livro possui uma organização e delicadeza quase religiosas. Um fascinante contraste.
Ao ter lido a história que aqui se encontra fico cada vez mais crente na hipótese deste livro ter sido escrito por um lunático. Mas, como já te disse, duvido veementemente disso. Prosseguirei as minhas investigações até encontrar um mínimo sinal de razão no meio de tudo isto.

19 de janeiro de 1998
Caro Henrik,
concluo que dificilmente se resolverá o problema da parede. Falei com os operários sobre o assunto. Passaram o dia a trabalhar no meu quarto mas, como nada relativo à maldita parede mudou, parece que nada conseguiram.
Fora esse ponto, o resto parece-me perfeito. A investigação do livro não me tem conduzido a lado algum mas nutro a mais pura confiança nas minhas qualidades. Sei que vou conseguir.

21 de janeiro de 1998
Amigo,
não vais acreditar no que agora te conto, sei que és tão ou mais racional que eu.
Esta noite, deitei-me cansado, aborrecido pela minha falta de resultados. Sonhei comigo num cenário desconhecido, envolto por um sinistro nevoeiro. No sonho, apareceu-me uma qualquer entidade oculta pelos densos vapores. Falou comigo numa linguagem e tom de voz que sou incapaz de descrever. Dispôs-se a assinar comigo um pacto. Em troca da minha alma, ofereceria todo o conhecimento do mundo. Estava particularmente "consciente" nesse sonho, sentia-me um perfeito dono de mim próprio. Controlava com a maior das eficácias os meus pensamentos, o meu raciocínio, o meu corpo onírico e as suas ações. Sabendo tratar-se de uma ridícula fantasia, aceitei prontamente o pacto sem me lembrar de perguntar à entidade o seu nome. Desapareceu rindo no nevoeiro e eu acordei.
Mas esta foi só a parte normal, meu Henrik. A pior parte do pesadelo é quando sais dele para entrar num pior. Experienciei a visão mais aterrorizante que tive em toda a minha vida. A parede em frente à cama havia derretido e escoava sobre o tapete. No seu lugar, uma colossal face humana abria a boca revelando tanto os seus dentes demoníacos como o corpo nu de um homem adulto acorrentado aos seus caninos salientes, suspenso. O rosto vivo, como que interiormente danificado, cuspia sangue. Seus olhos fitavam o teto numa expressão da mais pura dor. Uma barba suja cobria-lhe o queixo. Mirei-a, incrédulo, até a criatura me olhar de volta. Senti um tormento como nunca antes, um ridículo medo de mim próprio. Aquele monstro só podia estar na minha cabeça. Mas não, mas não. Quando lhe toquei o rosto com a palma da mão fria, moveu-se. A boca abriu-se mais, maxilares afastaram-se. E o acorrentado, essa alma aprisionada, gritou. Seu corpo sendo expremido e esticado. E gritar foi o que fez. A demonstração mais inocente que testemunhei do terror humano. Só parei de o ouvir quando um forte barulho se lhe sobrepôs: era o acelerado bater do meu coração.

22 de janeiro de 1998
Henrik,
sei que deves estar a tomar-me por louco mas peço-te que confies tanto em mim como na minha palavra. Só te peço isso e mais nada, meu velho amigo. Não me falhes agora que mais preciso do teu apoio.
A face ainda lá está, uma memória constante do pacto que assinei sob a luz da minha ingenuidade. Parece que mais ninguém a vê exceto eu e eu mesmo. Alguns operários desistiram do seu cargo acreditanto na possibilidade da minha demência. Mas eu confio nos meus sentidos. Eu sei que estou certo. Sei que nunca estive mais certo.
A minha mente tem clareado, Henrik, tudo se tem vindo a tornar mais claro, transparente, lúcido. E não é só isso, meu caro. Não apenas isso. O livro velho, as suas runas de tempos imemoráveis e os seus incompreensíveis diagramas têm-se vindo a tornar meus "amigos". Estou a compreendê-los, acho que os estou a perceber, a conhecer. Eles falam-me, Henrik. Falam de coisas que nunca imaginei ou pensei imaginar. Nunca julguei crer nas muitas verdades que agora contemplo. É como se fossemos amigos de infância, separados na juventude e unidos novamente pelos preceitos do destino. E não seremos separados novamente. Nunca mais.
Em breve, trarei notícias. Até lá, cuida-te.

25 de janeiro de 1998
Meu Henrik,
a pior parte do pesadelo é quando se sai dele para entrar num pior. Certamente, certamente.
Os últimos dias tenho-os passado a estudar o maravilhoso texto desta temível obra de arte. A informação circula-me livremente diante dos olhos, a velocidades estonteantes. Não sou capaz de me obrigar a parar. A sede de informação, a fome de conhecimento, é tanta, é demasiada. Estou a aprender mais e mais, cada vez mais. Mais e mais sem nunca parar. Preenche-me. Completamente.
Em breve, traduzirei todos estes escritos para a linguagem dos comuns mortais. Mas duvido que a ortografia humana aguente todo este poder. É demasiado, Henrik. Até para mim.

27 de janeiro de 1998
Colega,
não vais acreditar no que encontrei: uma cave, por baixo da casa. Foi o livro que me contou esse segredo. Juro-te. Não fui eu, foi o texto deste livro milenar. O seu poder é imenso e cada vez encontro mais dimensões para as suas potencialidades. É como ter um mundo inteiro nas minhas mãos. Não. Um universo. Um universo desconhecido e invisível.
Aventurar-me-ei por esta cave que o meu falecido avô, ao que parece, se esforçou por esconder. Até breve.

31 de janeiro de 1998
Saudações,
perdoa-me a demora (sei que o farás, pela nossa amizade).
A cave é só uma cave e de uma cave não passa. Devia ser uma espécie de adega ou semelhante. Nada de muito relevante, acredita. Passei estes dias a habituar-me a ela, a torná-la no meu laboratório pessoal.
Sim, ouviste bem, meu amigo: laboratório. Estou a aproveitá-lo para testar as mais diversas experiências que traduzo do meu amado livro, guia da minha vida, guião de todas.
O quê? Não sabias que eu era um apaixonado pela ciência? Agora sou, Henrik, verdadeiramente. Asseguro-te. Todo o homem devia dedicar longas horas do seu tempo ao estudo do universo e suas leis. Afinal de contas, é nesse mesmo universo que vivemos, não é verdade? Até contratei algumas assistentes pois o manual assim o exige.
Sacrifícios são necessários para descobrir tudo. Como tudo começou, como tudo acabará. Aquele que tudo vê não possui perguntas mas aquele que tudo sabe carrega em si todas as respostas.
Até mais, meu caro.

5 de fevereiro de 1998
Meu amigo,
julgo que chegou finalmente o momento de me vires visitar. A mansão já está o mais apresentável possível. E eu, já me sinto em casa. Nunca me senti tão em casa. Também nunca me senti tão vivo.
Preciso de ti aqui, Henrik. Preciso urgentemente da tua ajuda. Sinto uma presença beijando o pescoço, um frio nas costas. Os meus dentes parecem cair mas não o fazem, é só a sensação. Ajuda-me.
Está tudo a correr fantasticamente. O que mais desejo é passar algum tempo de qualidade ao lado do meu grande amigo Henrik.
As assistentes têm-me auxiliado bem. Estou a ajudá-las a descobrir o seu verdadeiro potencial através do meu estudo. São meninas bonitas e animadas, verdadeiros anjos, encarnações da bondade. Também gostaria que as conhecesses.
Seria para mim um prazer se viesses o mais depressa possível. Acredita em mim, não te vais arrepender. Nunca te vais arrepender.
Adeus.

20 de fevereiro de 1998
Henrik,
Henrik, Henrik, Henrik. Tanto tempo se passou desde a minha última carta. Estás feliz? De bom humor? Tenho a certeza que sim e que sim. Esse sítio onde estás é bom? Claro, claro. Exato. Obviamente.
O rosto monstruoso da parede, acho que já o vi em qualquer lado. Eu durmo com ele, cada dia, cada noite. Mas eu lembro-me de algo que provavelmente esqueci.
Lembras-te dos senhores, os respeitosos doutores, que trouxeste contigo aqui para casa? Claro que te lembras desses doutos cavalheiros. Fizeste bem em trazê-los. Tanto eu como o Grande o desejámos. Satisfazeu em muito os nossos desejos.
Em breve te escrevo.

1 de março de 1998
Caríssimo,
sei que te menti em relação à cave. Era do meu avô e ele gostava dela, tinha por ela muito apreço. Ele também estudara o livro, suponho. Também tentou experienciar esta miríade de sensações. Tão imensas, tão boas. Tão quentes de paixão. Também o viste, que eu sei. Estavas lá. Estávamos lá.
O homem acorrentado. De início era outro homem, áspero e duro, rígido e forte. Agora mudou e agora o reconheço como eu. Aquele corpo nu, sou eu. Eu, eu, eu, nas garras do Grande.
Perdoa-me, Grande. Perdoa-me.

2 de março de 1998
Meu querido,
não, não, não. O Grande nunca me faria tal coisa. Cala-te. Cala-te e pronto.
Tosse mais sangue, Ele enche-me a carpete de sangue. Vermelho, borbulhante. Vivo, vivo. Rubro. Pinga sobre a minha pele nua. Pobre de mim. Ele deve ter piedade. A crosta encheu-me a cama. Durmo numa imundice cadavérica.
Eu dei-Lhe tudo. Lancei-as retalhadas boca a dentro mas Ele não me liberta. Ele, Ele. Violei-lhes a santidade e dos restos me livrei. Foi até as bestas se calarem. Tu viste. Disseste compreender. Mas nunca o fizeste.
Eu dei-te a opção, eu dei-te a oportunidade. Porquê? Porquê? Volta para mim.

4 de março de 1998
Não fui eu,
não fui eu, não fui eu. Desculpa-me. É tua obrigação desculpares-me, como amigo, amigo que supostamente és. Eras. És. Sujei a cave toda por tua causa. O meu laboratório. Para te agradar, para nadares. Só bebeste daquilo porque te obriguei, seu mal agradecido. Traíste-me. Logo quando trouxeste os médicos. Convidaste-os. Não devias.
O Grande gostou de ti. Sei disso porque eu gostei. E tu gostaste, vi-o nos teus olhos. Comi. Sim, eu comi. Mas não me larga, não me larga. Que é que eu fiz? Que é que eu fiz de errado? Não fiz nada de mal.
Respeita-me, Henrik, como eu respeito a tua memória. O teu legado valerá a pena.

5 de março de 1998
Eu sei,
sei o que te fiz e não o neguei. Não lhes neguei a elas e a eles o que lhes fiz. Mas, apesar da sinceridade, as correntes ainda doem. E queimam-me a pele. Sou-Lhe honesto e isso de nada me serve. Nada O comove.
Eu sei tudo mas não sei nada. Eu sei que percebo tudo. Sei como começou tudo, sei como acabará tudo e até sei o sentido da vida. Tenho-os todos e todos na minha cabeça. Mas não consigo enunciá-los, não consigo descrevê-los ou explicá-los. A informação é tão poderosa que me destrói por dentro e a minha boca mortal, minha língua e meus lábios, não conseguem pronunciá-la. É demais. É demasiado na minha cabeça. Não sei quem sou.
Era o capitão, agora sou eu o acorrentado. Percebo toda essa profecia com clareza e distinção. É só saber contar, e as somas são algo básico. Penso, sei que existo, sei que faço. Mas já não quero existir. Dispenso. Já não quero pensar.

6 de março de 1998
O Dia aproxima-se,
o Julgamento Final do Grande.
Morreram todos. Morreste tu e mesmo assim continuo a escrever-te, o meu único amigo. Sacrifiquei-te pelo conhecimento. Mas para quê? O melhor que aprendi foi a data da minha própria morte.
O corpo dói-me imenso. O quarto está forrado em carnes vives. Tornou-se n'Ele. E Ele, Sua face, rói-me, mastiga-me a pouco e pouco. Finalmente me vai consumir. Finalmente serei Seu. Digerido pela Sua glória.
Ele virá, Henrik. Sei que não me ouves, nem tu nem ninguém, mas Ele virá. E sei que ninguém estará preparado, pois eu sei tudo. Sei que será o Fim.
Adeus, Henrik. Adeus.

7 de março de 1998
finis