CAPÍTULO 5

Passei o dia pensando no sonho. Eu imaginara várias vezes o rosto de minha mãe e agora eu mal sabia se era imaginação ou se era alguma lembrança antiga que meu cérebro fez o favor de esconder.

No dia seguinte, comecei a me recordar das sensações de estar sendo observada, ou seguida. Isso me apavorou.

Algumas semanas depois, as perseguições continuaram. Evitei sair de casa, nem mesmo frequentava a escola. Faltava o máximo que podia, porém eu não poderia trancar-me do mundo para sempre!

Eu freqüentava a escola umas duas vezes por semana. Era incrível como ninguém havia chamado meu pai no colégio ainda. Um dia, a caminho da escola, tentei manter-me calma, não queria chamar a atenção de ninguém. Afinal, não queria ser seguida, por mais que fosse em vão.

De repente tudo ficou preto, e depois acordei com muita dor de cabeça.

— Argh! Minha cabeça! O que houve?

Alguém me bateu com alguma coisa na região da nuca e me levou para um cômodo escuro e empoeirado. Acordei um pouco zonza.

— Onde estou?

— Calminha... Sua dor vai passar. — Disse um homem mal encarado.

Olhava fixamente para meus olhos, seus lábios me ofereceram um sorriso de lado e sua íris azul penetrante me analisou dos pés a cabeça. Usava um sobretudo de couro sintético até os joelhos, uma camiseta preta dentro das calças jeans azuis e tinha o cabelo grande, mas grande mesmo, até as costas, trançado. Calçava sapatos sociais da cor do sobretudo e usava anéis nos dedos, pareciam pesados o suficiente para quebrar o queixo de alguém em um soco apenas.

— Onde estou? indaguei novamente.

— Há coisas no mundo, pequena Carter, que não dá para se saber de imediato... Por que não conversamos um pouco? — o homem sentou-se em frente a minha cadeira, acho que esperando alguma reação.

Tentei me levantar, mas percebi que eu estava amarrada a uma cadeira de madeira rústica, idêntica a qual ele mesmo estava sentado. Olhei em volta e vi estantes de ferro com caixas de papelão, era um lugar fechado e abafado, seria escuridão completa se não fosse uma lâmpada fraca entre mim e o misterioso homem.

— O que você quer comigo? O que vai fazer comigo? O que... O que...

— Calma, calma, pequena. Vamos começar a conversa de um jeito mais... Digamos, convencional! — Ele se ajeitou na cadeira — Que tal se eu me apresentar? Meu nome é Patrick Green, pelo menos hoje...

— Hã... Pelo menos hoje?

Pronto! Talvez os hãs do papai sejam hereditários.

— Ainda é muito nova. Há muito que aprender. Por exemplo, você deveria captar as coisas nas entrelinhas, pequena Carter.

— Não me chame de... Como sabe meu sobrenome?

Minhas tonturas se foram, entretanto eu ainda estava atordoada com a situação, aliás, não dá para me culpar, não é mesmo?

— Annie Carter, sei tudo sobre você! Ou pelo menos quase tudo. Quer relatório completo? — Ele sorriu, provavelmente estudando meu rosto, meu olhar, querendo saber o que se passava pela minha cabeça.

— Sim, eu quero! — Eu o encarei, tentando mostrar-me forte, ele não deu a entender que mentia, mas ainda sim, eu queria analisá-lo também e tentar descobrir algum trunfo.

Ele pigarreou. Olhou-me de uma forma, como se eu fosse, uma menina diferente.

— Annie Carter, filha de Steven Carter, enteada de Emma White, vai à escola quase nunca, sua melhor e única amiga é Sally Baker, arruma encrenca com Joe Clark, tira notas ruins, não faz nada durante as tardes, já percebi que é muito preguiçosa, porque só anda na rua à passos de formiga. Não é rica e eu não estou te sequestrando, porque seu papaizinho não teria dinheiro para o resgate.

— Ah... Então era você quem me perseguia? Desculpe querido, mas seu trabalho está mal feito! Você só conseguiu informações óbvias... E o fato de eu não ir à escola é porque... tinha uma maluco me seguindo! — Por mais que eu encarasse o tal Patrick só por hoje, ele continuava com a mesma expressão.

-Desculpe-me, mas o resto da sua vida eu vim descobrir agora!

— Ah! Então quer dizer que você não sabe fazer seu trabalho direito e teve a cara-de-pau de vir pessoalmente me perguntar?

— Quase isso. Ele deu uma volta em torno de mim e aproximou seus lábios de meus ouvidos. — Tente se soltar... Ele levantou-se subitamente — Vai, deseje, pense e crie!

— Você é louco! Me solta! Tire-me daqui! estava tão estressada que deu vontade de chorar como um bebê com cólica. Tentei me segurar, queria parecer mais segura do que realmente estava.

— Ah, para! Estou só cumprindo o meu dever. Acredite, não gosto de amarrar criancinhas, mas é o método mais fácil. Agora ande com isso!

— O que espera que eu faça?

— Joe Clark quebrou os dentes por sua causa. Isso te dá uma idéia do que eu quero que você faça?

Eu já havia entendido o que era pra acontecer. Fechei os olhos e imaginei as cordas se rompendo. Nada aconteceu. Tentei várias vezes em vão, e já começava a ficar nervosa. Aquele moço não iria me soltar, ele realmente acreditava que eu era capaz de me libertar sozinha.

Fechei meus olhos novamente e pensei: Esta é a última vez. Imaginei um vento de tamanha força que era capaz de arrebentar as cordas. A mesma carga elétrica que senti no episódio que ocorreu com Joe Clark, percorreu cada canto do meu corpo. E a massa de ar quente me atravessou novamente.

Então, abri os olhos lentamente, e eu estava sendo carregada pelo ar, O Sr. Sobretudo de Couro Sintético estava paralisado e de queixo caído.

Percebi algo quente no meu peito, vi que meu amuleto estava brilhando, uma luz azul muito forte. Olhei aquela ventania toda e achei que ela estava esperando uma ordem minha, por isso gritei:

— Me coloca no chão! — Fui descendo lentamente, até meus pés tocarem finamente o piso. E a ventania cessou. Olhei para meu sequestrador paralisado, que literalmente estava boquiaberto Estou tão pasma quanto você. falei.

— Não estou assim pelo que você fez, eu já esperava, mas sim pelo seu colar. Onde o arrumou?

-Era um chaveiro do meu pai.

— Vamos. Te levarei até a sua casa.

Hesitei, pois era um estranho, mas por outro lado, se eu não fosse com ele, talvez eu não saísse daquele lugar tão rápido. Então assenti e fomos andando.

Notas finais
Comentem :)