Annie Carter E As Tribos Dos Elementos
4 Capítulo 4- Um Sonho Real e um Novo Amuleto
Papai e Emma não estavam em casa. Não havia absolutamente nada de interessante na televisão. Mudei tanto de canal que minha cabeça começou a latejar. Cansei-me e a desliguei. Fiquei alguns minutos perambulando pela casa, quase sempre ia à cozinha e sempre pegava uma fruta para comer.
Comecei a pensar na falta que papai me faz.
Eu sei que ele trabalha e não tem tempo, mas acho que ele como pai devia achar ao menos um tempo, mínimo que seja. Às vezes, parece que ele nem se lembra que eu existo. Por que tenho que o entender? Por que ele não pode me entende também? Eu simplesmente não entendo!
Até em relação à escola, papai quase nunca pega no meu pé. Acho que pelo menos às vezes ele deveria brigar comigo, é dever dele! Minhas notas ruins são para chamar a atenção, eu não quero perder o contato. Queria falar com ele, nem se fosse brigando. Não é por falta de entendê-lo, porém, é obrigação de pai dele se preocupar comigo. Infelizmente, não funciona. Quem me dá broncas é Emma. É impressionante o modo como essa mulher se acha! Ela não é minha mãe, nem minha amiga, para brigar e dar conselhos.
No único dia que posso ver meu pai, ele sempre arranja um compromisso e dá um jeito de levar minha madrasta junto! É inevitável pensar que ele não quer me ver. Eu tenho treze anos e sou obrigada a aceitar tudo, não posso reclamar, não posso ter aqueles surtos de adolescentes.
Agachei-me ao lado da minha cama e comecei a chorar. Primeiro baixinho, não queria que os vizinhos escutassem. Todavia, depois de um tempo, podia ouvir-se meus soluços à uma certa distância. Eu havia aguentado tudo aquilo por muito tempo. Sinceramente, nem sei como pude aguentar calada. Sou do tipo estourada, que dá murros em quem me enfrenta, entretanto, eu tive sempre que ser simpática e centrada... Uma hora eu teria que deixar escorrer em lágrimas tudo o que me perturbava.
A dor que sentia era tão profunda, que meu coração começou a doer. Meus pensamentos estavam confusos, depois de algum tempo, eu mal sabia o que pensar. Algumas vezes eu até esquecia o motivo do meu choro, porém era questão de segundos para eu me lembrar, então, eu voltava a chorar e chorar. Meu crânio estava ficando pequeno demais para a hemorragia de sentimentos obscuros que havia em mim. Não é mentira, minha cabeça parecia que ia explodir de tanta dor. Estava com falta de ar, houve uma hora que tive que tentar me controlar para conseguir respirar. A minha pressão caiu muito, pois cheguei a desmaiar.
Assim que acordei, percebi que havia batido minha cabeça no rodapé da parede. Pude sentir um galo enorme na parte trás da cabeça, que doía muito. Eu estava mais calma, já conseguia respirar com facilidade, entretanto, eu queria me aproximar de meu pai de algum modo. Pensei em me apegar a um objeto que pertencesse só a ele. Lembrei-me que eu nunca pude entrar no quarto de Emma e papai, não sei o motivo, mas sempre os obedeci. Desta vez, foi diferente.
Abri a porta, devagar, observei bem o quarto. As coisas, os móveis. Mas o que mais me chamou atenção foi ver duas camas de solteiro, o invés de uma cama de casal. Logo, percebi que a cama, com colcha de estampa de zebra cor-de-rosa, pertencia à Emma e me deitei na cama que, provavelmente, era de Steven Carter que felizmente estava se separando! É óbvio que papai iria se separar da Emma Light! Nunca vi um casal dormir em camas separadas! Senti-me tão feliz como quando... Percebi que eu nunca estive tão feliz!
Cochilei por alguns minutos e tive um sonho tão real... Como aqueles sonhos que sentimos o cheiro das coisas, o gosto, enfim. Sonhei que estava numa floresta linda, cheia de flores perfumadas e árvores tão grandes, com copas tão extensas que mal se podia ver o céu. Eu podia escutar o estalar das folhas secas no chão. Um clima quente, tropical. Havia muitos animais diferentes, exóticos. Eu ouvia o canto dos passarinhos, tão lindos eram eles.
Ao meu lado, meu pai me abraçava e brincava de uma espécie de pega-pega. Ele sorria exibindo seus dentes brancos e alinhados. Fazia-me cócegas e às vezes até me carregava no colo. Então, corri para os braços de uma mulher linda. Uma mulata dos olhos castanhos mais claros que os meus. Seus cabelos encaracolados e compridos caíam sobre os ombros e se destacavam no vestido branco que ela vestia. Meu pai me abraçou e beijou essa mulher. eu amo vocês foi o que ela disse. Eu a respondi: Eu também amo você, mamãe. Minha voz pareceu muito mais jovem. Então percebi que eu era bem mais nova no sonho, assim que olhei minhas mãos, gordinhas e pequenas, como as de uma criança de cerca de cinco anos. Os olhos azuis escuros do papai brilhavam e parecia tão feliz quanto eu me sentia naquele sonho tão real. Me levantei e arrumei a cama de papai. Olhei para a escrivaninha e peguei um chaveiro. Era de madeira, pintado de azul claro, parecia bem antigo. Tinha o formato oval, e tinha um símbolo gravado nele, era um arabesco simples em azul escuro, o chaveiro também tinha uma espécie de cordão amarrado nele, talvez papai tivesse o transformado em chaveiro. Seria o meu chaveirinho da sorte, ou talvez colar da sorte, já que eu já tinha em mente a ideia de transformá-lo em um colar. Saí do quarto saltitando de felicidade. Quando percebi vozes. Emma e Papai acabara de voltar.
Corri para meu quarto, e escondi o meu amuleto novo. O resto do dia seria normal, se não fosse papai tendo um surto por que o chaveiro dele sumiu.
-Alguém pegou o meu chaveiro?! Annie você entrou no meu quarto?!
-Não papai, não entrei.
-Não minta Annie! Só você esteve aqui!
-Ai, pai. Esse surto todo é só por causa de um chaveiro? O velhinho da esquina vende um monte. Vai lá e compra outro!
-Não me responda assim, menina! Aquele não é só um chaveiro!
-Não? É o quê então?
-Ele tem valor... Hã... Sentimental. — Ele parecia sem graça, e sua mania de dizer hã toda hora resolveu voltar. Isso quer dizer que ele estava bem nervoso.
-Hã... Mais uma vez vou perguntar Annie, com calma. Você entrou naquele quarto? Mexeu nas minhas coisas?- Me lembrei do motivo pelo qual eu chorara a um tempo atrás. Por ele nem ao menos brigar comigo. Então, eu disse a verdade.
-Sim, papai. Eu entrei. Mas não mexi nas suas coisas. Só gostei do chaveirinho e eu ia fazer um colar com ele. Algum problema?
-Você tem certeza que não mexeu em nada?
-Eu testei o seu colchão e acabei cochilando, mas já arrumei sua cama. Ah, você e Emma estão se separando?
-Por quê?- Emma perguntou.
-Porque há duas camas, ao invés de uma. os hãs do papai voltaram.
--hã... Não estamos nos separando... Hã.... Cada casal tem seus costumes, Annie. Que coisa!
Eu posso ficar com o chaveiro?
-Sim Annie, pode. -Ele falou tão calmo que me frustrei! Não acreditei que foi tão fácil assim. Mas havia uma incógnita: O que meu pai guardava que eu não possa ver? Bem. Pelo menos agora eu tinha um amuleto da sorte. no mesmo dia eu o transformei em colar.
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