Ankward: Mundo Guardado
6 O Ápice do Desespero
Notas iniciais
As crianças, humanas e Mids, começaram a sentir um leve calor em seus pés, e olhando para baixo, viram um fogo tímido, amarelado, que balançava de lá para cá como fumaça, mas não era. O tempo passava, mais e mais Mids enviavam energia, e o fogo ficava alaranjado e quente. Em poucos instantes, começava a arder, o anúncio de que estavam definitivamente num beco sem saída
A escapatória que Isabela encontrou para extravasar a agonia foi mover os pés, a única parte do corpo que não estava completamente imóvel pelas cordas. Seus dedinhos tocavam o chão, que estranhamente permanecia úmido, a despeito do fogo, e cavavam febrilmente a terra, como se isso pudesse fazê-la se libertar. Não, não iria, ela bem sabia. Começou a chorar, as lágrimas gordas rolando pelo rosto, até cair transpassando o fogo como se ele não fosse nada.
Antony se sentia sufocado. Reprimido. As amarras eram cruéis, ele pensou, a se contorcer. Seu olhar desviou-se para Isabela, e ao vê-la cavando o chão, começou a fazer o mesmo, lembrando-se de como era bom mexer na areia molhada da praia... o que ele nunca mais conseguiria fazer.
Quando não sentiu mais terra, e sim ar sob os dedões dos pés, Isabela arregalou os olhos, estranhando. Será que estava sentindo direito? Ou o fogo estava deixando o seu corpo insensível?
Resolveu mover um pé para a direita. Ele colidiu com a terra úmida novamente.
Sequer raciocinou se poderia ou não haver alguma coisa lá embaixo: para o cérebro de Isabela, era absolutamente necessário continuar cavando.
Começou a mover os pés febrilmente, antes que o fogo a consumisse por completo. Ele subia para o seu pescoço, e não a deixaria avisar Antony. “Uma pena”, ela pensou um tanto indiferentemente, “mas eu preciso me garantir!”
O garoto não precisou que ninguém o chamasse, pois um movimento incomum no canto do olho o fez virar a cabeça para Isabela, que cavava olhando diretamente para os pés. E a urgência que ela fazia isso também era curiosa... decidiu que faria igual, mesmo sem saber o motivo.
Finalmente, Isabela conseguiu expandir o tamanho do buraco, para a frente e para os lados. Percebeu que dentro dele era escuro, mas isso não a amedrontou: na tentativa de cair lá embaixo, começou a contorcer-se para a frente e para trás, para cima e para baixo, como se a terra sob o poste de madeira fosse ceder com isso. As cordas arranhavam, faziam a pele arder tanto quanto o fogo e quase a desmotivaram. Quase. Porque qualquer machucado que pudesse adquirir seria melhor do que se entregar ao sacrifício.
Antony observava Isabela, enquanto abria a terra. Seus pés estavam se cansando de ficar indo para cima e para baixo, sem descanso, porém ele se obrigava a não desistir. Conseguiria ser forte, conseguiria resistir. Principalmente porque não tinha outra escolha.
Foi com quase glória que sentiu um vácuo sob os dedos. Com uma retomada de fôlego motivadora, continuou a cavar mais determinadamente do que nunca, e em poucos segundos, conseguiu fazer um buraco razoavelmente grande. Agora, entendia perfeitamente o objetivo de Isabela: ir para dentro do Monte da Vida.
Chacoalhou-se, a tora até chegando a se mover um ou outro milímetro para o lado. Não, não era suficiente ainda, o poste precisava afundar mais rapidamente. Saber que, como era mais pesado que Isabela deveria dá-lo mais sorte não o confortava, apenas o deixava mais aflito: e se mesmo com essa vantagem não conseguisse?
Começou a entrar em pânico, quando sentiu o calor do fogo se espalhando pelas bochechas, como se o fogo estivesse fazendo uma brincadeira de muito mau gosto com ele, divertindo-se enquanto o torturava e tirando sarro do desespero do garoto. Era a sensação mais asquerosa, mais horripilante, que jamais sentira, e Antony considerou seriamente que aquela coisa que o queimava poderia ter vida própria.
“Não importa!”, berrou mentalmente para si mesmo, e chacoalhou-se mais ferozmente do que nunca. Não sabia se estava furioso, desesperado ou louco. Apenas mirou o seu objetivo, a liberdade, e dispôs-se a fazer tudo o que fosse necessário para atingi-lo.
As crianças não notavam — e como conseguiriam? — que a cada chacoalhão, suas toras afundavam na terra. Portanto, foi desnorteador quando mergulharam em uma água fria, mas que pelo menos extinguiu o fogo e trouxe um alívio divino à pele das crianças.
O novo problema agora era escapar da morte por afogamento.
Uma nova onda de terror varreu Isabela, ao sentir que afundava. “Madeira não deveria flutuar?”, indagou-se, enquanto se debatia. Os pulsos e os tornozelos estavam prestes a sangrar, e tudo era tão terrível, tão agonizante, que ela sentiu vontade de ter morrido antes. Não! Não podia desistir e dar aquele gostinho aos Mids, lembrou-se. E ela estava positivamente decidida a contrariá-los.
A alguns metros de distância, Antony lutava contra as amarras, puxando os braços para a frente com a brusquidão de um touro quando chifra alguém. A pele raspava na tora, ficando avermelhada. Entretanto, esse era o menor dos problemas do garoto, porque o que ele precisava mesmo era fazer as cordas se romperem.
Elas estavam um tanto mais finas que o normal, e Antony conseguiu libertar a parte superior do corpo. Seus pulmões estavam não em fogo, mas algo muito pior do que isso, quando pôde respirar novamente. A sensação do ar voltando a fluir nunca parecera tão formidável quanto agora.
Aproveitou para dar uma olhada ao redor: encontrava-se em uma espécie de caverna de águas turbulentas, onde, no centro, havia uma majestosa coluna d’água que quase tocava o teto, como se uma grande mangueira expelisse a água de baixo para cima.
Estava prestes a formular o seu clássico pensamento de “que curioso!”, quando lembrou que Isabela havia caído junto com ele. E que ele não estava vendo-a em lugar nenhum.
Uma preocupação súbita o obrigou a mergulhar novamente, sem nem mesmo tomar fôlego, indo para a direita, onde Isabela provavelmente estava afundando. Antony exigia o máximo de si, enquanto batia os braços e as pernas, indo cada vez mais para o fundo, cada vez mais pressionado pelo peso da água acima dele. Aquilo não era nada: a verdadeira pressão estava em conseguir salvar Isabela.
Apesar dos olhos abertos, Antony não conseguia ver coisa alguma naquela caverna escura. A água era turva, mas ele apenas percebeu isso quando um borrão surgiu na parte de baixo do seu campo de visão. Esforçou-se para chegar até lá mais rápido.
Isabela estava lutando contra o impulso de respirar, embora soubesse que não teria mais chance. Aceitar a derrota foi angustiante, uma dor pior que a que invadia seus pulmões. Não conseguia pensar: cada esforço, mínimo que fosse, era excruciante. Ainda assim, era como se a palavra “fim” passeasse de lá para cá na sua mente, uma ideia sem forma.
Quando sentiu as mãos de Antony desamarrando as cordas dos pulsos, Isabela assustou-se, engolindo um pouco de água. A sensação de ter os braços livres foi sinônimo de esperança, e ela abriu os olhos, que agora estavam com um brilho quase feroz.
Olhando para baixo, Antony desamarrava as cordas do tornozelo. Seus dedos trabalhavam apressados para desatar o maldito nó apertado, e o seu fôlego estava acabando. Agora, arrependia-se de não ter respirado direito antes de mergulhar.
Por fim, quando Isabela estava quase engolindo água de novo, o nó foi afrouxado. Antony puxou os dois pés de Isabela para fora e disparou para cima, não sem antes pegar a mão da garota. Receava que, se a deixasse lá por conta própria, ela não conseguiria subir a tempo, e ele não teria se esforçado tanto para perder no último minuto do segundo tempo.
A garota aceitou ajuda, e na ânsia de subir à superfície, começou a agitar as pernas. Mas isso parecia não ser suficiente, a superfície, o ar, parecia estar ainda tão distante... novamente, uma sombra de pensamento ecoou pela mente de Isabela, um “não, não não...” cujas letras nem chegaram a se ajuntar.
Lutava contra a vontade quase irresistível de abrir a boca e deixar a água entrar. Sentia-se sufocada e comprimida, apesar da pressão da água estar ficando menor. Antony, pelo menos, conseguia sentir direito, e sabendo que, em pouco tempo, Isabela iria engolir água até perder a consciência, puxou a mão dela com força para cima e soltou-a. Nem um segundo havia passado, quando segurou-a pelo tronco e empurrou-a para cima.
Foi suficiente para fazer a cabeça de Isabela emergir. Respirava pela boca, tentando repor todo o ar que perdera durante... dois minutos? Três, talvez? Não importava, não quando aquele tempo havia parecido uma eternidade.
Poucos segundos depois, Antony surgiu ao seu lado, também ofegante. Num primeiro momento, não disseram nada. Também, não conseguiriam, nem que quisessem.
Quando se recuperou, Isabela quebrou o silêncio:
— Obrigada — agradeceu com a gratidão mais verdadeira que já sentira na vida. Até poderia ter abraçado Antony, se não estivessem na água.
Só então se deu conta: havia conseguido, havia sobrevivido, quando achava que não havia mais esperança. Era muito, muito mais que surreal: era impossível. “Nós fizemos o impossível!”, ela comemorou, um sorriso de orelha a orelha se abrindo em seu rosto. Ela foi mais esperta que os Mids. Ela foi melhor do que eles. “Falharam, falharam, falharam...”, cantarolava em sua cabeça, parecendo flutuar naquela sensação de prazer que a vitória dava.
Antony, por sua vez, sentia um enorme peso cair de seus ombros. Havia salvado uma vida e, ainda por cima, sobrevivido! O sentimento de esperança reacendeu-se em seu peito, com a certeza de que voltaria para casa, mesmo que não fosse em breve. Mesmo que se passassem meses até ele poder abraçar sua mãe, seu pai e Helena, essa hora iria chegar, ele tinha certeza.
As crianças, conforme aproveitavam o aparente milagre acontecido, não se deram conta que uma sutil correnteza as levava. Somente perceberam quando ela ficou veloz, levando-os até um buraco na caverna. Os dois tentaram nadar contra, mas era tarde demais: adentraram o túnel, junto com centenas e centenas de litros de água, que, do lado de fora do Monte da Vida, se transformava em uma volumosa cascata.
Na descida turbulenta, bateram em pedras, cortando-se e arranhando-se, nada comparado ao sobressalto que a queda livre causou. A sensação de frio na barriga, o medo do que tinha lá em baixo, tudo isso era, ao mesmo tempo, emocionante e assustador.
Durou menos de cinco segundos. O “tchibum!” dos dois caindo no rio foi abafado pelo ruído alto da cachoeira. Só quando botaram a cabeça para fora da água em busca de ar (e também de alguma garantia de que não morreriam afogados, como quase tinha acontecido antes) que os Mids os perceberam.
Durante o sacrifício, era expressamente proibido que os Mids olhassem para o planalto, por isso, eles tinham que se virar de costas. Alguns observavam o rio, enquanto enviavam energia para o fogo. Ao ver duas coisas estranhas descendo o rio, perceberam logo que se tratavam das crianças.
Os mais próximos do rio chamaram a atenção dos companheiros ao lado, que chamaram a atenção de outros companheiros, que chamaram a atenção de mais outros... e em pouco tempo, dezenas de olhos observavam Antony e Isabela indo embora, distantes demais para que os pequenos seres pudessem persegui-los.
Uma pena que isso tivesse ocorrido.
Pois não havia maneira de escapar impune de um sacrifício dos Mids.
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