Ankward: Mundo Guardado
7 Correnteza
Notas iniciais
Antony e Isabela estavam mais tranquilos, embora temerosos que os Mids resolvessem ir atrás deles. Por sorte, a correnteza era veloz o suficiente para que os dois pudessem seguir com uma relativa tranquilidade, sem precisar nadar para fugir. Aparentemente, isso não seria necessário: era tarde demais para iniciar uma perseguição.
A profundidade do Rio Norte, onde as crianças estavam, era grande o suficiente para que os seus pés não conseguissem tocar o chão. Então, elas mantinham a cabeça para fora d’água, batendo os braços e as pernas incessantemente. Não era confortável, de jeito nenhum, mas pelo menos Isabela não se incomodava. Ela havia prometido a si mesma que não se permitiria ficar confortável até estar em casa.
Os rios serviam de fronteira para as províncias da Tribo de Rackismid, pois não existia apenas o Rio Norte brotando do Monte da Vida: havia também o Rio Sul, o Rio Leste e o Rio Oeste. O Rio Sul separava as províncias de Analexa e Rhavid. O Rio Leste, as de Analexa e Horan. O Rio Oeste, as de Rowle e Rhavid. E o Rio Norte, as de Rowle e Horan.
Na Tribo de Rackismid, muitas vilas aglomeravam-se ao redor do Rio Norte. Apesar disso, as crianças não foram notadas por ninguém mais: todos os Mids se reuniam nos centro dos povoados com seus líderes para manter aceso o fogo do ritual. Quando o sacrifício acabasse, eles voltariam para suas cabanas, para festejar o novo ano com a família, tendo direito a muita música, comida e presentes — a única comemoração do ano requeria que todos ficassem felizes. Assim, quem é que daria importância ao rio?
Ah, mas se soubessem que as crianças do ritual estavam escapando, passando a poucos metros de suas casas, abandonariam a festa sem nem pensar duas vezes para procurar os fugitivos. O sacrifício de Rackismid era o que havia de mais sagrado para os Mids, à exceção do próprio deus. Como Rhavid dissera para as crianças, o não cumprimento do ritual de novo ano trazia graves consequências, e os Mids sabiam disso por experiência própria.
Antony e Isabela ficaram um bom tempo sem se falar, apenas concentrando-se em respirar. Antony notou que o rio já estava há bastante tempo atravessando uma floresta, sem nenhum sinal de Mids por perto. Juntando todo o fôlego que tinha — e ainda não sendo o suficiente — disse:
— Isa... acho que já podemos... sair do rio. Já devemos estar... bem longe do planalto.
— Parece... que sim. — Sem esperar resposta, ela começou a nadar em direção à margem direita. A correnteza, agora tranquila, não a atrapalhou enquanto erguia-se para fora do rio.
Antony a seguiu. Logo, os dois se encontravam deitados sobre a terra, olhando para cima, os pulmões felizes por poder voltar a respirar normalmente.
— E agora? — Isabela perguntou, fitando os galhos de árvore acima dela.
Antony parou de respirar por um instante para pensar, e logo em seguida respondeu:
— Não sei.
Eles se encararam. Os olhos de ambos estavam mais abertos de preocupação.
— Minha irmã me ensinou a analisar situações — comentou Antony, voltando a olhar para cima. — Ela diz que, não importa o que aconteceu, nós temos que seguir em frente e resolver o problema, ao invés de ficar remoendo o que aconteceu.
— O que é remoer?
— Tipo... ficar lembrando de algo que já passou e se irritar sem necessidade por causa daquilo.
— Ah, tá. Continue.
— Primeiro, temos que analisar o que aconteceu, porque pode nos dar uma pista para onde seguir ou podemos descobrir onde erramos, para não errar de novo. Começando a história: fomos sequestrados no meio da noite por uns bichinhos chamados Mids. E depois?
— Eles nos levaram para a tribo deles pra nos matar.
— Nessa tribo, acho que nesse mundo também, existe mágica. Foi com a ajuda dela que eles queriam nos sacrificar...
— Por causa deus ridículo deles. — Os lábios de Isabela se curvaram para baixo, em uma clara expressão de desprezo.
— E enquanto estávamos sendo queimados vivos, conseguimos cair dentro do Monte da Vida. Essa é a parte mais curiosa... — Antony franziu as sobrancelhas e começou a pensar alto. — Como aquela terra no planalto se sustenta sozinha, sem estrutura ou nada embaixo? E porque nós não desabamos lá assim que fomos presos à madeira? E de onde vem toda aquela água? Eu aprendi na escola que os rios nascem de lençóis freáticos, rios subterrâneos que são formados a partir da água das chuvas infiltradas no solo. Só que lá no planalto era mais um lago subterrâneo, toda a água acumulada. Além disso, tinha como se fosse um gêiser no meio! Pra ter tanta água assim, teria que haver bastante chuva e constantemente, o que não parecia acontecer lá, porque eu notei que a terra da trilha era seca. E se chovesse a quantidade necessária em cima do planalto para formar um rio, ou encher o lago, a água já teria feito a parte de cima do Monte desabar, por causa da finura dele. Concorda?
Isabela demorou um pouco para responder, tentando processar tudo o que o garoto disse. Alguns segundos depois, ela falou:
— Faz sentido. Mas, segundo a lógica que a sua irmã te ensinou, o que aconteceu não importa muito, não é? Podemos pensar sobre o planalto depois.
— Muito bem lembrado. Acho que você já pegou o raciocínio. Então, isso nos leva à nossa situação atual, que seria aonde o rio nos trouxe. Não sabemos onde estamos...
— Então temos que saber, ué! — Isabela o cortou. — Como fazemos isso?
— Eu sei como ver as horas mais ou menos pela posição do sol e também como descobrir os pontos cardeais. Só que, aqui, em um mundo diferente, as horas podem ser diferentes.
— Mas os pontos cardeais continuam sendo os mesmos, não é?
— É... tá bem!— Antony levantou-se e saiu da sombra da árvore. Olhou para o céu azul, onde a grande estrela daquele mundo brilhava, igualzinho ao da Terra. — Acho que é mais ou menos meio-dia. O sol está bem no meio do céu.
— E os pontos cardeais?
— Com o sol no meio do céu, não dá pra saber. Vamos ter que esperar ele baixar para saber aonde fica o leste e o oeste.
— Eu sempre confundo os dois.
— Minha professora me ensinou um negócio pra decorar a rosa dos ventos. É uma frase: “Não Leio Sem Óculos”. Seria Norte, Leste, Sul, Oeste, daí você distribui as palavras em sentido horário.
— Não Leio Sem Óculos... entendi! É engraçado.
— É justamente por isso que você se lembra!
Eles ficaram em silêncio por alguns instantes, procurando o que falar.
— Então nós esperamos? — Isabela indagou.
Antony começou a perceber que ela não sabia como agir. Não que ela estivesse ou mesmo fosse tímida, não era essa a razão, mas parecia que dependeria do garoto para sobreviver em Ankward. Então, pela primeira vez, Antony teve tempo para pensar sobre o que seriam dos dois naquele mundo desconhecido, aparentemente inofensivo. Seria mesmo um lugar tão tranquilo assim? Desconfiava que não. Os Mids ainda viriam atrás deles? Muito provavelmente.
— Acho que podemos seguir o rio — respondeu, após alguns segundos, nem tão usados para analisar qual seria a melhor alternativa. — Ele é o único caminho seguro.
Isabela balançou a cabeça positivamente e se levantou. Os dois puseram-se a andar sob a sombra das árvores, plantas de todos os tipos, que pareciam seguir um interessante padrão: as mais altas tinham folhas mais escuras e menores, e as mais baixas eram claras, de folhas e troncos largos. Raramente encontravam-se flores ou frutos, o que tornava a floresta um lugar excessivamente verde.
— Não vimos nenhum animal até agora — observou Antony, alguns passos depois. — Será que tem algum aqui? Ou só saem à noite?
— É verdade... que estranho. Eu não sei — disse Isabela, que observava a vegetação enquanto caminhava. Seus olhos focalizaram em algo um pouco indefinido à distância, preso às raízes de uma árvore. Aproximando-se um pouco mais, exclamou: — Ei, olha que flor diferente!
A garota deu alguns passos em direção ao tronco de uma árvore alta e larga, as enormes raízes se estendendo em todas as direções. Entre elas, várias flores em forma de pompom, com pétalas brancas na base e cor de rosa no topo, cresciam.
Antony se agachou para observá-las de perto. Notou que tinham uma base com algumas folhinhas verde-escuro e finas raízes que se prendiam às da árvore, perfurando-a. Comentou isso com Isabela, que torceu o nariz.
— Então elas roubam seiva da árvore?
— Ou podem dar algo em troca também, vivendo em harmonia com ela. Isso se chama mutualismo.
— Mu... o quê?
— Mutualismo é quando dois seres vivos de espécies diferentes vivem juntos, em harmonia, um oferecendo algo que outro precisa, criando um vínculo de dependência — explicou, recitando o que havia decorado do livro de ciências. — Por exemplo, o cupim não digere a celulose da madeira, mas uma bactéria que vive dentro dele, sim. Então, enquanto o cupim dá abrigo à bactéria, ela digere a comida pra ele. Um não viveria sem o outro.
Isabela apenas soltou um “ohhh” de entendimento.
— Você já aprendeu tudo isso na escola? — Ela questionou, surpresa com o quanto o garoto sabia.
— Já. Eles dão bastante coisa para estudar.
— E você consegue lembrar de tudo?
— Só o que eu acho interessante.
Eles novamente caíram em silêncio.
— Será que essas flores têm cheiro? — Isabela perguntou, mais para si mesma do que para Antony.
Ela enfiou o nariz na flor mais próxima e inspirou profundamente. As pétalas faziam cócegas na sua pele, e o cheiro... era doce, familiar, parecia acariciar o olfato de Isabela. Instantaneamente, ela foi sentindo-se sonolenta. Pouco antes de pousar a cabeça no chão e apagar, lembrou-se por que parecia que já havia cheirado aquela flor antes.
Porque, de fato, ela havia.
Fale com o autor