Anjos Turvos
1 Capítulo 1 - Um Estranho no Palco
Narração — Isabella
As luzes do extenso palco de canto no salão acenderam. Coloridas. Estranhei, não imaginava que as luzes do palco de um evento de sadomasoquismo seriam tão alegres. Logo uma banda punk subiu ao palco. Eram cinco integrantes, todos com a mesma fisionomia e estilo. Estavam de preto, com vários acessórios de taxas e metal. Havia tatuagens e piercings em exerço por seus corpos.
Cada um se posicionou a frente de seus instrumentos e o vocalista gritou alguma coisa, jogando as mãos para cima. A platéia inteira vibrou, me sufocando. Começaram a tocar, e os chiados fizeram meus tímpanos pulsarem. Aquilo não era música, era puro barulho.
Afastei-me do palco, procurando por um pouco de ar fresco e voltando ao meu objetivo. Segui meu olhar na direção dos cantos do recinto, em busca de um rosto conhecido. Nada. Tive asco dos rostos que vi. Repulsa das pessoas que se encontravam naquele lugar. Sabia que não deveria estar ali, e que não poderia me esgotar dessa forma, prendendo-me ao passado, fazendo o que fazia naquele lugar repugnante.
“Assim como as estações, as pessoas têm a habilidade de mudar. Não acontece com freqüência, mas quando acontece, é sempre para o bem...”
A banda terminou de tocar seu barulho, dando lugar aos coordenadores do evento. Eles subiram no palco com grossas correntes enferrujadas em suas mãos. Eram dois gêmeos extremamente gordos, ambos com várias tatuagens brand por todo o corpo. Típico de masoquistas, tatuagens feitas por queimaduras, cicatrizes.
O gêmeo maior, além das brands, tinha dois piercings internos em sua testa, no formato de chifres. Simplesmente ridículo. Não entendia muito bem o esquema da apresentação, mas só de ver os instrumentos localizados no palco, senti um calafrio percorrer minha espinha. Um calafrio de medo e repulsa.
Alguns assistentes levaram um colchão velho e surrado ao placo, e espalharam um líquido que parecia ser álcool por ele. Um anão engraçado, com um moicano alto e tatuagens espalhadas por toda a extensão de seu minúsculo corpo subiu ao palco e entregou um isqueiro ao gêmeo chifrudo. Tudo aquilo era repugnante, nojento, e mais parecia um circo — Até anões eles têm. Bufei.
Não deveria estar aqui, sabia que não era o meu lugar. Muitas vezes tentei seguir a razão e esquecer o passado. Mudar de vida. Mas sendo a tola que sou, fui fraca e cedi ao coração. Um coração quebrado e desamparado, mas ainda mais forte que a razão. Sentia-me fraca, tonta, e por bem ou por mal, desisti.
Já estava descendo na multidão para ir embora, quando ouvi um grito ensurdecedor vindo do palco. Olhei para cima, embasbacada com a cena. Um homem alto, de cabelos acobreados e peitoral desnudo, estava preso a um poste de madeira, no centro do palco. Sua expressão de dor e agonia me fez sentir pontadas no estômago. Sangue escorria por toda a extensão de seu corpo. Havia cortes profundos por seu peito, seu rosto estava marcado por grandes marcas roxas. Seus lábios, inchados.
Enquanto ele agonizava, o gêmeo chifrudo socava seu peito, rindo. Seus gritos foram abafados por uma corda amarrada em sua boca. Ele espremeu os olhos, se contorcendo, quando o gêmeo menor chicoteou-o com as correntes. Minha boca escancarou com a cena.
Era óbvio que ele não queria estar ali, não seria possível. Então, porque estavam torturando-o? Porque ninguém o ajudava? As pessoas gostavam de ver a tortura, e eu já imaginava que encontraria tais reações num festival de sadomasoquismo. Só não achei que o fariam com pessoas que não estavam ali para serem machucadas, que não sentiam prazer no ato. Eu não podia ficar ali parada o vendo sofrer, eu precisava ajudá-lo.
O palco não estava a mais de 5 metros de distância, mas a multidão de pessoas pulando estava atrapalhando a minha passagem. Eu precisava agir com coerência. Sabia que não adiantaria chegar ao palco e com minha humilde simpatia convencer os coordenadores a pararem o show. Precisava pressionar o ponto fraco, e já sabia como fazê-lo.
Aproximei-me do palco no momento em que o chifrudo acendeu o fogo no colchão. Corri até um portão de ferro na entrada, estava fechado, mas não trancado. Espremida entre as pessoas, puxei rapidamente o portão para cima, fazendo um ruído ensurdecedor, e ativei o alarme de escape que soou como uma sirene. O outro gêmeo já levantava a peixeira quando ouvi alguém gritar:
- POLÍCIA! – E isso era tudo o que eu precisava para o alvoroço começar.
Todos começaram a correr descontroladamente, superlotando a saída do recinto, os gêmeos coordenadores trataram logo de fugir pelos fundos do palco, aproveitei e subi. O homem de cabelos acobreados abaixou a cabeça, espremendo os olhos. Corri até ele e, com muita dificuldade, soltei suas mãos presas por correntes no poste.
“... Algumas vezes leva o quebrado a se tornar inteiro de novo. Às vezes é preciso abrir as portas para novas pessoas e deixá-las entrar...”
- Você está bem? – perguntei preocupada.
Logo ele desabou no chão, e me desesperei.
- Ai meu deus! – soltei as correntes de seus pés e segurei sua cabeça em minhas mãos. – Moço, você precisa se levantar, nós temos que sair daqui antes que voltem.
Ele abriu os olhos e soltou um gemido de dor.
- Minha cabeça... – gemeu novamente.
- Está tudo bem, eu vou te levar ao hospital e você vai ficar bem. – era o que eu pretendia.
- Nã.. Ai! – Colocou a mão em um dos ferimentos no peito. – Hospital não, me tira daqui, por favor. – implorou.
Senti o desespero em sua voz, mas não pretendia discutir com ele. Resolvi tirá-lo dali antes que os gêmeos voltassem e me torturassem também. O ajudei a levantar com grande esforço, e o levei até o meu carro, no fim da rua. Entramos no carro, mas eu não sabia ao certo para onde levá-lo.
- Onde você mora? – perguntei.
- Eu não te... Não pos... — olhou pra baixo, gemendo, e pressionando um lenço em seu corte no peito. – Não tenho para onde ir. – falou em um fio de voz, quase um sussurro.
- Eu posso levá-lo ao hospital, para cuidar dos ferimentos. Os cortes estão muito profundos, podemos ligar para sua família de lá. – propus.
- Não, por favor, não me leve ao hospital. Minha família não está aqui.
Desorientada, resolvi levá-lo para casa. Eu tinha absoluta noção de que levar um estranho para a minha casa era no mínimo loucura, mas o que um homem nesse estado poderia fazer contra mim? Ele estava gravemente ferido. Ao que presenciei esta noite, concluí que ele precisava de minha ajuda.
(...)
O caminho inteiro foi silencioso. Vez ou outra eu olhava de lado, observando sua expressão dura e vazia. Meu apartamento não era muito longe, ficava a algumas quadras do evento, em frente a uma das mais belas e solitárias praias de Palm Beach. Suspirei ao lembrar-me o que uma enfermeira, colega de trabalho uma vez me disse ao chegar meu primeiro inverno sem Jacob em Palm. “A cidade é deixada ás moscas, querida. Palm no inverno é assim, que nem você. Bela, mas vazia.” Apesar de ser verdade, não me surpreende não ter amigos aqui.
Ao chegarmos, ajudei-o com muito esforço a andar até o elevador. Sendo tarde da noite, havia apenas o porteiro no saguão, Mr. Collins. Quase sorri ao ver seu olhar confuso direcionado a nós. Devia achar no mínimo estranho me ver entrando com um homem em meu apartamento, ainda mais nessas condições. Não, ele devia me achar uma louca mesmo, depois de oito meses mal saindo de casa, chegar com um homem nesse estado. Ignorei sua expressão e entrei no elevador.
- Chegamos. – declarei ao abrir a porta do meu apartamento.
Entrei e joguei minha bolsa no sofá da sala. Percebi sua hesitação no vão da porta. Não entendi o porquê, mas havia uma expressão um tanto assustada em seu rosto. Ele encarava hipnoticamente a minha mesa de centro.
- Você não vai entrar? – perguntei.
Seu olhar correu para mim e, confusa, observei o terror em seus olhos.
- Qual o seu nome? – perguntou e isso me lembrou de que ainda não tínhamos nos apresentado, e eu não sabia o seu.
- Bella. O seu é?...
- Cullen. Edward Cullen. – assentiu, maneando a cabeça freneticamente. — Eu tenho que ir. – afirmou já se virando para o corredor, quando caiu no chão, com um gemido agonizante.
- Você está bem? – corri até o seu lado, preocupada.
- Não foi nada. – falou pondo a mão por cima de um de seus cortes abaixo do peito, me lembrando de que eu precisava cuidar de seus ferimentos.
Abaixei-me e apalpei sua costela suavemente, procurando por um osso deslocado. Afastei meu olhar de seu corpo, me concentrando no objetivo. Não consigo suportar ver pessoas machucadas. Sei que é irônico, pois não poderia encontrar nada de diferente em um festival de sadomasoquismo. Sabia que não seria uma boa idéia ir até lá com a esperança tola de obter algum tipo de informação sobre Jacob. O que eu esperava? Que seu assassino aparecesse milagrosamente e desvendasse o crime?
- Precisamos ir ao hospital, não pode ficar com os ossos quebrados por muito tempo. – afirmei, ajudando-o a levantar.
- Não foi nada, juro, não preciso ir ao hospital. – falou repetindo a história do hospital novamente. Bufei.
- Então vamos entrar. Não posso cuidar de seus ossos, mas posso cuidar das feridas. Eu vou precisar fechar seus cortes. – afirmei, sabendo que seus ossos estavam inteiros.
Edward pareceu um pouco surpreso com minha afirmação.
- Como vai cuidar de mim? – perguntou. Dei de ombros.
- Trabalho como médica.
(...)
Levei Edward ao quarto de hóspedes e limpei seus ferimentos. Ele estava deitado na cama enquanto eu passava um pouco de álcool nos cortes. Reclamava um pouco do ardor, mas eu precisava limpar antes de fechá-los com os pontos.
Enquanto limpava seu peito, reparei em alguns traços de seu corpo, só para constatar que ele era realmente muito bonito, mesmo machucado. Era estranho sentir-me atraída por um homem depois de tanto tempo sozinha, e vê-lo ali, deitado na cama, sob minhas mãos, me desnorteou um pouco. Tentei focar no que estava fazendo. Ele era um homem machucado, e que provavelmente estava sensível. Nada podia afirmar, pois não sabia o que havia acontecido com ele. Tentei pensar nele como um paciente do hospital.
Sentia-me observada e corei ao perceber que Edward me encarava. O silêncio ficou um pouco constrangedor e me lembrei de algumas dúvidas que vieram a minha cabeça. Resolvi perguntar.
- Por que não quis ir ao hospital?
Edward arqueou as sobrancelhas, talvez um pouco surpreso com minha pergunta. Então, para a minha surpresa, sua expressão ficou serena, e ele deu um singelo sorriso.
- Por que eu deveria? Achei que você fosse uma médica, Bella. – falou em um tom brincalhão.
- Sua costela. Não posso cuidar dela aqui. – apontei em direção ao seu tórax. Ignorei o fato que ele não sabia sobre a minha profissão quando estávamos naquele palco.
- Não foi nada sério, talvez tenha apenas deslocado ou algo assim, eu já me sinto bem melhor. Obrigado pela ajuda. – declarou.
- Não precisa agradecer, faria por qualquer um. – retruquei.
Ele assentiu.
- E a propósito, você me disse que não tem para onde ir. Já está tarde e se quiser pode passar a noite aqui. – propus, aplicando-lhe a última anestesia.
- Não precisa. Muito obrigado, mas você já fez muito por mim. – sorriu.
- Onde você mora? – perguntei terminando de fechar o último corte.
- Miami.
- Fica a mais de 120 km daqui, e não estás em condições para dirigir. Não seja teimoso. E você vai precisar de alguém para cuidar disto amanhã. – insisti, apontando para os ferimentos.
Senti um pouco de medo por estar sozinha com ele, mas ele não me parecia um cara perigoso. Tentava enxergar algo através de seu olhar, mas ele estava fechado. Eu não tinha certeza, mas eu sabia que era o certo ajudá-lo, então resolvi arriscar.
- Ok – concordou simplesmente, monossilábico.
Precisava saber como ele tinha chegado naquele palco, mas deixaria para pergunta-lo no outro dia pela manhã. Ele parecia bem abalado, e logo as anestesias fariam efeito, o que o deixaria sonolento.
- Então, posso perguntar-lhe algo também?
“... Na maioria das vezes, é preciso apenas uma pessoa que tenha pavor de demonstrar o que sente para conseguir o que jamais achou possível.”
- Não seria justo, você não respondeu a minha pergunta adequadamente. – respondi satisfeita por evitar um possível questionário.
Não gosto de abrir minha mente para ninguém, muito menos alguém que acabo de conhecer.
- O que fazia no evento?
A pergunta de Edward me deixou um pouco surpresa. Suspirei alto, procurando por uma saída.
- Digo... Você não parece o tipo de garota masoquista, gótica ou algo assim. – corrigiu rapidamente ao ver minha expressão.
- Está certo, não sou. Bom, é melhor acabarmos de tratar disso logo, já está tarde.
Pedi para Edward se levantar um pouco, para poder enfaixar seu peito. Seu lábio ainda estava inchado e seu olho, roxo. Entreguei-lhe uma bolsa de gelo e pressionei um pouco outra bolsa em seus lábios.
“Mesmo quando você não sabe para onde vai, ajuda saber que você não está indo sozinho. Ninguém tem todas as respostas para suas perguntas, mas às vezes a incerteza e o medo intensificam o prazer...”
Edward segurou meu braço delicadamente e isso atraiu meu olhar ao seu rosto. Nossos olhares se encontraram e um breve arrepio passou por meu corpo, tomando consciência de nossa proximidade. Fiquei constrangida de imediato, e me afastei. Não havia superado o último inverno e não me permitiria ocupar minha cabeça com outros homens.
- Você deve ter tido um dia longo hoje, e precisa descansar para se recuperar. – falei, tirando minha mão de seu peito. – Espero que amanhã possamos conversar melhor. – finalizei, sorrindo fraco.
(...)
Sentia o meu corpo abandonar-me. Tentava, sem sucesso, levantar as mãos para me soltar da cama. Mas eu não estava presa, apenas me sentia assim. Era como se a força da gravidade estivesse mais potente sobre mim, impedindo meus movimentos. A fumaça começava a me sufocar e, incapaz de me mover, entrei em desespero. Assistia o fogo consumir meu quarto e nervosa, não encontrei outra saída. Apenas esperar pela morte.
De repente a força que me prendia à cama, dissipou. Levantei-me rapidamente, arfando pela falta de ar, desesperada para fugir do apartamento. O fogo consumia cada cômodo. Por algum motivo incompreensível, o fogo não havia afetado a cama. Arfei ao me dar conta de que não teria como sair do quarto. Então eu o vi. No parapeito da janela, oferecendo-me a mão. Jacob. Não pensei duas vezes e corri ao seu encontro.
Saí pela janela segurando com força os braços de Jacob. Meu pé deslizou um pouco me fazendo quase cair. Jacob me puxou com força e pude ver seu rosto claramente. Aqueles não eram seus olhos, havia olhos de cores diferentes substituindo seus verdadeiros. Olhos secos, sem vida. Assustei-me com o que vi e dei um passo em falso para trás. Olhei para baixo e vi o asfalto na calçada. A rua estava vazia. Puxei os braços de Jacob a fim de me equilibrar, e estes se soltaram de seu corpo, como se estivessem costurados por linhas de lã.
Quis gritar, mas minha voz não saiu. Estava sufocada, caindo do décimo-primeiro andar. Não morri, não caí no asfalto, caí no mar. No oceano, na profundidade daquelas águas geladas. Nadei para cima debilmente tentando chegar à superfície, pois não conseguia respirar. Mas o efeito era contrário, e eu só afundava cada vez mais. Debatia meus braços procurando por oxigênio, então senti uma mão em meu ombro. Olhei para trás sufocada e vi os braços que estavam no corpo de Jacob. Logo abaixo, repousando na areia, estavam várias pernas, mãos, até mesmo cabeças. Membros desconectados afundados no oceano.
Entrei em pânico e voltei minha cabeça para frente tentando novamente subir. Ao virar, deparei-me com um cadáver em decomposição de uma mulher que aparentava ter a minha idade. Seus olhos ainda abertos estavam rígidos, espantados. Ela usava um vestido e um véu de noiva, brancos. Senti minha consciência lentamente me abandonar, e minhas forças se esgotarem rapidamente, não me dando espaço para o susto. Meus braços pararam de obedecer, e logo vi minhas mãos caírem. Mas não senti nada. Minhas pernas se desconectaram de meu corpo, e minha cabeça pendeu para trás, afundando.
(...)
Levantei em súbito, arfando. Meu coração disparado, pavor estampando os meus olhos. Senti meu corpo molhado, e em desespero, ergui as mãos abrindo e fechando-as freneticamente. Foi só um sonho. Estava apenas suada. Expirei pesadamente. Estava aliviada, mas assustada.
Olhei ao redor de meu quarto, iluminado apenas por um feche de luz da noite vinda da janela. A janela. Parei meu olhar nas cortinas de seda que com a brisa tranqüila da noite, deslizavam nas paredes de meu quarto, abrindo um pequeno campo de visão da rua lá fora. As sombras da noite em meu quarto me deixaram ainda mais assustada.
“... Às vezes, o melhor que podemos fazer é tentar seguir em frente, e deixar o passado no passado...”
Liguei o fraco abajur ao meu lado e vi a hora no despertador de cabeceira. Eram 03h00min em ponto. Voltei meu olhar ao parapeito e ao me lembrar de Jacob no pesadelo, dúvidas brotaram em minha cabeça. Desde o inverno, já havia sonhado com ele várias vezes, mas nunca um pesadelo.
Sentia-me confusa ao me lembrar do cadáver da noiva. As imagens em minha cabeça me apavoraram. Desci fraca da cama, e com algum esforço, fui até o corredor. Acendi a luz e ao ver o quarto de hóspedes no final do corredor, lembrei-me de Edward. A porta do quarto estava aberta, mas a única luz acesa em meu apartamento era a do corredor. Não conseguia enxergar nada no quarto, então cheguei mais perto. Estranhei ao constatar que Edward não estava lá. Um calafrio percorreu minha espinha.
O meu medo aumentou quando pensei na possibilidade de Edward ser uma pessoa má, afinal não o conheço. Teria ele somente ido embora? Fui até a cozinha me lembrando de que não havia tomado meus remédios naquela noite e acendi a luz. Pude ver uma movimentação na varanda e ao sentir o cheiro de cigarros de menta, me apavorei.
- Jacob? – sussurrei.
Não obtive resposta. Cigarros de menta eram os preferidos de Jacob. Minha mente confusa projetou imagens que me apavoraram. E se parte daquilo não fora um sonho? Caminhei lentamente até o terraço, e lá estava ele. Dei um meio sorriso, aliviada.
- Edward. – sussurrei.
Ele estava sentando em uma cadeira, os pés apoiados na grade de proteção da varanda. Sua cabeça no encosto da cadeira, pendendo para trás. Seus olhos, fechados. Mas ele não dormia, fumava um cigarro. Caminhei até o seu lado e observei seu rosto. Sua face machucada, seu peito enfaixado e sua expressão serena e vazia me fizeram perguntar a mim mesma como pude achar que talvez ele pudesse fazer alguma coisa ruim comigo. Ele estava claramente debilitado.
- Hum... – murmurou ainda de olhos fechados.
Tragou um pouco.
- Não devia fazer isso. – reprovei.
- O quê?
- Fumar. Não faz bem para a sua saúde. – falei repreendendo-o.
Suspirei ao pensar que essa frase nunca sairia de minha boca há um tempo. Ele abriu os olhos, mas ainda sem me encarar, levantou um pouco a cabeça e olhou para frente. Olhei também. A luz do luar era fraca, mas contrastava no mar. A vista dali de cima era maravilhosamente linda, tranqüila. O silêncio, reconfortante. O único som que ouvíamos era o cantar do vento, que batia nos coqueiros fazendo-os dançarem como havaianas, e o som de pequenas ondas quebrando no mar. Voltei meu olhar a Edward e vi suas sobrancelhas juntarem um pouco, formando pequenas rugas em sua testa. Ele ainda olhava para o mar.
“... Outras vezes, precisamos olhar para o futuro e saber que, mesmo quando achamos que vimos de tudo, a vida ainda pode nos surpreender, e ainda podemos surpreender a nós mesmos."
- Por que diz isso? – encarou-me finalmente, sua expressão denotando a curiosidade de sua voz. – Ontem se arriscou me salvando. Por que se importa?
Seus olhos brilhavam me encarando com intensidade. Surpreendi-me com a pergunta. Fiquei um pouco constrangida, mas não consegui desviar o olhar. Abri um pouco a boca, procurando por uma resposta decente, mas nada saiu. Edward maneou um pouco a cabeça, deu uma tragada e voltou o olhar para frente.
Passamos alguns minutos calados, apenas apreciando a vista da madrugada, então Edward quebrou o silêncio, ainda olhando para o mar.
- Não devia dizer isso. – apagou o resto do cigarro no cinzeiro da mesinha de centro.
- Está ouvindo vozes. – debochei.
Ele tirou os pés da grade, sentando verticalmente em minha direção. Levantou um pouco a cabeça olhando para mim e, sorrindo torto, abaixou-se um pouco para pegar uma caixa de cigarros no chão. Levantou os cigarros em minha direção.
- São seus. – afirmou.
Estranhei.
- Eu não fumo menta. – declarei, pegando os cigarros em sua mão. – Onde arranjou isso? – perguntei, erguendo a caixinha.
Sua expressão serena deu lugar a um olhar confuso. Ele levantou e se aproximou de mim. Pegou a carteira de cigarros de minha mão.
- Eu os encontrei no corrimão. – afirmou, apontando pro corrimão na parede da grade de proteção.
Arfei encarando os cigarros em sua mão. Não seria possível, Jacob se fora há oito meses. Talvez o sonho que tive a pouco me deixara confusa. Decidi fazer pouco caso, mas me sentia assustada.
- Deviam ser do meu ex-namorado. – afirmei, olhando para baixo.
- Perdão. – Edward falou, jogando a carteira de cigarros pela tela de proteção.
Estremeci ao ver a caixinha cair do décimo-primeiro andar. Lembrei-me novamente do sonho, da queda. Edward notou o meu medo.
- Esta tudo bem? – perguntou olhando para mim, mas eu não conseguia tirar os olhos dos cigarros no asfalto.
Perguntei-me por que nunca havia visto aqueles cigarros antes. Uma pontada de esperança passou por mim, mas logo me repreendi. Não era possível, talvez só estivesse tentando enganar a mim mesma para dissipar a minha dor. Afastei os pensamentos de minha mente e olhei para Edward. Sua expressão estava um tanto preocupada.
- Sim, não foi nada. – sorri amarelo.
Olhei para os cigarros no térreo novamente e suspirei.
- Está com medo de alguma coisa? – sussurrou.
Neguei com a cabeça, olhando para o mar, para o nascer do sol. Sentindo o cheiro das águas salgadas misturadas ao leve cheiro de tabaco em Edward me inebriar, sentei em uma cadeira ao seu lado, fechei os olhos e afirmei, suspirando levemente:
- Não.
(...)
Continua...
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