Animal Instincts
8 Passado.
Notas iniciais
– Pronto, agora pode começar a contar!
Kurt e Blaine voltaram à sala e se sentaram um de frente para o outro no sofá. Blaine suspirou enquanto Kurt o olhava ansioso.
– Bom, tudo começou quando eu tinha apenas dez anos. Com essa idade, eu já tinha certeza de quem eu era e como era um pouco inocente ainda, resolvi simplesmente contar aos meus pais que eu era gay, já que eles sempre me trataram muito bem.
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– Mãe, pai, quero contar uma coisa pra vocês!– Blaine disse sorridente.
– Sim, meu filho!– Charlie respondeu o filho com um sorriso sem tirar os olhos do seu prato de comida.
– Eu gosto de meninos...
Pam, mãe de Blaine na hora olhou assustada para o marido e ele apenas ficou calado, e assim ficou até o fim do jantar. Na hora de dormir, apenas a mulher levou seu filho pra cama, o deitou, o cobriu e ficou olhando-o enquanto acariciava seus cachos como fazia toda noite. Com a diferença de que o pai do menino dessa vez não estava ali e ela estava chorando.
– Mãe, porque está chorando?
– Nada meu filho...– disse Pam secando suas lágrimas — Eu te amo, okay? Não importa o que ou quem você seja, eu te amo.
– Eu também te amo mãe...
A mulher depositou um beijo na testa de seu filho e saiu do quarto o deixando sozinho pensando nas lágrimas de sua mãe até adormecer. No meio da noite, Blaine ouviu um barulho vindo do quarto no final do corredor. O garoto resolveu levantar para ir na ponta dos pés até a porta para ouvir o que estava acontecendo.
– A culpa é sua! Você infectou seu irmão com essa doença que você tem! Agora eu perdi mais um filho!
– Eu não fiz nada! Eu nunca falei pra ele o que eu era justamente pra ele não sofrer o mesmo que eu com você! E você não perdeu nenhum filho, apenas é um estúpido ignorante que não é capaz de simplesmente amar seus filhos do jeito que eles são!
Um barulho de alguém caindo no chão foi ouvido.
– Charlie, não faz isso, ele é seu filho! Por favor!
– Você nunca mais abra essa boca pra falar comigo, aliás, eu nem sei o porquê você ainda está nessa casa! Talvez eu ainda possuía alguma esperança de você se curar, mas eu já vi que não! Amanhã mesmo você pega suas coisas e sai dessa casa, eu vou conseguir recuperar Blaine, me recuso a perder mais um filho!
A porta do quarto bateu e Blaine correu pra cama outra vez e fingiu estar dormindo. De repente sua porta abriu e ele sentiu alguém sentando na cama ao seu lado.
– Eu não vou te perder meu filho, eu prometo.
Charlie beijou a testa do filho e saiu do quarto. Blaine abriu os olhos e não conseguiu dormir mais se lembrando da briga de seu pai com seu irmão, Cooper e as palavras do seu pai sobre não perdê-lo.
No dia seguinte, Blaine acordou antes de todos e desceu para pegar um copo d'água, mas encontrou seu irmão no caminho cheio de bolsas.
– Coop?
– Oi Blainey...
– Onde você vai tão cedo e com tantas malas?
– E-eu vou viajar. Isso, viajar! – mentiu Cooper.
– E não ia se despedir de mim, nem da mãe?
– Eu falei com a mãe ontem e é claro que eu ia falar com você! Eu só estava colocando as malas no taxi. Vem, vamos sentar aqui fora como nos velhos tempos.
Cooper largou as bolsas e levou Blaine até as escadas da entrada de casa para sentar com seu irmão.
– Então Coop, vai viajar pra onde?
– Eu? Ah, eu vou viajar por ai, conhecer o mundo até achar o meu lugar.
– Que legal! Você vai me ligar sempre?
– Claro! Sempre que eu puder, eu vou te ligar pra saber de você! E sempre que precisar pode ligar para o meu celular também.– o mais velho bagunçou os cachos do irmão — Blaine me prometa uma coisa?
– Claro, só dizer!
– Sempre seja orgulhoso de quem você é ou será. Não deixe ninguém judiar de você, nem te rebaixar! Estude e corra atrás dos teus sonhos...
– Tudo bem Cooper, um dia você vai voltar não é?
– Vou! Posso demorar, mas eu volto.– Cooper se pôs de pé e estendeu a mão para o mais novo — Vamos, me dê um abraço antes de eu ir!
– Eu te amo Coop...– Blaine disse com o rosto enterrado no peito do irmão.
– Eu também te amo baixinho...
Cooper abraçou o irmão disfarçando o choro e deu as costas entrando no táxi parado. Ele realmente estava preocupado com Blaine, já que ele sabia o que o caçula passaria daqui pra frente com seu pai.
Os dias se passaram e Charlie havia mudado um pouco com Blaine, ele agora não desgrudava do filho. Todo dia, era uma "atividade" diferente. Não que Blaine estivesse reclamando, ele gostava da maioria das coisas que fazia com seu pai, como jogar futebol e concertar o carro, mas aquilo já estava ficando constante demais.
– Pai, posso lhe perguntar uma coisa?
– Claro meu filho!
– Porque depois que Coop viajou o senhor começou a fazer tanta coisa comigo? Como jogar bola, o carro?
– Por nada, isso não é o que pais fazem com seus filhos?
– Sim é.– Blaine deu uma pausa — O senhor sente falta de fazer essas coisas com o Coop?
Charlie ficou sem palavras, ele no fundo realmente sentia falta do seu filho mais velho, mas sempre que se lembrava de Cooper, recordava o que ele havia se tornado e aquilo era demais para o mais velho dos Anderson.
– N-não, seu irmão nunca gostou muito de fazer essas coisas...
Blaine sentia pena de seu pai, ele podia ver que Charlie quando falava do Cooper, tinha um pesar na sua voz, uma certa saudade. Por isso continuou fazendo tudo que seu pai o convidava.
No ano seguinte, era o grande dia do baile do colégio. Blaine foi sem acompanhante, pois havia recusado gentilmente todos os convites das moças que lhe chamaram e só estava indo ao baile por insistência de sua mãe que queria muito vê-lo de terno e tirar fotos. O moreno foi ao baile e tarde da noite ele voltou acompanhado de outro garoto que ele havia conhecido na festa. Pararam na frente da casa dos Anderson e ficaram conversando alguns minutos de forma animada. Tudo estava deserto na rua, o que fez eles pensarem que não havia ninguém os observando. O que eles, principalmente Blaine não sabia era que Charlie assistia a tudo da janela de seu quarto no andar de cima.
Na hora de se despedirem, o outro menino acabou dando um selinho em Blaine que ficou tímido e depois desapareceu na rua enquanto Anderson entrou em casa com um sorriso bobo no rosto. Assim que fechou a porta e virou-se para o interior de sua casa, viu seu pai com a pior expressão possível em seu rosto parado no meio da sala. O que fez o sorriso de Blaine sumir no mesmo instante.
– P-pai? O senhor me assustou...
– Quem era aquele garoto?– o tom da voz do pai de Blaine era grave assustando mais ainda o garoto.
– Um amigo, pai. Ele veio comigo, pois era caminho da casa dele e viemos conversando.
– E é normal beijar o amigo depois de conversar?– Blaine arregalou os olhos — Você é doente igual ao seu irmão!– agora Charlie havia aumentado a voz — Que mal eu fiz a Deus pra ter dois filhos doentes?!
– Pai...
– Cala a boca Blaine! Nós jogamos futebol juntos, fomos a estádios assistir algumas partidas de futebol americano, nós reformamos nosso carro juntos e mesmo assim você vira um viadinho ridículo que me desrespeita a ponto de ficar se pegando com outro cara na porta da minha casa?!
– Pai, eu não fiz nada demais! Eu sempre te disse que gostava de outros meninos! E eu continuo gostando de concertar o carro com você, jogar futebol, ir a estádios. Pai, por favor.– Blaine começou a chorar — Eu não sou doente...
– Eu fiz de tudo, tentei ao máximo te concertar no amor, mas já que não deu certo, eu vou conseguir na dor!
Charlie arrancou o cinto de sua calça e agarrou Blaine pelo colarinho de seu paletó, o mais novo tentou se soltar mais foi em vão. O Anderson mais velho começou a bater em seu filho com o cinto em todos os lugares possíveis de seu corpo enquanto o mais novo gritava para ele parar. Charlie só parou de espancar seu filho quando sua esposa desceu desesperada e o segurou implorando por Blaine.
– Você vai dar o seu jeito, mas amanhã mesmo eu quero você fora dessa casa!
– Amor, não faça isso!– Pam chorava — Ele é nosso filho e ainda é muito novo pra sair de casa! Você já mandou Cooper embora, eu não vou suportar ter mais um filho longe de mim...
– Ele não é meu filho! Assim como aquele outro! Eu o quero longe daqui!
Charlie subiu batendo o pé de volta ao seu quarto enquanto Pam ficou na sala vendo Blaine encolhido chorando num canto. A mãe correu pra acalentar seu filho aos prantos.
– Mãe, me ajuda... Meu corpo dói e eu não quero ir embora. Eu não sei pra onde ir.
– Shh, acalme-se meu filho. Amanhã seu pai vai estar mais calmo e você não vai precisar ir embora, eu estou aqui e nada vai te acontecer.
Pam disse aquelas palavras para acalmar seu caçula, mas na verdade ela sabia que não poderia fazer nada contra seu marido. Ela realmente queria proteger seu filho de tudo, mas sabia que nunca conseguiria. Pam pegou seu filho no colo e o colocou em sua cama, de tanto chorar por conta das dores que sentia, Blaine pegou no sono rapidamente.
Quanto estava quase amanhecendo, Blaine acordou todo suado de um pesadelo horrível. Ele olhou para os lados agora sentado em sua cama e lembrou de tudo o que havia lhe ocorrido horas atrás. Resolveu então ligar para seu irmão que lhe dissera que Blaine poderia ligar a qualquer hora se precisasse.
– Pronto?– uma voz sonolenta dizia do outro lado do telefone.
– Coop? Desculpa te acordar a essa hora...
– Oh Blainey, pode falar! Aconteceu alguma coisa?
Blaine ficou um pouco inseguro de contar para o irmão que seu pai havia lhe batido e o expulsado de casa, mas ele precisava contar, pois seu irmão poderia ajudar.
– Blaine?
– A-aconteceu. O pai me bateu e me expulsou de casa, agora eu não sei pra onde eu vou.
– Ele fez o que? Blaine, você está bem? Você quer que eu vá aí agora?
– Não Coop, isso só iria piorar as coisas! Não se preocupe, a mãe disse que iria me ajudar. A culpa é minha, eu não tinha que ter beijado o Matt aqui na frente de casa.
– Blaine, não há nada de errado com você, acredite! Eu vou dar um jeito de te ajudar, apenas tente ficar tranquilo.
– Tudo bem... Obrigado Coop.
– Se cuide, okay? Eu vou dar um jeito.
Cooper desligou o telefone e socou a cama de ódio. Blaine era a coisa mais preciosa que ele tinha em sua vida e ninguém o maltrataria daquela forma e sairia impune. Nem mesmo seu pai.
Quando o dia raiou, Blaine ainda estava acordado. Estava com medo de sair de seu quarto e dar de cara com Charlie outra vez, por isso ele ficou em sua cama na esperança que sua mãe o viesse busca-lo lhe dizendo que tudo havia melhorado.
Mas ao contrário disso, Blaine ouviu um grito vindo do quarto de seus pais. O moreno não pôde se conter e na ponta dos pés foi aproximando da porta logo em seguida abrindo-a. Mais um grito de sua mãe veio.
– Cooper, não faz isso!– Pam gritava chorando.
Ao ouvir o nome do irmão, Blaine resolveu sair de seu quarto e do corredor pôde ver o que estava acontecendo. Cooper segurava seu pai pelo pescoço contra parede apontando o que parecia ser uma faca na direção do coração do homem mais velho.
– O doente aqui é você que espanca seu próprio filho de onze anos e o expulsa de casa por uma coisa tão boba!
Charlie estava calado apenas encarando o filho e Pam implorava para Cooper não fazer nenhuma besteira.
– Eu bati mesmo em Blaine e se precisar eu vou espancá-lo até ele virar homem outra vez. Não vou cometer o mesmo erro de deixar passar achando que ele vai se curar como eu fiz com você!
Charlie praticamente cuspiu aquelas palavras deixando Blaine que ouvia a tudo de longe boquiaberto e Cooper com o dobro do ódio. Por isso Cooper sem hesitar enfiou a faca no peito de seu pai e o largou deixando o mais velho cair sentado no chão. Pam nesse momento desmaiou com a cena e quando Cooper virou para sair do quarto, deu de cara com seu irmão mais novo.
– B-blaine?– ele não esperava que seu irmão visse toda aquela cena — Vai ficar tudo bem agora, ele não vai mais te infernizar...
Blaine apenas ficou estático encarando tudo. Seu pai agora cheio de sangue com uma faca no peito, sua mãe desmaiada e seu irmão mais velho com as mãos sujas de sangue indo a sua direção. Antes que Blaine pudesse ter alguma reação, apareceram alguns policiais que os vizinhos haviam chamado colocando algemas em Cooper e o arrastando casa afora.
– Blaine! Vai ficar tudo bem agora! Eu te amo, okay?!– Cooper gritava enquanto era arrastado pelos policiais.
Depois de tudo calmo, Blaine ainda ficou alguns minutos encarando seu pai morto enquanto alguns paramédicos chegaram para prestar socorro.
– Garoto, está tudo bem? Você está ferido? – um paramédico falou perto de Blaine o chamando – Pessoal, acho que o garoto está em choque aqui! Vamos levá-lo!
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– Na hora eu fiquei realmente em choque, acho que apaguei no caminho do hospital. Fiquei anos com aquela cena do Cooper assassinando meu pai, mas de alguma forma aquilo não me traumatizou. Eu até me senti aliviado e posso dizer que gostei de ver tudo aquilo...
Kurt acabou se lembrando do pesadelo que ele teve na última noite em que Blaine tentava matá-lo com uma faca e ficou com aquilo na cabeça.
– Kurt? – Blaine estalou os dedos tirando o castanho de seus pensamentos – Agora é a sua vez...
– Ah, okay...
Kurt contou tudo para Blaine que disse que se o próximo namorado dele soubesse disso nunca o trairia por medo. O castanho riu e depois de mais alguns minutos de conversa, Blaine resolveu ir embora após receber uma mensagem de Quinn perguntando onde ele estava até aquela hora.
Kurt levou o moreno até a porta e um pouco sem jeito Blaine deu um selinho no castanho.
– Espero que a gente se veja de novo qualquer dia...
Depois de dizer aquilo, Blaine deu as costas e foi embora deixando Kurt pensativo pra trás.
Será mesmo que Kurt deveria continuar vendo Blaine depois de saber do passado dele? Além disso, o castanho estava receoso de o moreno acabar de apaixonando por ele como pareceu na noite anterior.
Kurt jurou pra si mesmo que daria um tempo de Blaine e seguiria sua vida normalmente para ninguém sair machucado.
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