Angels

1 Capítulo 1 - Reflexos da Alma :: Parte 1


Notas iniciais
Primeira edição feita em: 22/06/15 ( correções sugeridas)

Reflexos da Alma :: Parte 1

Prólogo

Podia-se ouvir o som de cada passo, sobre o piso de pedra, enquanto ele descia aqueles degraus. A cada um deles, tochas se ascendiam, uma a uma, como que por magia, porem mesmo com a força do fogo aquele ser ainda possuía o mais profundo tom de mistério. Parecia envolto em trevas, mas não as da escuridão trazida pela ausência da luz e sim as trevas que saiam de dento de seu coração.

A figura esguia continuava a descer por aquele caminho, solitário como se ao fim daqueles degraus iria de encontro ao centro da terra. Foi então, que finalmente parou. Encontrava-se em um minúsculo quarto escuro, de paredes de rocha maciça. Mais alguns passos e ele estava diante da parede oposta ao final da escada. Sua mão pálida e de unhas negras em forma de garras, moveu-se fazendo o que antes era uma solida parede evanescer como fumaça. Abria-lhe ali um novo caminho. Um portal secreto.

Novamente passos eram dados. A mesma mão que antes desvanecera a rocha, em um simples estalar, fazia inúmeras tochas se ascenderem. O antigo salão se iluminava por completo, assim como a enorme lareira adornada por figuras macabras entalhadas na pedra, que mais pareciam a entrada do próprio inferno, começava a arder em chamas. Ao centro do salão, sobre uma mesa, única e pequena, repousava um livro, tão antigo quanto as eras da humanidade.

A criatura movia-se como se o mundo houvesse parado somente para ela naquele instante. Foi então que parou e vagarosamente abriu o livro. O mais puro e enlouquecedor silencio reinava naquele lugar, porem o mesmo fora rompido pelo levíssimo som de cada uma das páginas que passaram a ser foleada sem que ele as tocasse. Foram guiadas por delicados movimentos de sua mão, no ar até, chegarem ao fragmento, ao ponto, exato. Nenhuma delas, até ali, parecia maculada por tinta alguma.

A garra negra do indicador direito, passou, então, a pouco mais que um centímetro da página. Neste exato instante, como que escritas a fogo vivido, um texto se fez visível.

“Quando luz e trevas eram um só...

Surgiu um ser cuja perfeição e beleza

Jamais seria com palavras descrito.

Suas asas reluziam cortando os céus

E sua alma brilhava como os mais puros diamantes...

Todavia, aqueles que eram os donos do solo,

Do calor, da destruição, do magma...

Regentes sob a escuridão das ermas terras

E de toda a crueldade inerente a alma humana

Invejaram aquela criação dos céus...

E do calor e inveja fizeram gerar seus “anjos”

Dragões forjados em ouro e Rubi...

Tao perfeitos quanto os que reinavam os céus.

Brilham como fogo.

Ardem como a dor...

Fortes como as pedras...

Furiosos... Invejosos.

Deu-se início a guerra...

Uma guerra milenar...

Uma guerra, pelo poder da mais perfeita criação

Os filhos do céu lutavam por proteção

Pela proteção daquilo que mais amavam

Que julgavam ser somente seu.

Os filhos do Rubi brigavam pela dominação

Com toda a força da destruição que sua inveja gerava...

Até que nem mesmo aquele mundo resistiu

E ao fim da guerra

Em uma explosão,

Luz e trevas se dividiram

E uma promessa foi feita naquele instante:

Obra da perfeição não mais pertenceria àquele mundo

Não mais da mesma forma,

Seria livre, independente.

Nem os filhos da terra, nem os filhos do céu.

Teriam direitos sobre a mesma.

Então a perfeita obra se partiu.

Cinco fragmentos se tornariam almas...

E vagariam pela terra nova por milênios sem rumo

Até que o coração dos filhos da terra e do céu se acalmassem

Milênios se passaram

E cada fragmento,

De corpos de carne fizeram-lhe moradia...

Irremediavelmente atraídos um pelo outro,

Pois antes eram um só.

Aos Filhos do Céu foi incumbida uma tarefa.

Como protetores que eram, deveriam guiar essas almas

Serem seus anjos guardiões

E manter a ordem na terra...

Enquanto elas se mantivessem puras...

Aquilo que eles amavam seria preservado

Aos feitos da terra

Os feitos de ouro e rubi

Só restou o ódio...

Queimaram seus corações no fogo da inveja

E juraram em seu rancor...

Perseguir aquelas almas e perverte-las...

No fogo dos sentimentos profanos queimar seus corpos

E para si libertar sua perfeição e poder

Torna-los iguais, seus lideres

Para só então novamente

Como o fogo espalhassem pelas terras

Retomando seu reino

****

Como gêmeas que são...

As almas de pureza se unirão novamente

Separadas por seus corpos de carne

Unidas por laços maiores que suas almas perfeitas

Tão puras como as águas que correm por um rio...

Com a força das mesmas para lutar contra um dique em seu interior...

E Filhos do Céu e da Terra sentirão este momento dentro de si...

E a guerra terá seu reinicio...

Só que dessa vez o fim não, mais será temporário...”

Comum clarão de luz ofuscante, o livro incendiou-se naquele instante...

*****

Reflexos da Alma

O calor se esvaia juntamente com o sol a se por. As risadas tomavam conta do ambiente enquanto mais uma piadinha de Aaron era jogada contra Victória.

– Ah nem Vic, fala sério! Você vai dizer que acredita nessa de videntes, cartomantes e sei lá mais o que? Só falta você ter uma bolinha de cristal escondida bem aí no case da sua guitarra.

Falava rindo deixando a amiga e colega de banda vermelha e sem graça. Haviam momentos em que ele conseguia, realmente, constrange-la. E para piorar tudo, ela já o aguentava desde o jardim de infância, quando se conheceram, e ele dava nó nos cabelos de suas bonecas sempre para chamar sua atenção.

Aaron era o mais velho do grupo, por apenas uns dois meses de diferença de Victoria, ambos tinham 22 anos, mas parecia o contrário. O rapaz de beleza singular possuía cabelos negros e sempre estava com a barba por fazer. Aliado ao fato de sua beleza e jovialidade, ainda havia alcançado ao logo dos anos o patamar de mestre sedutor daquela banda e também era o palhaço da mesma com suas constantes piadinhas, e tinha orgulho disso.

Victória não conseguia esconder a raiva que sentia naquele exato instante. Como Aaron podia ser tão bobo e insensível daquele jeito? Tinha que criticar no que ela acreditava? Sim Victoria acreditava em futuro, destino, em videntes e tudo de místico que pudesse envolver o mundo ao seu redor e tentava não ligar para o fato dos outros rirem dela. Mas naquele momento, irritava-se por ser justamente o Aaron a fazer piadas.

–Aaron!!! Cala boca seu imbecil!!- ela falou quase que gritando com ele, jogando um saco de pipocas em sua cara - Não zombe do que eu acredito, só por que você pensa diferente de mim. Eu to cansada de você.

Fechava a cara em uma expressão de desgosto. Ficava cada vez mais nervosa enquanto a risada espalhafatosa de Aaron continuava.

Era sempre assim, ela nunca podia falar de suas superstições e crenças que ele caia matando em cima dela. E o resultado? Vic emburrada e Aaron tentado a fazer voltar a falar com ele. Assim como se faz com uma criancinha emburrada. Porem mesmo ela estando com raiva se quebrava inteira quando ele dizia que ela ficava fofa fazendo birrinha e a perturbava até arrancar uma risada da morena de olhos azuis.

Victoria sempre ria no final, mas naquele dia, Aaron, não parava de rir dela. Vic ficava cada vez mais vermelha de raiva até não aguentando mais. Virou-se para ele e com mais raiva ainda gritou fazendo todos os amigos ao seu lado se espantarem.

– Vai se ferrar... vou dar uma volta antes que eu te mate infeliz.

Ela foi saindo enquanto a risada do moreno parava lentamente ao perceber que realmente havia irritado a guitarrista. Porem já era tarde demais para pedir desculpas e ela sumia em meio ao parque escapando, dos seguranças que rodeavam a banda se misturando no meio das pessoas e escondendo o rosto com o capuz.

Victória caminhou um bom tempo pelo parque. Sentia seu sangue ferver nas veias pelas brincadeiras de Aaron. Era sempre assim, mas dessa vez ele havia ido longe demais.

Sentia-se desrespeitada e quando passou pela barraca onde ficava a vidente do parque de diversões, seu rosto enrubesceu mais ainda de raiva. Relembrou as piadinhas de Aaron e as risadas dos seus colegas.

Seu olhar virou-se bruscamente até uma das barracas. Precisava de algo para beber e se acalmar ou naquela noite seus fãs não teriam um show. Motivo? O vocalista da banda teria ido par no hospital depois de ter a guitarra de Victoria Carter arrebentada em sua cabeça, pela própria. Quando pensou nisso sentiu um cheiro forte de incenso e um toque apertado em seu braço. Sua pele, clara, e mesmo assim protegida pelo casaco de mangas longas, pareceu pegar fogo.

– O destino de vocês, dos cinco, foi escrito a muito tempo... – Victória estremeceu quando seus olhos, caíram sobre os olhos daquela mulher. A jovem que era um pouco mais velha que Victoria, estava com os olhos totalmente negros, e isso fez a alma de Vic gelar. A mulher parecia em transe profundo — Almas puras disputadas... Luz e trevas na luta eterna. Vocês precisam seguir os feitos pelo céu!

A mulher lhe falava aquilo de forma tão desconexa. Ela era a vidente do parque. A mesma que ela tanto desejou consultar assim que pôs seus pés ali e de quem Aaron fez tantas piadinhas. A reconheceu pelo cartaz diante de sua barraca pela qual havia passado a poucos instantes atrás.

Ela a assustou. Aquelas palavras, para sua mente crédula, cortavam sua alma como laminas gélidas. O punho de Vic se fechou quando a mulher a soltou e se afastou aturdida. Victoria a perdeu de vista e quando a guitarrista abriu a mão novamente notou um pequeno pingente na forma de um dragão em sua palma direita. Era totalmente feito em prata e cravejado com o que parecia pequenos cristais translúcidos.

Naquele momento ele decidiu não contar aquilo para os outros. Com toda certeza eles a chamariam de louca e ela não teria como explicar como aquele pingente surgiu em suas mãos. Não ela guardaria aquela loucura toda para si, mas aquelas palavras, gravaram-se como fogo em sua mente.

Demorou alguns longos minutos até que ela se recompôs. Já havia, até mesmo, se esquecido das brincadeirinhas de Aaron, mas a mulher não sairia da sua mente tão facilmente assim.

Havia bebido um pouco naquele dia. Seria tudo aquilo fruto de sua imaginação fértil? Mas como explicaria aquele pingente em suas mãos? Alguma fã a dera a ela e não se lembrava? Não, não havia bebido para a ponto de se esquecer de algo assim. Ela era real. Sentia seu braço arder ainda e isso era bem claro. Estava totalmente perdida em pensamentos quando, então, sentiu uma mão tocar-lhe o ombro e quase em um salto olhou para trás e ouviu novamente aquela risadinha.

–Calma sou eu! — Victoria soltou um longo suspiro. Notou Aaron falando com ela. Yuki, sua amiga de longa data, e também guitarrista da banda, estava de pé logo atrás dele – Os outros estão chamando para irmos a um último brinquedo antes de nos arrumarmos para o show, vamos?

A guitarrista então seguiu com os colegas de banda ao encontro dos outros esquecendo por um momento o que havia acontecido. Qual seria o brinquedo escolhido para a saideira do parque?

A casa dos espelhos, justamente o que Victória mais odiava e relutava a entrar. Eles sabiam que ela odiava aquele brinquedo, e isso tinha cara de ter o dedo de Aaron com certeza. Mas dane-se! Já haviam rido tanto da cara dela aquela noite que não daria mais aquele gostinho para Aaron.

Enchendo-se de coragem, ela entrou junto com os outros tentando não manter muita distância dos amigos e companheiros de banda. Achava aquele ambiente simplesmente irritantemente e claustrofóbico. Morria de medo de se perder entre aqueles inúmeros corredores de espelhos.

Dito efeito!!! Em alguns instantes, o que ela mais temia aconteceu. Victória se perdia entre àquelas imagens desconexas e distorcidas como uma criancinha que solta da mão de seu pai em meio a um parque.

Caminhava vendo sua imagem se distorcer e pouco a pouco o ar lhe faltava. Era como se uma angustia profunda começasse a dominar seu ser. Havia se perdido ali dentro e um pressentimento ruim tomava sua mente piorando tudo.

Seu peito ardia e apertava-se como se prensado contra uma parede. A cada novo passo, sua respiração ficava ofegante e falha. Queria correr dali, gritar, ou como uma criança cair sentada no chão em posição fetal chorando em desespero. Andava por aqueles corredores e sentia algo pesar-lhe o ar. Era como se o mesmo não fosse absorvido por seus pulmões como deveria, como se pesasse igual a chumbo. Um perfume muito forte tomou conta de tudo ali.

As superfícies planas dos espelhos moveram-se como se fossem a superfície de um lago, um lago escuro como a noite sem estrelas. Vic começava a correr pelos corredores cada vez mais apertados em pânico. Via surgirem imagens de asas negras naqueles espelhos. Asas que desejavam envolve-la, tomá-la para si.

Correu, correu feito uma louca, gritando sem ser ouvida, mas se sentia ainda mais perdida que antes. Foi quando escorregou e caiu de cara com o chão frio. Sentiu algo quente lhe escorrer a face. Arrastava-se tentando escapar quando viu tentáculos negros transporem os espelhos em sua direção. Seu grito emudeceu-se em sua garganta tapada pelo pânico. Um estrondo de vidro se partindo seguiu-se da escuridão.

Notas finais
Se você chegou até aqui, só tenho uma coisa a dizer: obrigada pela paciência de ter lido tudo.A muitos anos não escrevo algo assim e retomar essa história, em um novo formato e sem minha antiga parceira, não foi uma decisão fácil. Mas espero que valha a pena e principalmente que eu desperte a curiosidade de meus leitores. Desculpe os deslizes de principiante e me avisem se estiver, e onde estiver confuso.Então, ansiosos pelo próximo capitulo? Juro que não vai demorar muito, mas quero construí-lo com ajuda de vocês. Comentários são bem-vindos e são meu termômetro para a história, então não deixe de deixar o seu assim como possíveis sugestões e críticas. Essa história é para vocês e espero que gostem e ajudem a construí-la e divulga-la.