Angels
2 Capitulo I :: Part. 2
Sentia a proximidade das trevas a cada segundo e por um momento pensou que tudo estaria acabado para ela. Porém, naquele instante, como se os deuses se apiedassem de sua alma, de seu desespero, ouviu uma voz conhecida gritando por seu nome, estava próximo, muito próximo. Aaron! Era ele, ERA ELE!!!! Era como se ele houvesse sido enviado por forças cósmicas superiores, somente para salvá-la.
Os tentáculos pararam conforme o som de seus passos se aproximavam cada vez mais rápido. Viu, atônita, as trevas se desfazerem como se nunca estivessem estado ali. Foi nesse exato momento em que a figura do amigo despontou naquele corredor e suspirou aliviado ao ver Victoria caída naquele chão com expressão de puro pânico nos olhos. Mas viva.
Por um instante, mesmo após o breve alivio que pode desfrutar ao encontrar a amiga, Aaron sentiu o coração se apertar novamente, mas sem ter tido tempo de sequer se aproximar, viu, estupefato, cada um daqueles espelhos começarem a rachar explodindo em fragmentos de vidro cortante, estilhaçando com violência.
Victoria apenas sentiu a dor de sua carne sendo cortada e sentiu o liquido viscoso e rubro escore-lhe pelo rosto e pelos cortes em seus braços, enevoando sua visão, sentindo o chão duro sob seu corpo, enquanto ouvia, distantes, os passos de Aaron que agora corria a seu encontro se aproximarem, e sua voz desesperada, tão distante, tão vaga...
E tudo se tornou trevas, enquanto sentia a alma flutuar pelo nada, como se ela desejasse voltar ao nada.
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Sentia-se flutuar em meio ao nada, sem nenhum pensamento, sem nenhuma dor ou sentimento. Ali era simplesmente o vazio de tudo que a fazia humana e incrivelmente isso a fez se sentir completa, sentir que o mundo simplesmente parara para ela, para embala-la. Estaria morta? Seria aquela sensação a de morrer e esperar por algo a mais depois do desenlace ou simplesmente o nada que estaria por vir após sua vida ter sido ceifada. Não sabia.
Foi então que uma voz distante, uma voz tão linda e hipnotizante, impossível de ser descrita com palavras, falou-lhe em uma língua que ela sabia não ser a dela e nenhuma das quais ela tinha estudado e por mais extraordinário que pudesse parecer, era que sua alma conseguia compreender o que era dito como que por magia. Aos poucos as palavras iam começando a ganhar sentido e a frase dita pela voz era repetida novamente e novamente em sua mente em um círculo sem fim.
“Um mundo em trevas chorará a sua existência amaldiçoando-a! Quando as trevas dominarem ao mundo, quando seus filhos estiverem próximos de perverter a criação da perfeição, a pureza renascerá. Tudo voltará a ser nada.
A guerra definirá o futuro de um mundo que agonizará, um mundo que cortejará o descanso eterno nos braços da morte. Quando a alma da vida, a alma pura reviver, o universo presenciará o nascimento de sua maior esperança sua maior arma, após ter sofrido sua pior agonia. Uma única batalha, definirá tudo, uma única batalha trará todas as respostas”
Aquilo voltava a se repetir novamente e novamente. Pouco a pouco tudo voltava ao seu lugar, enquanto as palavras ditas ali eram gravadas na alma de Vic. Sentia seu espirito deixar de flutuar e retornava a seu devido lugar.
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Seus olhos se abriram dolorosamente, sentia o vento soprar, balançando as cortinas próximas enquanto uma perene luz de luar iluminava um canto afastado daquele cômodo, formando no chão sombras de cada móvel do quarto. Sentia a respiração descompassada e a ardência da agulha do soro presa ao braço. Não conseguia se lembrar do que estava sonhando, só sabia que aquilo era importante e isso lhe deu um pouco de dor de cabeça ao tentar forçar sua mente.
Sentiu o rosto arder, aos poucos as lembranças dos últimos acontecimentos retornavam à sua mente, os tentáculos, as trevas, o vidro explodindo contra seu corpo, como se desejassem feri-la. Como se aqueles espelhos tivessem vida própria. Lembrava-se de coisas que nunca acreditaria serem reais e aos poucos sentia o medo voltar a invadir seu ser. Sentia-se enlouquecer.
Era como se aquele momento, agora, voltasse a ganhar tangibilidade. Era como se houvesse mergulhado tão profundamente neles que o mesmo retornasse em seu despertar. Sentia frio, sentia a dor do pânico e sua voz sequer saia, seus olhos pareciam cerrados. Pouco a pouco sua respiração parecia começar a falhar novamente, a dor de sufocar. Foi, então, que uma voz no meio da escuridão chamava por seu nome e o pânico desvaneceu novamente e ela voltou a realidade, a aquele quarto de hospital.
– Victoria, Victória! Ta na hora da Bela adormecida acordar! — A voz de Aaron parecia romper as trevas como um raio de luz estrondoso a recuperando do abismo- Calma, você estava tendo um pesadelo.
Naquele instante sentiu o toque aveludado em seu rosto e era como se fosse puxada de dentro da areia movediça da insanidade que queria devora-la, perverter-lhe a alma. Sentia aquela voz invadir seu ser como se lhe devolvesse o ar, como se lhe provesse vida, como se enchesse sua alma.
Ainda sentia o corpo tremer, tinha medo, mas aos poucos o controle de seu corpo retornava, podia mover-se novamente, como se retornasse a vida.
– Aaron? — sua voz saiu baixinha, meio rouca e ainda muito fraca. O toque aveludado em seu rosto permanecia, ela se sentia cansada ao falar- É você mesmo? Ai, minha cabeça está doendo...
Um pequeno riso, satisfeito ou aliviado, quem sabe, chegou aos ouvidos dela, enquanto sua voz debochada, dizia quase em um sussurro.
– Esperava o príncipe encantado? — deu uma risadinha maldosa quando ela torceu o nariz com a brincadeira- Ah ele disse que não vinha porque não gosta de princesa medrosa. Vai ter de se contentar com o ogro mesmo.
A voz dele naquela piadinha tosca ainda era como uma ponta de luz em meio a escuridão, mas aquela luz ainda não aplacava a dúvida em sua alma, o medo que sentia. Moveu-se devagar na cama sentindo o corpo inteiro doer e olhou Aaron nos olhos ainda mole dos remédios.
– Onde estou?
– Está no hospital, — ele falou agora com um pouquinho só de seriedade- os espelhos da casa dos espelhos explodiram do nada, pensei por um momento que você estava se desfazendo em todo aquele sangue, por sorte nada mais grave aconteceu, por sorte você está viva. Apesar de que ta parecendo uma múmia com toda essa bandagem.
Ela arregalou os olhos irritada. Sorte? Era isso? Quase foi morta e teria tido muita sorte naquele momento? Não sabia, mas não quis falar nada, ele ia chama-la de louca e coloca-la no primeiro hospício que visse se contasse o que realmente aconteceu. Apenas se calou enquanto sentia Aaron próximo a ela, ele era sim seu melhor amigo, muitas vezes o desejou mais que isso, mas era impossível.
Queria nunca ter entrado naquela maldita casa dos espelhos. Mas esqueceu disso por um momento enquanto olhava os traços do rosto dele tão perto do dela como se aquilo a hipnotizasse. Apenas se encolheu quando sentiu a mão dele sair de seu rosto, num impulso, seu braço ergueu-se para impedir que Aaron saísse de perto dela e sentiu-o arder, incomodar, no lugar onde a cartomante a havia segurado horas atrás, mas não deixaria aquilo transparecer. Sentia cada parte de seu corpo doer, sentia-se muito machucada, mas tentou não exprimir nem mesmo um ruído de dor.
Apenas segurou o braço de Aaron, sentindo-se tremer, sentiu a mão do amigo encostando-se em sua mão, tentando soltá-la, não queria que ele saísse, mas o moreno desvencilhou-se de seu braço.
– Os outros estão lá fora esperando notícias suas Vic. – ele afagou os cabelos negros dela bagunçando tudo como sabia que ela odiava e fazia só para provocar desde que eram crianças. – E outra, se eu não for lá fora e falar para o pessoal da banda vir te ver é bem capaz da Yuki se atracar com uma das enfermeiras em um dos quartos vazios e sumir pelas próximas horas, aí já viu ne. Até parece que eu vou perder isso.- ele brincou e arrancou um sorrisinho tímido dela- já volto múmia!
E apenas saiu, sem falar mais nada.
Ela se encolheu com raiva por não ter conseguido falar nada, não ter implorado para ele ficar. Foi quando sentiu seu braço arder mais que tudo e o pingente de cristal que havia ganhado, agora pendurado em seu pescoço, brilhar em meio à escuridão.
O ar se carregou de um aroma, adocicado e sufocante, Victoria sentiu-se congelar, seu sangue parar de correr por momentos enquanto um brilho vermelho surgia na escuridão.
– Não, de novo não! Aaron, socorro, Aaron me ajuda!
Ela começou a chorar encolhendo-se na cama enquanto apertava impacientemente o alarme da enfermaria. Uma sombra pairou sobre a luz que entrava pela janela e a iluminação da lua delineou gigantescas asas que pareceram se abrir e fechar em um piscar de olhos, enquanto passos eram ouvidos em sua direção. Vic estava em pânico.
Aqueles brilhos vermelhos como o Rubi se aproximavam enquanto o pingente brilhava cada vez mais forte no pescoço de Victoria. Aquela figura sinistra causava um misto de sensações ruins na jovem, seu coração queria sair pela boca, queria gritar, mas a voz novamente faltava, via-se muda novamente.
Ele parou ao seu lado na cama, o anjo negro, enquanto à luz do cristal do pingente em seu peito tornava-se cada vez mais claro fazendo a criatura revelar-se. Era um ser de beleza incrível e maligna, seus olhos frios apenas encaravam seu rosto em pânico, iluminado pela luz do cristal. Aquela beleza maligna parecia não conhecer nada além do ódio expresso em seu olhar, sua mão se ergueu em direção a guitarrista e novamente ela tentou gritar, inutilmente. Viu as asas o cobrirem-lhe e o pingente explodiu em seu pescoço tornando-se vermelho como o sangue. Não se ouviu mais nada, não se viu nada.
O vento soprava as cortinas do quarto enquanto a luz perene da lua iluminava a cama daquele quarto. Nada mais havia ali, ninguém mais, apenas um símbolo feito em sangue desenhado nos lençóis e uma inscrição em um hieróglifo desconhecido na parede, queimada a fogo.
Nada mais havia á além da luz perene da lua e de uma cama que outrora abrigara o corpo de Victoria, mas não mais.
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Os amigos estavam reunidos na recepção, eles haviam ficado extremamente preocupados com Vic e não mais se aguentavam de vontade de vê-la bem quando Aaron finalmente os havia chamado. Anabelle e Sirius, que havia escolhido aquele nome artístico justamente por causa da estrela homônima, estavam sentados conversando. Yuki, que estava dando em cima de uma enfermeira para variar, a deixou de imediato a conversa de lado e quase atropelou Aaron indo à direção do quarto na frente dos três.
Ela seguia na frente deles amigos. A oriental tocou a fechadura da porta do quarto enquanto os outros três estavam as suas costas e sentiu um vento gélido percorrer-lhe a espinha. Quase que como um sentimento ruim, um presságio de mal agouro que decidiu guardar para si, mas este segredo não perdurou por muito tempo, quando a porta se abriu o grito de Yuki ecoou por todo o corredor.
A japonesa quase que estava à beira de um ataque histérico tamanho seu desespero ali, chorava feito uma criança enquanto Anabelle e Sirius estavam em estado de choque com o que viam no quarto e Aaron abriu caminho entre os amigos soltando um único silabar ao constatar o desaparecimento da amiga.
–Victoria...
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