Notas iniciais
Boa leitura :3

–Por que está chorando? -Ela perguntou o tirando de seus devaneios, ele a fitou com espanto.

–Eu não, estou... -Ele engoliu em seco e se levantou, estava se sentindo um monstro.

A chuva estava engrossando, ele apressou os passos, já que a cabana ficava bem longe dali. Angel afundou o rosto no pescoço dele, ela estava sentindo muito frio, e sua cabeça latejava sem parar. A casa abandonada onde ele havia ficado todos esses dias estava bem perto, ele decidiu parar lá, até que a chuva parasse, já estavam ensopados, o Moletom que cobria o corpo dela já estava grudado na pele.

Angel estava com os lábios roxos por causa do frio, batia o queixo sem parar, sentia dor por seu corpo todo, tinha ralado bem as pernas, os cotovelos. Ela tentava ficar acordada, mas estava um pouco tonta, respirou fundo e começou a chorar, ele apertou-a mais contra seu corpo, como um pedido mudo para que ela ficasse calma.

–Você vai ficar bem. -Ele disse num tom baixo, quase inaudível, ela afundou mais ainda o rosto no pescoço dele.

Ele chegou na casa abandonada, e teve um pouco de dificuldade para entrar, algumas telhas haviam caído por causa da chuva, Angel olhou curiosa ao redor, aquela não era a cabana.

–Você ficou aqui? -Ela perguntou se sentindo um pouco tonta.

–Sim. -Ele respondeu dando uma conferida na casa, ele estava sempre atento, a ideia de alguém o seguindo não saía de sua cabeça.

–Por que foi embora? Por que me deixou? -Ela perguntou, a voz falhando um pouco.

Angel tremia mais ainda, os cabelos grudados no rosto, os dois completamente ensopados. O soldado a sentou em uma bancada alta que havia na casa, provavelmente aquele cômodo um dia foi uma cozinha, e ficou de frente para ela. Angel o observava atenta, ele não era o tipo de cara que falava muito, e ela era do tipo de garota que perguntava demais, ela respirou fundo, desde o pequeno devaneio que ele teve no meio do caminho ele parecia distante, ela preferiu esperar um pouco, antes de ataca-lo com sua metralhadora de perguntas.

Ele tirou o cabelo que caía sobre a cicatriz do rosto dela, ela tentou impedir, mas não conseguiu, instintivamente ela abaixou o rosto, e ele tocou o local com delicadeza.

–Não olha pra isso... -Ela pediu ainda de cabeça baixa, a voz saindo falha por causa do frio que sentia.

Ela mal percebeu o pequeno corte encima da cicatriz, só quando abaixou a cabeça que sentiu o sangue escorrer, ele tirou a camisa que vestia, que era de um tecido mole, rasgou a camisa, tirando um pedaço pequeno, e o dobrando colocou sobre o machucado, apertando um pouco, na tentativa de pelo menos estancar um pouco o sangramento.

Ele estava a fitando nos olhos, e ela fazia o mesmo, mas o olhar dele estava distante, imerso em lembranças que ele preferia esquecer.

–Eu não sei como ganhei essa cicatriz horrível, na verdade tem muita coisa sobre meu passado que eu não sei, é como se, minha memória tivesse sido apagada. -Ela disse o despertando, ele respirou aliviado, pelo menos ela não lembrava.

–Não é tão horrível assim. -Ele tentou forçar um sorriso, mas a única coisa que conseguiu fazer foi mexer as sobrancelhas.

Angel riu e revirou os olhos, o pedaço do pano desceu para o pescoço dela. Ela tocou uma cicatriz sobre a barriga do soldado, curiosa, como sempre, ele olhou para o local e sorriu, esperando pelas perguntas, os dedos dela estavam tão gelados que fizeram ele se arrepiar, ela riu.

–Onde conseguiu isso? -A pergunta finalmente veio.

–Levei uma facada, eu acho, não me lembro muito bem. -Ele disse enquanto passava a mão pelos cabelos, tirando-os do rosto. -Onde mais você machucou? -Ele perguntou a fitando.

–Minha cabeça dói um pouco. -Angel disse enquanto abaixava a cabeça e mostrava para ele de onde a dor vinha.

Ele olhou atento, e puxou um pequeno pedacinho de pedra que havia ficado grudado no pequeno machucado, apertando o paninho no local logo em seguida.

–Ai, isso dói muito. -Ela disse apertando instintivamente a cintura do soldado, como se quisesse que ele entendesse a intensidade da dor.

Ele respirou fundo, e mais um pedacinho de pedra foi tirado de lá, Angel voltou a chorar.

–Vai passar... Onde mais? -Ele perguntou fazendo-a fita-lo.

Angel corou e tirou o moletom, escondendo instintivamente os seios, os braços estavam bem machucados, a coxa e os dois joelhos bem ralados. Ele respirou fundo e rasgou mais um pedaço da camisa, estava cheio de ódio daquele homem, por um segundo pensou que deveria te-lo matado lenta e dolorosamente.

Tirou alguns pedaços de cacos de vidro dos braços dela, e em um dos joelhos, limpando com cuidado o local em seguida.

–Ele chegou a abusar de você? -Ele perguntou a fitando nos olhos, Angel apenas negou com a cabeça.

Ela tremia mais ainda, agora sem o moletom e com um vento gelado entrando pelas janelas sem vidros. Ele torceu um pouco o moletom, tirando bem o excesso de água dele, e colocou sobre o corpo dela novamente, mas aquilo não seria o suficiente, ele odiava qualquer contato corporal, mas só havia um jeito de esquenta-la. Ele andou pela casa, procurando por um cômodo sem muito vento, não demorou para achar. Quebrou algumas cadeiras velhas espalhadas e fez uma pequena fogueira, que por sorte deu certo. Quando voltou Angel estava mais encolhida do que antes, tremendo muito, ela espirrou e ele riu pelo nariz.

Pegou-a no colo com cuidado, e ela reclamou quando esbarrou o braço no corpo dele. Ele caminhou até o cômodo e a sentou em frente o fogo. Em seguida se livrou de seus coturnos e de sua calça, e se sentou ao lado dela, apoiando as costas na parede, pegou-a e a acomodou em seu colo, Angel mexeu o moletom de um jeito que quase cobria o corpo dos dois, e afundou novamente o rosto no pescoço dele.

Não demorou para que o frio os abandonasse, o calor do corpo dele foi o suficiente para que ela recuperasse a temperatura. Ele fitava o nada, tinha tanta coisa em mente, tinha uma mente tão barulhenta, ele sentia o olhar pesado nela sobre ele, ela o despertou.

–Por que está fazendo isso? -Ela perguntou, obrigando que ele a fitasse.

–Isso o que? -Ele perguntou curioso.

–Me ajudando, eu pensei que tivesse ido embora. Por que você foi embora?

Ele respirou fundo e fitou o teto. Expor sentimentos, falar, mesmo que uma conversa normal, ainda era bem difícil pra ele, era tudo meio que, novo, ele a fitou e ficou alguns segundos pensando no que responder.

–Por que eu não queria te machucar, olha Angel tem muita coisa sobre mim que você não sabe, eu não sou o tipo de cara que se ajuda, que se salva.

–Acho que você está enganado sobre isso, pelo menos está mostrando o contrario, você me ajudou, me salvou, e ainda está me ajudando... Não acho que seja tão ruim assim. -Ele deu um sorriso torto.

O silêncio reinou novamente, eles ficaram alguns minutos se olhando, sem dizer nada, como se um tentasse decifrar o outro.

–Seu braço é engraçado. -Ela disse fazendo o coração dele disparar, a mesma coisa que havia dito antes que ele matasse os pais dela.

Ela tocou o braço biônico como uma criança faz quando vê algo diferente. Ele mexeu o braço e apertou de leve o nariz dela, fazendo-a rir, mas em sua mente ele ouvia os barulhos dos disparos, e via o rosto tão angelical sendo destruído.

–Faz um barulho legal. -Ela disse sorrindo e o fitando.

–É, ele dá bem pro gasto. -Ele sorriu e tirou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela.

–O que aconteceu com seu braço de verdade, você já nasceu assim?

–Você pergunta demais...

–Desculpe.

–Tudo bem, eu não lembro de nada do meu passado Angel, ás vezes tenho alguns flashes, nem sei explicar o que é que acontece.

–Eu também não me lembro de nada, quando eu tento, minha cabeça dói.

–É, a minha também... -Ele riu a fitando.

–Ás vezes uma coisa estranha acontece comigo, eu me transformo, fico mais forte, me curo mais rápido de qualquer machucado, recupero minha visão, e perco a consciência, porque nunca me lembro de muita coisa quando estou assim. ás vezes eu acho que meus pais me abandonaram por eu ser assim, estranha... -Ela agora fitava o nada.

–Eu tenho certeza de que não foi por isso. -Ele disse com a voz falhando.

Angel não disse nada, sua cabeça voltou a latejar, e ela acabou pegando no sono...

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