Amy, the Change
1 Parte I – Capítulo I
Com violência a porta de entrada da casa de Vanilla foi aberta, e a figura de uma ouriça rosa passando pela sala de estar em direção à escada fora vista como um borrão, quase tão expressiva quanto se fosse o Sonic passando por lá. Cream e sua mãe estavam sentadas em um sofá na sala quando esse evento incomum ocorreu – já era incomum o fato de Amy Rose chegar tão tarde em casa. Cream ergueu a cabeça em direção ao relógio analógico fixado na parede e tentou relembrar o que aprendera na escola sobre algarismos romanos.
— X e I são nove... ou oito...
— São onze, minha filha – diz Vanilla, corrigindo pacientemente a sua filha. – Onze horas da noite é muito tarde para uma mocinha chegar em casa, até mesmo chegando de um encontro.
Cream abre voo balançando rapidamente suas orelhas protuberantes e pousa ao chão, indo em direção à escadaria para se encontrar com Amy que, pelo que se podia deduzir, havia se trancado no quarto.
A dedução estava correta. Cream educadamente bate à porta e chama pela amiga, mas nada pôde ser ouvido, nem mesmo o som de uma porta se abrindo. Então a pequena coelha decide desrespeitar um pouco às normas e ergue bem o braço para girar a maçaneta da porta, porém a mesma estava trancada.
— Ammyy – insiste a coelha. – Sou eu, a Cream.
— Eu já sei – responde uma voz trêmula e abatida de dentro do quarto. – E vai embora.
— Eu e a mamãe esperamos você todo esse tempo, e estamos preocupadas. Você também me disse que quando voltasse ia me contar tudo. E então, como foi o seu encontro com o Soni...
— Se toca, pirralha! Eu disse para você ir embora!
Cream trancou a respiração no momento em que Amy gritou com ela. A ouriça nunca havia a tratado dessa forma. Entretanto, a coelha decide acatar a ordem e dá meia-volta para se retirar de frente à porta. Não se sentia magoada, apenas preocupada. Gostaria de poder consolar a amiga de alguma forma, mas sabia que qualquer de suas investidas seriam inúteis com uma Amy inflexível que jamais vira antes.
Quando pôs a mão no corrimão da escada, suas orelhas aguçadas ouviram o ranger da porta se abrindo. “É a Amy!”, pensou. Virou o rosto para que pudesse vê-la e contemplou penosamente a ouriça cabisbaixa, de ombros caídos, com lágrimas escorrendo de seu rosto e torturantemente caindo ao chão.
— Me desculpe... – diz Amy, com a voz mais abatida e chorosa do que antes. A ouriça estava tão fraca que suas pernas bambeavam. Desequilibrou-se e caiu de joelhos no chão, permanecendo com o rosto baixo, evitando encarar qualquer um que a olhasse nesse estado.
Retornando ao seu encontro, Cream se lamentava por não saber o que dizer. O que poderia ser dito naquele momento? Era algo dolorosamente novo para a pequena coelha encontrar sua amiga naquele estado. Contudo, recordava das noites tempestuosas em que ficava encolhida com as orelhas tampando o rosto, os braços abraçando com força suas pernas dobradas, enquanto Vanilla a abraçava carinhosamente, aconchegando-a em seus braços maternos, e naquele instante sentia que o medo dos clarões dos raios e do barulho dos trovões se dissipavam. Decide fazer o mesmo com a Amy, abraçando-a com o carinho de uma criança.
Amy afunda o rosto naquele ombro curto que agora estava tão próximo para consolá-la e desata a chorar. Chorar era tudo o que podia fazer. A sua tristeza era tamanha que antes de sair do quarto ela estava no que se parecia um estado de choque, apenas com os olhos marejados e nada das lágrimas escorrerem. Era uma sensação horrível não conseguir chorar mesmo querendo. Porém, com a presença de Cream e a forma que ela a havia tratado, a repressão das lágrimas se romperam e descontroladamente saíam.
— Mamãe sempre me diz que chorar não é ruim. Ela diz que quando a gente chora, a tristeza vai saindo junto com ela. Então você pode chorar o quanto quiser, eu não vou zombar de você.
— Você tem uma mãe incrível – responde a ouriça, aos poucos se recompondo dos prantos. – Agora eu preciso mesmo que você saia e me deixe dormir. E vá dormir também, já está bem tarde pra criança ficar acordada – olha para Cream e dá um sorriso que contrasta com seus olhos tristes e marejados.
Assim que a pequena coelha se retirou, Amy retorna para o seu quarto. Antes de deitar, olhou para a janela de cortinas abertas e apreciou um luar maravilhoso. A noite estava calma e sem nuvens para ofuscar o brilho das estrelas. Estava tão belo aquele céu que era quase impossível não se alegrar com aquela vista; quase impossível, pois a exceção era Amy, que não conseguia sentir mais nada do que vergonha e dor. Fechou as cortinas, forrou o lençol e desabou na cama com o travesseiro enfiado na nuca. Tentava dormir, mas era impossível. Não conseguia tirar da cabeça as lembranças vergonhosas do que acontecera há poucas horas.
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