Amy, the Change
2 Parte I – Capítulo II
Notas iniciais
O sono uma hora a tomaria, e no momento que despertara não estava ciente de quanto tempo se passou após ter adormecido, apenas a certeza de que foi a pior noite de sono que já teve em anos. Suas articulações estavam doloridas, a cabeça latejava com uma regularidade incômoda e seus olhos mal conseguiam abrir completamente apesar de se esforçar. Queria retornar à cama e completar o que não havia conseguido dormir durante a madrugada, porém as dores de cabeça a impediram de prosseguir com o plano. Com desleixo saiu da cama e postou-se com pés descalços ao chão. Nem se deu ao trabalho de calçar as pantufas e foi logo em direção ao banheiro a passos lentos e despreocupados – na verdade, era como se não desse a mínima para o que acontecia em sua volta.
Chegando ao destino, fica defronte à pia, encarando-se no espelho. Seus olhos estavam mais abertos do que antes, porém continuavam murchos. Manchas roxas debaixo dos olhos ressaltavam a noite mal dormida, e a vermelhidão que se misturava denunciava o quão choroso fora aquela noite. “Quem é você?”, pensou. Não conseguia reconhecer a figura refletida no espelho como a sua imagem. Nesse instante, a ouriça foi tomada pelas lembranças que momentaneamente havia esquecido quando se levantou, e um ganido baixo de dor pôde ser ouvido de dentro do banheiro.
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— Acha mesmo que isso pode dar certo? – perguntou Amy, com as bochechas rubras.
— Claro que pode – responde Rouge, enfatizando a sua confiança. – Hoje em dia não são mais os meninos que tomam a iniciativa; somos nós. O Sonic pode ser um aventureiro destemido e blá blá blá, mas aposto que é tímido com as mulheres. Existem vários assim.
— Será mesmo que ele gosta “assim” de mim?...
— Claro que sim! Isso já ficou claro pra todo mundo, só falta você enxergar isso – se aproxima de Amy, perto o bastante para fazer a ouriça enrubescer novamente. – Você tem que chegar bem perto dele, olhar fixamente nos olhos, e pegá-lo com suas garras! – pressiona suas mãos no corpo de Amy e as sobem em direção aos seios, fazendo a ouriça estremecer. Quando Amy fechou os olhos, Rouge levantou e lhe deu um sorriso intimidador. – Não seja muito mole. Mostre firmeza! E assim você vai conseguir conquistá-lo.
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— Como sou idiota... – diz Amy, em um monólogo solitário. Estava prestes a chorar quando, em um ato impulsivo, abriu a torneira da pia e estendeu as duas mãos para a água despejar-se nelas. Lavou o rosto de maneira tão descuidada que deixou gotículas caírem em seu vestido. Não conseguia se concentrar em mais nada a não ser naquelas lembranças que teimavam a permanecer em sua mente, mesmo querendo esquecê-las.
Fazia apenas uma semana quando teve aquela conversa com Rouge. Elas não eram tão amigas assim, mas a simpatia da morcega a convenceu de visitá-la em um dia de folga da GUN. Rouge dizia que era um “saco” conversar com o Shadow – quando conversavam, pois era difícil manter um diálogo com aquele ouriço de poucas palavras—, e de vez em quando era bom falar com alguém que não fosse do vínculo de trabalho, para manter a sanidade. Amy sempre se sentia desconcertada falando com Rouge, em parte por achá-la intimidadora com aqueles olhos cerrados, a tonalidade provocante que tinha na voz, sem contar a sua beleza encantadora e seus trajes ousados, que faziam a ouriça sentir-se uma criança com seu vestido comprido. Entretanto, quando esteve na casa de Rouge, a conversa fluíra melhor do que esperava, e sua visão superficial da morcega aos poucos mudava até que estivesse confortável o bastante para conversas mais íntimas.
A ouriça não entendia como o assunto chegara em seu relacionamento com Sonic. Em suma, o que elas falavam eram sobre assuntos triviais como lugares que gostariam de visitar, vestidos que achavam mais bonitos, joias que gostariam de possuir – cujo assunto interessava mais a Rouge –; outros mais sérios, como a suspeita calmaria decorrente ao desaparecimento do Dr. Eggman. Porém, a conversa havia mudado de maneira estranha, desencadeada por uma pergunta que soara inocente: “Como vão você e o Sonic?”. Por um instante Amy ficou muda, mas educadamente respondeu que eles estavam bem, apesar de não se verem muito devido às aventuras que Sonic se metia ao redor do mundo. Rouge se empenhava a continuar com aquele assunto, e Amy tentava desviá-lo sem sucesso, até que não teve outra escolha a não ser colaborar com a morcega. Ela não escondia, muito menos do Sonic, que era apaixonada por ele, mas nunca falou abertamente sobre isso com ninguém. Rouge tentava convencê-la a se declarar, ser mais ousada e encurralá-lo até que não haja outra escapatória a não ser que Sonic admita o que sente. Era uma ideia assustadora que Amy pensara muitas vezes em fazer, porém lhe faltava coragem para isso, e, conversando com Rouge, via na morcega um empenho suspeito para a ouriça quebrar esta barreira.
Parecia que Rouge planejava conversar com ela justamente para terem aquela conversa em específico, o que munia Amy Rose de dúvidas. “Por quê?”, pensou, “Por que ela iria querer conversar comigo pra isso?”. O que ela sabia muito bem é que a morcega teve sucesso em seu objetivo, e Amy passou a semana planejando um encontro com Sonic. Entretanto, o ouriço não estava nas redondezas. Segundo Tails, ele estava à procura de informações sobre o sumiço de Eggman, o que deixavam todos em alerta sobre outro possível ataque que supostamente o doutor arquitetava em segredo. Mas, para a alegria de Amy, Tails também dissera que Sonic voltaria em poucos dias, no começo da noite. A cega euforia da ouriça fizera com que esquecesse seus medos e temores, e estava confiante de que naquela noite tudo se resolveria e finalmente estariam juntos como um casal.
— Como eu fui idiota! – gritou Amy, ainda dentro do banheiro. As lágrimas irromperam seus olhos, e novamente encontrou-se aos prantos, inconsolada. Sentia o peito apertado, o coração doía em angústia. Olhou-se novamente no espelho e viu uma figura borrada devido às lágrimas que embaçavam sua visão. Começou a pensar no grito que acabara de dar; foi alto o bastante para que alguém ouvisse no andar de baixo. E tão logo ecoou do quarto batidas na porta; era Vanilla, que assustada subiu as escadas tão depressa quanto pôde.
— Amy? Amy! Você está bem?
— Estou – respondeu a ouriça, tentando disfarçar a voz abatida sem muito sucesso.
— O café da manhã está na cozinha. A Cream já foi pra escola, mas nós podemos tomar juntas.
Recusar o café da manhã só aumentaria a preocupação de Vanilla, pensou. Novamente lavou o rosto, desta vez com maior entusiasmo em esfregar os olhos. Precisava disfarçar o máximo que pudesse para não preocupar Vanilla; já bastara ter chegado tarde na noite anterior e gritado para o mundo ouvir naquela manhã. – Já estou indo – disse por fim.
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