Amy!

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Que tal um pouco de drama para começar o ano?

Por necessidade estou a 9 dias na casa da bruxa, era preciso. Minha vontade de permanecer era nula, não me sentia confortável perto de Filipa, algo em mim se sentia invadido, era como se a cada vez que nossos olhos se encontrassem um pedaço de mim ia se perdendo. Mesmo assim por inúmeras vezes eu pensei em pedir um feitiço que me fizesse esquecer. Mas então eu fui notando que já não pensava tanto em quem deixei para trás, de certa forma eu estava esquecendo. Não lembrava mais detalhes sobre o beijo de Patrick, não lembrava o rosto dos meus pais, não lembrava qual era o livro preferido de Lily, e não lembrava o gosto da comida de rosa, é algo que me incomodava, não lembrar, eu queria tanto esquecer tudo mas parece que quando começou a acontecer eu comecei a me perder por tabela, é algo estranho não saber mais quem se é. Desde que me hospedei aqui eu era Amy, apenas a Amy. Nunca me perguntaram nada, e algo em mim gritava que não precisavam fazer isso, elas sabiam mais sobre mim que eu mesma, não é como se eu tivesse começado a acreditar em bruxaria e coisas do tipo, mas de alguma forma eu era impelida a aceitar que realmente existem mais coisas entre o céu e a terra do que somos capazes de aceitar e entender, se essa frase é repetida por padres como uma verdade inegável, por que a ideia de magia e dons é tão inaceitável? Por que somos cabeças duras que aprendemos a conviver com apenas uma realidade.

Nos dias em São Tomé conheci as cachoeiras e pontos turísticos, mas isso de alguma forma não me satisfazia, eu não estava feliz com isso, mas era necessário. Filipa e Ivone estavam me ajudando a conseguir documentos falsos, no domingo quando acordei quis ir embora, mas elas foram mais rapidas e me impediram, e me levaram a conhecer uma especie de falsificador alcunhado de Rino, fazia sentido já que ele era enorme e gordo como um rinoceronte. Ele me prometeu que os documentos estariam prontos na semana seguinte, mas atrasaram, amanhã vou pega-los e sumir daqui, eu começaria a ter nome e sobrenome, pai e mãe. Eu não conheceria os donos daqueles nomes, não ia conhecer nada dessa nova vida enquanto não a vivesse.

Rino, me aconselhou a ser uma brasileira de uma cidade grande qualquer, é mais fácil de acreditar nisso. Realmente, quem deixaria Paris para viver num pais em crise?

Sentada numa pedra qualquer vendo o sol se por enquanto eu terminava meu cigarro, de alguma forma eu me sentia bem enquanto fumava, o cheiro de mato já não me incomodava, me trazia paz, tranquilidade. Aprendi a fumar aqui, aprendi a gostar disso, não é como se fosse um vício, não, é apenas para ter um momento de reflexão um momento bom em meio a dias turbulentos.

" Hey, Amy o que tá fazendo ai?"

Barata, um dos homens que acreditavam na bruxa e se diziam afilhados ou sei lá o que dela se sentou ao meu lado esquerdo olhando para o horizonte, ele fez isso de propósito, todos sabiam que essa tatuagem me incomodava. Era estranho um grupo de mais de vinte pessoas ter a mesma tatuagem que a sua 'Líder espiritual'. A maioria no grupo era mulheres e elas me deixavam desconfortável com aqueles olhares, os homens pareciam ser apenas simpatizantes, eles não agiam como bruxos, bem Harry Potter, voava em vassouras, e tinha corujas, e eles só fumavam, cantavam e tocavam para a lua, o sol as estrelas a natureza.

Olhei para ele observando o sorriso idiota no rosto dele e tendo plena consciência que o meu rosto tinha um igual.

"Pensando."

" Você devia fazer dreads, ou uma tatuagem, sim, você Devia fazer uma tatuagem, uma fênix, o que acha?"

" Tenho medo de agulha, o que vocês vão cantar hoje, não aguento mais ouvir reggae."

" Você gostou no primeiro dia."

" Nos outros também, mas enjoa."

" Vou fazer um repertório especial para você, agora diz, o que você vai fazer quando pegar os documentos, você não vai ficar aqui né?"

" Não."

" Tá na cara que você tem enlouquecido ficando aqui, gosto do teu estilo de vida, o que acha de uma companhia na estrada?"

" Acho que você gosta demais daqui e da bruxa para ir embora."

Ele me olhou assustado entendendo bem que eu tinha notado, continuei observando o sol tocar o chão, em silêncio. Deixando minha mente se inundar de questionamentos.

" Ela não pode, não enquanto quiser ser bruxa, eu não sei, é uma história de família ela só nasceu quando a mãe dela deixou de ser bruxa e passou os dons para ela, algo do tipo."

" Você sabe que eu não acredito nessas coisas né? Bruxaria? No Brasil? Isso não é real deve ser só algum tipo de efeito placebo ou sei lá."

" Enquanto você usar essa pedra, você precisa parar de buscar razões onde a racionalidade não tem poder. Você tem a mania de falar Nossa Senhora quando se assusta, por que o catolicismo é mais real que uma crença dos nossos descendentes? Todos aqui tem um minimo de cromossomo índio, Filipa só é descendente de uma tribo mais mística que não aceitou perder essas ligações com o povo dela."

"A tal história de ser descendente direta de um Pajé?"

" Sim, eles só se envolvem com quem é descendente dessa tribo, eles se protegem, isso me faz pensar que essa vontade inexplicável dela te ajudar te denuncie como descendente deles."

" Cê é louco né, só pode! Olha bem pra mim, não tenho nada de indígena."

" Você não sabe, são só esteriótipos."

" Tanto faz..."

Ele se levantou me deixando sozinha novamente, Barata é um dos poucos que eu converso, não me senti confortável com ninguém deles, de uma forma estranha eles me incomodavam, irritavam, talvez por esse negócio doido de dons e índios. Não é preconceito, não é medo é apenas um desconforto com um desconhecido que nunca existiu para mim, bruxos, será que vou encontrar sereias na beira do mar? Ou então vampiros em uma cidade chuvosa? Quem sabe lobisomens sejam os próximos a entrarem em minha vida. Balancei a cabeça com a ideia, acho que uma bruxa já é o suficiente, ela e seus seguidores.

O sol já havia sumido e uma ou duas estrelas já começavam a brilhar no céu, tímidas, porém bonitas, logo o som do violão se fez presente e as músicas começaram, Barata disse a verdade hoje não é só reggae, me aproximei da roda e fiquei até o fim, a certeza de precisar sumir daqui era enorme, eu não me sinto bem com eles, me sinto pior do que quando estava em casa.

O nervosismo fazia minhas mãos tremerem, até que enfim eu ia pegar os documentos, eu não sabia nada sobre mim nesse momento, nem onde nasci, nem quem são meus pais, só espero que pelo preço que eu vou pagar eles sejam ótimas falsificações.

Rino saiu da sala dele e fez sinal para que eu o seguisse, forcei minhas pernas e consegui fazer elas me obedecerem, em um canto qualquer ele parou e me entregou um envelope de papel pardo. Peguei o objeto com as mãos trêmulas e sem força, eu sentia que ia desmaiar a qualquer momento. Filipa me observava de longe e isso só me deixava mais nervosa.

" Abre logo, sei que você quer saber a tua vida logo."

Olhei para a morena e entreguei o envelope para ela.

" Vai, faça as honras, tua curiosidade é maior que a minha."

Sem nem pensar ela pegou e rasgou, observou cada um dos papeis já plastificados e sorriu me entregando.

" Estão perfeitos."

Peguei o papel e fui observando o que mais me chamou a atenção sem dúvida foi meu nome.

Amy Lee Moraes, ele mudou, tinha que ser apenas Amy. Meus pais Ana Beatriz Lee Moraes e Anderson Silva Morais Júnior, essa então é a desculpa para o Lee? Um nome de família, que merda. Sou de São Paulo capital e tenho 21 anos completados a 3 meses. A foto, os números e a digital estavam OK. Pelo menos para mim, como leiga eu não via diferença nenhuma. Certidão de nascimento, RG, CPF, carteira de trabalho, passaporte, o que mais me surpreendeu com toda certeza foi uma carteira de motorista, eu ia poder dirigir legalmente sem nem passar por uma auto escola.

" Se eu quiser comprar uma passagem? Ou a policia me parar enquanto dirijo?"

Perguntei o que mais me incomodava. E ele sorriu.

" São documentos reais, não falsificações, falei com um contato da federal e parece que quem você era antes tem um novo documento, atestado de óbito. Legalmente você morreu."

Aquela frase me surtou por completo, uma raiva digna de novela mexicana se apossou de mim, aquele filho da puta me matou?

" Eu não pedi atestado de óbito nenhum, como assim você me matou?"

" Não fui eu, foram teus pais pelo jeito, faz quase duas semanas, tô com uma copia aqui, você morreu no dia 11 de dezembro. Ou talvez uma garota com as mesma digitais que você, mas acho que isso é impossível."

Peguei a folha de sulfite das mãos dele com uma velocidade desconhecida, li e reli várias vezes tudo que estava escrito, meus pais me mataram? Como assim, causa da morte: morte cerebral? Como assim? como isso aconteceu? Eu achei que meus pais iam me procurar, descobrir o que aconteceu, mas parece que eles acharam mais fácil matar a única filha deles? Como assim? isso não é justo.

Meus pés perderam a força e então eu caí no chão chorando, não é hipocrisia, longe disso eles são meus pais o dever deles é não me ignorar, é se preocupar, não é possível, em que universo eu me enfiei, eu queria tanto que Rino me olhasse dizendo que é mentira que ele falsificou um documento ou que ele fez isso em alguma ferramenta da internet, mas eu sabia que não era uma simples brincadeira, ele não ia buscar todos os meus dados apenas pra zuar com a minha cara, isso não é possível.

Filipa se ajoelhou no chão falando alguma coisa comigo, naquela maldita língua que ela usa para fazer os feitiços, ela passava a mão em meu cabelo como se quisesse me acalmar, mas aquilo me irritava profundamente.

" Hey menina, calma, isso acontece muito mais do que você imagina."

" Calma? Que calma? eu não quero me acalmar, você também bruxa, chega, eu não quero me acalmar, meus pais me mataram e eu tenho que manter uma maldita calma? Já não bastou esses 18 anos aguentando eles me jogar de uma babá para outra de um curso para um maldito intercâmbio para se verem livres de mim? Um maldito namoro com o filho de um político de merda só para deixar eles felizes para quê? Esses desgraçados me matam na primeira oportunidade. E eu ainda me preocupando com eles por todo esse tempo. Quer saber, que se foda tudo! Quanto eu te devo?"

" Amy, se acalma primeiro, depois a gente fala disso."

A raiva cada vez maior se apossava de mim, ele sabia, sabia que eu ia reagir desse jeito por isso não me mostrou essa merda na sala dele, eu estava tão concentrada no maldito papel pardo que não notei a sala privativa em que eu estava, não duvido ser o lar dele, a cama mal arrumada me denunciava isso.

" Onde é o banheiro?"

Perguntei com voz tranquila enquanto enxugava meu rosto. A surpresa deles era irritante mas justificável, a meio segundo atrás eu estava gritando a plenos pulmões e chorando de raiva, e a cinco minutos eu tremia de nervosismo, essa mudança toda de humor estava me irritando e cansando. Rino apontou uma porta no canto do quarto e fui para lá. Meu rosto vermelho e os olhos inchados denunciavam o choro, sempre fiquei vermelha tão fácil. Lavei o rosto e o pulso acalmando minha respiração, Jorge me disse que eu pedia perdão com o olhar quando me conheceu, mas agora o que eu vejo no meu olhar é a mais pura raiva que fazia meu olho brilhar. Quando passei uma semana no Texas eu assisti um rodeio, tinha um peão brasileiro que eu fiquei amiga e ele me levou para o brete, eu vi de perto o olhar do touro que ele montou, o olhar faiscava de raiva. Meu olhar estava igual e nesse momento eu sabia que faria pior com as pessoas do que o touro fez ao peão. A morte é o minimo.

Respirei fundo depois de uns minutos e voltei para o quarto, me sentei na cama olhando para rino.

" Vamos aos negócios? Sei que combinamos um preço mas imagino que as informações que você conseguiu tenham algum valor."

" Esse meu amigo te apagou do sistema, a Júlia nunca existiu, o documento de óbito não tem digitais, e as tuas, ou melhor as da Júlia foram apagadas e recolocadas no sistema, por isso demorou mais que o previsto, são documentos originais, o preço que você pagaria para o estado vai pagar para mim, ou seja R$ 500,00 ao todo, mas..."

" Mas tem o teu amigo, e ele quer uma grana para garantir que nunca vão saber de nada."

"Exato."

" Quanto?"

" R$ 1.200."

" Isso é muito menos do que combinamos, qual o golpe?"

" Não tem, sou um cara justo, por isso meus negócios não tem erro, são bons e honestos."

Tirei o maço de dinheiro da bolsa e entreguei para ele a quantia exata que tínhamos combinado antes. Ele olhou e me mandou esperar, me entregou o dinheiro a mais que tínhamos combinado. E os documentos que encomendei e saiu.

A bruxa queria falar comigo. Isso anda tão clichê ela só tem feito isso desde que cheguei, ela quer colocar juízo na minha cabeça me fazer seguidora dela só pode, eu venho ignorando as conversas todas ela fala eu escuto concordo e apago do HD, é sempre sobre algo querendo me fazer mal ou o mal que vou fazer a mim mesma e varias vezes sobre acreditar no que eu sinto. Essa conversa não cola agora, não sinto nada, estou em estado de topor, conheço a raiva e apenas isso.

" Não vai hoje, fica até a mudança de lua."

Olhei sem entender o motivo dela me pedir isso, não havia razão. Então ela suspirou e me explicou.

" Eu quero, não eu preciso fazer uma oração, mas ela só pode ser feita na mudança de lua com a presença de uma alma perdida."

" Ah não, me zuar por eu ter morrido já é demais."

" Não é isso, você nem morreu, para de graça e seja a mulher que estava falando com Rino, agora falando comigo, não é por que você não acredita nas minhas orações que precisa me tratar sem respeito nenhum, a anos 500 anos você ia estar pedindo para eu te curar desses demônios que te atormentam, eu prendi um na pedra, ou vai falar que não notou que você parou de se condenar por nada."

Ela pegou folego e se acalmou enquanto eu mudava a minha postura, poderia ter todos os defeitos do universo mas sei levar uma bronca e permanecer quieta, mais velhos são mais velhos apenas isso.

" Você é alma perdida em tantos sentidos, mas só um me interessa. Meu povo contava uma história, que foi contada e recontada por tantas geração que virou uma lenda qualquer que as avós contavam para acalmar as almas das crianças.

Nos primeiros anos do mundo viveu uma índia, Knae, ela amava tanto as estrelas, que queria viver para elas e entre elas, mas ela era índia, prometida ao neto do pajé, ela não podia ir ao céu, não podia nem sair da tribo ela tinha muito que aprender, mas ela não queria, queria apenas ser estrela aprender sobre o mundo e sobre as almas. Quando ela fez 17 anos decidiu sair da tribo, na primeira noite fora de casa apareceu um homem de olhos verdes, ele era um Deus a índia pensou, ele prometeu levar ela até as estrelas se ela aceitasse amar ele para sempre, a índia aceitou e se amaram, aquela noite nunca acabou para ela, desligaram a alma do corpo e ela se perdeu, tentou subir e virar estrela, foram muitos anos vagando até achar as estrelas, mas quando ela achou, as estrelas não aceitaram e jogaram ela de volta na terra. Então ela caiu, voltou em uma criança que não tinha alma e viveu nela por 17 anos. Por anos essa história se repete sem fim. Minha vó, a antiga bruxa conta que somos descendentes do pajé, e que a cada queda de Knae ela busca encontrar o pajé e pedir perdão pois as estrelas disseram que só assim ela vai se tornar uma."

" Que história doida é essa? Eu sou uma índia? Pior uma índia fujona. Filipa, desculpa essa história não cola."

Ela me olhou por uns segundos e suspirou. Quando ela me olhou novamente eu tive certeza que ia me arrepender.

" Knae não é uma índia fujona, Knae é uma alma que se perdeu, ela queria mais do que poderia ter mas isso não impediu ela de buscar. Assim como não te impediu. A lenda conta que a cada reencarnação o destino trás Knae até um pajé, mas eles nunca se reconhecem cada um perdido em seus problemas não se aceitam."

" Isso é loucura."

" Não é, me diz, porque você passa a tarde toda admirando o céu, e quando anoitece consigo ouvir tua respiração mudar."

" Muita gente é assim, eu tenho 18 anos não 17."

" Quando você decidiu fugir? Por quanto tempo planejou? Quantos anos tinha quando saiu de casa? E o homem no qual você tanto pensa? Qual e a cor dos olhos dele? Você não acha estranho o jeito que você apareceu na minha casa?"

"Ivone é índia também?"

" Não, mas ela conhece a história e espera o dia que vai encontrar Knae. Foi ela que trouxe Knae para mim, eu te reconheci assim que você entrou. Eu quero te libertar desse tormento, viver tantas vidas."

"Eu não sou Knae, eu não sou uma alma perdida, eu sou só eu, Filipa, desculpa você se enganou. Você devia é falar com o barata, você acha almas perdidas mas não vê o cara perdidamente apaixonado por você. Obrigada por tudo que você fez por mim, mas desculpa tô indo embora."

Eu sai deixando ela para trás, não esperei mais nenhuma resposta, eu precisava me afastar e resolver o resto da minha vida e da minha morte.

Notas finais
Feliz ano novo pessoas lindas... Tudo de melhor para vocês inclusive muitos capítulos novos para devorar, obrigada por tornarem meu 2016 maravilhoso!