​O silêncio que se seguiu ao confronto entre pai e filho foi o mais pesado que Tara já conheceu. Ester não gritou, não implorou e não chorou mais. Com a dignidade de uma rainha que nunca precisou de uma coroa para ter poder, ela começou a arrumar suas ervas e seus pertences mais simples.

​— Michael fez sua escolha — disse Ester, sua voz calma e fria como o orvalho da manhã. — Ele escolheu as pedras deste castelo em vez do calor de nossa mesa. Eu não ficarei aqui para ver o filho que criei se tornar a sombra do homem que o gerou.

​Dominic, parado à porta do boticário, apenas assentiu. Ele retirou a fivela real de seu manto e a deixou sobre a mesa de carvalho.

— Eu te segui uma vez para dentro de uma floresta, Ester. E te seguiria até o fim do mundo. Tara é apenas um lugar; nossa família é o nosso reino.

​A notícia da partida se espalhou como fogo. No corredor, Luan e Maya esperavam, já com trajes de viagem. Luan mantinha a mão firmemente na de Maya, que tinha o rosto pálido, mas os olhos decididos.

​— Eu não ficarei sob o comando de um tirano, mesmo que ele compartilhe o ventre da minha mãe — declarou Maya, enquanto abraçava Ester. — Se o Rei Michael quer governar sozinho, ele terá o seu desejo.

​A Partida Silenciosa

​No meio da noite, sem trombetas ou despedidas formais, o pequeno grupo atravessou os portões. Michael observava tudo do alto da torre sul. Ele estava imóvel, a coroa pesando em sua cabeça, as mãos cerradas no parapeito de pedra. Ele esperava que alguém olhasse para trás, que alguém implorasse para ficar, mas ninguém o fez.

​Dominic liderava o grupo, Luan protegia a retaguarda, e as duas mulheres caminhavam entre eles, deixando para trás o luxo e a segurança por algo muito mais valioso: a liberdade.

​Quando a pequena comitiva desapareceu na névoa da floresta, o castelo de Tara pareceu subitamente vasto e vazio. As tochas nas paredes pareciam brilhar menos, e o som dos passos dos guardas ecoava como batidas de um coração moribundo.

​O Rei Solitário

​Michael desceu até o Grande Salão. As mesas estavam vazias. O trono estava lá, imponente, esperando por ele. Ele sentou-se, sentindo o frio do metal atravessar suas vestes. Ele era o Rei. Ele tinha o poder total. Ele tinha a "limpeza" que Silas o obrigara a buscar.

​Mas, pela primeira vez na vida, o Príncipe que se tornou Rei percebeu que o silêncio de um palácio vazio é muito mais ensurdecedor do que o rugido de qualquer batalha.

​— Eu sou o Rei — ele sussurrou para as paredes vazias. Mas nem mesmo o eco pareceu acreditar nele.